Livro de Rafael da Conceição

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O livro é uma preciosidade, em vários sentidos: João Eduardo da Conceição, motorista da SAGAL e depois “patrão de si-próprio” no Cabo Delgado, escreveu este texto nos anos 1950s. Entreabrindo não só as formações socioculturais de então mas também, de modo refractado, a mundividência dos estratos de operariado e pequeno-empresariado moçambicano dessas décadas do final do regime colonial.

Agora o seu filho, o decano dos antropólogos moçambicanos, Rafael da Conceição, organizou a publicação do livro. O qual será apresentado na próxima quinta-feira, 16.11., às 17 horas, no Auditório Carlos Tembe, na Matola. O Professor Gerhard Liesegang fará a apresentação do livro e também eu direi algumas palavras, pois o meu camarada Rafael desafiou-me a “representar” a corporação nesse dia – e muito porque se lembrou que eu cheguei a Moçambique exactamente entre Montepuez e Balama …

Penso que este será um bom motivo para nos encontrarmos …

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Galinha à Zambeziana (e a mucapata)

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No sítio da CNN foi publicada uma lista apatetada das 50 melhores receitas mundiais. Aqui imensa gente rejubila porque a “galinha à zambeziana” está indexada (e metida no 12º lugar, sabe-se lá porquê). “Vamos lá falar”, a lista é uma parvoíce de turistas apressados: a estrondosa gastronomia portuguesa é representada pelo … abaixo de sofrível pastel de nata. Nesta terra que absorveu a cozinha portuguesa (“só não descolonizei o estômago”, dizem-me que disse, irónico, Machel. E muitos mo disseram, entre bacalhaus e cozidos …) isso poderia chegar para torcer o nariz a esta patacoada. Mas mais, o sítio associa o prato à “galinha com piripiri” da cadeia Nando’s, uma tétrica espécie do tétrico KFC. Mas o “orgulho” com a referência resiste a essa associação, e segue tudo ufano porque os gringos notaram e gostaram.

Enfim, louve-se a tal “galinha à zambeziana”, que é uma boa porta de entrada para a gastronomia moçambicana. E aprenda-se que ela se deveria comer sempre com mucapata – que os tais gringos nem referem -, uma especialidade de grande dimensão estética, e muito em desuso nacional e nada exportada. Louve-se a mucapata (eu comi uma, razoável, na FEIMA, deu para matar saudades).

Ponta Gea

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(lendo o “Ponta Gea” na Ilha de Moçambique)

João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, Caminho, 2017

Tornámos a vida num bazar de opiniões, frenético, feito do tropel dos nossos egos, tonitruantes, como se nós, assim gritados, algo fossemos verdadeiramente. Nisso se vão esgarçando os adjectivos, nesta nossa escalada de superlativos, sinónimos ou antónimos, que nos valham para sermos ouvidos, numa dança vã do exigir atenção, um patético xigubo de vaidades, digo-o já que em Moçambique.

Veio-me isto a propósito deste “Ponta Gea”, de João Paulo Borges Coelho, o seu 12º livro em registo ficcional, seu percurso começado em 2003 com o, para mim, deslumbrante “As Duas Sombras do Rio”. O qual fora antecedido pelas três bandas desenhadas publicadas na década de 1980. Pois agora, diante deste último livro, ficou-me a dúvida, esta de como o definir, adjectivar? Pois é óptimo e, de facto, opinião mais sonora é impossível, e este termo deveria ser o suficiente para convocar a atenção. E, como tal, assim fico: “Ponta Gea” é um livro óptimo.

O formato do livro é o de memórias, entre o rapazinho virgem de mangal que nele se aventura, descobrindo-o e a si próprio, e o finalista liceal, aprestando-se a partir para sempre daquele local que lhe foi infância e que lhe virá a ser o país estrangeiro e para sempre inatingível, esse que sempre é o passado.

Ponta Gea é um “bairro”, até mítico, da Beira colonial, e é do ambiente dessa cidade que emanam os quinze episódios, entrelaçados entre eles e com tantos outros que neles se invocam, do que consiste o livro. Neles ressurge a Beira – e um pouco do meridiano entre Sofala e Manica, até aquela Gondola – do ocaso colonial, entre 50s e o início de 70s, mas sem grama do tão recorrente saudosismo ou exotismo que polui a Africana, essa espécie “literária” muito em voga. O que “Ponta Gea” traz é uma Beira cosmopolita, coito de misteriosas personagens, uma vasta galeria de dançarinas eróticas e artistas circenses transoceânicos, pugilistas advindos do longínquo hinterland, prostitutas sem rumo, mágicos e sábios de vão de escada, assassinos e dementes, ladrões célebres e aristocratas ou seus avatares asiáticos. O que nele se desvenda é ter sido aquela Beira centro e cerne de enigmas até insondáveis, dos anónimos falecimentos no mangal às causas do assassinato do primeiro-ministro sul-africano, culminando na eterna questão do navio “Angoche”, abandonado no alto mar por uma tripulação para sempre desaparecida, do canal de Moçambique fazendo vedadeiro “triângulo das Bermudas”.

A escrita-ritmo do João Paulo Borges Coelho é aqui gloriosa: e se é deslumbrante o como narra a descoberta infantil do mangal é até comovente a página e meia dedicada à aprendizagem da degustação de sadza (xima, uchua, como se preferir), a massa de milho, com camarão frito, lição de mundo e disso do ser homem, não só mas também muito através do palato e da aceitação do protocolo alheio. Assim lição de cultura, acto de formação, no nada simples molhar os dedos na massa, misturando-a, de modo até voraz, com o camarãozinho.

Os ramos deste “Ponta Gea” são muitos, e mostram diálogos. Lendo-o é impossível não lembrar Sebald, e não só pelo meneio desta “assemblage” literária d’agora, na utilização de imagens alusivas – algo que jpbc já havia feito, mas restrito a imagens escritas, no seu “O Olho de Hertzog”. Mas não é só isso que nos avisa do tempero sebaldista. Pois a este notamo-lo naquilo que é já usual no autor, e que, de facto, lhe foi sempre projecto, a híbrida mistura das memórias próprias, da memória social do país, da vontade ficcional, da historiografia – de que é ele próprio profissional -, da autobiografia. É esta mescla, entre ficção até onírica e “memórias”, cerzindo os factos com a ficção, que aqui surge acima do que já havia feito nos livros anteriores. E é assim que o autor prossegue o que sempre persegue, aquilo do inventar a História que realmente foi, que aprendemos a cultivar com Borges.

Mas estas histórias vistas pelo rapazinho, ágil, sonhador curioso, até atrevido, cruzando as misteriosas vielas beirenses, atento aos seus esconsos habitantes, e até deles inquiridor, aparecem como um “romance de formação”, qual primeira parte do grande bildungsroman que talvez o autor nunca venha a completar. Pois tarefa porventura demasiado dolorosa, na apneia moral que exigiria, no desinteresse que a exagerada vizinhança, não coada pelo passar das décadas, implicará. O que não é defeito, nem em nada apouca este “Ponta Gea”. Pois, bem lá no fundo, o que ele mostra é um Tom Sawyer renascido (um Tom Sawyer, não um Huck Finn), encantado, cuja prodigiosa imaginação disseca o que aconteceu e o estabelece como foi, tal e qual.

Repito-me, “Ponta Gea” é um livro óptimo. Desde há muito que me surpreende como é que João Paulo Borges Coelho não é um escritor muito mais lido, cá em Moçambique e em Portugal, onde também é publicado. Durante anos lamentei-o. Já não. Egoísta até me apraz que não sejamos muitos os que lhe amamos os livros. Pois assim percorremos a “Beira”, suas vielas, arrabaldes e até avenidas e, cuidadosos, trocamos entre nós, só entre nós, seus leitores apaixonados, os nossos sinais de iniciados. E os outros, ileitores, seguem no seu mundo. Algo mais pobres do que nós … E tão mais sós.

Requiem pelo fotojornalismo desportivo?

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Talvez por alguns dos meus grandes amigos serem fotógrafos. Talvez por um deles ser mesmo um fotorepórter desportivo, actividade que desempenhou durante anos … talvez por isso mesmo me surpreenda, e angustie, isto. Sim, a gente sabe que a profissão fotógrafo capotou nos últimos anos – as milhares de milhões de pobres “imagens” avassalaram as algumas Fotografias que os oficiais do ofício sabiam manufacturar.

No campo do futebol, nos campos de futebol, idem. É ver os espectadores, em vez de seguirem o jogo, distraídos com os seus telefones a “filmarem” e “fotografarem” o jogo, produzindo um patético lixo cuja única inocência é não ocupar espaço físico.

Enfim, vem isto a propósito do Sporting-Juventus de anteontem. Aos 69 minutos, vindo lá do canto da baliza, Rui Patrício fez uma defesa extraordinária – não exactamente espectacular mas absolutamente extraordinária, no que mostrou de capacidade técnica de controlo do seu espaço próprio, a baliza e a pequena-área. Fica-me, aos meus 53 anos, como aquela defesa do meu ídolo de sempre, Vítor Damas, no estádio de Wembley ao serviço da selecção nacional.

Procuro no google uma fotografia dessa defesa, várias buscas. Nada encontro a não ser esta imagem televisiva. É possível que alguma haja, mas não a encontrando facilmente, com as tecnologias digitais de agora, mostra bem que a reportagem fotográfica está desmoralizada.

E sigo, no tom do envelhecido, com as saudades dos tempos de António Capela e Nuno Ferrari. Esses que, com outra tecnologia, teriam arrancado, e imortalizado, este voo de Rui Patrício. E assim teriam inundado capas e primeiras páginas de jornais de papel.

Fazedor de Chuva

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O cardeal de Lisboa, Manuel Clemente, anunciou que quer fazer chuva. Associo-me ao seu benéfico esforço partilhando imagem de um dos seus colegas, sito entre os Kxatla (na África do Sul), aqui rodeado dos seus paroquianos enquanto promovia chuvadas, cerca dos anos 1920s (eu suponho que a fotografia é do grande Isaac Schapera mas não consigo comprovar isso).