Mais sobre o racismo em Portugal

[A propósito deste artigo no “Público”, “A fábula de um país com racistas mas sem racismo“]

Um texto muito interessante, pois muito denotativo do ambiente. Nunca ouvira falar do autor, o que é bom pois permite-me uma interpretação do artigo pelo seu “valor facial”, não poluída por uma qualquer imagem prévia. O mote é o “racismo de estado”, a propósito das práticas policiais no distrito de Lisboa, sobre as quais nem duvido da sua existência. Concordo com muita coisa do que diz, discordo radicalmente do seu conteúdo. De facto tem um cerne: louve-se o actual governo PS porque se prepara a racialização dos censos. Invective-se os “racistas” e seus “colaboracionistas” que, com insídia, antagonizam essa proposta. Entre estes vai tudo a eito, de “colonizado mental” a “racista (colonialista?)” não escapa quase ninguém. Para aferir da competência da argumentação do texto, e assim também dos propósitos do autor, é conveniente ver da adequação dessas invectivas. Para sedimentar o seu diagnóstico da situação portuguesa, o autor diz que Passos Coelho teve declarações racistas. PPC teve declarações com as quais eu não concordo – se atribuímos direitos de cidadania a um imigrante ele deve cumprir penas de prisão nos termos da lei geral, ponto final parágrafo. E que foram um erro, porque são declarações cavalgáveis, pelos opositores (que assim o deturpam como racista, ainda que o que ele verdadeiramente disse se adequaria a um suíço ou norueguês que cometesse crimes em Portugal), e também pelos núcleos mais populistas da direita, tendencialmente eleitores do PSD. De facto, para quem queira abordar o racismo de PPC e o estrutural “racismo de Estado” português, seria mais interessante analisar e publicitar como é que induziu e potenciou o “racismo de Estado” durante os 4 anos em que foi PM com maioria absoluta, tanto por acção executiva como por acção legistativa, directa (decretos-lei governamentais) ou indirecta (leis propostas pela maioria). Ou mesmo pela elisão mais notória desse tipo de fenómenos. Pode ser que tenha existido, mas é a análise desses putativos processos que se impõe e não o “mandar bocas” assentes em interpretações manipulatórias, mera demagogia.

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Racializar Portugal

nYAgliz

A propósito deste artigo do “Público”, “Governo quer que Censos tenha dados étnicos da população“.

Ora lá está, vem aí a racialização da sociedade. A “etnia” (tribal) das certezas lá virá chamar-nos, aos que a isto se opõem, “fascistas”, “racistas”, “xenófobos”, “escravistas”, “colonialistas” e, pior do que tudo, “neoliberais”. Muito provavelmente esta é uma causa perdida. Pois nestas coisas da ideologia identitarista o PCP assobia para o lado (as suas questões são outras) e não se oporá, para o BE isto é a razão de ser retórica – de facto, quase ninguém na sua base social de apoio quer viver numa sociedade correspondente aos “modelos” que os partidos coligados perseguem, só querem mais redistribuição de recursos estatais. E ao PS convém-lhe, para atrair os pequeno-burgueses urbanos mais dados às “causas” festivas, e para os lucros na táctica de cabotagem governativa.

Ainda assim, porque isto é um dislate execrável, e não só por ser a refracção das concepções dominantes nos EUA, há que enfrentar esta palhaçada da racialização da sociedade. E não é com (já as antevejo) declarações líricas do “lusotropicalismo”, Portugal “país de brandos costumes”, “multirracial” e “lusófono” a la família Rebelo de Sousa ou ministro Castro Mendes. A discriminação racial existe? Enfrente-se. Mas não deste modo, nunca deste modo. Para uma posição mais-do-que-lúcida cito excerto de um texto de 2006 dos antropólogos brasileiros Yvonne Maggie e Peter Fry, sobre esta questão no seu país, e que explicitam exactamente o que está em causa. E porque nos devemos bater contra esta aparente “boa intenção”:

O que está em pauta são dois projetos de combate ao racismo: um pela via do fortalecimento das identidades “raciais” ( …); outro pela via do anti-racismo que procura concentrar esforços na diminuição das diferenças de classe e uma luta contínua contra as representações negativas atribuídas às pessoas mais escuras. Esses projetos também são projetos distintos de nação. Um vislumbra uma nação pautada das diferenças “étnicas/raciais”—isto é uma nação de comunidades. Outro projeto aposta na construção de uma cidadania com direitos em comum independentemente de “raça”, “etnia”, gênero, orientação sexual, etc., salvaguardando o direito de cada individuo a seguir o estilo de vida que mais lhe convém—isto é uma nação de indivíduos. Enfim, argumentamos que não se pode acabar com o racismo com uma política que entroniza a “raça”. Quando o Estado legisla sobre esta matéria ele funda a “raça”, cria justamente aquilo que quer ver destruído. Merecemos melhor solução para os graves problemas que nos assolam“.

Veja-se o texto do Público que está aqui ligado, de Gorjão Henriques, jornalista que se tem dedicado à questão do racismo em Portugal e que é considerada especialista na matéria. O conteúdo é elucidativo da trapalhada ideológica (e desonesta) que os defensores desta questão colocam: o título diz que os censos querem dados “étnicos” (como se a etnia fosse uma realidade objectiva, o que é o cúmulo da ignorância). Depois o texto diz “A resposta iria permitir saber, no quadro da população, quantos portugueses negros, ciganos, de origem indo-asiática e outros não-brancos existem”. Um “português negro” tem etnia? [E o que é “negro”, a cena do “one-drop” americana? a auto-definição? e muito mais questões]. Há alguma etnia “indo-asiática”? O que é dado étnico para alguém que venha ou seja descendente do subcontinente indiano? Que dado étnico permite agregar “não-branco”? Etc. Ou seja, o artigo de jornal fala de “raça” e são as categorias raciais (que não são objectivas, mas isso não lhe(s) interessa) que defende constituir nos censos. Mas esconde o assunto através do reenvio para a “etnia”, que é um conceito que nem sabe utilizar. E isto não é um defeito da senhora que escreve, é a amálgama atrapalhada e viscosa de quem vai defender isto. É uma vergonha.

Ser Fascista

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(o fado “Ser Fascista” ouve-se aqui)

A propósito deste texto, “Liberdade de Expressão?“, de Bacelar de Vasconcelos.

Bacelar de Vasconcelos ficou conhecido nos 90s por se ter portado condignamente como governador civil de Braga, enfrentando uma perseguição a cidadãos ciganos. Dele depois só ouvi falar quando o governo PS de então o retirou desse posto ( que talvez se lhe tivesse tornado difícil) e o recompensou enviando-o para chefiar uma missão internacional multilateral (difícil, muito difícil) no então Zaire, e porque andava essa organização à procura de um português com tarimba de missões internacionais e experiência de Àfrica actual e “profunda” que o secundasse, tamanha a óbvia desadequação do seu perfil. Que fique claro, depois não soube como veio a cumprir o posto, lá em Moçambique nunca mais tive informações, espero que tenha corrido bem. É um apparatchik, mas nem todos destes são incompetentes e incapazes de golpes de asa. Se não me engano depois terá estado em Timor, autêntica sede da cooperação portuguesa no início de XXI (e onde também sei que se procuravam portugueses com experiência de terreno para secundarem as figuras gradas do regime que para lá iam “coordenar”). Enfim, “apesar de tudo” (como se diz em francês), dele tinha uma boa imagem, a memória daquela compostura naquela era pós-cavaquista em terras do cónego Melo. Agora envelheceu, como todos, é deputado, descubro-o, e professor de Direito Constitucional. E continua apparatchik, mostra-o neste texto vil.

Após o 25 de Abril, por razões conjunturais mas também (in)culturais, quase todos os que não eram declaradamente marxistas eram ditos “fascistas”, e vejam-se as declarações de então em prol da “sociedade socialista” dos líderes do PPD, esse que até mudou de nome para “social-democrata” também para sacudir o poluente epíteto. Foi o democrático PS que barrou e varreu esta “fascistização” dos sectores políticos não m-l. Nesse esforço lembro-me de um corajoso discurso de Zenha, talvez no Pavilhão dos Desportos, contra a “unicidade sindical”, momento simbólico da construção democrática.

40 anos depois, num contexto muito mais pacificado, o tacticismo de Costa e a cega fidelidade do aparelhismo (e do tétrico “adeptismo”) promovem esta flutuação cultural. Um ambiente em que um professor de direito constitucional produz um texto destes: aqueles que estão contra uma excessiva instrução estatal (diante dos poderes reais em causa uma “recomendação” transforma-se numa ordem), advinda de uma concepção demasiado alargada da tutela estatal, são associados explicitamente ao eixo Trump-KKK-“minoria branca, europeia, cristã” xenófoba, reclamando os “privilégios herdados da escravatura e do colonialismo“. Ou seja, como antes se disse, “fascistas”. Este texto, de um constitucionalista (!), é um exemplo-mor da deriva actual do aparelhismo socialista e de tanta gente em seu torno. E mais do que vil é paupérrimo. Estamos mal, entre a extrema-direita europeia, os trumpianos, o temerismo, e este Can-Can local, estamos mesmo mal. “Há-de” piorar …

Uma adenda: na tomada de posse do PR Rebelo de Sousa, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, discursou e fez uma linear correlação entre patriotismo e colonialismo. Ninguém no PS, nenhum seu deputado, muito menos Bacelar de Vasconcelos considerou a necessidade de, pelo menos matizar, ou contextualizar (encapotar) o dito. E agora tem a impudicícia de vir chamar os outros de escravistas e colonialistas. É abjecto.

Meninos e meninas

aawc

 

A Carolina estava no que chamáramos “ciclo preparatório”, na Escola Portuguesa de Maputo (uma boa escola, com professores empenhados). O dia era de actividades festivas (nas quais a EPM é fértil) e lá fomos assistir ao concerto de marchas, teatrinhos, danças, poesias e cantos. Nisso ficámos entre a amálgama parental, uma quase turba ululando mimos, uma tempestuosa maré de fotógrafos acotovelando-se sem qualquer dó ou piedade. De súbito chocámos com uma boa amiga da Inês e com ela ficámos um pouco. Finlandesa, casara com um moçambicano e os filhos estudavam ali. Passado um pouco disse-nos, sorrindo, “vocês, portugueses, distinguem imenso os rapazes das raparigas. Nas danças, nas roupas, nos papéis, em tudo, é até estranho”. Rimo-nos, do óbvio, e perguntámos-lhe como é que lá na terra dela. “Muito diferente, até à adolescência vão iguais, vestem igual, dançam igual, fazem as mesmas coisas, tratamo-los como iguais. Só lá para os 15/16 anos é que se começam a distinguir nas coisas”. E depois acrescentou, decerto que para nos ser simpática, “se calhar até é demais”. Rimo-nos mais, e lá voltámos a olhar as apresentações, os nossos marialvazinhos a rodopiarem o “vira do Minho”, as nossas princesas a rebolarem as ancas ao som das marrabentas em ritmo de kwassa-kwassa (sim, o conteúdo cultural ali transmitido às crianças daria um belo texto sobre a actualização do velho multirracialismo em “novo” multiculturalismo). Eu, sarcástico, fiquei a pensar, que se calhar é por isso que eles são assim pois, deixemo-nos de coisas que são os próprios escandinavos que o dizem, os finlandeses são uns macambúzios, diante deles até um norueguês rural é um meridional festivo. Mas a nossa amiga tinha ali toda a razão, a gente aparta os miúdos em demasia, e não “havia necessidade” para tanto. Tratá-los com mais fluidez não fará crescer patilhas às nossas princesas nem maminhas aos nossos galfarros (digo eu, que estrafeguei a minha princesa com mimos e que lamento não ter tido também a sorte de um morcãozito, para o levar aos treinos de râguebi para aprender as delícias de pisar com pitons todos os circundantes).

Dizer isto não tem nada a ver com defender que o Estado pressione uma editora, tão sua dependente ainda por cima, para retirar uma publicação que não viola a lei nem a moral pública, nem sequer afronta as práticas generalizadas. E que se destina exclusivamente ao mercado familiar, tal como roupas, brinquedos e tanta outra coisa. É criticável, critique-se, desaconselhe-se, apupe-se. Mas defender a sua retirada do mercado por “recomendação” (aliás, pressão) estatal é mesmo atentar contra aquela “conquista de Abril”, a liberdade autoral e editorial, recorrendo a uma interpretação abusiva e extremada da lei. É um radicalismo boçal, um acto de censura. Na nossa sociedade, por enquanto relativamente laica, a censura tem dois nomes: fascismo, comunismo. São estes dois ideários que sempre recorrem a ela, sempre a tornam estruturante. E sempre justificando-a com “boas causas”. Vê-la agora, pujante no aparelho estatal, acolhida com satisfação na sociedade, sua classe média urbana, é o óbvio sintoma de se ter entregue poderes aos comunistas, os partidos (PCP, UDP) e os grupelhos adjacentes (PSR, Livre, etc.). Este é o caminho deles, sempre o foi, sempre é. E há que combatê-lo, “rua a rua, prédio a prédio, flete a flete, caderno de actividades a caderno de actividades”. Ou estaremos a (deixar) chocar o ovo da serpente.

Sobre esta vil patetice meti um postal-FB com um símbolo de sanitários “meninos/meninas”, dizendo que se acabe com essa divisão e com os discriminatórios urinóis. Veio de tudo, e até demais. Sei que, e contrariando a teoria económica (essa vil ideologia fascista/neoliberal), a cagança é um recurso infinito. Daí que uma antropóloga graduada me tenha vindo ensinar a distinção entre “sexo” e “género” (a base do genderismo, ideologia de cujos radicais estão agora no poder). O que me foi engraçado é que nenhum dos radicais – aqueles pequeno-burgueses de fachada socialista, como alguém os dissecou – chegou ao ponto que é óbvio. De facto, não há qualquer razão, nem sequer anatómica, para distinguirmos os sanitários sexualmente. Há “razões”, construções sociais, legados culturais. Distinguirmos os sanitários, ainda por cima em tenra idade, ensina os miúdos que são diferentes, reifica diferenças que são culturalmente estipuladas (e estipula que “há coisas que não se devem ver”). E são discriminatórias, como qualquer pessoa que tenha estado num velho Dramático de Cascais ou em qualquer discoteca apinhada sabe, tendo visto as enormes filas de raparigas (ou meninas, ou gajas, como se preferir), trémulas em ânsias, enquanto nós outros, rapazes (ou meninos, ou gajos, como se preferir), passávamos triunfantes, copos de cerveja na mão ainda para mais, sorridentes e aliviados. Dir-se-á que distinguir sanitários é por pudor, a tal moral pública, e está certo, mas essa é uma construção social. Ou por segurança, mas a insegurança também é uma construção social. É claro que eu prefiro urinar e proceder aos cuidados higiénicos necessários (aquele sacudir, para quem não perceba) em paz, sem ter um bando de balzaquianas ao lado, a rirem-se do parco membro que me coube em sorte. Mas mesmo essa “paz” é uma construção social.

Quer-se educar os sexos em equidade de género? Sim. Quer-se viver os sexos em equidade de género? Sim. Quer-se viver com abusos estatais, a la carte, consoante ideologias totalitárias ou apenas as patacoadas da moda? Ok, então comecemos por mijar todos juntos.

Os pirosos

cemitério

Talvez nada mostre tanto a abjecção intelectual da classe média portuguesa do que esta já tradição: a cada eleição autárquica surgem colecções partilhadas na internet do “ridículo” captado nas campanhas em contextos rurais ou periurbanos. Sim, o poder local tem muito que se lhe diga (mas não será isto), sim, o seguidismo, mimetismo até, ao estilo propagandístico “nacional” é pobre.

Mas este humorzito de merda, este chalacismo com a ruralidade ou, melhor dizendo, com a localidade, com os recursos, características e preocupações muito situados, é mesmo o espelho da patetice urbana, essa que se julga cosmopolita, a deste netos de migrantes, malteses, chapeleiros, pastores ou seminaristas armados em finórios, envergonhados ou meramente deslembrados das famílias de onde vêm. Portugal é Lisboa (e o Porto) e o resto é bom para ir à praia, para o turismo rural. E como não há taco para grandes coisas então fica-se em casa na internet a gozar com esse resto, a dizê-lo piroso.

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