Lusotropicalismo

Quando na 1ª década de XXI o Brasil se expandiu em África, no âmbito das celebradas relações “Sul-Sul” mas com uma lógica tão “neo-colonial” como as precedentes (ou mais, por avidez de neófito), algumas das suas grandes empresas aportaram a Moçambique e houve grande incremento de trânsito político (e de “cooperação”). E alguns dos seus agentes explicitamente apontavam que estavam ali “contra o colono” (o “ocidente”, o pérfido “norte”). Pouco depois tornou-se ali corrente o saber do quão a elite política brasileira, incluindo a família presidencial, participava nessa extroversão económica. 

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Grande Borregada

 

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(Postal para o És a Nossa Fé, a propósito do Vitória de Setúbal 1 – Sporting 1)

A minha filha tem 15 anos, nunca viveu em Portugal, ainda assim é sportinguista (também com o pai que tem mal seria que não o fosse), foi uma vez a Alvalade (empate 1-1 com o poderoso Paços de Ferreira, se não estou em erro), e desde os seus 6 ou 7 anos vai de vez em quando (menos agora, lá no estrangeiro e eu por cá) ombreando no sofá com o depauperado pai, assim a ver a bola. Aconteceu isso no último Benfica-Sporting, em casa de bons amigos. E depois, já nós caminhando para o carro, desabafava ela (repito, nos seus 15 anos, sem conhecimentos enciclopédicos da matéria) “oh pai, é sempre a mesma coisa, há anos que é isto, levamos um golo no fim dos jogos”. Não, não estou a dizer “que da boca das crianças sai a verdade”. Pois ela já não é uma criança (ai, que saudades, ai, ai, como dizia o lampião Carlos Pinhão). Estou, pura e simplesmente, a dizer que até uma jovem nada fanática e algo distante destas coisas da bola constata o constatável.

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Os Duendes Alheios

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(Postal para o Delito de Opinião)

Aquando do horroroso ataque à Charlie Hebdo o então vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg teve estas fundamentais declarações: em democracia não temos o direitos de não sermos ofendidos. O que então disse devia ser um lugar comum, pois é a base da nossa sociedade democrática. Mas não é tão lugar comum. Seja a propósito de situações liminares, como as de então. Seja a propósito de questões (infelizmente) do quotidiano. Isto de agora, do “importunar”, que se quer criminalizar e que se criminaliza. Misturando-o com o assédio, com o exercício de poderes sob formas ilegítimas. Há atitudes que são, mais ou menos generalizadamente, consideradas imorais. Devem ser criticadas, são passíveis de sanções morais, sociais. E devem ser alvo de pedagogia e crítica pública – difundir, o que será difícil em tempos de mediática hipérbole “javardista”, que o “fazia-te isto e aquilo”, “quem me dera aqueloutro” é não só abjecto como é também sinal de enorme fragilidade e de incumprimento. Face às mulheres e também face aos outros homens. Mas não são crimes. E isto tem tanto a ver com os célebres como com os tipos que andam por aí a importunar as nossas queridas (“óh pai, o que tenho que ouvir às vezes”, dizia-me, enjoadíssima, a minha adolescente filha quando o outro dia cá em casa se discutia este assunto das “actualidades”).

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A “casa das três girafas” de Maputo

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Leio que “A Casa das Três Girafas” do arquitecto Pancho Guedes, na rua Armando Tivane no bairro Polana (Maputo), vai ser demolida.

Há duas coisas aqui para contexto: a) a pressão imobiliária em Maputo é enorme, na vertigem de transformar as zonas “nobres” (entenda-se, ricas) da cidade em parques de prédios, sobredimensionados. Nesta zona o esquema histórico é simples: construção anos 1950/60s para a burguesia colona e algumas empresas; nacionalização pós-independência; aquisição a preços baixos pela burguesia nacional pós-1990s; venda dos talhões (edificados) a empresas internacionais de investimento imobiliário (principalmente desde finais de 00s). Tudo isto permeado pelo facto de que a ausência de capital desde a independência deixou o tecido urbano do Maputo central (o Maputo “cimento”) intocado durante décadas, ainda que decadente, interrompendo as transformações encetadas no final do período colonial, em que houve um novo plano urbanístico e um disseminação da construção de prédios.

Dizer isto leva logo muitos a resmungarem: uns no “malandros, roubaram-nos as casas no comunismo e agora vendem-nas no capitalismo”; outros “xi-colono, o que vocês querem são as casas de novo” – ou a preservação do Maputo qual Lourenço Marques do saudosismo, em termos analíticos. Então que fique explícito, não vejo ilegitimidade alguma neste processo histórico – até porque as terras assim edificadas já haviam sido expropriadas aos seus anteriores proprietários. É a história universal, uma sucessão da apropriações fundiárias, em prejuízo dos menos fortes;

b) o património arquitectónico e urbanístico erigido nos períodos pré-colonial (como a Ilha ou o Ibo) e colonial não é verdadeira e socialmente sentido como nacional. O mito do “desenvolvimento” afronta aquilo do “velho” – e isto não é de Moçambique, é do mundo. E uma história colonial de opressão implicava a exclusão das cidades, uma dicotomia social e racial (o “cimento” para a comunidade colona, o “caniço” para a colonizada – algo contra o qual Pancho Miranda Guedes escreveu e projectou). Ou seja, a relação identitária, “afectiva”, com as edificações, ainda para mais numa população imensamente jovem e suburbana, é muito ténue.

Para além da história há isto do presente, que se calhar conta muito mais: as cidades são vivas e têm que se renovar, demolir e reconstruir. Mas no contexto em que as novas Urbes chinesas e árabes são um “exemplo” (patético mas vigoroso) de como fazer e símbolo de progresso pouco haverá a fazer neste campo. Apenas dizer, lamentar, que é uma imbecilidade monumental (deixar) fazer estas coisas. Pode-se construir (e o Grande Maputo é enorme, e está com muito melhores acessos) sem devastar a história da cidade. E sem tornar o velho centro num inferno urbanístico. Promovendo até vários “centros” – como se tentou fazer nos princípios de XXI.

Alguns individuais ganharão menos com esse processo? Talvez. Mas também poderão articular-se na dinamização desses novos pólos urbanos. Aliás, muitos deles já estarão integrados nisso. E poderão deixar de pé as construções do grande arquitecto da cidade, que são, e poderão ser no futuro, seu emblema. Bastará haver vontade iluminada.

A guerra no norte de Moçambique

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Cada vez mais habituais as notícias de ataques e assassinatos no extremo litoral norte de Moçambique. Por vias mais pessoais chegam-me notícias de ataques, imagens privadas (ontem mesmo filmagens em telemóvel de população na estrada falando sobre a situação e os ataques). E muitas especulações: a imorredoira cartilha marxista-leninista atribui aos “interesses americanos” a responsabilidade pelos acontecimentos, os radicais críticos do Frelimo aludem à responsabilidade estatal, como se esta criando uma “cortina de fumo” distraindo de outras questões, alguns mais estupefactos aventam “será a Renamo?”, outros querem reduzir a uma bandidagem, mas a esta não dando o tom elevado de “social banditry”. E há quem creia no anunciado movimento (oficial ou oficioso) “Al-shabaab”. Não sei do que se trata, não encontro iluminação no que tenho lido, tenho a minha mera crença – que nunca será a do “mínimo denominador comum” entre as várias versões. E que se alimenta de anos na perspectiva de que isto emergisse, vendo no norte e em Maputo as nuvens que o presumiam. Quem me dera poder ir comprová-la no terreno, inquirindo. Esperançado em provar-me errado. Porque há uma coisa, terrível, e inovadora no país, nesse presumível inimigo: não negoceia. Pois quer tudo – que é uma forma do “nada”, do vazio político. E se for esse ele não está encerrado no norte extremo, mas pujante e afirmando-se pelo país, como é visível a qualquer olhar interessado. A sociedade moçambicana, a modorra dos seus poderes, chocou a mamba? Parece-me que sim. Só espero estar errado …

Assédio?

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(Postal para o Delito de Opinião)

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida – o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e … demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados – o professor que não “lança” a nota, que “chumba” a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o “poder dos homens” mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores.

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Carmen correcta?

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Esta é uma delícia – a célebre ópera Carmen apresentada com o final invertido, para se adequar à luta feminista da actualidade. Certo, as obras não são sacrossantas e podem ser actualizadas (e são-no), em diálogo com os valores e interesses actuais. Normalmente isso empobrece a compreensão do texto (a patacoada, que se tornou canónica, da “Tormenta” de Shakespeare como discurso colonial é um exemplo máximo). Mas pronto(s), a gente está cá para isso. Há várias formas de fazer essa actualização: mudar a trama, como é este caso narrado, é a mais fácil.

Há outra que é mudar o sentido facial: um exemplo imenso disso são as “leituras” da “Medeia” de Eurípides, tornada há décadas símbolo do feminismo. De facto, a personagem é asquerosa sob o ponto de vista ético (e daí o seu sucesso milenar): rouba a família para ajudar o namorado, manda esquartejar o irmão (querendo impedir-lhe o fundamental funeral) para poder fugir com o tal namorado e os bens roubados, mata os filhos para se vingar do namorado (então já “companheiro”) que se quer casar com outra, no que é a apologia da monogamia e da fidelidade conjugal (coisas tão denunciadas noutros itens das “boas-causas”). E nisso tudo é uma malvada oportunista, acabando por retomar (isto já nas sequelas) o poder político que traíra (ok, talvez sirva para um tratado sobre a política de XXI). Desta cabra imunda fez o feminismo uma higienização glorificadora, adversa à falocracia (e decerto que alguma(s) douta(s) dirá(ão) que eu não percebi nada do texto). Apenas aludo a isto porque, dada esta via “correcta” de revisão das tramas que a notícia descreve, o ideal para este fim dos 10s será fazer uma Medeia soft, sem roubar as coisas para o Jasão, tirando a bateria ao carro do pai para o atrasar na perseguição, e, no final, partindo no carro do Sol com os seus filhos fugindo ao “tribunal de família” para assegurar a sua tutela (forma de denúncia do patriarcado vigente nas instâncias jurídicas). Assim ficará toda a gente contente. Com o telefilme.

Difícil é escrever peças novas.

Desconto de Tempo

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(Postal para o blog És a Nossa Fé)

Começa este fim-de-semana a segunda volta do campeonato de futebol. A equipa está a dois pontos da frente. Está invicta: leio hoje que isso só aconteceu por sete vezes na história e que apenas por duas vezes isso não teve como corolário o título. Para esta etapa da época tem a segunda melhor pontuação nos campeonatos da última década (um ponto menos do que há dois anos). Enfrentou uma liga dos campeões dificílima e jogou-a muito bem, com três excepcionais exibições (na Grécia, em Turim, em Alvalade com a Juventus) e três outros bons jogos, talvez a merecer melhor sorte final. Nessa campanha mostrando uma excelente armadura táctica, boa condição atlética e patenteando alguns excelentes jogadores. Contratou-se bem, os dois “veteranos” para a defesa recuperaram a condição física e mostram que vieram para somar, Piccini afinal é mesmo jogador. E se Acuña é mesmo competente, Bruno Fernandes foi uma jogada mais do que certeira. Com o plantel assim constituído a equipa está nas meias-finais das taças nacionais e na Liga Europa. Qual o ambiente geral após este “primeiro semestre”? Algum apoucamento dos feitos, muito martirizado pelo jogo menos conseguido em Alvalade com o Porto e com o engasganço na Luz. Críticas constantes ao entendimento táctico de Jesus. E a autoflagelação por causa da contratação de Alan Ruiz e alguns outros (os vizinhos de Carnide abasteceram-se com Douglas, “anteciparam-se-nos” no Gabigol, mostraram Seferovic e lamentam-se tão menos; ali a norte de Gaia pagaram 20 milhões por Oliver Torres e nem é assunto). Somos (um plural pois meto-me todo  neste caldeirão) mesmo insuportáveis.

O que desejo para o segundo semestre? Que ninguém ande por aí a dizer que “iremos comemorar para o Marquês”. O título deverá ser comemorado no estádio de Alvalade, nossa casa. E se não coubermos todos temos as cercanias.

Cana Lusa ou Lusotrópica

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A propósito desta proposta para legalizar o cannabis com fins terapêuticos, questão imensamente relevante no devir nacional, um amigo meu propunha-me há pouco a linha internacional de afirmação portuguesa (diplomática, turística, política, comercial) como a lusotrópica, ultrapassando o vetusto  lusotropicalismo e a estafada lusofonia. Eu, mais moderno e privilegiando a dinâmica das exportações comerciais e de importação de transumantes turistas, advogo a campanha da “Cana Lusa”.

Legalize it?

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O mundo da hipocrisia: este fim-de-semana cá em casa um belíssimo médico que me é muito querido e próximo dizia sobre esta cena da legalização do cannabis para efeitos médicos que “temos uma série de químicos que fazem o mesmo e sobre os quais temos estudos sobre os efeitos secundários, não tanto sobre isto …”. Mas, dizia ele, liberal (eh, eh, liberal de costumes, não é “neoliberal”, não disparem já), “aceite-se“. Até acredito que tenha efeitos terapêuticos, até já li sobre isso. Mas, olivalense adolescente nos finais dos anos 70s, só me sorrio diante disto. Pode ser que seja terapêutico mas a questão é política, lá no fundo é o “legalize it” que animou uns nichos BE da década passada (não disparem, fiz o meu primeiro interrail em 1982, cruzando a “comunista” Jugoslávia com um pin desses. Voltou encardido, tão poucos banhos tomámos nesse mês.). Mas enfrente-se lá a coisa (o brunhol) como “deve de ser”: a gente vive num país de cultura vinícola, e de aguardentes vinícolas, (regresse-se ao Braudel, sff), de facto um país alcoolizado, onde até a sacrossanta selecção da bola publicita cervejas e um puto de 13 anos pode comprar shots no centro de Lisboa. Um consumo alcoólico per capita dos maiores do mundo, alcoólicos “funcionais” por todo o lado e disfuncionais também. Se qualquer pateta de classe média substituiu o bitoque por sushi e as papas de aveia por cuscus, está mas é no momento de dizer “fumem lá isso” (e não chateiem), e bebam um bocado menos (já viram quantos cinquentões estão a morrer do fígado, e nem todos por causa da heroína de antanho?). Sem esta hipocrisia do “terapêutico” …O brunhol faz mal? Imenso. Ao corpo, aos pulmões e etc. E estuporiza. Mas num país onde metade da população que vem ao FB é adepta do Sócrates (aka Costa) qual é o susto?, há tantos estupores que já não há forma de piorar. Em suma, “Kaya”, mas sem este patético requebro sanitário.

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