Alegre e Sócrates

alegre

Agora é o “poeta de combate” Manuel Alegre que vem dizer-se incomodado com José Sócrates e uns quaisquer interesses económicos. Andou anos e algumas campanhas eleitorais sem reparar nisso.

Lembro-me que há poucos anos estava este muito indignado porque não se condecorava o ilustre ex-PM.

Enfim, Alegre é o que é, sempre foi, e “eu seja ceguinho” se isso não é verdade. Mas já papou o Camões, o traste? Vai de papo cheio. E sem ponta de pudor.

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Antuérpia

E estes pequenos filmes da academia Khan são sempre úteis. Neste caso sobre o tríptico vizinho:

Adenda, fruto da experiência de facebook: “Mau feitio, apontam-me. Eu, bloguista da bola, no És a Nossa Fé, boto um postal aqui no mural, saudando a vitória do Aves e dizendo-me comovido com as lágrimas do “meu” Rui Patrício: 70 “likes”…

Eu, ateu confesso, turista Ryanair, vou a Antuérpia, estreio-me na catedral, comovo-me até às lágrimas (minhas, não as do Rui Patrício) com a “descida da cruz” de Rubens, ali exposta, uma bruta de uma obra-prima (assim a modos como a “bicicleta” do CR7 contra a Juventus, para me fazer entender), e partilho um brevíssimo filme explicativo da obra: 0 “likes”.

Mau feitio, apontam a este bloguista da bola.”

O casamento dos príncipes

charles

Nos finais de Julho de 1981 eu estava em férias nas Caldas da Rainha, aboletado em casa do meu amigo Mário João Carvalho, personagem então apaixonante e que não vejo há décadas. E foi aí, na companhia de sua mãe, senhora amabilíssima cujo amor pelo(s) filho(s) impelia à paciência com este traste que lhe aportara portas adentro, que vi o “casamento do século”. De início com o cenho franzido, como convinha ao pretenso adolescente rebelde, mas logo conquistado pelo brilho e encanto daquela cenografia da felicidade e esperança, algo ridículo como o são todas as coisas do amor, disse um poeta. De facto, tudo adequado à sensibilidade deste que havia vibrado, uma década antes, com as aventuras de Lord Fauntleroy e que décadas depois, já rústico empedernido, continua a rever pela enésima vez, claro que sem a ninguém o confessar, o Nothing Hill, fastforwardando para a cena do “I’m also just a girl standing in front of a boy asking him to love her”, consciente do sorriso parvo (diz-se “enternecido”) com que sempre assiste àquilo.

E agora é interessante ver como, britânicos e outros, suspendemos juízos críticos quotidianos, e utilizamos esta família (na qual quase tudo acontece, “como nas medianas famílias”) para simbolizarmos a esperança na perenidade do belo e na continuidade da felicidade. Como através dela, e de todos os seus “pecados e pecadilhos”, sacralizamos e festejamos a beleza destas nossas humanas falhas. Sempre querendo crer na sua inexistência. Ou melhor, assim sempre fazendo-as participar no que é belo, fazendo-as produzi-lo.

Para mais hoje, nisto de um príncipe, de um dos últimos da sua espécie, se casar com uma americana, velha, popular (plebeia, um termo tão poluente que nunca o damos às nossas filhas Patrícias), até oriunda do white trash e ainda por cima poluída pela malfadada “gota afro”, isto tudo no pensar e linguajar daqueles racialistas americanos que tantos querem importar, divorciada e ainda por cima actriz, isto de ser assim, e tão festejado, é um magnífico sinal dos tempos.

Dito isto vou ali para o sofá, preparar-me para o (quase) royal wedding. Lá para a noite recolocarei o barrete frígio.

A direita e a esquerda

Le point

Uma revista interessantíssima (e barata): dois séculos de pensamento (maioritariamente francês) de direita e de esquerda. A cada autor são dedicadas duas páginas (uma de excertos significantes; outra com um bom e legível comentário). A mostrar as plurais direitas e esquerdas, suas especificidades, o que há de distintivo e de transitivo, as evoluções, continuidades e rupturas. É certo que a história intelectual portuguesa é mais escassa e politicamente menos diversificada (e menos original, nisso também muito dependente das fontes francesas). Mas que bom seria fazer um número assim, talvez menos centrado em Portugal, a ver se se reduz o olhar tipo colecção de cromos, que vai grassando no país. Em particular no quartel dos “ressentidofóbicos”, vulgares psicologistas avessos à sociologia (e quantos são sociólogos de profissão, mas isso é outra coisa).

Visão História

visão

A Visão História é a minha revista portuguesa preferida (a “revista” é um suporte que, sei lá porquê, sempre me irritou, com excepção da banda desenhada). Tem temas interessantes, é cuidada e profusa em imagens. E é legível – gente a escrever coisas informadas sem linguajar ensaístico nem “leveza lite”, é difícil e sempre de saudar. Este último número, “Obras Públicas no Estado Novo”, abarcando a evolução de Lisboa, Coimbra e não só, é um mimo. E nem 5 euros custa – para ler e desfrutar agora, e guardar “para mais tarde recordar”. A mim valeu-me uma viagem de avião deliciado.

O nosso Balotelli

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Sempre apoiei a presidência de Bruno. Inúmeros amigos, alguns sportinguistas, surpreendiam-se, invectivavam-me, conhecendo-me, num “como é possível apoiares este tipo, com este estilo?”. Não é preciso tudo recordar, basta o facto de que a plutocracia (os Ricciardis que já espreitam) devastara o clube e desbaratara o seu património. E Bruno, truculento que seja, foi um bom presidente no seu mandato inicial. Mas algo mudou neste seu segundo mandato, e sobre as causas disso por enquanto só se poderá especular: inebriado pela estrondosa votação?, constrangido pela evolução económico-financeira do clube? Outra deriva qualquer?

E se o tom hiper-abrasivo fora uma constante desde o início, nos últimos meses foi um vendaval de actos e dizeres desvairados, tornando 2018 num “annus horribilis”. Imensos sportinguistas, na esmagadora maioria seus apoiantes o foram dizendo, na esperança que algo mudasse. Por mim deixei várias notas e lembro estas:

(5 de Fevereiro) “… há um terceiro inimigo desta presidência. Que é o Bruno. Relapso à racionalidade comunicacional. Adverso ao auto-amadurecimento. E, evidentemente, com misticismos egocentrados. Falando futebolês é isto: o Bruno tem futebol para ser Cruijff e parece ter a cabeça do Balotelli. É uma pena, está ele nas vésperas de “passar ao lado de uma grande carreira”.“; (17 Fevereiro) “Só sairei do barco, desterrando-me talvez, se vier a saber que ele descura os nossos deuses: que prejudica o clube (como outros o fizeram antes dele, e por isso não lhes cuidamos dos túmulos); que compra jogos (algo contra o qual sempre nos batemos). Mas se ele não os trair, enquanto ele não os trair, a esses nossos deuses … é o meu chefe.”

O nosso Balotelli desatinou ainda mais do que se esperava? Sim. E cruzou exactamente as linhas que eu antevira. A ver se sai ainda hoje.

 

Ferro Rodrigues no pós-Alcochete

Ferro rodrigues

Há dois meses bloguei este “O governo está a dormir“. A ideia era simples e nada original: a) ambiente em torno do futebol está um caldeirão fervente, acicatado pelos estratégias presidenciais nos grandes clubes nacionais e suas derivas confrontacionais na imprensa, em particular nos inúmeros programas televisivos de comentário futebolístico, já excêntricos ao registo de comunicação social pois mergulhados no mais barrasco da estética “reality show” – recordo que na véspera do assalto à academia do Sporting um comentador televisivo se levantou e ameaçou fisicamente um outro, afecto a outro clube, ante a relativa placidez do moderador e do total silêncio da direcção daquela estação. Sobre este ambiente escreveu ontem, “tão mais melhor”, Ferreira Fernandes este belo artigo, “Alcochete“;

b) num contexto destes era previsível que mais tarde ou mais cedo ocorreria um incidente grave nos campos de futebol ou nas suas cercanias, previsivelmente entre claques, esses tugúrios de auto-marginalizados. E, em fins de Março, perdi a paciência com o presidente do meu clube, que insultou o do Braga nos dias antecedentes ao Braga-Sporting, isto pouco tempo depois dos violentos incidentes aquando da visita do Benfica àquela cidade, assim estuporadamente incendiando (ainda mais) o ambiente e fazendo perigar o bem-estar dos espectadores, em particular dos visitantes, pois em clubística minoria. Mostrando-se totalmente irresponsável.

Diante de tudo isso era (e é) notória a inactividade governamental, o qual tem relativa tutela sobre os clubes e sobre os órgãos de comunicação social. Nem acções efectivas nem por indução, um total “deixa-andar” a denotar as pinças com que o poder trata o mundo do futebol, temendo perdas de popularidade.

Surge o ataque a Alcochete, afinal uma confrontação autofágica. Só agora, e decerto que pelo impacto mediático, o poder abana e intenta reagir. Anuncia-se uma “alta autoridade” ou similar. E o presidente da Assembleia da República vem fazer uma inusitada declaração política no próprio parlamento, sublinhando a sua condição de sportinguista. Vitupera o incentivo ao ódio, o populismo, o autoritarismo no mundo associativo, e em particular Bruno de Carvalho. Esteve bem. E aborda as acusações de corrupção que impedem agora sobre o Sporting (um clube em evidente descalabro) mas também sobre outros clubes, com particular relevo as sobre o Benfica.

Mas atente-se como ele o faz. Convoca as autoridades judiciais a investigar os clubes, pois, e di-lo com evidente acinte, dado que “sempre prontas para investigar, (e bem), os políticos” (e note-se as entoações, supra-explícitas). Deixemo-nos de rodeios, isto é um remoque do Presidente da Assembleia da República às investigações que recaem sobre o poder político, em particular sobre os anos de governação de Sócrates (aquela cujo legado ele reclamou no seu primeiro discurso parlamentar após ter sido eleito presidente do grupo parlamentar do PS quando Costa chegou a secretário-geral). Denota uma reacção crispada, um viés corporativo, um desagrado com o funcionamento das instituições. Em suma, aversão à democracia. É pelo menos pouco curial no presidente do parlamento. De facto, é muito mais do que isso, roça o inadmissível. E é totalmente demagógico que o faça a reboque de uma comoção generalizada, como a provocada pelo vil ataque de Alcochete.

O poder político acordou para a questão do ambiente do futebol. Mas, mostra-o o presidente da AR, levantou-se com os meneios de sempre. Impúdicos.

Sobre o jornalismo actual

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Várias equipas de jornalistas estão em Alcochete, ao portão da “academia” do Sporting. Chegam dezenas de encapuzados, não há imagens. “Disseram-nos para baixarmos as cameras e não filmarmos. O que logo fizemos“, dizia, até assertivo o jovem da RTP. “Depois entraram e caminharam cerca de 100 a 150 metros até à ala do futebol profissional“, e as equipas de reportagem ficaram, cameras baixas, microfones mudos, ali ao portão. “O grupo esteve cerca de 15 minutos nas instalações“. E depois há poucas imagens de um grupo já longínquo retirando-se. De tudo o resto, agressões, distúrbios, vandalização das instalações? Nada. Veremos, depois, 17 segundos de uma filmagem com telemóvel, decerto que feita por um profissional do clube no balneário. Apenas isso.

É fácil falar de fora (e alguns dirão que nunca arrisquei algo, o que não comentarei). Mas um tipo habitua-se a ver, até de espontâneos, imagens de incêndios, atentados, guerras, catástrofes. E também “directos” inopinados, até de coisas patetas (o treinador em férias a chegar ao aeroporto, ficou célebre). Não faltou ali qualquer coisa àquela rapaziada toda? E não falo de difíceis condições de trabalho, estágios, recibos verdes, parcas remunerações …