(E/I)Migrantes

Há alguns anos Pedro Abrunhosa apresentou esta canção, dedicada aos portugueses que emigravam. Serviu, e também através do próprio compositor, para criticar o governo de então, e em particular o PM Passos Coelho. Governando sob o espartilho dos compromissos internacionais foi-lhes, a governo e seu primeiro-ministro, apontada a responsabilidade directa pela emigração. Correndo, de forma constante, o dito que Passos Coelho  mesmo a ela apelava. Sublinho: foi afirmada, constantemente, a responsabilidade directa e primordial do governo português no processo de emigração dos nossos compatriotas.

O que não espantará quem tenha algum interesse sobre a história portuguesa recente: os fluxos migratórios dos décadas de 1950 e 1960, para a Europa e África, e também para a América do Norte, são imputados às responsabilidades do Estado Novo, e ao seu grande vulto, Salazar. Tanto pela sua política de povoamento colonial como pelo estado subdesenvolvido da socioeconomia nacional.

Olho para a fotografia que corre mundo, o pai salvadorenho afogado com a sua filha de dois anos no Rio Grande, durante a tentativa de entrar nos EUA. Comovo-me (como não?), e de forma redobrada, pois também pai de uma filha. Que pesadelo, a sublinhar o pesar com as questões sociológicas que um drama destes denota.

Mas, e mais uma vez, noto algo paradoxal: os mesmos que promoveram e seguiram a concepção abrunhosista da história portuguesa, que invectivaram Passos Coelho, são aqueles que esquecem por completo a origem dos desgraçados afogados. Como se estes oriundos de uma selva primeva, anómica, alheia à ordem cultural e à Política. E, em assim sendo, como se as responsabilidades políticas sobre isto residam, exclusivamente, no destino procurado e não na origem dos migrantes.

Exactamente ao contrário do que pensa(ra)m e agita(ra)m sobre Portugal. É uma interpretação dos factos que denota uma mundividência. Racista, incompetente. E aldrabona. E, acima de tudo, tão medíocre como o raio da cançoneta demagógica.

 

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Chico

Conheci Chico Buarque no gira-discos da minha irmã – eu menino, 8 ou 9 anos (mana terei eu dito, confessado, já nestes meus tantos 54s, que tu és “o meu amor”?). Deram-lhe agora o Camões – e o meu querido magnífico Nataniel Ngomane participou nisso, e é assim ainda mais belo. Não sei da justificação do júri, nem verdadeiramente importa, tantas as imensas canções que me (nos) fizeram a vida. Terá sido, creio, até certo disso, ao “escritor de canções”, libertados os jurados das algemas dos “estilos” por via do rumo do nobel.

E é também lindo por ser Chico um alvo dos polícias da mente da agora. E, ainda por cima, rio-me, por ser ele, enquanto ficcionista, tão …. reaccionário. Tão … Buarque de Holanda.

Vénia, poeta-cantor. Bebamos do teu cálice.

E

é uma obra vida vasta Deixo (mais para os mais novos) uma hora e meia excepcional. Entre tantas outras …

Postal de Facebook para as Boas Festas

mfa

Em 1973 o país mais pobre da Europa Ocidental estava há 12 anos em guerra, de facto 3 guerras coloniais. Era o segundo país não comunista no mundo que mais gastava, percentualmente, em despesas militares. As guerras, para quem não saiba, eram absurdas. Nem discuto se estavam ganhas, empatadas ou perdidas. Nem tão pouco discuto se os portugueses eram maravilhosos colonos, ou só mais ou menos. Ou péssimos. Nem elaboro sobre se os regimes subsequentes foram magníficos, catastróficos ou normais. As guerras eram absurdas pois o tempo histórico das colónias europeias ultramarinas tinha passado. O Estado Novo nelas insistiu. Não argumento se era fascista ou não. Se era um Estado Bom ou Mau. Apenas digo que era o Estado Novo. Muito resistente: aguentou o fim da II Guerra; a pressão democratizadora da entrada na NATO; o plano Marshall despejado nos vizinhos. a campanha do prestigiado governador colonial Norton de Matos (um homem da sua época, com muita visão); a forte campanha do ex-nazi com aspirações a caudilho; o êxodo de centenas de milhares de emigrantes; a integração económica transpirenaica; a invasão de Goa; a morte de Salazar; o opróbrio internacional.

Ao fim de 12 anos de guerras o regime, relativamente exaurido, mexeu nas formas de promoção dos militares profissionais – que, desde sempre, tinham sido um dos seus sustentáculos. Os oficiais mais novos, entrados nas academias militares em finais de 50s e inícios de 60s, e nisso algo militantes do regime e suas formas de nacionalismo, então exaustos de sucessivas missões em África, devido a essas medidas associaram-se corporativamente contra o regime. Pouco ou nada politicamente conscientes (como tantos deles repetiram em registo memorialista), foi esse o motivo que os levou a sistematizar e a comungar a impossibilidade de manter essas guerras. E o regime que as exigia. O que os conduziu aos golpes de Março e de Abril de 1974. A este segundo já o regime não conseguiu reagir militarmente e, na ausência de confrontos, a população de Lisboa saiu à rua. E deu corpo ao futuro mito. Nacionalista, falsificador da história, desta higienizador.

Em que consiste esse mito nacionalista? Na censura. Isso ilustra-se assim: há uma bela canção da época, panfletária como então era norma, de Sérgio Godinho cujo refrão é “Só há liberdade a sério quando houver / A paz, o pão / habitação / saúde, educação“. Ora quando se fala do antes, no célebre “onde estavas no 25 de Abril” a tal “paz” parece que desapareceu das questões prementes. Como se as únicas questões relevantes, influentes, fossem as internas ao Portugal, a Pátria.

E com isso se torna evidente o tal mito, nacionalista: a democracia, a liberdade, a II República, como quiserem, foi fruto das energias e anseios portugueses, internos, endógenos. Da nossa “virtude”, capitaneada pelos “gloriosos capitães”.

A que propósito vem isto? Ontem os populistas (integrados pelos fascistas do PNR) tiveram o seu arroubo, o “fiasco amarelo”. Uma amiga minha saúda esse falhanço da extrema-direita, esta tão em voga pelo mundo afora, citando um execrável texto de um desses fazedores de opinião consagradores da cleptocracia socialista. Reza assim o texto, que saúda o tal fiasco: “No Brasil, na Itália, muitos estão a sucumbir. Nós não. Porque ninguém veio de fora para nos libertar. Fomos nós que conquistámos a nossa liberdade e a nossa democracia. Frágil, imperfeita, cheia de erros.”.

A tal falsificação da história, a “naturalização” e “endogeneização” da democracia portuguesa. Essa que, de facto, resultou de que “alguém veio de fora para nos libertar”, de que em três futuros países se combateu o Estado Novo. Mas estas trapalhadas, este nacionalismo viscoso, falsário, esta mitificação necessária a um atrapalhado regime repercute-se. Com apreço, pelos académicos, intelectuais. Até por quem tem experiência de África.

Porquê? Porque para gostar das patetices que estes fazedores de opinião botam basta que eles defendam Vara, Sócrates, e quejandos. Desde que sejam dos “nossos”, do PS, do Livre, do BE (ou, vá lá, do PC) podem cuspir todas as asneiras, mesmo estas de um nacionalismo tão bacoco como os dos Livros Únicos do Estado Novo. De facto, que se lixem os “fiascos amarelos”. O que interessa é que o juiz Alexandre seja arrumado, como foi a PGR. E que o Vara se safe. E entretanto que se digam todas as asneiras que a gente aplaude. Ulula. É esta imunda merda, natalícia, que é a “esquerda” portuguesa. Um Feliz Natal para todos vós. E o 19 que mereçam – o ano em que Sócrates regressará da Ericeira. Para gáudio da Clara Ferreira Alves e deste tipo de gente, essa que  “ao fim destes anos todos só nos enganámos numa coisa, julgámos que havia uma campanha da direita contra Sócrates”, e o povo aceita-lhes a desfaçatez. De “esquerda”. E a rapaziada partilhará. E dirá de “direita” (e se calhar até “anónimos”) os que se enjoam com este lixo. O fedor da cloaca. Vosso.

China e Portugal

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A esperada notícia surge, no meio da “crónica” da visita do presidente chinês, assim como coisa óbvia no meio da assinatura de vários documentos, todos prometendo imensos ganhos para Portugal: o habitual. Que, passando os anos, nunca são escrutinados. Ou seja, lá no meio de tudo Portugal anuncia a vontade de entrar no “comboio” da OBOR (um cinto, uma estrada), a gigantesca operação de construção e dinamização viária que a China prepara para se tornar (ainda mais) central, retornar a “império do meio”. Alguns dos nossos tradicionais aliados não estão tão entusiasmados (os EUA muito renitentes, tal como os britânicos) e a União Europeia tem iniciativa e metodologias diferentes. As preocupações não só com a cristalização de um novo centro político e económico – completamente alheio a valores democráticos, coisa que não é de somenos para todos os que não se restringem ao conteúdo da malga própria -, bem como as considerações sobre este hiper-projecto, pensado sem considerações ecológicas, de equilíbrios políticos, locais, regionais e globais, e postulando indiferença (que será letal, em muitos casos) às questões da governação, são esquecidas?

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A China e o país inibido

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Em 2005 o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao visitou Portugal. José Socrates, então recente primeiro-ministro, incentivou o visitante a usar Portugal como intermediário nas crescentes relações sino-“palop”. Na época eu trabalhava na área da “cooperação” (ajuda pública ao desenvolvimento) e muito me chocaram aquelas declarações do ainda relativamente desconhecido Sócrates (não se perspectivava tamanho descalabro),  por razões subjectivas e objectivas.

As subjectivas eram algo óbvias. Qualquer pessoa da minha geração se poderá lembrar o que foi o governo de Macau nos últimos quinze anos de tutela portuguesa. A coabitação entre os governos de Cavaco Silva e as presidências de Soares e Sampaio – sendo a presidência da república a responsável por aquela região – significaram que Macau foi administrado, num período de grande crescimento infraestrutural, pelos quadros socialistas. E foi público que se o PSD (e não só) se conspurcou na gestão da inserção europeia, o PS saiu profundamente lesionado da “coisa macaense”, no afã da “árvore das patacas”. Infecção que levou para os governos de Guterres e que este, criticável político mas homem honrado, deixou transparecer com o rebuço retórico do “pântano” quando se demitiu. Por isso, quando em 2005 Sócrates ofereceu os préstimos do país, e da sua administração, para facilitar a extroversão africana da China tudo indiciava que o PS não fizera qualquer “julgamento ético” (como Augusto Santos Silva reduz agora a avaliação da política) do seu percurso recente. Como se veio a comprovar, tanto pelas más-práticas dos governantes como pelo apoio cúmplice da generalidade dos profissionais da palavra pública, jornalistas e académicos, durante o consulado socratista. E hoje.

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Os tiagos amarelos

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Ontem aconteceu uma enorme “marcha pelo clima” aqui em Bruxelas – não, não se andou a pedir reclicagem de papel ou reconversão dos sacos de plástico, as panaceias dos ecologistas folclóricos. E não, as pessoas não ficam aprisionadas aos ditos dos patetas da igreja do culto do mercado (esses que bolçam, tudo pejando de perdigotos fétidos, que o Mercado é virtuoso e o Estado demoníaco, pelo que qualquer intervenção sobre a iniciativa privada é pecaminosa pois nada desta decorrente ofenderá os desígnios perfeitos da Criação).

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O esgoto estatal

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Um antigo presidente de um clube desportivo é sujeito a um interrogatório, no âmbito de uma investigação ampla, ainda em curso. Depois o Estado (uma sua secção, chamada “ministério público”) entrega as gravações desse interrogatório à televisão estatal e autoriza-a a transmiti-las: aqui, um programa da RTP com excertos das declarações de Bruno de Carvalho, anunciando a sua reprodução como autorizada pelo tal “ministério público”.

Decerto que há um qualquer quadro legal que permite isto, safando os funcionários públicos e fazendo medrar esta mentalidade. Mas isto é inqualificável. O estado do Estado é um descalabro. Uma cloaca a céu aberto, onde engorda esta gente.

Black Friday

Ontem, dia “Black Friday”, apesar de ateu associei-me á festa cristã e fui às compras. Aqui mesmo ao lado, no mercado de rua das sextas-feiras, na Chasseurs Ardennais – (bem ilustrado no Facebook) – dediquei-me à banca dos corsos. De lá saí com um naco de queijo de cabra de Oletta, no valor de 7 euros.

Depois, em registo de consumidor desabrido, caminhei até à “Casa Portuguesa“, onde sou visita habitual,  onde adquiri uma garrafa de Cabriz tinto, adornado com dístico anunciando (na língua estrangeira) “Best of Value Wines, Robert Parker 2017” e “Top 100 Wine Spectator 2016”: 6 euros e 20 cêntimos.

Ok, vão lá ser felizes para as Wortens.

Students Across Europe Excoriate World Leaders for Hiding Scientific Reality of Pending ‘Global Collapse’

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Fonte: Students Across Europe Excoriate World Leaders for Hiding Scientific Reality of Pending ‘Global Collapse’

Sempre leio intelectuais/professores avessos à superficialidade inculta das novas gerações, alienadas nas “redes sociais”. E depois encontra-se isto: em Bruxelas alunos das Escolas Europeias (grosso modo filhos de quadros dos organismos multilaterais e bilaterais na sede da UE) movimentam-se contra a censura (silêncio e modorra) das instituições internacionais sobre o Aquecimento Global. Já chegaram ao gabinete de Guterres, onde colheram elípticas respostas (uma primeira lição sobre o que é o pessoal político, direi eu). Ao lê-los percebe-se: não são neo-hippies, não discutem o “género dos anjos”, estão melhor informados e são mais reflexivos do que a geração dos pais. E escrevem melhor!

Estão num processo de “stand up for your right”, o de herdarem um meio ambiente decente, não totalmente devastado pela nosso afã de consumo (e de boas reformas). A dizer-nos “sejam responsáveis, portem-se bem”, aquilo que tanto gostamos de lhes dizer mas que não cumprimos.

No dia 20, dia internacional dos direitos das crianças, manifestar-se-ão no centro administrativo, face ao célebre Berlaymont. Contra esta censura sobre os verdadeiros dados ambientais que as instituições internacionais vão manipulando para evitar alaridos populares. Será, independentemente da dimensão quantitativa (cada um deles vale muito mais do que vários de nós, gulosos vorazes mais-velhos) que conseguirem mobilizar, muito bonito de saber. E ver, se possível.