Este Ano É Que É!

moreirense

(O Sporting foi empatar ao campo do Moreirense. O meu comentário no blog sportinguista És a Nossa Fé.)

O Jimmy Hagan, o do “no comments”, foi campeão sem derrotas. E também o Vilas Boas, que agora anda na árvore das patacas. Mas até eles empataram.

A gente tem um bom plantel, “profundo”, como se diz agora; houve belas contratações e bom saldo bancário, e tudo feito no tempo devido; não deixámos sair a torto e a direito, e ficou o Ruiz que devia ficar, que tão bom futebol mostrou no final da época passada, e o Iuri não seguiu lá para a Rússia, que tem muito para nos encantar; o JJ não foi para Paris, como “A Bola” tanto quis, e ainda bem, qu’é meio maluco mas sabe da poda; ganhámos os 6 jogos iniciais, coisa não vista há não sei quanto tempo, e melhor só o bom do grande Marinho Peres, no milénio passado; chegámos-nos (uff!!) à xampions: g’anda jogo em Bucareste e ainda melhor em Atenas; vêm aí os aviões Barça e Juve mas … será que?, se jogarmos como em Madrid o ano passado porque não?, a equipa concentrada, bem rodada, esmifradinha até, se calhar ainda passamos; ou então, paciência, que eles também são gigantes, venha a liga Europa; e troféus são necessários, que andamos à míngua, e há muito, venha a Lucílio e a Nacional (a última foi a do Iordanov, não foi?), e nessas até o filho do Bebeto (do Romário, pá, … não, do Bebeto) joga. Este ano é que é!

Um gajo empata? É a desgraça, “eu bem dizia”, “a mesma merda de sempre”, o plantel é curto, estreito como o campo dos Cónegos, o Jesus afinal é Judas (“sempre me pareceu, o gajo a mim nunca me enganou”), o Doumbia é dúbio, o Bas Dost é pior que o Maniche, o original, o Toscanini é tosco, o Mateus é velho, o Battaglia não ganha guerras, o Gelson já se julga Figo, e o pior de tudo é o Bruno, o César que já não pode, o Carvalho que é uma besta, e o Fernandes que se esconde.

Ontem vi um jogo. Um campo à antiga portuguesa, bom para jogos rasgadinhos, que o foi; o sempiterno professor Manuel Machado, treinador da bola, e a sua equipa, sem nomes mas com cabeça e alma. E um fiscal de linha (o da esquerda do ecrã) daqueles que “um grande é um grande”, que até eu saltei no sofá (que querem?, o Moreirense veste verde e branco, é mais forte que eu) com o fora-de-jogo que lhes inventou, o gatuno (foi a nosso favor? Ok, então foi um erro, é humano, só não erra quem não vai a jogo …). E vi o Sporting, a jogar à bola, não muito bem bem, mas também é assim, a ir até ao chuveirinho, porque era preciso. Mais um jogo neste caminho desta época, o do(s) título(a).

Porque Este Ano É Que É!

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O vídeo-árbitro

VAR

 

(Voltei  a escrever no blog sportinguista És a Nossa Fé. Este foi primeiro texto que lá coloquei, há já quinze dias).

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Mau para a economia, como concordarão todos os que postulam a sua melhoria através do crescimento do consumo interno. Pois reduz a procura do amplexo Super Bock/Sagres, e concomitantes petiscos, nas constantes querelas dedicadas aos erros dos gatunos. E periga o sucesso de audiências dos painéis televisivos (e respectivas receitas publicitárias), dedicados ao escalpar dos malévolos xôs árbitos. Pior do que tudo afecta a auto-estima dos nacionais, minorando as temáticas nas quais, maiêuticos e nada sofistas, demonstramos a nossa argúcia analítica e verve argumentativa.

Como é sabido o Poeta Camões, que sempre creu nas nossas possibilidades de dominarmos os rankings FIFA e UEFA, simbolizou os adversários do árbitro-tv naquela figura de “O Velho de Carnide”, conservador, comprazendo-se no seu pequeno e injusto dominium, timorato face a outros modos de ventos, correntes e marés. Pois até este já deve estar contente – certo que há semanas o árbitro-tv impediu um final descansado na nossa peleja com o Estoril. Mas safou-lhe agora a tribo de adoradores, ao descobrir uma (meia) perna marota a impedir um empate com o “primodivisionário” de Portimão e a mostrar a realidade da leve carícia que devastou Salvio, felizmente sem o ter lesionado com a gravidade que cheguei a temer.

E assim, à mera 5ª jornada, já vamos todos mais ou menos contentes com o novo instrumento de mareação.

Caderno preto

caderno

Abro uma gaveta à procura de papel para escrever, nesta sei que estão guardados cadernos usados. Retiro um velho, dos últimos do meu pai, ainda inacabado. Percorro-o em busca de páginas vazias, mas demoro-me lendo-lhe a lista de livros para ler e comprar, interesses datados de 2011 – “Meridiano de Sangue”?, aos 88 anos ele queria entrar no Cormac McCarthy? (e digo-me eu velho para novas ficções …) -, as notas de leitura, as citações recolhidas …

Lá para o fim das páginas escritas apanho esta, esplêndida: “Tudo o que é difícil de alcançar é facilmente atacado pela multidão“, um dito identificado como de Ptolomeu (e muito provavelmente, pelo encadear das notas, retirado do “O Dedo de Galileu” de Peter Atkins). Se assim o disse é óbvio que para uma coisa destas nunca haverá uma revolução coperniciana.

A papaia de(sde) há 3 anos, digo hoje

a-excelente-papaia

Há exactamente três anos, cumprem-se hoje, mais ou menos a esta hora depois de jantar, parti de vez de Moçambique, depois de 18 anos. Botei isto antes de sair no blog ma-schamba, onde escrevia então. Às vezes, só às vezes, nada saudosista, lembro-me da maldita papaia. Porque ainda não a consegui engolir. Um dia destes tenho que me fazer operar, a ver se algum cirurgião a consegue arrancar.

A papaia (8.9.14)

Almoço no Marítimo, com casal amigo, a Carolina encontra amigas, é nosso último Índico, hoje particularmente revolto, “os espíritos zangam-se com a minha partida“, brinca este ateu. No telemóvel vejo que no facebook um leitor daqui (um tipo insensível? insensato? ou só inexperiente da vida?) me pergunta qualquer coisa como “como se sente ao partir de onde foi feliz?“.

Sorrio, já com o Jameson na mão. Não sou o Knopfli, o Kok já morreu [Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me obliquamente nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não, escreveu o poeta narrando-se em Mavalane aquando da sua saída, naquele para sempre de 1975], e aos meus Koks não os deixo ir ao aeroporto. Além de que os tempos são diferentes, daí as causas do partir e as possibilidades do ir-e-vir. E por isso nada de grande ou profundo me ocorre ripostar.

Apetece-me responder-lhe apenas assim, à minha despoética maneira: sinto-me com uma papaia na garganta, foda-se.