Lusotropicalismo

Quando na 1ª década de XXI o Brasil se expandiu em África, no âmbito das celebradas relações “Sul-Sul” mas com uma lógica tão “neo-colonial” como as precedentes (ou mais, por avidez de neófito), algumas das suas grandes empresas aportaram a Moçambique e houve grande incremento de trânsito político (e de “cooperação”). E alguns dos seus agentes explicitamente apontavam que estavam ali “contra o colono” (o “ocidente”, o pérfido “norte”). Pouco depois tornou-se ali corrente o saber do quão a elite política brasileira, incluindo a família presidencial, participava nessa extroversão económica. 

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Assédio?

you too

(Postal para o Delito de Opinião)

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida – o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e … demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados – o professor que não “lança” a nota, que “chumba” a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o “poder dos homens” mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores.

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H&M

HEM

Uma boa provocação serve para agitar as lamacentas mentes. Mas esta não o é. O que se passará nas “cabeças” dos “criativos” e dos aprovadores desta campanha do H&M (entretanto retirada)? Sim, somos todos (primos de) macacos. Mas meter um miúdo “branco” ou “amarelo” nestes propósitos seria uma coisa (e teria sido bem sacada), meter um “preto” é outra – a quantidade de vezes que ouvi chamar “macaco” a “pretos”, e não é preciso ir ao futebol para isso, mostra bem o desadequado disto. Não é só de “brancos” ou “amarelos” para “pretos” (ou de “brancos” para “amarelos” e vice-versa) – e lembro-me do meu espanto ao ouvir um músico maputense, pela primeira vez na Ilha de Moçambique, dizer dos naharas – que defecam na praia, vivem aglomerados no macuti, etc. – “estes tipos são uns macacos”. Mas é, neste mundo global, acima de tudo uma desvalorização, um atraso ontológico atribuído àquela outra “raça”, principalmente à “negra”. Todos protestarão contra isto. Mas muitos, depois, “macacalizam” outrem. Conviria acabar com isso. Nisto do Je suis singe. E não preciso de roupa de (qualquer) marca para o mostrar.

Moçambique 2017: o que mudou nestes três últimos anos?

DSC00785Vivi 18 anos em Moçambique, que assim me ficou avunculátria. Há meses regressei ao país após 3 anos de ausência, uma estada de cinco deliciosas semanas. O rescaldo desta, pessoal e profissional, é matéria a partilhar com os meus próximos mas ficou-me algo mais público, o esgarçar da  minha mania blogal. Pois os tantos sinais que antes me fariam um feixe de postais foram ficando para trás, submersos por outro(s) compromisso(s). Mas pensei num postal mais abrangente, respondendo ao que nessas semanas tantos (talvez mesmo todos) por lá me perguntavam: “então?, o que achas que mudou no país durante estes três anos?“. É uma pergunta normal, sem malevolências epistemológicas, mas a transpirar a crença nas virtudes da empiria, aquilo de que a experiência veterana nos dá laivos de omnisciência. E também de alguma metafísica, nisso de esperar que o recuo, o assumir de um diferente ponto de tomada de vista, nos permite uma agudeza mental, mais elevada e iluminada (se telúrica demoníaca, se celeste angélica, venha o diabo e escolha).

Morreu 17 e já veio 18. E fiquei-me no silêncio. Credor de mim mesmo, da exprimir essa opinião, como se diagnóstico. E não só, pois ciente que se por cá, na minha pátria, a minha opinião sobre o “estado da arte” é irrelevante, que ninguém ma requere por mais que eu a esbraceje, por lá (a tal avunculátria) ainda há quem se dê ao trabalho de me questionar. O que também me desperta conclusões pessoais, a tais intímas exo-blogais. Por isso aqui deixo o meu testemunho sobre o Moçambique que encontrei após os tais três (vácuos) anos de ausência, esperando que isso seja produtivo para quem se interessa pelo país, quem o procura interpretar.

Fui à Ilha de Moçambique, para aí pela 25ª ou 30ª vez nestes últimos 20 anos. Antes como turista, funcionário diplomático, consultor, investigador, amigo. Agora fui para proferir uma conferência a convite da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas local, esse grande feito que a Universidade do Lúrio cometeu em 17. Fiquei uns dias, durante os quais revi os queridos amigos por lá. Um deles contou-me este episódio, sabendo de antemão que eu o apreciaria. Marcara ele um encontro com um conterrâneo, se nahara (local) ou macua (“viente”, como lá se diz) não explicitou, nem é relevante. Combinou-o para a pequena praça onde está a estátua (pavorosa, já agora) de Luís de Camões, monumento tardo-colonial. O interlocutor não o percebeu, àquilo da “estátua do Camões”. Ele explicou de novo. Sem se fazer entender. Insistiu, finalmente conseguindo o entendimento: “Ah!, a estátua do monstro que está a pedir dinheiro?!“.

Sei que isto pouca inteligibilidade dará aos meus patrícios veiculadores das virtudes lusófonas (grosso modo o rebanho de clientes financiados pelo Estado-PS) e aos moçambicanos letrados avessos àquilo dos “camponeses”, todos crentes (e menosprezadores) de um certo “atraso” africano. Ou “das nossas limitações”, como se diz em Maputo, a “Nação”. Mas talvez aos outros, às pessoas livres, este corolário, vindo deste velho já meio rebentado, possa servir para entender alguma coisa. Espero bem que sim, até porque mais não tenho para dizer. Nem o sei dizer de outro modo.

Centeno

Um freguês dos Olivais foi a ministro, “é um gosto vê-lo … seja Deus louvado“. Manda legislar (induz lei, exara decreto-lei, já nem lembro) para uns tipos, letra da lei à escolha dos beneficiados, para isso consultados. Há algum desconforto. Mas logo passa, coisa pouca afinal. Passam os meses, e o freguês é criticado. Apenas porque se fotografa com uma supra-pirosa. E porque pede um bilhete para ir à bola. Ele? “Vai na sege rica … é um gosto vê-lo … tem palavras ternas para cada lado … seja Deus louvado“. “Sou um seu criado” entoam. E são.

Natal

Correio_da_Manhã_TV

A ala Cancionite que polui a sociedade portuguesa abomina o amplexo CM (pois este, qual mastim, abocanhou o Sócrates, esse mesmo de quem a dita ala tanto gost[ou]a, em formato original ou sob mero avatar). Só por isso é-me o tal CM algo simpático, ainda que nunca o veja. Ou leia.

Dito isto, o meu jantar de ontem foi frugal, a sopa de legumes, uma singela posta de bacalhau com uma farripa de couves e uma batata cozida. Uma parca fatia de bolo-rei. Meio copo de vinho. Já na hora da ceia, em casa, uma colher de chá de lampreia de ovos e um dedal de uísque (um “rótulo preto” que uma querida amiga teve a caridade de me ofertar). Dormi bem e o suficiente. O mata-bicho foi torrada com manteiga, debruada com uma fina camada de ovo mexido, e um bom chá preto. Chego assim àquela hora do almoço o impecável que esta era etária me permite, sem azia, ressaca ou modorra. E até contaminado pela alegria que os familiares exsudam. Sem excesso de acedia ou ponta de ira. Ainda assim dou graças ao deus que a mole circundante comemora, no seu formato filial, ao encontrar aberto o estabelecimento “Ali”, onde os quatro empregados, decerto que infiéis e porventura indocumentados (como sói dizer-se), se afadigam a servir clientes solitários (ou sozinhos, vá-se lá saber …). Simpáticos, disponibilizam-se para me servir o par de bicas de que estou, apesar do já aludido bom “estado da arte”, necessitado. Sento-me a bebê-las na marquise a que chamam esplanada, decerto que feita à revelia de uma qualquer postura camarária. Na qual pontifica a CMTV, como é actualmente mandatório nos estabelecimentos de “restauração”, como é também agora curial referi-los.

Enquanto bebo o primeiro café e depois o segundo a televisão ali transmite a notícia de um atropelamento em Moscovo, 5 mortos e vários feridos numa escada do metropolitano. Distraio-me a acompanhar a notícia – o incidente (atentado?) foi filmado por câmaras de vigilância. A CM TV transmite, vejo ali no “Ali”, incessantemente as imagens do autocarro a descer umas escadas e a atropelar pessoas – fazendo-as literalmente desaparecer. Uma vez, segunda vez, terceira vez, quarta vez, etc … até eu acabar os cafés. Eu não me venho com uma merda destas (sim, é dia de Natal, um tipo não deve falar do pecaminoso onanismo, nem o próprio nem o alheio) e, como tal, levanto-me e vou fumar um cigarro para fora da marquise, perdão, da esplanada. A lamentar, mas com muito desprezo, a pobre gente que precisa disto para expelir fluídos.

Depois meto-me no carro, na via para norte do Tejo. Vou já Haddock. Podem os trastes que padecem de Cancionite (e tantos que propositadamente tatuaram essa maldita maleita) não gostar do amplexo CM. Mas isso não me impede de também o desprezar. Imenso. Acalmo no tabuleiro da ponte vermelha – a lembrar-me que é natal, é desaconselhável falar de política entre a família. Que ainda azedam as azevias e avinagra o vinho. E venho aqui ao blog. Serei assim melhor conviva para o repasto que se segue. E manter-me-ei frugal. Por causa dos tais efeitos colaterais, aquele da acedia, o outro da ira.

Moçambique, de José Cabral

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Hoje é a apresentação de “Moçambique”, o livro do fotógrafo moçambicano José Cabral (edição conjunta XYZ Books (Lisboa) / Associação Kulungwana (Maputo). Cerca de 150 fotografias, a maioria, como é costume no Cabral, no preto-e-branco mas também com uma incursão nas coloridas. O livro tem dois textos, enquadrando a “coisa”, um de Alexandre Pomar, que organizou a publicação, e outro de Drew Thompson, americano especialista na história da fotografia moçambicana. Hoje, dia da festa por causa do livro, o preço será de 20 euros, uma verdadeira pechincha para uma peça destas. A tal festa acontecerá no “Irreal”, Rua do Poço dos Negros, 59, em Lisboa, naquela hora das 19.

O Zé Cabral é um entroncamento na fotografia de Moçambique. Quem desta conhece algo sempre refere os mais-velhos, icónicos, pelas fotos e por eles próprios, tipos sui generis (passe a aparente contradição), ambos “maiores do que a vida”, Ricardo Rangel e Kok Nam, grandes fotorepórteres, que narraram e construíram a história do país, e que marcaram as gerações seguintes dos fotógrafos por lá. O Cabral vem a seguir, porque é mais novo, entenda-se, sui generis também, pois “mais complexo do que a vida”, e escapou-se à reportagem, pouco ou nada atreito à disciplina da imagem correcta para ilustrar o discurso correcto, requerido por quem a podia requerer. E assim se pôs a construir o seu mundo, num carinho sulfuroso. Foram estes seus passos que mostraram no país outra forma de falar com a câmara, essa que veio a impregnar os fotógrafos mais novos, que se têm agora tornado conhecidos: Felix Mula, Mauro Pinto, Mário Macilau, Filipe Branquinho.

Há alguns anos Alexandre Pomar escreveu o texto para o catálogo da exposição “Anjos Urbanos” e apanhou bem o Cabral.

Até logo?

Peçamos as desculpas …

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Não estará na altura de reabilitarmos Miguel Vasconcelos? Considerarmos que foi assassinado por crer no / praticar o “europeísmo” de então, avant la lettre? Pedir, até, “desculpa” à figura e aos seus descendentes? “Não matarás; mas quem assassinar estará sujeito a juízo” (Mateus 5: 21) não era então, desde antes e até agora, o valor dominante na Cristandade (hoje em dia dita Ocidente)?

O massacre de Bir al-Abed

al rawda

O escabroso ataque à simbólica mesquita Rawda, em Bir al-Abed, com 300 mortos num templo, passa um bocado ao lado das nossas preocupações, por ser “demasiado” longínquo. Mas, mais uma vez como em tantos outros atentados na Ásia e em África, demonstra que o que se passa na actualidade é uma guerra interna ao islão (religiosa: contra modos de ser islâmico; política: contra formas “moderadas” [atenção às aspas] de articular teologia com sociedade). E, também, subsidiariamente, contra os incréus, exógenos. Ou seja, por um lado não se reduz a uma guerra do Islão contra a Cristandade (ou o Ocidente), uma “Crescentada”, como gritam os radicais pró-fascizantes por cá; e por outro lado não é mero fruto da malevolência ocidental (aka, “os americanos”) e da falta de uma política de “integração” social europeia, como s’indignam os bloquistas melenchonistas.

Isto está escrito e reescrito por quem percebe da história do assunto e do presente do assunto. Mas como estes radicalismos, tanto os da dita “direita” como os da dita “esquerda”, sempre vivem da ileitura dos seus tontos apoiantes talvez estas monumentais desgraças possam servir para que alguns deles (poucos, que a maioria é mesmo burra) abram os olhos e percebam algo do mundo em que vivem.

Este Ano É Que É!

moreirense

(O Sporting foi empatar ao campo do Moreirense. O meu comentário no blog sportinguista És a Nossa Fé.)

O Jimmy Hagan, o do “no comments”, foi campeão sem derrotas. E também o Vilas Boas, que agora anda na árvore das patacas. Mas até eles empataram.

A gente tem um bom plantel, “profundo”, como se diz agora; houve belas contratações e bom saldo bancário, e tudo feito no tempo devido; não deixámos sair a torto e a direito, e ficou o Ruiz que devia ficar, que tão bom futebol mostrou no final da época passada, e o Iuri não seguiu lá para a Rússia, que tem muito para nos encantar; o JJ não foi para Paris, como “A Bola” tanto quis, e ainda bem, qu’é meio maluco mas sabe da poda; ganhámos os 6 jogos iniciais, coisa não vista há não sei quanto tempo, e melhor só o bom do grande Marinho Peres, no milénio passado; chegámos-nos (uff!!) à xampions: g’anda jogo em Bucareste e ainda melhor em Atenas; vêm aí os aviões Barça e Juve mas … será que?, se jogarmos como em Madrid o ano passado porque não?, a equipa concentrada, bem rodada, esmifradinha até, se calhar ainda passamos; ou então, paciência, que eles também são gigantes, venha a liga Europa; e troféus são necessários, que andamos à míngua, e há muito, venha a Lucílio e a Nacional (a última foi a do Iordanov, não foi?), e nessas até o filho do Bebeto (do Romário, pá, … não, do Bebeto) joga. Este ano é que é!

Um gajo empata? É a desgraça, “eu bem dizia”, “a mesma merda de sempre”, o plantel é curto, estreito como o campo dos Cónegos, o Jesus afinal é Judas (“sempre me pareceu, o gajo a mim nunca me enganou”), o Doumbia é dúbio, o Bas Dost é pior que o Maniche, o original, o Toscanini é tosco, o Mateus é velho, o Battaglia não ganha guerras, o Gelson já se julga Figo, e o pior de tudo é o Bruno, o César que já não pode, o Carvalho que é uma besta, e o Fernandes que se esconde.

Ontem vi um jogo. Um campo à antiga portuguesa, bom para jogos rasgadinhos, que o foi; o sempiterno professor Manuel Machado, treinador da bola, e a sua equipa, sem nomes mas com cabeça e alma. E um fiscal de linha (o da esquerda do ecrã) daqueles que “um grande é um grande”, que até eu saltei no sofá (que querem?, o Moreirense veste verde e branco, é mais forte que eu) com o fora-de-jogo que lhes inventou, o gatuno (foi a nosso favor? Ok, então foi um erro, é humano, só não erra quem não vai a jogo …). E vi o Sporting, a jogar à bola, não muito bem bem, mas também é assim, a ir até ao chuveirinho, porque era preciso. Mais um jogo neste caminho desta época, o do(s) título(a).

Porque Este Ano É Que É!