1928

Henri Michaux_Equador

1º de Fevereiro de 1928

Esta terra levou uma sova de exotismo. Se dentro de cem anos não conseguirmos entrar em contacto com outro planeta (mas lá chegaremos), a Humanidade está perdida. (Talvez nos reste o interior da terra …). Já não há maneira de viver, rebentamos pelas costuras, fazemos a guerra, fazemos tudo mal, não podemos mais continuar  sobre esta crosta. Sofremos mortalmente; de dimensão, do futuro da dimensão de que estamos privados, agora que nos cansámos de dar a volta à terra.

(Bem sei que reflexões destas chegam para que me desprezem como um espírito de quarta ordem)”.

Henri Michaux (Equador, Fenda, 1999 [1929]: 35)

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Ao ir-me embora

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Após três anos e tal de Portugal vou emigrar de novo, ainda este mês. Já estive 18 anos fora, como tal não faço tocar a cançoneta da emigração com que o zarolho Abrunhosa se associou à demagógica campanha socratista contra o anterior governo. Em tempos de skype, facebook, whatsapp, twitter, voos baratos, auto-estradas (já só não há CTT), partir para tão longe como Nampula é de Maputo (e lá os voos são caros) não dá para as velhinhas vestidas de negro chorarem “o meu menino é d’oiro“.

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A ralé

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De quando em vez vejo esta magnífica ilustração. Se há coisa em que sou progressista (crente no Iluminismo) é no assunto das tatuagens: tenho compreensão sociológica para com as velhas inscrições nos braços masculinos (“Amor de mãe, Guiné 1970-1973” ou similar) e pelos quadrados de pequenos cinco pontos nas costas da mão. Por toda a restante ralé tatuada tenho um profundo nojo – já demencial após 3 anos e tal de Lisboa oriental, na qual abundam trogloditas deste tipo. Em dias aprazíveis sonho com o seu extermínio. Nos mais aziagos planeio-o.

Mas esta ilustração, magnífica, repito-o, ainda me arranca um sorriso. Antevejo 2036, a ralé rugosa, cheia de papadas e pregas, os “desenhos” “identitários” descaídos, ainda mais imunda do que agora. Nós, “peles-lisas”, evitando-os. Com asco.

A discussão sobre as escravaturas

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Portugal “É também o local onde nasceu a escravatura e por isso há tantas influências musicais de Angola e Cabo Verde e também de Espanha.” – são as declarações de Madonna transcritas pelo Jornal de Notícias (ou será uma construção do jornalista João Manuel Farinha, mas quero duvidar, seria demasiado atrevimento). Só por si a afirmação seria risível. Mas serve que nem uma luva para a campanha obscurantista em curso, adequa-se.

Nos últimos dias dois nomes conhecidos do agit-prop falsificaram a obra de um historiador, especialista no tema do escravismo (as pessoas interessadas na História, que tanto resmungaram com a nomeação de Santana Lopes para a vetusta Academia de História, num estatuto peculiar, a este tipo de coisas dizem … nada, que para isso não lhes sobra a atenção). Li ontem um artigo da BBC, enviado por um queridíssimo colega moçambicano, e crente neste tipo de tralha, sobre o “tabu do racismo que se vive em Portugal“, assente na temática do escravismo e adornado por declarações ridículas do líder do Movimento Internacional Lusófono contrapostas a elaborações historicistas desaustinadas de alguns académicos, em prol do “afrodescendentismo”.

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O “nosso menino”

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Vai para aí uma grande confusão devido ao “menino deles”, o “nosso menino” Robles (como diz o Fernando Rosas), sobre o que é ser “de esquerda” (e apoiada por alguns textos dos antes ditos “jornais de referência” – e destaco, nesse confusionismo, este texto de Ferreira Fernandes). O que implicará isto: Robles é agora queimado na hasta pública, os que não gostam(os) do BE dançam(os), os do BE atirarão as suas cinzas janela fora e sentir-se-ão expurgados do demo que lhes entrou porta dentro, Robles venderá o prédio por menos um milhãozito, empocha uma boa maquia. E segue a marinha … tudo igual como dantes.

Há vários níveis da questão, e não vou fazer um ensaio (dominical) sobre o assunto, apenas deixo apontamentos de memórias. O mais importante é mesmo o da sociologia do poder: a participação dos políticos profissionais neste “boom” de negócios imobiliários inibe uma política estatal (entenda-se, societal) de algum ordenamento, sociologicamente iluminado, das transformações urbanas. O casal Costa está a fazer pequenos lucros em meia dúzia de negócios de modestos apartamentos? É isso imoral? Não me parece. É uma questão da “mulher de César”? Não, porque as mulheres dos Césares são normalmente umas ordinárias, tirânicas e ninfomaníacas. Mas mostra como um nicho de gente oriundo da pequena-burguesia e que vive da política está permeável a este inesperado mecanismo lucrativo, o que constrange, com toda a certeza, a forma (cultural, intelectual) como encaram politicamente a situação que as cidades do país estão a cruzar. Ou seja, esta participação tem efeitos, políticos e sociais. Negativos, até naturalizando estes processos, no culto idólatra do fétiche do mercado.

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Na torre de anúncios

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Já é noite e saio do centro comercial, aqui dito xópingue, sotaque do dialecto local, e rumo a casa,  mesmo defronte. Quando me chego ao atravessar da rua noto que debaixo da torre de anúncios, falha de iluminação e com cromos em falta, espaços vazios que anunciam a pobreza que circunda, desavergonhada, encostado ao canteiro que lhe é base está um tipo deitado, protegido por um velho guarda-sol de praia, branco na noite. Vou até ele a perguntar-lhe “vai dormir aqui?” e ele que sim, “que é o meu lugar”, conclusão que será só dele, que nunca vi vagabundos por aqui aboletados. Está mal preparado, deitado num pequeno cartão, só um saco de plástico com um qualquer não sei o quê. Pergunto-lhe se já comeu, ele agita-se, sobreergue-se no cotovelo, e que sim e abana na mão esquerda um nota de dez euros, dobrada em quatro, como se ma quisesse dar, “não quero o teu dinheiro”, digo-lhe, abismado, “é o meu lugar este”, reafirma-me, até frenético, tartamudeia e nem o percebo, aterrado vendo-o vendo-me dele concorrente, eu ali, hirsuto todo já branco, uma t-shirt desbotada se calhar já não de hoje, calças de ganga sujas que federão a tabaco, que quando a adolescente nem está até esqueço de tudo isso e do resto, pois para quê?,

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Na esplanada do bairro

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Sento-me na esplanada, o cliente (habitual) que está ao balcão sai, cruza-me no passeio, peida-se à minha frente, senta-se no banco de jardim, escarra, espera , desdobra o lenço, assoa-se com denodo, guarda o lençol, já reconfortado. Escarra de novo, levanta- se e segue de volta ao balcão. E esta é a pastelaria mais aburguesada de toda a freguesia …

As eleições do Sporting

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As eleições no Sporting aproximam-se. Várias (proto-)candidaturas e algumas listas já conhecidas. Olha-se para alguns nomes e treme-se: numa lista está Carmona Rodrigues, esse que disse (na TV!) oferecer consultorias da câmara de Lisboa aos membros de um partido, para que este o apoiasse numas eleições. E continua a sair à rua, o energúmeno.

Noutra lista está como candidato a presidente da mesa (o número 1 do clube) o político Vitalino Canas. A este, então secretário de estado, cruzei em Maputo em 1998. Deixo ligação a um velho texto meu, memória desses tempos. Pois Canas foi, com excepção de deficientes oficialmente encartados, o gajo mais burro que eu encontrei na vida. A um breve passo da inimputabilidade. Mal vai o meu Sporting com candidatos destes.

A minha França

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1. Fiz, e ainda faço, a minha França com Goscinny, filho de polacos. E depois com a Senhora Condessa de Ségur, russa, Feval, meio-bretão, Dumas, mulato neto de escrava, Verne, Louis de Funés, espanhol. A seguir, com meu pai, com Tati (também russo, italiano e holandês). Depois, já mais crescidote, com o retornado Camus, o universal Céline (que vos desnudou a todos), e a afinal belga Yourcenar. Depois, adulto, só lembro mesmo Bourdieu, Tardi e Aron, judeu. Podem pensar o que quiserem mas tenho um enorme desprezo pelos imundos racistas, vocês, e principalmente por aqueles que fizeram o liceu e até mais, que andam por aí a referir, brincar ou invectivar a “multiculturalidade” da equipa francesa. Sois uns ignorantes, provavelmente porque filhos de ignorantes. E sois uns vis racistas – seja qual for a vossa cor. Filhos de gente dessa. Pois só a cor da gente, a que chamais agora “cultura”, vos chama a atenção.

2. São também muitos, de várias cores, que invectivam o fruto do colonialismo e da globalização capitalista que é esta selecção francesa. São os mesmos que nos bombardeiam com a obrigatoriedade moral, histórica e política dos países europeus em abrir as fronteiras àqueles a que chamam refugiados (e invectivando quem lhes chama aquilo que são, na sua maioria, imigrantes). É uma gente falsária. Racista e falsária. E são “cool”, coleccionam laiques dos vilãos racistas

10 de Junho de 1990

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foi o dia em que pisei pela primeira vez o relvado do estádio José de Alvalade. Dia de sonhos cumpridos. Lá fui, bem acompanhado, mas para nos encontrarmos com tantos amigos, que era dia de geração. “Então como combinamos?“, muitos me perguntaram, sabendo-me habitual no estádio, mas nas bancadas, para que indicasse eu pontos de referência. Que “entra-se para o relvado” (quem é que vai ver Stones e se senta na bancada, francamente …!) e “vai-se para o sítio onde o Oceano joga“, a todos indiquei. “Onde é?“, perguntavam. “Em todo o relvado, claro“, que a gente logo se encontraria. E encontrámos. Para ver o Kiff, the Riff, ali na minha frente, na então anunciada última digressão dos Stones (há 28 anos!). E o Jagger, que hoje faz … 75 anos! Uff, ambos, estes Glimmer Twins, quais Cristianos Ronaldos do rock n’roll. E viva o Oceano, o todo-o-relvado, sempre!