O Brasil, a igreja católica (e os opinadores portugueses)

brasil

Bolsonaro é apoiado por várias igrejas evangélicas – sobre cujas dimensões mariolas e comerciais poucas dúvidas haverá. E é certo que IURD e afins já apoiaram o PT (business as usual …). Mas agora bolsonarizam. Que diz a igreja católica, tradicionalmente menos explícita nos seus apoios? Consulto o insuspeito Vatican News e noto que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil já apelara, em Abril, à participação dos católicos nas eleições, para isso evocando considerações do actual Papa e fundando-se nas perspectivas de Bento XVI. E encontro o texto produzido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta semana (23 e 24 de Outubro): “Nota da CNBB por ocasião do segundo turno das eleições de 2018“.

Ler mais

Anúncios

Se Deus Quiser

safe_image

Tabu de Marcelo: diz que não faz mais campanhas “se Deus quiser”; e recandidatura “está nas mãos de Deus”.

A forma como os locutores da tv estatal se dirigem aos “caros telespectadores” é algo relevante e passível de crítica. Não só pela disseminação do sotaque televisivo (a potenciação do canibalismo fonético da classe média lisboeta) que muito obsta à nossa compreensão pelos outros falantes de português – que é algo relevante quando se discute o AO90, ainda que os especialistas lusocentrados, mesmo quando oponentes daquela tralha, nunca notam. Ouçam com atenção António Costa a falar (o qual, de facto, fala só um bocadinho pior do que eu) para atentar neste “linguacídio” (diz-se glotocício, mas enfim, há quem esqueça o termo) em marcha … 

Mas há outros detalhes. Há anos muito me irritava, por descabido, o piscar de olho com que JRS se despedia no final do telejornal (“quem é este gajo para nos piscar o olho?”). E, mais do que tudo, irritava-me, e cheguei a blogar sobre isso, logo no início da minha blogomania, em Dezembro de 2003, a descabida expressão de José Alberto Carvalho que costumava anunciar, impante, ser o telejornal transmitido para “todo o mundo português”. Saberia o tipo sabia que passava em directo na RTP-África? Não haveria alguém que lhe dissesse (e não havia mesmo) o bafiento tom colonial que isso transmitia?

Mas enfim, leio agora que uma conhecida jornalista critica uma colega por se despedir com o tão usual “se Deus quiser”. Como ateu e defensor da laicidade dos serviços estatais também concordo, “não havia necessidade” como dizia o grande humorista …

E lembro-me de tempos muito recuados, quando vigorava o “compromisso histórico”, como se diz geringonça em italiano, no português arcaico erudito dito “bloco central”, quando as instituições se congregavam para trancar as investigações sobre as aleivosias dos políticos, em suma quando do PR se esperava que ajudasse a correr com a procuradora-geral da República, para Sócrates, sua “entourage“, a elite socialista, e os “clientes” do grande banco privado brindassem, suspirando de alívio. Nesses tão recuados tempos as prestigiadas jornalistas, alimentadoras e apoiantes de blogs anónimos e remunerados (quais Steve Bannions avant la lettre, ainda que artesanais) não se incomodavam com as figuras estatais a invocarem deus. Nem mesmo que fosse o PR.

Mas agora, nesta nova era? Resolvida a tarefa? Calafetado o caminho? Ofendem-se muito com as alusões às divindades … Deus Nosso Senhor nos valha, que vem aí borrasca. Lá dentro do bloco central.

As crendices

buda24

(texto longo, a exorcizar a irritação):

Vou-me casar. Depois de amanhã. Apanho o avião, de Maputo para Lisboa, tão perto da cerimónia que até causei algum “frisson” nos meus mais próximos, até no geral dos convidados, naquilo do “se no caminho acontece alguma coisa…”, um qualquer algo que possa prejudicar a cerimónia. A minha noiva, a mulher da minha vida, por quem estou apaixonado, apesar desta idade que já me ocorre, veio à frente, há já quatro dias, para ultimar preparativos.

Entro no avião e constato que o acaso me senta ao lado de um conhecido. Jurista, antigo cooperante na Universidade Eduardo Mondlane, agora visita recorrente em Maputo, e com o qual já organizei sessões comuns, palestras e até sessões de apresentação de uma revista que ele coordena. Um tipo refinado, daqueles que percebi acima da mole que o Estado partidarizado costuma catapultar. Sorri-me, saúda e saudamos a coincidência, que nos faz juntos nesta noite de cruzarmos tamanha distância.

Bagagens arrumadas, preparativos terminados, cintos apertados, livros e revistas nos bolsos dianteiros, o avião parte. Conversamos, pergunta-me sobre a sempre complexa situação política moçambicana, de qual a minha opinião sobre o propalado “potencial económico” do país, acerca das competências e incompetências da política europeia, a célebre “ajuda”. Claro que abordamos a situação da dita “comunidade” portuguesa, tão aumentada nestes últimos anos. Fiel ao meu percurso inflicto para algumas recentes mutações nas artes visuais e até na literatura do país, procurando alertá-lo para vultos diversos dos já sacralizados.

Ler mais

Fazedor de Chuva

rainmaker

O cardeal de Lisboa, Manuel Clemente, anunciou que quer fazer chuva. Associo-me ao seu benéfico esforço partilhando imagem de um dos seus colegas, sito entre os Kxatla (na África do Sul), aqui rodeado dos seus paroquianos enquanto promovia chuvadas, cerca dos anos 1920s (eu suponho que a fotografia é do grande Isaac Schapera mas não consigo comprovar isso).

Terrorismo

super_imglua-crescente-e-estrela

Quando eu era miúdo havia os marxistas, nas suas diferenças: Zhivkov ordenou o assassinato do Papa; Brejnev gulaguizava os povos de leste; Mao havia massacrado o seu povo e Pol Pot fazia-o; os Baader-Meinhof aterrorizavam, tal como os etarras e as brigadas vermelhas; Neto era o que era. Mas também vinham Berlinguer, até talvez Marchais, Willy Brandt, Amílcar Cabral, Palme, Allende, Carrillo. Que pensavam coisas diferentes, entre si e daqueles outros. Que o diziam, propunham, clamavam. Até denunciavam. Ouviam-se (mesmo sem redes sociais e a infinita tv por satélite). A gente destrinçava. Percebia quem era o inimigo raivoso, furioso. E aquele que apenas tinha perspectivas diferentes. Mário Soares não era Arnaldo de Matos, o MES não era a LCI ou a UDP.

Agora, na sua pluralidade, a cosmologia política adversa é o islamismo. Tem imensas diferenças entre si. E integra algumas fracções vindas deste demónio da modernidade, o integrismo/fundamentalismo. Aquilo que agora é mesmo diferente é que não ouvimos os líderes das maiorias pacíficas que habitam aquela cosmologia a constantemente denunciarem, criticarem, perseguirem a matilha assassina. “Isto não é o islão”, balbuciam, por vezes, quase como se a pedido. A gente sabe que são direcções políticas (há quem lhes chame clero) mais descentralizadas do que os nossas. Mas o seu silêncio é ensurdecedor. E é também ele que alimenta as generalizações, o preconceito. Não é a “nossa” ôntica maldade ..

Fátima, segundo Vasco Pulido Valente

Pilgrims-at-the-Shrine-of-Fatima

Começo por lembrar que em 2010, centenário da instauração de república em Portugal, o papa Bento XVI (para além de tudo o mais um intelectual muitíssimo respeitável) visitou Portugal e Fátima durante o 13 de Maio. Com óbvio, mas então “esquecido”, significado político. “Esquecido” pois se a infalibilidade dos Papas já não é dogma as questões da dimensão estritamente política da acção deles continua a ser capeada pela retórica metafísica.

Sobre este fenómeno de Fátima deixo excerto de um texto de 1992 da autoria de Vasco Pulido Valente (“A República Velha“), publicado em livro em 1997 pela Gradiva. Um excerto que dedico àqueles que pensam (e o têm dito) que não se deve questionar a “fé” nem cutucar este fenómeno fatiminiano. Quadro de pensamento que não utilizam para tudo o mais, nem mesmo para as outras as actividades e suposições dos crentes em outras fés.

Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (Vasco Pulido Valente, A República Velha, Gradiva, 1997, pp. 115-117)