Notre-Dame de Paris e o racismo negro

Partilho este filme, do Le Monde, para ilustrar um postal sobre o que li num mural de FB de um fotógrafo moçambicano. Gente invectivando quem se comoveu (e o mostrou, partilhando notícias e/ou comentando-as) com o incêndio da Notre-Dame. O autor devido a isso chamando-nos estúpidos, “falsa gente”, sendo, para meu estupor, aplaudido até por escritora de livros infantis e artistas plásticos – que artista plástico aplaude o vitupério de um “edifício velho” como a Notre-Dame de Paris? Gente clamando que essa (a igreja) “são coisas dos brancos”, e protestando contra os negros que se preocupam com o tal “edifício velho”. Que fique explícito, ninguém é obrigado a gostar de igrejas ou de monumentos históricos. Mas este fel, esta radical aversão ao que é dos “brancos”, tem um nome: racismo. É um racismo fascista, obscurantista. Que muitos não são capazes de reconhecer, porque prisioneiros do arquétipo do fascista cabeça-rapada, supremacista branco (ou japonês, lembro para quem se esqueça da História), portador de insígnias (tatuadas ou amovíveis) já consagradas. Este fascismo africano, “negro”, é tão boçal, racista e agressivo como o euro/américo-asiático, “branco/amarelo” tradicional, e tem os seus ícones (Malema talvez o mais da moda – e lembro do meu espanto preocupado quando já nesta década a juventude do Frelimo surgiu num congresso do partido com as boinas típicas do movimento de Malema, algo felizmente depois extirpado mas que mostrou a receptividade ao radicalismo racista/fascista por parte de alguns sectores mais jovens do partido).

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Ba e os Outros

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Ao invés de muita gente cada vez mais gosto do Dr. Ba (líder da secção do BE chamada SOS Racismo). Digo-o sem ironia (ou sarcasmo): é um tipo atrevido, e isso é de louvar (ainda para mais no país do respeitinho). Imigrante, oriundo de África (não sei se já é português, mas isso para o caso é irrelevante) atreve-se a botar o que pensa, não se coíbe. Muito saúdo isso. Discordo do que o homem pensa? Pelo que vou lendo vou discordando, mas isso nem é importante. O que é relevante são dois corolários que retiro do que dele vou lendo:

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José Nuno Martins e a Besta Negra

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José Nuno Martins chamou “besta negra” ao Jorge Andrade e caiu o Carmo e a Trindade. O Jorge Andrade, que eu saiba, não reagiu ao dichote mas já reconheceu que se havia “esticado”. Ele foi um extraordinário jogador, um magnífico defesa-central (muito prejudicado por lesões) e é um homem simpaticíssimo e muito bem-disposto. E “esticou-se” porque disse na tv que ao miúdo-maravilha que por ora desponta no Benfica ele “daria um pisão”, para o amansar em campo. Sejamos francos, é o que os gajos da bola fazem. E é o que os gajos da bola falam. Mas não em público, claro, que a compostura e o respeitinho são muito apreciados. Faltou ao Jorge Andrade mudar de registo (de “chip” diz-se agora), ali no estúdio da tv. E, francamente, para quem gosta de futebol, para além dos clubes, este miúdo, que dá pela graça de João Félix, é um regalo, o franzino reguila artista, o tipo de jogador que nós povo adoramos: guardem lá os “pisões” para outros morcões …

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Ba e a polícia

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Ba disse que a polícia é uma “bosta” (nota: “bosta” é um termo canónico). Muita gente indigna-se, pois Ba é do BE e não deveria dizer isso. Torço o nariz. Não sei se ele tem razão na interpretação do caso que causou as declarações – pelo que se vê nas curtas imagens, feitas pela vizinhança, é um típico caso de “porrada no beco”, com os cidadãos a investirem contra os polícias ali convocados para sanarem a situação. E estes a responderem. E daquele pouco que tenho lido de Ba e seus correligionários – alguns deles demagogos com palco usual no jornal “Público” e galões universitários – acho aquele discurso histriónico e sob uma ideologia execrável: são racialistas, e no caso dos académicos a adesão a essa ideologia é uma estratégia de obtenção de recursos, económicos e estatutários. Mas isso são contas de outros rosários.

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Preconceitos e Judite de Sousa

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Nos dias actuais vigora a ideia de que não se pode ter preconceitos – algo que parece ser sinónimo do iluminismo, qualquer coisa como o cume da evolução da inteligência humana, da razão. E, assim sendo, urge que deles nos depuremos. E isso deve ser exercido também nas formas de tratamento, como nos dirigimos aos outros, como os nomeamos. Mesmo em relação aos que nos são mais próximos. Pois essas formas estão impregnadas de desvalorizações, relações de poder implícitas ou explícitas, categorizações que nos hierarquizam e a tantos amesquinham, mesmo  violentam. E nisso, por vezes, somos surpreendidos com as oposições que, cândidos, geramos. Muito me lembro do meu espanto quando, há cerca de 15 anos, uma colega antropóloga, feminista radical, me invectivou violentamente por eu ter referido, com evidente desvelo amoroso, “a minha mulher”. “É tua propriedade? és dono dela?“, clamou, La Pasionaria do género … Eu ainda tentei contribuir, anunciar a minha certeza (empírica até) de que me seria dedicado aquilo do “o meu marido” (ou até o mais coloquial “o meu homem”). Mas de nada serviu essa tentativa de defesa, e a inexistência da minha auto-crítica pública por esse “desvio de direita (machista)” esfriou o nosso relacionamento.

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Destituição?

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(Postal no Delito de Opinião)

Isto começou com alguns conhecidos jornalistas da esquerda socialista que botam nos “jornais de referência”, foi secundado por “opinadores”. Para meu espanto até por antropólogos (ironizo um pouco quanto a este espanto, no seio da corporação surpreende-me a desfaçatez mas não o pensamento). Defende-se o escrutínio dos votos dos imigrantes brasileiros em Portugal para opinar sobre a pertinência da sua permanência no país. A indução de um ambiente de pressão, moral que seja, sobre essa “comunidade” – que será muito mais um colectivo inorgânico de indivíduos, contendo alguns núcleos de sociabilidade e de entrejuda mas não exclusivos. De facto, a exigência que estes cidadãos legalmente residentes (“documentados”, na gíria politicamente correcta desta falsa “esquerda”) assumam – relativamente ao seu país e, em sentido lato, face ao mundo – os valores político-culturais putativamente dominantes na sociedade que os acolheu. Nos termos dos intelectuais (e dos antropólogos em particular) trata-se da exigência de uma “assimilação”, perspectiva sempre contestada quando relativa a imigrantes oriundos da Ásia ou da África. Uma vontade assimiladora que é sempre dita efeito de racismo, de lusotropicalismo, de imperialismo, de (neo)colonialismo (o prefixo está a ficar em desuso muito por influência do pensamento boaventuriano, que tornou “colonialismo” um all aboardpara definir a história moderna e contemporânea).

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O turismo da escravocracia

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Vejo e vou ler, com interesse. Um pequeno artigo, simpática divulgação sobre um roteiro turístico dedicado à memória da Lisboa escravocrata. Trata-se de um passeio pedestre de 5 horas em Lisboa, apetecível, até porque conduzido por um estrangeiro, assim muito provavelmente menos atreito a ecoar os nossos lugares-comuns, a fazer-nos turistas da nossa própria história, assim a desconhecer-nos. Deve ser interessante, de preferência quando parar de chover.

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H&M

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Uma boa provocação serve para agitar as lamacentas mentes. Mas esta não o é. O que se passará nas “cabeças” dos “criativos” e dos aprovadores desta campanha do H&M (entretanto retirada)? Sim, somos todos (primos de) macacos. Mas meter um miúdo “branco” ou “amarelo” nestes propósitos seria uma coisa (e teria sido bem sacada), meter um “preto” é outra – a quantidade de vezes que ouvi chamar “macaco” a “pretos”, e não é preciso ir ao futebol para isso, mostra bem o desadequado disto. Não é só de “brancos” ou “amarelos” para “pretos” (ou de “brancos” para “amarelos” e vice-versa) – e lembro-me do meu espanto ao ouvir um músico maputense, pela primeira vez na Ilha de Moçambique, dizer dos naharas – que defecam na praia, vivem aglomerados no macuti, etc. – “estes tipos são uns macacos”. Mas é, neste mundo global, acima de tudo uma desvalorização, um atraso ontológico atribuído àquela outra “raça”, principalmente à “negra”. Todos protestarão contra isto. Mas muitos, depois, “macacalizam” outrem. Conviria acabar com isso. Nisto do Je suis singe. E não preciso de roupa de (qualquer) marca para o mostrar.

A carta racial

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Diz-se que a beleza está nos olhos de quem vê, cada cabeça sua sentença, etc. Mas é óbvio que nem seria preciso ir buscar um ícone como Richard Gere para assegurar a unanimidade desta afirmação: este sexagenário é muito mais agradável à vista do que a carantonha do perfil deste bloguista ou do que a do presidente da Assembleia da República portuguesa. Ou seja, em termos estéticos pode haver proclamações universais. Ou, pelo menos, avaliações mais ou menos abrangentes, pouco refutáveis.

Dito isto, leio que Rita Ferro Rodrigues, conhecida apresentadora de tv, protesta com o facto das 4 apresentadoras escolhidas para o festival da eurovisão serem brancas, por ser isso uma falta de representatividade. Mais uma vez vai a jogo a “carta racial”, nisto de se exigir que se repartam os trabalhos “representativos” por aqueles que têm diferentes legados genéticos. Algo que o eixo PS-BE entende agora muito importante. O que é relevante é o que isto esconde, nas suas vestes de aparência analítica. Pois vejo a foto das 4 seleccionadas. Só conheço uma, com a qual confesso continuo a abanar à sua visão, Catarina Furtado. As outras 3 desconheço, nem serão beldades olímpicas mas têm um (relativo) palmo de cara, apreensível por esta minha vista desarmada. O que Rita Ferro Rodrigues não pergunta (porque não consegue?, porque não quer?) é quais são os critérios de “representatividade” que existem quando as caras da TV são tendencialmente bonitas? Que lugares há para as mulheres com as quais me cruzo no quotidiano, agradáveis ou desagradáveis à vista? Nas caixas, nos guichets, nos restaurantes, nas lojas, em empregos mais ou menos destinados a mulheres relativamente novas e com poucos (ou pouco especializados) estudos? Esse legado genético (e as possibilidades económicas destinadas às plásticas ou rearranjos externos) pouco lhe(s) importa(m). A única coisa que é relevante, porque está na moda, na crista da onda do surf, é a “carta racial”. Meta-se uma mulata, uma macaísta, que tudo vai bem. Desde que “as nossas meninas” (como dizia o insuspeito Rosas) sejam bonitas. Porque isso é “natural” …

E depois os reaccionários, os racistas, os lusotropicalistas são os outros. Brancos, claro.

Racializar Portugal

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A propósito deste artigo do “Público”, “Governo quer que Censos tenha dados étnicos da população“.

Ora lá está, vem aí a racialização da sociedade. A “etnia” (tribal) das certezas lá virá chamar-nos, aos que a isto se opõem, “fascistas”, “racistas”, “xenófobos”, “escravistas”, “colonialistas” e, pior do que tudo, “neoliberais”. Muito provavelmente esta é uma causa perdida. Pois nestas coisas da ideologia identitarista o PCP assobia para o lado (as suas questões são outras) e não se oporá, para o BE isto é a razão de ser retórica – de facto, quase ninguém na sua base social de apoio quer viver numa sociedade correspondente aos “modelos” que os partidos coligados perseguem, só querem mais redistribuição de recursos estatais. E ao PS convém-lhe, para atrair os pequeno-burgueses urbanos mais dados às “causas” festivas, e para os lucros na táctica de cabotagem governativa.

Ainda assim, porque isto é um dislate execrável, e não só por ser a refracção das concepções dominantes nos EUA, há que enfrentar esta palhaçada da racialização da sociedade. E não é com (já as antevejo) declarações líricas do “lusotropicalismo”, Portugal “país de brandos costumes”, “multirracial” e “lusófono” a la família Rebelo de Sousa ou ministro Castro Mendes. A discriminação racial existe? Enfrente-se. Mas não deste modo, nunca deste modo. Para uma posição mais-do-que-lúcida cito excerto de um texto de 2006 dos antropólogos brasileiros Yvonne Maggie e Peter Fry, sobre esta questão no seu país, e que explicitam exactamente o que está em causa. E porque nos devemos bater contra esta aparente “boa intenção”:

O que está em pauta são dois projetos de combate ao racismo: um pela via do fortalecimento das identidades “raciais” ( …); outro pela via do anti-racismo que procura concentrar esforços na diminuição das diferenças de classe e uma luta contínua contra as representações negativas atribuídas às pessoas mais escuras. Esses projetos também são projetos distintos de nação. Um vislumbra uma nação pautada das diferenças “étnicas/raciais”—isto é uma nação de comunidades. Outro projeto aposta na construção de uma cidadania com direitos em comum independentemente de “raça”, “etnia”, gênero, orientação sexual, etc., salvaguardando o direito de cada individuo a seguir o estilo de vida que mais lhe convém—isto é uma nação de indivíduos. Enfim, argumentamos que não se pode acabar com o racismo com uma política que entroniza a “raça”. Quando o Estado legisla sobre esta matéria ele funda a “raça”, cria justamente aquilo que quer ver destruído. Merecemos melhor solução para os graves problemas que nos assolam“.

Veja-se o texto do Público que está aqui ligado, de Gorjão Henriques, jornalista que se tem dedicado à questão do racismo em Portugal e que é considerada especialista na matéria. O conteúdo é elucidativo da trapalhada ideológica (e desonesta) que os defensores desta questão colocam: o título diz que os censos querem dados “étnicos” (como se a etnia fosse uma realidade objectiva, o que é o cúmulo da ignorância). Depois o texto diz “A resposta iria permitir saber, no quadro da população, quantos portugueses negros, ciganos, de origem indo-asiática e outros não-brancos existem”. Um “português negro” tem etnia? [E o que é “negro”, a cena do “one-drop” americana? a auto-definição? e muito mais questões]. Há alguma etnia “indo-asiática”? O que é dado étnico para alguém que venha ou seja descendente do subcontinente indiano? Que dado étnico permite agregar “não-branco”? Etc. Ou seja, o artigo de jornal fala de “raça” e são as categorias raciais (que não são objectivas, mas isso não lhe(s) interessa) que defende constituir nos censos. Mas esconde o assunto através do reenvio para a “etnia”, que é um conceito que nem sabe utilizar. E isto não é um defeito da senhora que escreve, é a amálgama atrapalhada e viscosa de quem vai defender isto. É uma vergonha.