O turismo da escravocracia

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Vejo e vou ler, com interesse. Um pequeno artigo, simpática divulgação sobre um roteiro turístico dedicado à memória da Lisboa escravocrata. Trata-se de um passeio pedestre de 5 horas em Lisboa, apetecível, até porque conduzido por um estrangeiro, assim muito provavelmente menos atreito a ecoar os nossos lugares-comuns, a fazer-nos turistas da nossa própria história, assim a desconhecer-nos. Deve ser interessante, de preferência quando parar de chover.

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H&M

HEM

Uma boa provocação serve para agitar as lamacentas mentes. Mas esta não o é. O que se passará nas “cabeças” dos “criativos” e dos aprovadores desta campanha do H&M (entretanto retirada)? Sim, somos todos (primos de) macacos. Mas meter um miúdo “branco” ou “amarelo” nestes propósitos seria uma coisa (e teria sido bem sacada), meter um “preto” é outra – a quantidade de vezes que ouvi chamar “macaco” a “pretos”, e não é preciso ir ao futebol para isso, mostra bem o desadequado disto. Não é só de “brancos” ou “amarelos” para “pretos” (ou de “brancos” para “amarelos” e vice-versa) – e lembro-me do meu espanto ao ouvir um músico maputense, pela primeira vez na Ilha de Moçambique, dizer dos naharas – que defecam na praia, vivem aglomerados no macuti, etc. – “estes tipos são uns macacos”. Mas é, neste mundo global, acima de tudo uma desvalorização, um atraso ontológico atribuído àquela outra “raça”, principalmente à “negra”. Todos protestarão contra isto. Mas muitos, depois, “macacalizam” outrem. Conviria acabar com isso. Nisto do Je suis singe. E não preciso de roupa de (qualquer) marca para o mostrar.

A carta racial

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Diz-se que a beleza está nos olhos de quem vê, cada cabeça sua sentença, etc. Mas é óbvio que nem seria preciso ir buscar um ícone como Richard Gere para assegurar a unanimidade desta afirmação: este sexagenário é muito mais agradável à vista do que a carantonha do perfil deste bloguista ou do que a do presidente da Assembleia da República portuguesa. Ou seja, em termos estéticos pode haver proclamações universais. Ou, pelo menos, avaliações mais ou menos abrangentes, pouco refutáveis.

Dito isto, leio que Rita Ferro Rodrigues, conhecida apresentadora de tv, protesta com o facto das 4 apresentadoras escolhidas para o festival da eurovisão serem brancas, por ser isso uma falta de representatividade. Mais uma vez vai a jogo a “carta racial”, nisto de se exigir que se repartam os trabalhos “representativos” por aqueles que têm diferentes legados genéticos. Algo que o eixo PS-BE entende agora muito importante. O que é relevante é o que isto esconde, nas suas vestes de aparência analítica. Pois vejo a foto das 4 seleccionadas. Só conheço uma, com a qual confesso continuo a abanar à sua visão, Catarina Furtado. As outras 3 desconheço, nem serão beldades olímpicas mas têm um (relativo) palmo de cara, apreensível por esta minha vista desarmada. O que Rita Ferro Rodrigues não pergunta (porque não consegue?, porque não quer?) é quais são os critérios de “representatividade” que existem quando as caras da TV são tendencialmente bonitas? Que lugares há para as mulheres com as quais me cruzo no quotidiano, agradáveis ou desagradáveis à vista? Nas caixas, nos guichets, nos restaurantes, nas lojas, em empregos mais ou menos destinados a mulheres relativamente novas e com poucos (ou pouco especializados) estudos? Esse legado genético (e as possibilidades económicas destinadas às plásticas ou rearranjos externos) pouco lhe(s) importa(m). A única coisa que é relevante, porque está na moda, na crista da onda do surf, é a “carta racial”. Meta-se uma mulata, uma macaísta, que tudo vai bem. Desde que “as nossas meninas” (como dizia o insuspeito Rosas) sejam bonitas. Porque isso é “natural” …

E depois os reaccionários, os racistas, os lusotropicalistas são os outros. Brancos, claro.

Racializar Portugal

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A propósito deste artigo do “Público”, “Governo quer que Censos tenha dados étnicos da população“.

Ora lá está, vem aí a racialização da sociedade. A “etnia” (tribal) das certezas lá virá chamar-nos, aos que a isto se opõem, “fascistas”, “racistas”, “xenófobos”, “escravistas”, “colonialistas” e, pior do que tudo, “neoliberais”. Muito provavelmente esta é uma causa perdida. Pois nestas coisas da ideologia identitarista o PCP assobia para o lado (as suas questões são outras) e não se oporá, para o BE isto é a razão de ser retórica – de facto, quase ninguém na sua base social de apoio quer viver numa sociedade correspondente aos “modelos” que os partidos coligados perseguem, só querem mais redistribuição de recursos estatais. E ao PS convém-lhe, para atrair os pequeno-burgueses urbanos mais dados às “causas” festivas, e para os lucros na táctica de cabotagem governativa.

Ainda assim, porque isto é um dislate execrável, e não só por ser a refracção das concepções dominantes nos EUA, há que enfrentar esta palhaçada da racialização da sociedade. E não é com (já as antevejo) declarações líricas do “lusotropicalismo”, Portugal “país de brandos costumes”, “multirracial” e “lusófono” a la família Rebelo de Sousa ou ministro Castro Mendes. A discriminação racial existe? Enfrente-se. Mas não deste modo, nunca deste modo. Para uma posição mais-do-que-lúcida cito excerto de um texto de 2006 dos antropólogos brasileiros Yvonne Maggie e Peter Fry, sobre esta questão no seu país, e que explicitam exactamente o que está em causa. E porque nos devemos bater contra esta aparente “boa intenção”:

O que está em pauta são dois projetos de combate ao racismo: um pela via do fortalecimento das identidades “raciais” ( …); outro pela via do anti-racismo que procura concentrar esforços na diminuição das diferenças de classe e uma luta contínua contra as representações negativas atribuídas às pessoas mais escuras. Esses projetos também são projetos distintos de nação. Um vislumbra uma nação pautada das diferenças “étnicas/raciais”—isto é uma nação de comunidades. Outro projeto aposta na construção de uma cidadania com direitos em comum independentemente de “raça”, “etnia”, gênero, orientação sexual, etc., salvaguardando o direito de cada individuo a seguir o estilo de vida que mais lhe convém—isto é uma nação de indivíduos. Enfim, argumentamos que não se pode acabar com o racismo com uma política que entroniza a “raça”. Quando o Estado legisla sobre esta matéria ele funda a “raça”, cria justamente aquilo que quer ver destruído. Merecemos melhor solução para os graves problemas que nos assolam“.

Veja-se o texto do Público que está aqui ligado, de Gorjão Henriques, jornalista que se tem dedicado à questão do racismo em Portugal e que é considerada especialista na matéria. O conteúdo é elucidativo da trapalhada ideológica (e desonesta) que os defensores desta questão colocam: o título diz que os censos querem dados “étnicos” (como se a etnia fosse uma realidade objectiva, o que é o cúmulo da ignorância). Depois o texto diz “A resposta iria permitir saber, no quadro da população, quantos portugueses negros, ciganos, de origem indo-asiática e outros não-brancos existem”. Um “português negro” tem etnia? [E o que é “negro”, a cena do “one-drop” americana? a auto-definição? e muito mais questões]. Há alguma etnia “indo-asiática”? O que é dado étnico para alguém que venha ou seja descendente do subcontinente indiano? Que dado étnico permite agregar “não-branco”? Etc. Ou seja, o artigo de jornal fala de “raça” e são as categorias raciais (que não são objectivas, mas isso não lhe(s) interessa) que defende constituir nos censos. Mas esconde o assunto através do reenvio para a “etnia”, que é um conceito que nem sabe utilizar. E isto não é um defeito da senhora que escreve, é a amálgama atrapalhada e viscosa de quem vai defender isto. É uma vergonha.