O “etno-racialismo”

Na lusa pátria vai um burburinho por causa deste texto de Maria Fátima Bonifácio sobre quotas “étnico-raciais”. Tamanho que até o director do jornal Público veio gemer um editorial, desculpando-se, uma coisa patética:

1. O texto de Bonifácio é uma borregada, monumental. Porque é um bramido de disparates, próximos da demência senil. Ou mesmo já lá. E, fundamentalmente, porque na sua vetusta patetice dá força “àquilo” que quer combater, a turba dos “étnico-racialistas”. (Já aí está um texto de uma senhora do PSD, muito actualizada no “quotismo”, a mostrar como tudo se vai seguir).

2. Gritam que é um discurso de “ódio”, e o tipo do Público até com isso concorda. Se é certo que o texto é uma pantomina do que é a reflexão convirá ter algum cuidado nessa invectiva, que é proto-censura. Se eu, ou outrem, disser que as testemunhas de jeová (que agora alugaram um estádio em Carnide, Lisboa, para o seu congresso) ou os seus primos da IURD são uma mole de supersticiosos ignorantes, que não se integram no racionalismo desejável, estou a fazer um “discurso de ódio”? Não. E com toda a certeza que não serei apedrejado em Lisboa. Mas será exactamente o mesmo tipo de discurso, de menosprezo mas não de “ódio”.

3. Bonifácio critica o PS (por via da entrevista de Pena Pires) por causa das quotas “étnico-raciais”. Este dirigente daquele partido anuncia que o PS poderá vir a assumir a tal posição “étnico-racialista” na composição das suas listas de deputados. Isso é apenas assunto desse partido, no afã de ganhar votos até à maioria absoluta. Lembro que o PCP tinha (ou tem) quotas nos seus órgãos (a maioria tinha que ser operária) e isso não chocava ninguém. Face a essa possibilidade no PS só tenho uma questão, perfeitamente legítima e empiricamente justificada: será que as lojas maçónicas já têm as tais quotas ou as vão instalar, andam os maçónicos por aí com afã a recrutar ciganos e pretos (perdão, afrodescendentes)? E é essa a questão relevante, não a tralha dos deputados Benetton que vão agitar.

4. Pelo que leio no artigo do Público em que Pena Pires é entrevistado sobre a matéria (que está ligado no texto de Bonifácio, e por essa via a ele chego) o prestigiado sociólogo deixa entender que a visibilidade pública – na tv e na política – reduz a discriminação e impulsiona a mobilidade social. E que a frequência universitária também reduz o racismo. E daí que defenda o “quotizar”, tanto nas listas políticas como no acesso à universidade e também na tv – tudo isso me lembra um artigo do Público (jornal muito militante desta tralha) em que uma artista “afrodescendente” dizia ter emigrado por causa da discriminação em Portugal, pois não encontrava negros nos anúncios de shampoo, nem nas telenovelas, o que lhe causava enorme incómodo. O registo intelectual é o mesmo. Ainda que o prestígio intelectual de Pena Pires seja bem superior, e justificadamente, ao dos militantes jornalistas do Público.

5. Para qualquer tipo que queira evitar/confrontar o comunitarismo e respectiva “quotização” da população portuguesa e imigrada, para qualquer democrata republicano, a primeira coisa a fazer é mesmo pontapear a tralha bonifácia. Insalubre. E depois perceber uma coisa: o mundo não é o eixo Largo do Rato – (agora também) Buenos Aires, rua – Bairro Alto. Ou seja, o racismo será a ideologia dominante de XXI. Não se combate com a legitimação das suas falsas categorias. Nem anuíndo ao lumpen-intelectual local.

Anúncios

Notre-Dame de Paris e o racismo negro

Partilho este filme, do Le Monde, para ilustrar um postal sobre o que li num mural de FB de um fotógrafo moçambicano. Gente invectivando quem se comoveu (e o mostrou, partilhando notícias e/ou comentando-as) com o incêndio da Notre-Dame. O autor devido a isso chamando-nos estúpidos, “falsa gente”, sendo, para meu estupor, aplaudido até por escritora de livros infantis e artistas plásticos – que artista plástico aplaude o vitupério de um “edifício velho” como a Notre-Dame de Paris? Gente clamando que essa (a igreja) “são coisas dos brancos”, e protestando contra os negros que se preocupam com o tal “edifício velho”. Que fique explícito, ninguém é obrigado a gostar de igrejas ou de monumentos históricos. Mas este fel, esta radical aversão ao que é dos “brancos”, tem um nome: racismo. É um racismo fascista, obscurantista. Que muitos não são capazes de reconhecer, porque prisioneiros do arquétipo do fascista cabeça-rapada, supremacista branco (ou japonês, lembro para quem se esqueça da História), portador de insígnias (tatuadas ou amovíveis) já consagradas. Este fascismo africano, “negro”, é tão boçal, racista e agressivo como o euro/américo-asiático, “branco/amarelo” tradicional, e tem os seus ícones (Malema talvez o mais da moda – e lembro do meu espanto preocupado quando já nesta década a juventude do Frelimo surgiu num congresso do partido com as boinas típicas do movimento de Malema, algo felizmente depois extirpado mas que mostrou a receptividade ao radicalismo racista/fascista por parte de alguns sectores mais jovens do partido).

Ler mais

Ba e os Outros

Ba.jpg

Ao invés de muita gente cada vez mais gosto do Dr. Ba (líder da secção do BE chamada SOS Racismo). Digo-o sem ironia (ou sarcasmo): é um tipo atrevido, e isso é de louvar (ainda para mais no país do respeitinho). Imigrante, oriundo de África (não sei se já é português, mas isso para o caso é irrelevante) atreve-se a botar o que pensa, não se coíbe. Muito saúdo isso. Discordo do que o homem pensa? Pelo que vou lendo vou discordando, mas isso nem é importante. O que é relevante são dois corolários que retiro do que dele vou lendo:

Ler mais

José Nuno Martins e a Besta Negra

BambergApocalypseFolio015rThirdHorseman

José Nuno Martins chamou “besta negra” ao Jorge Andrade e caiu o Carmo e a Trindade. O Jorge Andrade, que eu saiba, não reagiu ao dichote mas já reconheceu que se havia “esticado”. Ele foi um extraordinário jogador, um magnífico defesa-central (muito prejudicado por lesões) e é um homem simpaticíssimo e muito bem-disposto. E “esticou-se” porque disse na tv que ao miúdo-maravilha que por ora desponta no Benfica ele “daria um pisão”, para o amansar em campo. Sejamos francos, é o que os gajos da bola fazem. E é o que os gajos da bola falam. Mas não em público, claro, que a compostura e o respeitinho são muito apreciados. Faltou ao Jorge Andrade mudar de registo (de “chip” diz-se agora), ali no estúdio da tv. E, francamente, para quem gosta de futebol, para além dos clubes, este miúdo, que dá pela graça de João Félix, é um regalo, o franzino reguila artista, o tipo de jogador que nós povo adoramos: guardem lá os “pisões” para outros morcões …

Ler mais

Ba e a polícia

ba

Ba disse que a polícia é uma “bosta” (nota: “bosta” é um termo canónico). Muita gente indigna-se, pois Ba é do BE e não deveria dizer isso. Torço o nariz. Não sei se ele tem razão na interpretação do caso que causou as declarações – pelo que se vê nas curtas imagens, feitas pela vizinhança, é um típico caso de “porrada no beco”, com os cidadãos a investirem contra os polícias ali convocados para sanarem a situação. E estes a responderem. E daquele pouco que tenho lido de Ba e seus correligionários – alguns deles demagogos com palco usual no jornal “Público” e galões universitários – acho aquele discurso histriónico e sob uma ideologia execrável: são racialistas, e no caso dos académicos a adesão a essa ideologia é uma estratégia de obtenção de recursos, económicos e estatutários. Mas isso são contas de outros rosários.

Ler mais

Preconceitos e Judite de Sousa

21307816_noocl

Nos dias actuais vigora a ideia de que não se pode ter preconceitos – algo que parece ser sinónimo do iluminismo, qualquer coisa como o cume da evolução da inteligência humana, da razão. E, assim sendo, urge que deles nos depuremos. E isso deve ser exercido também nas formas de tratamento, como nos dirigimos aos outros, como os nomeamos. Mesmo em relação aos que nos são mais próximos. Pois essas formas estão impregnadas de desvalorizações, relações de poder implícitas ou explícitas, categorizações que nos hierarquizam e a tantos amesquinham, mesmo  violentam. E nisso, por vezes, somos surpreendidos com as oposições que, cândidos, geramos. Muito me lembro do meu espanto quando, há cerca de 15 anos, uma colega antropóloga, feminista radical, me invectivou violentamente por eu ter referido, com evidente desvelo amoroso, “a minha mulher”. “É tua propriedade? és dono dela?“, clamou, La Pasionaria do género … Eu ainda tentei contribuir, anunciar a minha certeza (empírica até) de que me seria dedicado aquilo do “o meu marido” (ou até o mais coloquial “o meu homem”). Mas de nada serviu essa tentativa de defesa, e a inexistência da minha auto-crítica pública por esse “desvio de direita (machista)” esfriou o nosso relacionamento.

Ler mais

Destituição?

mm

(Postal no Delito de Opinião)

Isto começou com alguns conhecidos jornalistas da esquerda socialista que botam nos “jornais de referência”, foi secundado por “opinadores”. Para meu espanto até por antropólogos (ironizo um pouco quanto a este espanto, no seio da corporação surpreende-me a desfaçatez mas não o pensamento). Defende-se o escrutínio dos votos dos imigrantes brasileiros em Portugal para opinar sobre a pertinência da sua permanência no país. A indução de um ambiente de pressão, moral que seja, sobre essa “comunidade” – que será muito mais um colectivo inorgânico de indivíduos, contendo alguns núcleos de sociabilidade e de entrejuda mas não exclusivos. De facto, a exigência que estes cidadãos legalmente residentes (“documentados”, na gíria politicamente correcta desta falsa “esquerda”) assumam – relativamente ao seu país e, em sentido lato, face ao mundo – os valores político-culturais putativamente dominantes na sociedade que os acolheu. Nos termos dos intelectuais (e dos antropólogos em particular) trata-se da exigência de uma “assimilação”, perspectiva sempre contestada quando relativa a imigrantes oriundos da Ásia ou da África. Uma vontade assimiladora que é sempre dita efeito de racismo, de lusotropicalismo, de imperialismo, de (neo)colonialismo (o prefixo está a ficar em desuso muito por influência do pensamento boaventuriano, que tornou “colonialismo” um all aboardpara definir a história moderna e contemporânea).

Ler mais

O turismo da escravocracia

terreiro.jpg

Vejo e vou ler, com interesse. Um pequeno artigo, simpática divulgação sobre um roteiro turístico dedicado à memória da Lisboa escravocrata. Trata-se de um passeio pedestre de 5 horas em Lisboa, apetecível, até porque conduzido por um estrangeiro, assim muito provavelmente menos atreito a ecoar os nossos lugares-comuns, a fazer-nos turistas da nossa própria história, assim a desconhecer-nos. Deve ser interessante, de preferência quando parar de chover.

Ler mais

H&M

HEM

Uma boa provocação serve para agitar as lamacentas mentes. Mas esta não o é. O que se passará nas “cabeças” dos “criativos” e dos aprovadores desta campanha do H&M (entretanto retirada)? Sim, somos todos (primos de) macacos. Mas meter um miúdo “branco” ou “amarelo” nestes propósitos seria uma coisa (e teria sido bem sacada), meter um “preto” é outra – a quantidade de vezes que ouvi chamar “macaco” a “pretos”, e não é preciso ir ao futebol para isso, mostra bem o desadequado disto. Não é só de “brancos” ou “amarelos” para “pretos” (ou de “brancos” para “amarelos” e vice-versa) – e lembro-me do meu espanto ao ouvir um músico maputense, pela primeira vez na Ilha de Moçambique, dizer dos naharas – que defecam na praia, vivem aglomerados no macuti, etc. – “estes tipos são uns macacos”. Mas é, neste mundo global, acima de tudo uma desvalorização, um atraso ontológico atribuído àquela outra “raça”, principalmente à “negra”. Todos protestarão contra isto. Mas muitos, depois, “macacalizam” outrem. Conviria acabar com isso. Nisto do Je suis singe. E não preciso de roupa de (qualquer) marca para o mostrar.

A carta racial

richard gere.jpg

Diz-se que a beleza está nos olhos de quem vê, cada cabeça sua sentença, etc. Mas é óbvio que nem seria preciso ir buscar um ícone como Richard Gere para assegurar a unanimidade desta afirmação: este sexagenário é muito mais agradável à vista do que a carantonha do perfil deste bloguista ou do que a do presidente da Assembleia da República portuguesa. Ou seja, em termos estéticos pode haver proclamações universais. Ou, pelo menos, avaliações mais ou menos abrangentes, pouco refutáveis.

Dito isto, leio que Rita Ferro Rodrigues, conhecida apresentadora de tv, protesta com o facto das 4 apresentadoras escolhidas para o festival da eurovisão serem brancas, por ser isso uma falta de representatividade. Mais uma vez vai a jogo a “carta racial”, nisto de se exigir que se repartam os trabalhos “representativos” por aqueles que têm diferentes legados genéticos. Algo que o eixo PS-BE entende agora muito importante. O que é relevante é o que isto esconde, nas suas vestes de aparência analítica. Pois vejo a foto das 4 seleccionadas. Só conheço uma, com a qual confesso continuo a abanar à sua visão, Catarina Furtado. As outras 3 desconheço, nem serão beldades olímpicas mas têm um (relativo) palmo de cara, apreensível por esta minha vista desarmada. O que Rita Ferro Rodrigues não pergunta (porque não consegue?, porque não quer?) é quais são os critérios de “representatividade” que existem quando as caras da TV são tendencialmente bonitas? Que lugares há para as mulheres com as quais me cruzo no quotidiano, agradáveis ou desagradáveis à vista? Nas caixas, nos guichets, nos restaurantes, nas lojas, em empregos mais ou menos destinados a mulheres relativamente novas e com poucos (ou pouco especializados) estudos? Esse legado genético (e as possibilidades económicas destinadas às plásticas ou rearranjos externos) pouco lhe(s) importa(m). A única coisa que é relevante, porque está na moda, na crista da onda do surf, é a “carta racial”. Meta-se uma mulata, uma macaísta, que tudo vai bem. Desde que “as nossas meninas” (como dizia o insuspeito Rosas) sejam bonitas. Porque isso é “natural” …

E depois os reaccionários, os racistas, os lusotropicalistas são os outros. Brancos, claro.