Boris para o fim-de-semana

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Não tenho grandes vínculos com o John Bull. Algum, broken, conhecimento da sua língua. E poucos britânicos contemporâneos realmente me marcaram – Berlin, Leach, Naipaul, Page, Popper, Richards, nenhum deles, e por diferentes razões, um verdadeiro arquétipo appointed by Her Majesty, com a óbvia excepção de Sir Edmund (esta agora foi à João Carlos Espada …). Mas atrevo-me a opinar, e justifico-o: há mais de uma década que lá tenho família mui próxima queridos amigos, daqui a semanas a minha adolescente filha ali irá cursar a universidade.
O que se passará não será uma desgraça para a Grã-Bretanha, e daqui a uns tempos nem se lembrarão das angústias havidas. Mas esta finta ao parlamentarismo é politicamente significante, demonstrativo do processo europeu actual, sinal que vivemos “tempos interessantes”. E é ainda mais significante que tal não aconteça na Grécia, Espanha ou Portugal, recentes democracias, ou nas ainda mais recentes das ex-(quase)colónias do Urso Soviético, algumas um bocado trapalhonas. Brota exactamente no cerne histórico da democracia parlamentar. Sinto que isto terá muito mais impacto do que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. “Tempos (ainda mais) interessantes” aí vêm.
Para enfrentar esta aparente futuro muito haverá para pensar, e definir. Primeiro do que tudo, perceber quais são os problemas. Entre estes estão as formas de recrutamento dos colectivos das lideranças políticas. Num momento em que as capacidades de influenciar o rumo das sociedades se esvaem, em que a soberania efectiva se esgarça, devido à economia mundial e não aos projectos políticos agregadores, quem surge na política? Para simplicar, o problema não é Boris Johnson, nem o “mágico” Steve Bannon. O problema é o tipo David Cameron (quem?). Estes pequenos projectistas de cabotagem  que são recrutados, ascendem, influenciam, e se impõem, gente às vezes sans foi ni loi (como diriam os normandos) mas sempre sem rumo. Grassam, por todo o lado. E não por uma qualquer “crise” de valores, mas devido ao funcionamento do espaço político.
Por cá leio vários a defender o gambito de Boris Johnson. Dizem, pressurosos, que é uma acção positiva, tendente ao respeito pelo voto, o resultado do referendo. Correcto. Mas o parlamento também foi votado, donde este argumento é uma óbvia contradição, um pensamento a la carte. É legal, aplaudem. É. Mas não parece nada legítimo. E os ilustres doutos deveriam saber a diferença nada ténue entre os termos. Não haja dúvidas, o encanto com que esta medida de Boris Johnson é acolhida mostra, grita, uma coisa: os seus apoiantes (lusos e não só) não gostam de parlamentos.
E o júbilo diante desta versão boreal da Jangada de Pedra do comunista Saramago mostra bem que os seus apoiantes não gostam da União Europeia, querem-lhe a pele. Não a querem melhorar (intensificar ou aligeirar, redireccionar ou estancar), querem-na finda. Nunca percebi qual a razão de portugueses defensores da economia de mercado e da democracia parlamentar tanto detestarem a União Europeia. Talvez tenha sido aquela legislação adversa aos galheteiros públicos. Ou talvez seja a questão da (i)migração. É sempre interessante, no sentido de espantoso, ver doutos portugueses insurgirem-se contra os direitos dos emigrantes. Pois mostra bem que não vêm para além da ponta da respectiva pilinha, perorando que vão num país de emigrantes. Mas não deve ser por causa desta temática da (i)migração. Pois se o fosse discutir-se-iam mudanças nas regulamentações europeias: o livre-trânsito interno, a apetência por mão-de-obra exógena, etc. Mas esse não é o motivo, é apenas o pretexto. 
Desde o anúncio da trivela Johnsoniana li vários locutores lusos aplaudindo-a. Insisto, é gente que, de facto, não gosta do parlamentarismo e não gosta da União Europeia. Um destes dias estarão a perorar contra a NATO – de facto já o fizeram quando Trump chegou ao poder e polemizou sobre a organização. Pode-se sorrir e dizer que têm uma agenda política parecida com a do BE e a do PCP! Ou podemos ser um pouco mais analíticos, na senda das teorias da conspiração, e pensar que são teclados putinescos.
Mas de facto não são nada disso. São apenas uns ultramontanos “à antiga”, uns reaccionários do piorio. Lendo-os – nas redes sociais – vê-se que muitos defendem novas alternativas políticas, como a Iniciativa Liberal, o partido do comentador Ventura, o Aliança (do agora desnorteado Santana Lopes, a fazer tristes figuras de “ocupa”). Eu não estou a dizer que o Iniciativa Liberal (no qual se calhar votarei) ou o Aliança (no qual teria votado se estivesse em Portugal nas últimas eleições) defendem estas posições. Estou a dizer que no seu interior têm estes núcleos, que poderão ser pequenos mas são audíveis – doutos num país de “doutores”.
Assim, no registo de conversa que é o deste postal (e, a bem verdade, o de todos os postais), o que é necessário é recrutar boas lideranças políticas nos partidos democráticos, gente com algum tino e cuja ambição não seja apenas voluptuosa. E que tenham algum tipo de projecto, nacional e internacional. Um “desígnio”, para usar um termo que os seguidores do pensamento de Inês Pedrosa abominam. Seja nos partidos democráticos tradicionais, seja nestes novos. Que não venham Camerons. E cameronzinhos. Que se defenda a democracia parlamentar dos gambitos, trivelas e fintas adversários. E que se defenda a União Europeia, modificando-a, intensificando-a, aligeirando-a, imigrando-a ou não.
O que significa, também, refutar, pontapear, o comunismo identitarista, sempre empenhado na demonização da tradição democrática europeia, invectivando o “ocidente”, propondo-se a “rever conteúdos culturais”, querendo traumatizar para, de facto, apoucar, nisso desfazendo.
No nosso país o primeiro passo para isto é simples: arranjar alguém para liderar o PSD, que anda aí aos caídos, decerto que muito devido à tralha militante. Já agora, convém que seja alguém que não surja, a um mês e picos das eleições, em abraços sorridentes ao sucessor de José Sócrates. E em começando por aí continue-se, despertando o CDS da sua condição hospitalar. Ou, porque não?, desliguem-no da máquina.
Pois o estertor dos partidos democráticos, que até pode ter piada para quem ande cansado dos tropeções e aleivosias correntes na política, só terá um desfecho. Piores partidos, piores gentes, piores soluções.
Vamos seguir o caso britânico. Ou, como já muitos anunciam, vamos ver o caso inglês. Wait and see …

No Xigubo, de Craveirinha

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Dizem os entendidos, e nisso deverão ter razão, que o melhor Craverinha foi o de mais tardia publicação, e de mais íntima verve (o livro “Maria”, em seu torno), assim algo desvalorizando, pelo menos comparativamente, as suas primeiras e mais programáticas décadas, aqueles de “Manifesto”, o da proclamação da legitimidade cultural e política local. Será, repito, talvez verdade. Mas regresso ao Xigubo, ao velho Craveirinha, então mais novo, claro. E há nacos de uma sapiência …

“Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos / e na minha boca diluem o abstracto / sabor da carne de hóstias em milionésimas / circunferências hipóteses católicas de pão. / E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo / vendem-me a sua desinfectante benção … / Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço / em rodelas de latão em vez dos meus autênticos / mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens / do ciúme e da colheita de amendoim novo.”

É este um trecho do seu célebre – e ideologizado dirão os “estetas” de hoje – “África“. Escrito lá pelos anos 1950s, presumo. Informo os que não sabem que “mutovana” é um amuleto. E que quase 70 anos depois continua a ser raro – entre boreais e austrais – quem diga, escreva ou pense algo assim. Principalmente lá pelo sul, cada vez com mais crendices cristãs e/ou corânicas. Mas também muito pelo norte.

60 anos de Pedro Ayres de Magalhães

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Anteontem, quarta-feira 31 de Julho, Pedro Ayres de Magalhães fez sessenta anos. Um mero aniversário, uma alheia idade redonda, poder-se-ia dizer. Mas este tem um significado especial, anuncia que a minha geração passou assim, oficialmente, a sexagenária. Pois se Pedro Ayres nunca foi um “homem da frente” – o “front man” da mística rockeira – foi, de facto, o “homem do leme” da geração subsequente ao 25 de Abril. Não me vou por aqui a botar sobre ele: nem o conheço pessoalmente nem sou especialista em música. Mais vale escutá-lo (entrevista radiofónica) ou lê-lo (entrevista à revista Sábado; entrevista ao jornal i). Dizem-me que Edgar Pêra sobre ele fez um filme, mas ainda não vi.

Fico-me pelo registo: um tipo que andou na linha da frente do punk em Portugal (aqui deixo ligação para “Bastardos“, um documentário sobre o punk português), desde os seus Faíscas, e seguindo para o grupo iconoclasta Corpo Diplomático. Eram tempos bem diversos (e aconselho mesmo as suas entrevistas, para se entender em particular o universo rural com que estes urbanos se deparavam, o tão diferente país de então, ainda espartilhado e sofrendo as mágoas das guerras coloniais recém-findas). Depois foi a alma-mãe dos Heróis do Mar, que tantos disseram (e continuariam a dizer, se se lembrassem de efemérides ou similares) como fascistas: quando de facto os Heróis anteciparam os anos 90s, esses que só terminaram em 2004, o reencontro do país Portugal consigo próprio, a celebração passada que fora a era do país pária. Uma nação, história e identidade, que comemoravam – mesmo que hoje o seu som surja imensamente datado, como “pop” que era -, enquanto também cantavam “este país é uma prisão“, no afã de pontapear o provincianismo então hiper-dominante, sufocante mesmo. A polémica que surgiu há algum tempo, quando Manel Reis morreu, mostra bem o quão provinciano ainda vai o meio – mas também que os locutores actuais, que então se dividiram numa “esquerda” celebrando-o e numa “direita” invectivando-o, em termos até paradoxais, não percebem nada daquela era, esses anos 1980s em que os Heróis foram marcantes. É certo que os hinos que ficaram foram os dos Xutos mas a atitude que frutificou foi, em parte (bom seria que mais tivesse sido) foi a dos Heróis. Entenda-se, a de Pedro Ayres. 

Muito se celebra agora António Variações, feito ícone. Convirá então lembrar que foi Ayres (e o seu quase constante parceiro Carlos Maria Trindade) que lhe produziu o disco final. Como também foi ele que, através do Resistência, congregou repertórios e músicos – não só de diferentes estilos mas, algo tão difícil naquele tempo de cesuras constantes, também de diferentes aparências políticas. Assim concertando Portugal. Depois foi ele o verdadeiro Pigmalião do Madredeus, esculpindo não só a cantora mas também repertório e trajecto. E com este internacionalizando a música popular portuguesa, reabrindo caminhos (que décadas antes Amália havia percorrido sem deixar sucessores), os quais vieram depois a ser seguidos, ainda que sem o seu brilho, por artistas como Mariza ou Dulce Pontes. 

É um trajecto musical fantástico, feito sem cedências ao meios dominantes, muito radicado num individualismo – meritocrático, parece-me. É diante disto que continuo a repetir, Ayres de Magalhães é o homem da nossa geração que maior impacto cultural teve no país. Tem tido. A alumiar. Obrigado. Parabéns. Que venham mais anos, com saúde e sucessos.

O Padeiro dos Olivais regressa à Pátria

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Avenida Dailly, Schaerbeek, Bruxelas, de onde partimos no último sábado, eu em verdadeiro torna-viagem, quiçá o meu último, quem sabe se apenas o deste agora. Decidido o regresso automobilizado logo os patrícios ali vizinhos me aconselharam os cuidados necessários ao trabalhoso caminho: que ultrapassássemos Paris durante a noite, para evitar o seu demoníaco trânsito. Assim o fiz, largando a de facto bela e aprazível Bruxelas ao fim da tarde, de molde a cruzar aquele horroroso remoinho durante a meia-noite dominical, ainda assim atarefadíssima. Mas o conselho mais fundamental foi o dedicado ao combustível: que atestasse à saída do país, cerca de Mons. Que reabastecesse o mínimo possível em França, que tão mais cara por lá servem a gasolina – tanto que até terá provocado aquilo dos “coletes amarelos” que andaram nas bocas nestes últimos tempos, principalmente aquelas mais ditas eurocépticas. Assim o fiz, carregando a meio do franco trecho, e reforçando o pouco necessário já no País Basco gascão. E que atestasse no início do reino nosso irmão e de novo no seu término, ali nas imediações da antes mítica Vilar Formoso. Pois, disseram-me, e não só acreditei como o comprovei, a gasolina é tão mais cara em França do que na Bélgica e em Espanha. E é isso a verdade, como qualquer viajante mais atento o pode comprovar.

Mas o que mais me surpreendeu foi já conduzindo na Pátria Amada, apesar desta tantas vezes dita “Gasta”, e assim o ir parecendo. Pois, autoestrada adiante fui vendo os anúncios dos preços do combustível. E bem fidedignos o são, pois mostram que a gasolina comum é mais cara em Portugal do em Espanha. E do que na Bélgica – onde as pessoas ganham, grosso modo, cerca de três vezes mais. E até do que na França – a tal terra dos furiosos “coletes amarelos”, onde os rendimentos ainda são maiores. Não o acredita o prezado e almejado leitor do blog? Dirá que este bloguista é um “lusotropicalista”? Um “neoliberal”? Um “(filo)fascista”? Um “ressabiado/ressentido/invejoso”? Ou mesmo um “populista”? Ou até, como agora sói dizer-se, um mero “padeiro dos Olivais“? Não acredita mesmo? Então confirme aqui.

Lisboa alcançada. Malas amontoadas em casa. E vou às compras, à grande superfície fronteira, um estabelecimento Pingo Doce. O equivalente, por assim dizer, ao Colruytde Schaerbeek onde abastecia parcelas do rancho até há tão pouco. Venho com os preços bruxelenses, essa Brasília da Europa, bem frescos na memória. E fico estupefacto: não só tantos dos vegetais são mais caros, os espinafres (especializei-me, entretanto, num saboroso esparregado, lembrando-me da saudosa matapa), os espargos, os cogumelos, as berinjelas, as abobrinhas (sempre galicamente ditas courgettes), com preços mais acima. E etc. Mas, e notai bem, até o pão é mais caro. O pão. Vou repetir, sem isso acompanhar com alguma praga, até o pão é mais caro.

Parcas compras feitas e vou até ao Arcadas, desde há décadas o meu café de bairro, saudoso que venho da bela imperial da casa, sem igual, vos garanto, e dos seus apreciáveis salgados. Para além do convívio, este talvez o produto mais refinado da casa. Saudações feitas o patrão logo me mostra, comentando-a, como é uso entre nós, a capa do diário – e ainda não sabia eu ter este sido visitado pela inspecção das finanças e como tal, dada a alguma mácula vasculhada, convocado a adoçar as suas relações com o poder governamental, características da nossa política que os intelectuais e teclistas avençados juraram menosprezar. A capa do diário? Meia dúzia de VIPs socialistas não foram apresentados a tribunal há uns meses, como se esperaria se seguindo as leis. E o tal PS, o partido da dupla funcional Sócrates & Costa, voa nas sondagens para a maioria absoluta.

A gasolina é mais cara do que em França, o pão mais caro do que em Bruxelas. E a malta segue trepidante, “no comboio descendente,” vão todos “à gargalhada, uns por verem rir os outros, e os outros sem ser por nada”, vão “todos à janela, uns calados para os outros, e os outros a dar-lhes trela, mas que grande reinação! Uns dormindo, outros com sono, e os outros nem sim nem não”.

“Populista”, dirão alguns intelectuais comentadeiros. “Masculino tóxico”, dirão teclistas adamados e não só. Serei, isso e até pior e menos. Mas que fique claro neste meu regresso à gasta e amada Pátria: não é só a gasolina, até o pão é mais caro do que “lá fora”. Acreditem, que sobre esse assunto este Padeiro olivalense segue atento.

E a malta gosta disto. Que fazer? Torre-se o pão velho. Ou açorde-se-lo, se para isso houver arte.

E que se lixe, que isto, qu’esta gente, não tem arranjo.

O “etno-racialismo”

Na lusa pátria vai um burburinho por causa deste texto de Maria Fátima Bonifácio sobre quotas “étnico-raciais”. Tamanho que até o director do jornal Público veio gemer um editorial, desculpando-se, uma coisa patética:

1. O texto de Bonifácio é uma borregada, monumental. Porque é um bramido de disparates, próximos da demência senil. Ou mesmo já lá. E, fundamentalmente, porque na sua vetusta patetice dá força “àquilo” que quer combater, a turba dos “étnico-racialistas”. (Já aí está um texto de uma senhora do PSD, muito actualizada no “quotismo”, a mostrar como tudo se vai seguir).

2. Gritam que é um discurso de “ódio”, e o tipo do Público até com isso concorda. Se é certo que o texto é uma pantomina do que é a reflexão convirá ter algum cuidado nessa invectiva, que é proto-censura. Se eu, ou outrem, disser que as testemunhas de jeová (que agora alugaram um estádio em Carnide, Lisboa, para o seu congresso) ou os seus primos da IURD são uma mole de supersticiosos ignorantes, que não se integram no racionalismo desejável, estou a fazer um “discurso de ódio”? Não. E com toda a certeza que não serei apedrejado em Lisboa. Mas será exactamente o mesmo tipo de discurso, de menosprezo mas não de “ódio”.

3. Bonifácio critica o PS (por via da entrevista de Pena Pires) por causa das quotas “étnico-raciais”. Este dirigente daquele partido anuncia que o PS poderá vir a assumir a tal posição “étnico-racialista” na composição das suas listas de deputados. Isso é apenas assunto desse partido, no afã de ganhar votos até à maioria absoluta. Lembro que o PCP tinha (ou tem) quotas nos seus órgãos (a maioria tinha que ser operária) e isso não chocava ninguém. Face a essa possibilidade no PS só tenho uma questão, perfeitamente legítima e empiricamente justificada: será que as lojas maçónicas já têm as tais quotas ou as vão instalar, andam os maçónicos por aí com afã a recrutar ciganos e pretos (perdão, afrodescendentes)? E é essa a questão relevante, não a tralha dos deputados Benetton que vão agitar.

4. Pelo que leio no artigo do Público em que Pena Pires é entrevistado sobre a matéria (que está ligado no texto de Bonifácio, e por essa via a ele chego) o prestigiado sociólogo deixa entender que a visibilidade pública – na tv e na política – reduz a discriminação e impulsiona a mobilidade social. E que a frequência universitária também reduz o racismo. E daí que defenda o “quotizar”, tanto nas listas políticas como no acesso à universidade e também na tv – tudo isso me lembra um artigo do Público (jornal muito militante desta tralha) em que uma artista “afrodescendente” dizia ter emigrado por causa da discriminação em Portugal, pois não encontrava negros nos anúncios de shampoo, nem nas telenovelas, o que lhe causava enorme incómodo. O registo intelectual é o mesmo. Ainda que o prestígio intelectual de Pena Pires seja bem superior, e justificadamente, ao dos militantes jornalistas do Público.

5. Para qualquer tipo que queira evitar/confrontar o comunitarismo e respectiva “quotização” da população portuguesa e imigrada, para qualquer democrata republicano, a primeira coisa a fazer é mesmo pontapear a tralha bonifácia. Insalubre. E depois perceber uma coisa: o mundo não é o eixo Largo do Rato – (agora também) Buenos Aires, rua – Bairro Alto. Ou seja, o racismo será a ideologia dominante de XXI. Não se combate com a legitimação das suas falsas categorias. Nem anuíndo ao lumpen-intelectual local.

A Câmara de Lisboa e o país

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Fernando Nunes da Silva. ‘Manuel Salgado é o verdadeiro presidente da CML’. (I, 12 de Setembro de 2018)

Fernando Nunes da Silva, “Os negócios imobiliários vão ganhar milhares de milhões com a expansão do metro”. (II, 19 de Setembro de 2018)

Ontem foi o meu aniversário, o 55º. E o Facebook deu-me uma prenda. Melhor dizendo, algumas das minhas ligações-FB (“amigos” diz-se, sobre pessoas que não se conhecem, uma aberração linguística) deram-me uma prenda: chamaram-me a atenção para esta entrevista. Trata-se de um verdadeiro documento, um “corte geológico” da Câmara de Lisboa. Mas também, se extrapolando, do poder municipal. E, mais do que tudo, sobre o que é o Partido Socialista.

Vem num discurso claro, com conhecimento interno do que se vem passando. Dizendo coisas “incríveis” ainda que credíveis. Demonstrando o “estado da arte” do que é o PS. É a isto, à rejeição deste descalabro anti-democrático, que Inês Pedrosa, Miguel Sousa Tavares, Fernando Rosas, Seixas da Costa e outros painelistas chamam “populismo” (já ninguém diz pujadismo), o antes dito “neoliberalismo” ou mesmo “fascismo”. No que são secundados por inúmeros menos-conhecidos, funcionários públicos professores, jornalistas avençados ou mesmo meros facebuquistas/bloguistas mui ciosos deles mesmos. A cortina que impõem é tão grande que esta entrevista – com tudo o que poderia ser letal para uma clique no poder – passa praticamente despercebida (é de Setembro de 2018) e dela saem incólumes os dirigentes partidários.

As pessoas, estas tantas que apoiam esta tralha toda, não prestam. Nada prestam.

Ópera e Troika

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(Fotografia de Nuno Botelho, publicada no Expresso)

Não será difícil, a não ser por mero clubismo, discordar que a actual ministra da Cultura – a terceira da legislatura, o que demonstra algum desatino governamental no sector – não deixará grande memória. Pois o que veio dizendo não impressiona: desde fazer-se ministra da civilização, a propósito das touradas, a sarcasmar sobre a imprensa portuguesa (aqui), talvez um mero deslize mas a mostrar-se altaneira, até lapsos geográficos pouco casáveis com o cargo que ocupa, a imagem criada é frágil. É certo que essas declarações, descalibradas, não obrigam a que seja desprovida de virtudes executivas. Mas … leio agora que o São Carlos está desafinado. Ou melhor, desorquestrado. Ou seja, desnorteado.

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Uma cataplana de peixe

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Aumento da, e aumentos na, função pública, regionalização quiçá, e – por enquanto por último, mas nada menos importante – a folgazita para o pessoal do Estado levar os petizes à escola (uma folga para levar os filhos à escola? uma folga para levar os filhos à escola?).

E ainda vamos em Junho, vai ser um ditoso Verão. Entretanto Sousa, o Jerónimo, estertora, Cristas aparenta-se, Silva Pereira vice-presidenta-se (é inacreditável!), Sousa, o outro, emaranha-se no que julga tecer, e Martins faz o número. Sobram os adversários das beatas e o vazio.

Eleições no Outono, Cataplana no Verão.

A capela manuelina na Ilha de Moçambique

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Este é o actual estado da Capela da Nossa Senhora do Baluarte na Ilha de Moçambique, devastada pelo ciclone que assolou a região no final de Abril. A capela é mais do que simbólica: está na extremidade da Ilha, é a primeira igreja cristã no Índico austral (construída cerca de 1522), é o único edifício manuelino em toda a região (e presumo que em toda a África austral).

Não creio que o Estado moçambicano possa, na actualidade, repará-la. Muitos (portugueses e até moçambicanos) dirão que por incúria. Não me parece: as urgências e as emergências são gigantescas e os recursos muito escassos. Muitos (portugueses) dirão que é abandono de agora. Falso: a história da Ilha, pelo menos de XVIII para a frente, é a das constantes reclamações do estado arruinado das edificações – crises económicas, abalos na administração, guerras. E, acima de tudo, as intempéries. Pois ali a manutenção dos edifícios é trabalhosa e custosa, tanto devido às razões climáticas como ao particular material utilizado nas construções – de facto, na Ilha a ideia de arquitectura perene tem que ser bem relativizada. Lembro os opinadores apressados que em finais de 1960s se procedia à “reabilitação da Ilha”, dado o estado deficitário em que já se integrava, piorado com a crise económica devido à abertura do porto de Nacala na década anterior. 

Em 1996/1997 esta capela estava em muito mau estado, tal como toda a “cidade de pedra-e-cal”. A Ilha havia sido proclamada Património Mundial pela UNESCO e houve alguma atenção sobre os edifícios. Em Portugal, a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses – então comissariada por António Manuel Hespanha, um grande intelectual e que fez um belíssimo trabalho, na sequência do que havia feito Vasco Graça Moura, ainda que com um perfil algo diferente de intervenção – promoveu a reabilitação desta capela, devido ao seu estatuto histórico e ao seu simbolismo. A intervenção não foi muito cara (o edifício é pequeno e, julgo, não particularmente complexo) e correu muito bem, sob direcção do arquitecto José Forjaz e com utilização suficiente de mão-de-obra local. Eu sei que os tempos são diferentes, que há menos disponibilidades financeiras no Estado português.

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E que nas instituições culturais não abundam homens da densidade de Graça Moura ou António Hespanha (ou, noutro plano, Lucas Pires ou Carrilho), que possam sensibilizar-se, de imediato, para os efeitos efectivamente culturais, e como tal socioeconómicos, de uma intervenção num edifício destes. Mas ainda assim espero que haja nas autoridades portuguesas pessoas com a suficiente atenção para Moçambique e para a questão do património cultural tangível para disponibilizar a ajuda necessária para uma intervenção nesta capela, de importância única. E que o Estado moçambicano possa e queira acolher esse contributo.

Digitalizado a partir do diapositivo original 6x6, cota AGU/DD2074

O Discurso do 10 de Junho (3)

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Discurso de João Miguel Tavares em Cabo Verde.

Para um tipo como eu, português que passou duas décadas numa antiga colónia portuguesa, e que sonha com a hipótese de um dia (algo distante, se possível) lá ir morrer , e que ainda para mais por lá leccionou durante 15 anos, ler um texto destes, proferido num discurso comemorativo do dia nacional português, é momento de júbilo. O que Tavares diz sobre o colonialismo (português) mas não só, o que desmonta da perene ficção da “excepcionalidade portuguesa”, o que se afasta explicitamente da loa “lusotropicalista”, o que diz sobre “responsabilidades históricas” nacionais, o que diz sobre a reprodução das desigualdades no nosso território nacional, a perenidade da estratificação social que se alimenta dos fenómenos migratórios oriundos do anterior contexto colonial, o que diz sobre a necessidade de as combater, entendendo-as como fenómenos de “classe” ainda que sem descurar as suas componentes culturais e linguísticas, e, fundamentalmente (porque intelectual português), o que diz sobre o ensino multilinguístico, e a necessidade de fixar, preservar as línguas africanas e introduzi-las no ensino, em particular considerando a responsabilidade histórica de Portugal de nisso contribuir e de a isso proceder no próprio ensino oficial português, é um inusitado acto de civilização. Totalmente ao invés do pensamento dominante português, seja no espectro dos intelectuais profissionais, seja, e principalmente, no mundo das organizações estatais e para-estatais e seus funcionários.

Será talvez mais fácil perceber que Tavares aqui repudia a reemergência da ideologia racialista, actualmente conduzida pelos movimentos da esquerda neo-marxista, identitarista. Mas o que é importante perceber, que será talvez mais difícil de atingir às pessoas distantes destes contextos laborais, é que Tavares, em plena comemoração do dia de Portugal decorrida numa ex-colónia, clama pelo abandono – quem me dera que fosse definitivamente – da  noção de lusofonia, e todos os seus implícitos efectivos. Uma noção que é a cristalização dos pressupostos coloniais – não digo colonialistas, nem mesmo neo-colonialistas mas coloniais. Uma noção que foi desenvolvida pelos intelectuais socialistas no após-descolonização, e foi-o porque eles eram culturalmente herdeiros do Partido Republicano, o grande partido colonialista português (e convirá lembrar a tardia recusa do colonialismo pela oposição portuguesa: os comunistas, grosso modo, somente a partir de meados de 1950s, a “oposição democrática” de facto apenas desde finais de 1960s por Mário Soares, mas mesmo assim com  pouca adesão de outros, como se vê mesmo durante o início de 1970s). E que de imediato colheu agrado junto de outros núcleos intelectuais, desde os mais ligados ao antigo regime aos então oposicionistas brasileiros, que sonhavam um Brasil potência – algo que veio a encetar-se durante a presidência Lula.

É um grande texto, é uma grande reflexão, é uma grande visão. Vénia, caramba, vénia a João Miguel Tavares. O que está aqui é um verdadeiro discurso de “esquerda”, naquele velho sentido que se lhe deu, “progressista”, “crítico”, “iluminador”. Confesso que não esperava que surgisse em tamanho contexto, ainda para mais vindo de um tipo que conheço de nacos do “Governo Sombra” – programa que não sigo – e de textos de opinião no Público, de que às vezes gosto outras não tanto.

E será também um texto que poderemos confrontar com o que os “lusófonos” do Estado ou com o Estado,  esse núcleo cultural e profissional PS, esses que durante estas últimas décadas têm usado uma lente ignorante e ineficaz nas relações com África (não apenas a das ex-colónias portuguesas), pensam sobre o real. Ou, por outras palavras, para perguntarmos: afinal quem é que é de “direita”?

Em suma, até porque escrevo isto de rajada, repito-me: minha Vénia a João Miguel Tavares.