Com a Bíblia

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(“Violando a Bíblia”, na Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson)

Ainda que incréu nutro o maior respeito pela fé alheia. Tendo sido alfabetizado ainda mais saúdo aqueles que seguem o(s) Bom(ns) Livro(s). Mas com a idade cada vez mais me custa aturar os fanáticos, os que interpretam o(s) tal(is) livro(s) à letra: aqueles dos islâmicos que em ânsias de cortar as mãos aos ladrões; os liberais vendo a total livre empresa como o bólide que nos conduz ao Eden; os marxistas que tudo querem do Estado, que julgam Santo; os, talvez os piores, do culto de Foucault, que a todos os tipos de poderes dizem ilegítimos e perversos; os cristãos, que nem nos deixam invocar o nome de deus em vão, nem tão pouco cobiçar as mulheres porque “de outros”; os do PS, que afirmam ser silvestre a entidade Berardo; etc. Todos estes se agarram aos textos que dizem sacros e se empertigam, nas suas falsárias falsas verdades. Assim tanto nos incomodando. E prejudicando.

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Dos comendadores

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(A propósito das imensas críticas aos comendadores que vou lendo nesta época, até os dizem “cadastrados”)

Eu sou comendador. Em Maputo, no dia 1 de Julho de 1997, foi-me entregue a medalha. Eu gostei. A república, que é uma democracia, coisa sine qua non para esse meu gosto, assim reconheceu o mérito de um trabalho colectivo e condecorou os que compunham a equipa. E saí com a caixa das insígnias também pensando que alguns dos homens da minha família antes haviam passado pelo mesmo. E também gostei disso, pensai o que quiserdes.

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Bispo (utilizável)* na campanha eleitoral

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Se não fossem Costa e Mário Centeno, o País estava destruído“, diz este bispo na entrevista à Visão. Como se já não bastasse que o Presidente da República beije o anel do pescador, e também os cardinalícios ao que me constou – significando submissão, a da República que representa, claro -, vem agora um bispo botar faladura política … Imagine-se o falatório que seria se um qualquer prelado viesse, a 15 dias de eleições ainda por cima, elogiar a Dra. Cristas, presidente de um partido democrata-cristão? Ou assim outro, também da malvada direita neo-liberal, populista, afascistada, como, por mero exemplo, o ex-presidente do Sporting Santana Lopes, que lançou um partido que não vai viçoso, ou mesmo aquele rapaz que não gosta de ciganos e que diz “basta” ou “chega” ou coisa parecida?

E, claro, a revista Visão foi fazer o número habitual da campanha eleitoral. Cá se fazem, que serão pagos …

* Adenda: vi esta entrevista partilhada no suporte FB, por um ex-confrade bloguístico, normalmente muito atento, certeiro e assertivo. Julguei-a de agora mesmo. Afinal é de 2018, decerto que se enganou o referido confrade (e político no activo), incompetente distraído fui, segui-o e nem atentei na data da publicação. Na caixa de comentários chamam-me a atenção para o facto. Ou seja, comprova-se a percepção deste veterano bloguista: não se deve blogar à noite enquanto se convive com o Queen Margot (ou similar). Restam-me algumas hipóteses: apagar o postal, o que não seria aleivosia pois ele pertence-me; modificar (“editar” como dizem os anglicistas) o postal; ou deixá-lo assim, com adenda esclarecedora, pois o relevante é que um bispo não deve falar assim, nem um presidente andar a subjugar-se aos curas. Escolho a terceira posição.

O PS e as criancinhas

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Ricardo Arroja e outros membros do novo partido Iniciativa Liberal fizeram um passeata eleitoral acompanhados dos filhos, ainda crianças. Sujeitados a tais acções posso presumir que alguns dos infantes venham a crescer marxistas-leninistas, mas isso será questão das famílias …

O deputado Porfírio Silva, tornado mais conhecido pelo afã com que declarou que Passos Coelho utilizava a gravíssima doença da sua mulher para ganhar simpatias eleitorais,  e militante de um PS que contrata estrangeiros recém-chegados para engrossarem as “massas” nas suas arruadas (como agora irritantemente se chamam a estas acções de propaganda), reagiu, viçoso, contra essa presença infantil.

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(filme de Pedro Marques no infantário aqui)

Pedro Marques, o antigo secretário de estado de Sócrates – também fonte obscura de bloguismo anónimo remunerado, assim promotor da rede então ainda manufacturada de “fake news” lusa, germinada em torno do blog Jugular -, também ministro deste actual governo, e agora alcandorado a “cabeça-de-lista” eleitoral,  logo se associou ao incómodo do atento Porfírio Silva. Pois, e contrariamente ao que se poderia deduzir, estas crianças não são filhos dele.

Tudo isto é muito giro (assim mesmo, sem aspas).

Andam a Brincar com a Tropa

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O tempo voa, a vida dilui-se. Sem que eu tenha verdadeiramente percebido como isto aconteceu, neste próximo Verão cumprir-se-ão 30 anos que me apresentei em Mafra, na Escola Prática de Infantaria, chamado “às sortes” para o então vigente Serviço Militar Obrigatório (“às sortes” é como quem diz, de facto “aos azares” – no edital, consultado na junta de freguesia de São Jorge de Arroios, a folha onde constava o meu nome tinha um rol de dezenas de mancebos, 25 ou 50 não posso precisar. E dessa lista eu fora o único recrutado, o chamado “azar nítido”).

Enfim, lembro-me disso por causa desta “crise política” antes das eleições europeias. Percebo, por ler apoiantes de vários partidos, que o que provocou tudo isto deve ser matéria bem difícil de perceber: as pessoas dizem coisas tão diferentes sobre o que aconteceu que não parecem partilhar a mesma visão do mundo, ou mesmo nem sequer viver na mesma dimensão. Ou então o fenómeno é mesmo complexo, não tão escorreito como aparenta ser. Na minha modesta (e distante) condição pouco mais me ocorre do que a velha expressão, que tanto ouvi durante o referido serviço  militar – já a conhecia mas tornou-se-me mais familiar desde que fui porta-de-armas adentro. Pois muito me cheira que esta rapaziada política (ou alguma dela) “anda a brincar com a tropa”.

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Onde está o Benfica? (2)

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Mais uma vez a turba benfiquista surge a provocar – agora vandalizando os veículos que transportaram os adeptos do Sporting para um jogo de andebol. Nessa provocação glorificando o assassínio: o de um adepto sportinguista, perpetrado num estádio de futebol, acontecido há já 23 anos; e outro, mais recente, de um adepto sportinguista, atropelado intencionalmente nas imediações do estádio da Luz. Como há já algum tempo aqui referi (e não vou agora repetir argumentos …) esta já tradição benfiquista, um verdadeiro culto da morte, não provoca nenhum repúdio da direcção daquele clube. E convém lembrar que o presidente do Benfica, no momento mais baixo dos seus quinze anos de presidência, chegou ao cúmulo de comentar, aquando do mais recente assassinato (cujo autor está em liberdade, ao que julgo saber), sobre a pertinência do assassinado estar nas redondezas do estádio benfiquista.

Há silêncios que são tonitruantes. E há silêncios que são abjectos. Este silêncio da direcção benfiquista é tonitruante e desprezível, denotando explicitamente de que matéria (i)moral é feita a gente que a integra. O silêncio do Estado diante disto é também inaceitável. E denota a incompetência ensonada dos seus governantes.

Prostituição de rua

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Amigo avisa-me que este individuo é deputado do PSD. Neste estilo ordinário confesso que ainda prefiro aquela Amaral Dias, coisas de gosto pessoal. Mas que este rasca não nos faça esquecer que o cabeçalho do dia é aquilo da banca sustentada por todos nós perdoar ao “grande empresário” Pereira Coutinho cento e muitos milhões de euros. E perdoa-lhe, coitado que até a ilha teve que vender, por causa desta gente. Depilada e prostituída.

E ainda há quem vote PSD …

(Adenda: para quem ache que exagero – fui ver quem é este homem. É deputado há 7 legislaturas, quase 30 anos. Deixou alguma marca relevante para além de mostrar o decote a uma revista “lite”?)

Foder os lampiões?

Filme aqui

(Postal para o És a Nossa Fé)

A rivalidade é estruturante dos clubes desportivos. Talvez não tanto dos clubes formativos, como o Ginásio Clube Português ou o Algés e Dafundo, ou dos antigos clubes-empresa, como os saudosos Riopele ou CUF (onde brilhou o nosso grande Manel Fernandes). Mas nos outros clubes as formas de congregação e mobilização são sempre fruto da mescla entre as capacidades de exercício demonstradas (as “vitórias”) e as de afirmação face a “outros”, tornados adversários preferenciais. Uns “outros” escolhidos por critérios geográficos – a aldeia ao lado, o vizinho (Varzim-Rio Ave), a recusa dos centralistas (Vizela vs Guimarães), o histórico oponente (Braga-Guimarães, o arcebispado vs o berço da nação), o lado de lá do rio (S.L. Olivais vs Alcochetense), bairros urbanos contíguos (Atlético-Oriental, mas aqui forço um pouco pois a rivalidade não era tão marcante) os pólos dominantes (Porto vs Lisboa), etc. – ou histórico-sociais (Benfica popular vs Sporting burguês ou Belenenses “classe média” e o Atlético operário, mesmo que essas fossem construções algo míticas mas que tinham o efeito de nelas se acreditar). Num país homogéneo como Portugal não surgem clubes “nacionais”, representando “comunidades político-culturais”, “étnico-religiosas” (como a ex-Liga Muçulmana de Moçambique, as origens do Tottenham ou o actual Barcelona).

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Parolismo: os cemitérios de Lisboa

medina cemitério

(Cemitério do Alto de São João, Lisboa. Foto do blog 100 Anos, 100 Árvores)

Sabe-se que o cientista e ministro Augusto Santos Silva considera um extremo “parolismo” aludir ao viçoso feixe de relações familiares dos dirigentes do PS aboletado na administração pública. Mas fica-se “parolo” quando se vai conhecendo o rosário de despautérios dessa elite partidária. O que se passa é nitidamente a consagração do ideário “O Estado somos nós”, corrupta corruptela de bem antigas (e absolutistas) concepções do exercício político.

A descrição do Expresso da  última sessão pública da Câmara de Lisboa mostra o putrefacto a que isto chegou, até pelo lado risível da questão: Fernando Medina, que tão falado foi há anos como mais-que-provável sucessor de Costa na liderança do seu partido, a propor um protocolo (financiador) da CML com uma Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa, esta animada em desenvolver actividades culturais em torno dos cemitérios – no que será, de facto, uma sub-contratação para o desempenho de actividades culturais, contornando os serviços camarários especializados nessa área (nos quais existe, pelo menos, uma empresa municipal, a EGEAC). E a qual já recebeu financiamento (parcos 10 000 euros, que dará para pouca coisa, como é óbvio), ainda sem protocolo que se veja.

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Brioches e Galpgate

brioches

“Que eles comam brioches” (já que não têm pão) é a célebre frase menosprezadora dos miseráveis esfaimados, sempre atribuída a Maria Antonieta para ilustrar a inconsciência política dos possidentes face aos sentimentos populares – o dito é falso mas è ben trovato.

Vêm-me esses brioches à cabeça ao ler que PS, PCP e PSD se conluiaram para legitimar a oferta de viagens de privados aos políticos no activo, porventura abrindo caminho para arquivar as acusações a uma série de ex-governantes, o célebre Galpgate.

O tal “Galpgate” não será particularmente importante, isto dos políticos terem uma viagem para ir ver um jogo de futebol não será, por si só, suficiente para ulularmos “corruptos”. Mas o impressionante é terem os maiores partidos portugueses legislado esta medida neste momento, quando as representações populares sobre os políticos não são particularmente benévolas – será preciso lembrar o Socratesgate? O alargado rol de políticos cavaquistas com máculas satânicas? As tropelias autárquicas? O longo processo de substituição da PGR, que deu azo a tantas especulações? O DDT, até íntimo do actual PR, a mostrar como o poder económico subjuga o poder político? Não digo que o poder político seja corrupto, digo que há uma enorme suspeição, a qual afecta a relação com o regime: 30 e tal por cento do pessoal nem sequer vota, e muitos dos votantes continuam no clubismo de que “os dos outros partidos é que são corruptos”.

E neste ambiente – que é também internacional, com a crescente vaga de movimentos excêntricos aos partidos tradicionais, exauridos pela desconfiança crescente face às práticas dos seus dirigentes – os grandes partidos portugueses (quo vadis, PCP?), surgem a “limpar o arquivo”, a legislar para que os seus dirigentes possam receber oferendas e inocentar, retroactivamente, alguns deles. E isso a um mês das eleições, encolhendo os ombros a hipotéticos efeitos eleitorais de uma medida destas. O que demonstra uma crença inabalável do atavismo do comportamento eleitoral dos portugueses, a qual se calhar até é fundamentada (assim o dizem as sondagens, mais deputado para um, menos deputado para outro …). Mas mostra, acima de tudo, uma enorme inconsciência quanto às movimentações das sensibilidades populares, à possibilidade do inesperado num futuro breve, uma cegueira típica de espírito de casta (repito, quo vadis, PCP?).

“Eles que comam brioches”, diz Costa, atrevido como sempre, e Rio, absurdo como parece. E Jerónimo, também? A ver o que o futuro trará.