Fazedor de Chuva

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O cardeal de Lisboa, Manuel Clemente, anunciou que quer fazer chuva. Associo-me ao seu benéfico esforço partilhando imagem de um dos seus colegas, sito entre os Kxatla (na África do Sul), aqui rodeado dos seus paroquianos enquanto promovia chuvadas, cerca dos anos 1920s (eu suponho que a fotografia é do grande Isaac Schapera mas não consigo comprovar isso).

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Sociais-fascistas

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No rossio português são patéticas as reacções à manifestação patriótica de ontem em Barcelona. O que é engraçado é que o independentismo catalão nem tem um ideário de “esquerda” nem é encabeçado por uma “esquerda” visceral. É um compósito nacionalista mas encantou a esquerda lusa, algo trôpega, apenas capaz de ver no real a caderneta de cromos que ambicionou na tenra infância. É uma transferência para uma realidade imaginada.

Algumas ditos são absolutamente patetas, outros chegam-se à abjecção. Alguns “denunciam” a centena de autocarros com não catalães que se dirigiram para Barcelona – coisa a que nós estamos habituados, com as camionetas alugadas por câmaras, e não só, para alimentarem de munícipes próprios as manifestações da “cor certa” em concelho alheio; outros vociferam contra os números exagerados de manifestantes apontados pela organização – como se isso, não aconteça também aqui, e sempre, em qualquer “Que se lixe a troika” ou “1º de Maio”; outros, e muitos – até escritores, que asco – vociferam contra a obra de Vargas Llosa, apenas porque ele discursou, tal e qual o “nunca li e não gosto” dedicado a Saramago por trogloditas lusos.

O FB português de hoje é um desfile tétrico, de inanidades. (Os tempos mudam, na era bloguista a gente “linkava” o que pontapeava, forma de avisar da canelada e de mostrar a quem se pontapeava, agora fica assim, no ar, um encolher de ombros). Mas a este propósito, desta reacção alargada em Portugal aos acontecimentos catalães, deixo aqui um desabafo que meti há dias no meu mural FB. Porque ainda mais actual, depois deste bramir colectivo de “shrekismo”:

A história ao repetir-se é uma farsa, disse em XIX um evolucionista alemão. O inglês Farage, o holandês Wilders, a AfD alemã, o partido da liberdade (que nome!) austríaco aplaudem. Consta que o imperialismo russo saúda. Do Piemonte ainda não chegaram notícias (“espera-pouco” sussurra-me a amiga experiência). Outros, (ditos “neo”/”pós”) marxistas exultam, (de)capados de um tal de “internacionalismo” que lhes animou os egrégios avós. Diante disto, que são os que se arrepelam com a urgência, objectivos, metodologia e, acima de tudo, pertinência da cena? “Sociais-fascistas“, com toda certeza. Uma farsa. Mas que será tragédia, se for deixada em cena.

Eleições autárquicas

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Isto das autárquicas vale o que vale, concluir a partir delas é errático mas quero perorar. 1. O PSD e o CDS governaram 4 anos em condições tétricas e, chegado o fim dessa legislatura, ganharam umas eleições e o PS teve um resultado muito fraco. 2 anos depois o PSD leva uma abada nas autárquicas. A causa não é 2011-2015, tem que ser o 2015-2017. 2. O PSD leva uma abada, a cabeça de Passos Coelho é pedida; o PCP leva uma arrochada do caraças, o granítico Jerónimo é polido pela imprensa. 3. Pedrógão Grande passa do PSD para o PS: terá a ver com os candidatos. Tem a ver com a especificidade autárquica. Mas, raisparta (para não dizer pior): que coisa horrível. 4. Botei (no meu blog, não aqui no Delito …) algumas vezes sobre a freguesia lisboeta Olivais, onde cresci e onde voltei a viver: cerca de metade dos eleitores votaram, até um pouco mais do que há 4 anos. A lista PS ganhara com 42% em 2013. Agora ganhou com 52%, mais votos, mais mandatos, a mesma presidente. Um tipo torce o nariz, lamenta que seja este o perfil e a política neste canto oriental da cidade. Resmunga com o estilo (ontem amigos meus levaram as octogenárias mães a votar. As mesas são as dos “velhinhos”, é por números de eleitor não tem que enganar. A presidente da junta por lá andava, beijando os bons dos “seniores”, “a senhora devia ter lido o nosso programa” ouviram-na em plena fila de voto. É este o modelo, indicia tudo o resto). Mas o que é certo é que os fregueses gostam. Não vale a pena discutir. É aceitar isto, para quê envenenar (mais) o quotidiano próprio.

E debater a evidência: o Porto do Sérgio Conceição é robusto. Bom ambiente no estádio de Alvalade, ontem. Os munícipes lisboetas souberam receber. É assim.

Olivais

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Eu estou ao balcão do café, aqui nos Olivais. A comitiva PS entra, 5/ 6 carros de gente, campanha algo abonada, até “hino” próprio para a freguesia se gravou, e algo piroso, como manda a tradição destas coisas. Nela há alguém da junta, dizem-me, baixo, outros clientes. Pedem ao (afável) dono do café para afixar cópia do edital com o mapa das secções de voto, como é costume nas eleições. Resmungo para mim, que até andei a fazer eleições em alguns outros países, que não devia ser assim, é uma caravana partidária a distribuir material eleitoral, é uma confusão sempre desaconselhável. Depois saio, e vejo o que colaram. Atrevidos, aproveitaram a óbvia concordância do dono para encimarem a cópia do mapa eleitoral da freguesia com um cartaz partidário, que simula o apoio do estabelecimento comercial a esta candidatura. À revelia do proprietário. Este encolhe os ombros, desagradado mas, como qualquer pequeno comerciante, nada atreito a comprar conflitos locais.

43 anos de democracia e ainda não aprenderam a separar o partido do Estado. E treinaram-se nestas (pequenas?) malandrices. Um (pelo menos um) dos da caravana é professor, conheço-o. É esta trapalhada, indigna, que veicula como a tal “cidadania” que se ensina no secundário?

Loures

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(Voltei a escrever no blog colectivo Delito de Opinião. Este foi o primeiro texto que lá coloquei, na semana passada).

308 câmaras, 3000 e tal freguesias. É normal e competente que o presidente de um partido não critique ou se demarque do que algum dos seus candidatos diz. O que tenderia a tornar-se num verdadeiro jarro de Pandora, tamanha a possibilidade real de haver candidatos pitorescos (e/ou suas retóricas) ou, pelo menos, algo desajustados do rumo central. Mas há câmaras mais iguais do que outras. E pitorescos nada pitorescos. Uma sondagem anunciou que em Loures há uma maioria, apoiante de todos os partidos, concordante com as afirmações que o futeboleiro Ventura largou sobre a “ciganada” (não sei se também sobre a castração química ou a pena de morte, pois estes temas foram sendo deixados para trás). Talvez sim, e talvez isso não seja apenas o efeito do “anunciado na TV”, como antes eram publicitados os produtos mais pimba. E sim, os políticos, locais ou nacionais, devem dar voz às perspectivas da população, aos seus diversos sectores e interesses. E se há uma particular tensão social no município, se há grupos mais atreitos a tornearem os enquadramentos legais, actue-se, identifiquem-se as questões e proceda-se para resolver os problemas (e não, não é à chibatada).

Mas é óbvio que não é disso que se trata. Nem temos vindo a receber novas de que Loures seja um caso patológico. Nem a argumentação de Ventura assenta num conhecimento sociológico da realidade municipal. É apenas um tonitruante e inintelectual “diz que”, um verdadeiro “boçalismo a microfone aberto”. E que tendo algum sucesso eleitoral tenderá a alastrar-se (ou sedimentar-se), nas mentes habitantes das 300 e tais câmaras e 3000 freguesias. E dos seus políticos, nem que seja como estratégia de cabotagem. Por tudo isto, ao dinamizar e, acima de tudo, ao ombrear com este venturismo aventureiro, Pedro Passos Coelho está muito mal, etica e intelectualmente. E a mostrar desnorte político, a querer crescer em areias movediças (que o engolirão, a curto prazo). Ou seja, está a atirar a candidatura global PSD para a categoria “lixo” nas agências de avaliação da política. Nós.