Pacheco Pereira

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Pacheco Pereira, o melhor professor que tive na universidade, insulta no Público a gente nós, que fazemos as redes sociais. Somos trogloditas, diz o ex-bloguista, falsários, eco de boatos – “arma da reacção”, deles (se) disse. Antes, no programa televisivo de formação política em que há anos trabalha, com o jogador de xadrez Jorge Coelho e com o vice de José Sócrates, agora PM, postulou que “a direita convive bem com corrupção, sempre conviveu“. A minha queridíssima irmã, já sexagenária, insiste para que não escreva eu palavrões no FB. A minha amadíssima filha, já adolescente, insiste para que não escreva eu palavrões no FB. Cumpro-lhes as vontades e resumo, troglodita das redes sociais que sou: Pacheco Pereira é de direita.

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Sem ter esperado à porta do Lux

Varinas no Bairro Alto

(Rua da Atalaia, 105. Fotografia de Garcia Nunes, 1969 (AML). Encontrada no blog Lisboa de Antigamente)

A morte de Manuel Reis (ou “do Manel Reis”), acima de tudo pelas reacções que provocou, causou um eixo de resmungos interessantes pela sua origem intelectual. Um artigo no Público de João Miguel Tavares (“Nós, que esperámos à porta do Lux“), simpático com a pessoa mas adverso às reacções, é o mais sonante. Um postal no FB de Alberto Gonçalves e uma série de comentários até ácidos também no FB vindos de gente que escreve, e bem, em blogs, jornais e redes sociais, juntam-se-lhe. Grosso modo, o tom oscila entre o desdenhoso “nunca ouvira falar em tal homem” e a “análise sociológica” invectivando os “elitistas endinheirados” que agora louvam o falecido, ele próprio “elitista”. Não tenho eu o saber para arengar sobre as mutações culturais em Lisboa, e no país, nos últimos vinte anos de XX, nas quais o Manel Reis (ou “Manuel Reis”) foi “pivot” – mais “pivot” do que “protagonista”, tanto por personalidade como pelas características da sua intervenção. Mas interessam-me os implícitos dessas críticas/resmungos, dado o ambiente intelectual do qual provêm.

Desde logo são oriundos de gente que não é lisboeta. E que se depara(ou) com os tiques da capital. A “cagança”, como eu dizia em puto, e que vinte anos de emigração me levaram a chamar “blaseísmo”, um “ismo” que procura reconhecer uma (espécie de) ideologia de nacos da classe média lisboeta, em particular nos nichos das “indústrias culturais e educacionais” e em “quadros do funcionalismo público” com aquelas interligados. Pois viver fora deu-me para ainda mais lhes reconhecer os tiques, que os próprios lisboetas impercebem (e negam, se lhos digo): o aparente flanar, que nada flana, que de facto é gente arado, sulcando a “terra” que querem património; este ligeiro arrastar da voz e o encenado esvoaçar do olhar, ambos desfixando interlocutores; o másculo cumprimento “um abraço”, prenunciando vigorosas palmadas nas costas, mas que de facto nada mais é do que o adamado “não me toques”; a patética despedida “temos que ir almoçar” que, na realidade, soa “espero bem não te ver mais …”. E um sem-número de pequenos (e não tão pequenos) detalhes que mostram uma “sociedade” (uma cultura comportamental) de pequenos grupos solidários, tendencialmente enquistados, entre-demarcando-se em feroz compita por escassos recursos estatutários (e assim económicos). Coisa que os emigrantes tanto reconhecem quando (por) cá. Tal como, pelos vistos, também o reconhecem os não-lisboetas, tantas vezes ditos “provincianos”. De facto, trata-se de uma adversidade ao ideal de uma “sociedade aberta”, aquela que alguns (poucos?) sonham e pela qual alguns (ainda menos?) pugnam. Daí um mal-estar face ao “estado da arte” na “pequena Lisboa”, que sumarizo citando a grande antropóloga Mary Douglas: “This world we are in still longs for sincerity, and for simple and direct dealings between equals. It still rejects the outward forms of social distinction, and still finds that differences of power and wealth are as effective as barriers to direct communication as ever” (Natural Symbols, 1996, xii – o livro está mesmo aqui ao meu lado, apeteceu-me citá-lo).

Ok, será muito esse mal-estar que leva alguns  a resmungarem com as sentidas loas tecidas por estes lisboetas agora de  meia-idade ao homem que tanto mudou a paisagem cultural, e a maneira de estar e de aparentar estar na Lisboa pós-1980. Mas o engraçado são os implícitos ideológicos que mostram. Os locutores a que me refiro são todos abarcáveis pelas etiquetas “centro” ou “direita” ou “liberais”. E nesse sentido é relevante, e até surpreendente, perceber os implícitos que manuseiam. Por um lado, é óbvio um estatismo subliminar. O meu raciocínio é contra-factual, e assim é fácil de negar, mas é tão cristalino que a desvalorização de Manuel Reis (“do Manel Reis”) advém do facto ter sido um “empreendedor” (como agora se diz), dinamizador privado de locais e de actividades com efeitos estruturantes, e com dimensões mecenáticas. Se nesse âmbito tivesse, por absurdo que fosse para quem o conheceu, assumido funções estatais (por exemplo secretário de estado ou vereador da cultura), a sua menorização agora recorrente não surgiria. Mas o homem foi “apenas” um privado.

No mesmo âmbito, há um institucionalismo subliminar: tivesse ele fundado uma fundação, ou entrado numa outra existente, ou sido presidente de uma qualquer associação comercial (uma espécie de CIP ou CAP)? Tivesse sido vulto oficial da Europália ou da Lisboa Capital da Cultura, soturno administrador da Expo-98? Com toda a certeza que não o menorizariam tanto. Ou seja, se a então célebre “movida” madrilena (o “Madrid me mata”) patrocinada pelo município (o carismático Tierno Gálvan) tinha a “patine” estatal e institucional, assim “nacional”, a bem mais modesta lisboeta girou em torno de alguns “pivots”, nos quais sobressaiu o agora falecido Manel Reis. E isso, a estes críticos, e apesar deles-próprios, retira-lhe brilho.

Em segundo lugar, há um pungente e surpreendente (pobre)marxismo, uma vulgata classista resumida no “ricos” vs “pobres”. As imprecações contra os “endinheirados” “lisboetas”, “elitistas” (aqueles que não esperavam à porta do Frágil ou do Lux) que agora lamentam a morte do seu “guru” ou “xamã” não colhe com a realidade de então. Que um jovem caloiro recém-chegado a Lisboa em 1985 ou 1990 desabafasse isso, impedido de entrar num pequeno bar-discoteca, porque desconhecido da casa, tinha todo o cabimento. Que um intelectual o repita em 2018 é uma patetice. Pois é uma profunda ignorância, e não só do que aconteceu na altura. Pois é também uma recusa da análise sociológica, do que era o Portugal de então. Uma sociedade pobre, causticada pelas obrigações impostas pelo FMI (simbolizado por Ernâni Lopes, então demonizado pela esquerda como o foi agora Vítor Gaspar, e que tantos elogios colheu aquando da sua recente morte, o que nos deveria fazer pensar um bocado sobre o governo de PPC). Uma sociedade muito piramidal – o Frágil abriu apenas 8 anos depois do 25 de Abril e quatro anos antes da enxurrada de fundos com a entrada na CEE. E muito estratificada. Era, sim, uma sociedade de privilégios (e de imensos desprivilégios). Quem frequentou aquele Bairro Alto renovado, e uns anos depois desceu para perto do rio (o “Plateau”, o “Metalúrgica”, o “Bar do Rio”, etc.) não era uma elite económica e cultural, os “endinheirados” “elitistas”. Eram os filhos da “pequena-burguesia” (a classe média “média”, como agora se dirá). Gente dos subúrbios, como nós dos Olivais, ou os de Benfica, ou os filhos do funcionalismo público das Avenidas Novas, etc. E, logo a seguir, ainda nos 80s, a malta que vinha, para nosso espanto, da “outra banda”. Era uma sociedade piramidal, ainda não tinha havido a massificação escolar, quem andava por lá pertenceria à franja dos universitários ou, pelo menos, dos que acabavam o liceu, gente das artes e da imprensa ou que a isso aspirava – ou seja, estudantes e gente dos ofícios. Mas esse universo não era o dos “endinheirados”, os “ricos”, os “privilegiados”. E, muito menos, a “elite”. Ainda que muitos a quisessem integrar, sonho em todas as gerações, e que alguns muito tenham feito por isso. Seria sim, quanto muito, e grosso modo, o dos “remediados”. A tal “classe média”, contra a qual não se usam agora similares impropérios, e tão melhor vive ela agora do que no dealbar dos 1980s.

Em terceiro lugar, estes resmungos mostram um desprezo pela história social, e das práticas culturais. A foto acima mostra a célebre Rua da Atalaia em 1969. O Bairro Alto que eu conheci em 1982 foi o da Tasca Azul (o nome oficial era “Arroz Doce”), defronte ao Frágil e propriedade da “Tia” Alice, irmã do Alfredo, o célebre guardião do Frágil (e depois do Lux), um camionista insone que fazia os turnos da noite defronte à porta e guiava de dia. A Tasca Azul que conheci era ainda aquela em que nos sentávamos a beber bebidas escabrosas, vínhamos cá fumar cigarros também escabrosos, e onde, naquela bruma, víamos as mulheres dali, velhas (para nós), gastas, de anca larga, deixar as malas na arca “frigorifica” quando os homens dali as vinham buscar. Para depois voltarem. Abrir ali um bar novo, diferente, exigia mudar o ambiente, escolher o universo da clientela. O que encetou a “gentrificação” (como se diz agora) da actividade comercial do bairro – então hiper-decadente (a qual, uma década depois, se repopularizou, em outros moldes, de anárquica venda de álcool diante da complacência inerte do município). Promovendo uma enorme mudança naquele bairro, na forma como os lisboetas (e vizinhos) olhavam e viviam o(s) bairro(s) histórico(s). Uma década antes da Europália, ainda mais antes da “Capital Europeia da Cultura”. E, também, nos tais apenas 8 anos depois do 25 de Abril, do fim do “Deus, Pátria, Autoridade”, nas formas como os lisboetas se comportavam, na festa, no namoro, nas cumplicidades, na convivência. Até na “conspiração”, então já a dos famigerados “projectos”, na elaboração dos “conceitos” (quem é que não tinha, no final dos anos 1980s, um “conceito” próprio para desenvolver?um irritante jargão a esconder o cinzento vácuo e a embrulhar a saudável ambição). No ser e, fundamentalmente, no aparentar ser, essa coisa tão importante. E isso foi uma “revolução” – porque, por mais que os intelectuais portugueses deste XXI queiram, as “revoluções” não são apenas as tomadas do “Palácio de Inverno” ou as decapitações das “Marias Antonietas”.

Ok, um tipo quando fala do que viveu com prazer, mesmo que eu fosse apenas um puto anónimo (e muito desajeitado), que teve a sorte de ter uns belos amigos lá nos Olivais, que abriam portas dado o seu brilho público de então (alguns mantiveram-no, outros têm-no entre nós), tem a tendência para dulcificar o ido. Até para o saudosismo. Mas não virá grande mal ao mundo.

Agora grande mal a este mundo vem quando os intelectuais. felizmente libertos da cartilha (pós)marxista dominante, surgem, até inconscientemente, brandindo os nada liberais ressentimentos regionalistas, o estatismo e o institucionalismo, a refutação da análise sociológica, os contributos da história social e cultural, esta que tantos mitos desmonta. E nisso se deixam pensar sob os (transviados) laivos do velho humanismo, isso de um mundo de “ricos” vs. “pobres”. Esses condimentos metidos no mesmo caldeirão dão para um manjar que teve um nome no pantagruel político: fascismo.

Conviria que, lá porque não se entrou no Frágil (ou no Lux, no caso dos mais-novos), não se pensasse tão mal.

Sobre o olhar destinado a Moçambique

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(Postal no Delito de Opinião, 29.3.2018)

Há alguns dias deixei aqui um postal aludindo à incoerência, sinal de incompetência e submissão ao casuístico, do parlamento português, o qual votou, de modo unânime, um pesar pelo assassinato de uma vereadora do Rio de Janeiro e que havia, recentemente, ignorado o assassinato do presidente de Nampula. Aquele que me pareceu ser um texto liso (“flat“) foi comentado de forma que me surpreendeu (concedo que cada vez mais tenho dificuldades em dialogar em comentários nos blogs, pois o tom parece-me bem menos profundo, num apenas provocatório, do que o que acontece no FB, mesmo que ali sendo abrasivos, o que se prende, decerto, com o efectivo anonimato de grande parte dos comentários bloguísticos). Assim ser contraposto naquele meu texto por considerações que julgam normal (“natural”) que o parlamento siga a agenda mediática é difícil de contra-argumentar. Pior ainda deparar-me com comentários reduzindo, de forma altaneira, o que havia escrito a um “disparate” ou a “misoginia”. Não é um lamento o que agora escrevo, é mesmo um cansaço. Explico-o, agora, através de dois pontos:

1. Não reclamei o interesse para um qualquer contexto longínquo. A Assembleia da República não é o governo. Como tal é normal, até desejável, que funcione um pouco segundo as comoções e pressões do eleitorado, da opinião pública. E que os interesses e focos de atenção das forças sociais que apoiam os partidos sejam mais ecoados através dos deputados. Assim sendo, é normal que o que tem mais peso mediático (o Rio é mais sonante do que Nampula, claro) induza mais reacções. Não é um defeito, é uma característica do parlamento. Ou seja, se a AR está vinculada à “razão de estado” vive esse vínculo de forma menos radical, em termos de imagem e discursos públicos, do que o governo, particularmente em questões de política externa. Sendo mais sensível a ecoar as correntes de pensamento internas, muitas vezes potenciadas pelas emoções colectivas e pela agenda mediática, esta salutar em democracia.

Dizer isso não implica que a AR não tenha também uma dimensão “estadista”. Nela está gente que se dedica à política externa e, mais em particular, à ajuda pública ao desenvolvimento, vulgo “cooperação” (terá comissões, grupos de trabalho; terá profissionais disso eleitos; terá políticos que já ocuparam postos na área; representa interesses económicos envolvidos; tem deputados da emigração; etc.). Assim, em questões estrangeiras não está, nem pode estar, limitada às solidariedades dos partidos representados, às comunhões ideológicas. Nem às parangonas das televisões e jornais. Poder-se-á discutir a pertinência formal de um parlamento votar um pesar sobre o assassinato de um vereador municipal (talvez que a reacção das instâncias políticas nacionais devesse incorrer sob o âmbito da Assembleia dos Municípios Portugueses, e das assembleias municipais – em particular a das grandes cidades portuguesas geminadas com o Rio; isso daria uma homologia). Mas pode-se ter querido incrementar o peso simbólico da reacção (duvido que tenha havido sequer essa consideração, mas enfim … dou de barato). Mas isso implica uma questão – deve a AR debruçar-se sobre qualquer assassinato de agentes políticos estrangeiros? Deverá ter uma atenção abrangente? E se sim sobre que universo se dedicará, e segundo que critérios? Só os do Rio? Só os Brasil? Só os da CPLP? Também os da UE? Ou por aí adiante até englobar os da ONU? Ou vota-se apenas segundo as proximidades ideológicas com alguns partidos da nossa AR, mais diligentes nas propostas?

Talvez que a AR não deva apenas depender da mera agenda  mediática e das solidariedades internacionais dos seus partidos.  Moçambique é o 2º país mais populoso da CPLP. Esta é um vector fundamental da política externa portuguesa (pelo menos ao nível discursivo). Portugal tem interesses no país (variados, desde os “morais” aos “económicos”, etc.). Tem tido papel na mediação de conflitos (inclusivamente nas negociações do recente conflito militar entre o Estado e o partido Renamo). Nampula é a segunda cidade do país. É a capital administrativa e económica da zona linguística macua – e há mais falantes de macua como primeira língua do que portugueses em Portugal, o que também dará para reflectir quando o discurso estatal e social aqui se centra na noção da “lusofonia” (ainda recentemente recuperada pelo nosso ministro da cultura, com reacção inexistente e debate nulo por parte das outras forças políticas nacionais). O presidente da câmara de Nampula (não um mero vereador) pertencia ao terceiro partido moçambicano, instaurado como o mais importante partido autárquico do país. E estava, dizia-se, de saída para fundar um quarto partido. Era um católico num contexto regional de esmagadora maioria muçulmana. Moçambique tem vivido conflitos militares nos últimos anos (houve uma pacificação nos últimos meses), e tem havido assassinatos de membros importantes do partido Renamo.

Nada disto explica o seu assassinato, sobre o qual não há informações. Mas tudo isto dá um contexto, óbvio, em que seria normal que a AR portuguesa, se entende expressar “pesar” pelo assassinato de autarcas estrangeiros, entendesse ter uma opinião política, de valor simbólico. Mas não teve, esqueceu-se: muito provavelmente apenas porque não há no seu seio um partido que se considere “companheiro de estrada” do falecido presidente. Ou, se calhar, porque nem sequer se lembraram do assunto. A mim parece-me simples, é um reflexo sobre as (in)competências da nossa AR em termos de reflexão sobre a política externa. Não é reclamar atenção para Nampula ou menosprezar a indignidade do lamentável assassinato da autarca carioca.  Mas é dizer que a AR não é apenas o fruto das primeiras páginas dos jornais (ainda que neles deva atentar) nem o rescaldo dos guias turísticos – que obviamente valorizam a “cidade maravilhosa” em detrimento da “cidade da chuva”.

Mas se aludir a tudo isto é sinal de misoginia e a continuidade de um costumeiro disparatar então não haja dúvida: sou eu, apesar de mim-mesmo, um disparatado misógino;

2. Ericino de Salema, jurista e jornalista moçambicano, comentador político na televisão, foi anteontem raptado e violentamente agredido, tendo, felizmente, o seu sequestro sido interrompido pela chegada de um grupo de crianças ao local para onde tinha sido levado e onde o espancavam com barras de ferro tentando partir-lhe os membros. Na sequência do acontecido o jornal Verdade elenca os 12 crimes políticos dos últimos 3 anos, incluindo vários assassinatos, desde o do constitucionalista Gilles Cistac, bem como o sequestro de Jaime Macuane, também comentador televisivo, levado de casa e baleado com cinco tiros nas pernas, ambos apartidários e meus colegas na Universidade Eduardo Mondlane. Este é um traço do processo político no, como acima refiro, 2º país mais populoso da CPLP, essa que é uma dimensão importante da política externa portuguesa, num país que a retórica estatal (e parlamentar) nacional afirma como bastante próximo – recordo, como símbolo, que Rebelo de Sousa convidou apenas três países para a sua tomada de posse: Espanha, Brasil, …. Moçambique. Referir que será expectável uma particular atenção, e concomitantes actos simbólicos, sobre este processo e seus epifenómenos, por parte do parlamento (e de outras instâncias políticas) será, no entender daqueles que entendem a política como um feixe de solidariedades sobre as causas identitárias (o género, a raça, a etnia, a … religião) que dominam o pós-marxismo actual, uma misoginia, falocrata, e um disparate, reaccionário.

Eu penso que não. E continuarei a pensar. Apesar dos comentários.

Sopesar os pesares

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(Postal no Delito de Opinião, 20.3.2018)

Um voto de pesar da Assembleia da República convoca-me a pesquisar se um análogo terá sido feito há alguns meses. No “dia da Paz” em Moçambique, data da assinatura do tratado de Roma em 1992, que estipulou o final da guerra civil, foi no ano transacto assassinado o presidente do conselho municipal (o equivalente à câmara municipal) de Nampula. Eu cheguei à cidade uns dias depois, percebendo o trauma generalizado que vigorava. Para mais, foi-me descrito o assassinato por um amigo meu que o acompanhava naquele preciso momento. Nestes últimos dias aconteceram as eleições autárquicas, com vista a substitui-lo.

Procuro agora no Google se a Assembleia da República se pronunciou sobre aquele atentado. Nada encontro, após várias buscas. Presumo pois que o facto tenha passado ao lado das preocupações e das agendas parlamentares portuguesas. Dos pesares dos senhores deputados e respectivas direcções partidárias. Se assim é (se o Google não estiver a esconder alguma referência ao assunto …) isto demonstra bem a mundividência de centenas de parlamentares e de alguns milhares de influentes luso-opinantes.

Ou seja, uma vereadora do município do Rio de Janeiro, segunda cidade do Brasil, país da CPLP, é assassinada (“brutalmente assassinada” é uma redundância, e isso poderia ser ensinado aos deputados), e a AR vota o seu pesar. O presidente do município de Nampula, segunda cidade de Moçambique, país da CPLP, foi assassinado e a AR ignora o facto, não expressa o “pesar”. Se não o votou porque será? Porque é em África, lá onde os gajos se matam uns aos outros, a necessitarem de umas “campanhas de pacificação”? Ou porque não pertencia ao partido feminista? Ou porque era homem? Ou porque, raisparta, o homem era negro, não uma mestiça (mulata/parda), bom material para os estes racistas subscritores do ideário “one-drop” a afirmarem “negra” (“preta”, no português brasileiro)?

O recente assassinato é lamentável e indicia um ambiente político tétrico no Brasil. Mas a minha questão, antipática, é a dualidade de critérios analíticos da totalidade da elite política portuguesa, expressa na reacção a estes dois casos. No afã demagógico de seguir o agit-prop de agora, a abjecta filiação ao “correctismo”, mostra-se bem a hierarquia de significados, importâncias e solidariedades. E transpira, de facto, bem lá no âmago, o fedorento racismo colonialista. Por mais tralhas intelectuais, a coberto da patetice dita “lusofonia”, que regurgitem.

Agora vão lá agitar as caudas no Can-Can gauchiste.

O mariola

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Os jornais estão cheios deste caso “FBD”, o mariola parolo que o novo presidente do PSD, depois de anos de preparação da sua ascensão ao cargo, levou para secretário-geral do partido.

Leio isso e deixo-me pensar numa coisa, que se calhar não tem muito a ver, mas boto-a. Tenho 53 anos. Olho para trás e lembro-me da gente má que cruzei. Recordo um punhado de gente da administração pública, um lumpen-PS, inculto e boçal, mas esse era um ambiente que me era incontornável pois institucional. Mas em termos de relações opcionais, brotadas de articulações profissionais, nas quais eu “dei o flanco” para que houvesse uma maior proximidade de actividades, só me lembro de 3 maus gajos: aos meus 20 e tal anos, um tipo que foi meu professor, um homem muito mais má-onda do que o que, ainda assim, o pintam; aos 30 e picos anos, um cooperante, um tipo mesmo do piorio, inenarrável; e já quase aos 40s com um colega meu, ingrato e caluniador, um tuga sacana no fundo, nada mais do que isso. O resto? Algumas pessoas excepcionais, lindas até; e uma mole de tipos como eu ou melhorzitos, borregadores ocasionais.

53 anos e só 3 mariolas encartados? Dirão que eu tenho tido muita sorte (talvez, concedo) ou que tenho tido uma vida muito curta (e eu aí sorrirei). Pois, de facto, um tipo com a vida aprende a conhecer esse tipo de gente. Pelo simples menear do bigode, que seja. Pela entoação da voz, pela forma como apresentam alguém a outrem, pelo aperto de mão (ou o “beijinho”), pela conversação suavemente ardilosa, pelo tempero venenoso na pequena maledicência, etc. E com isso um tipo aprende, também, a afastar-se, a não se comprometer, a não conjugar esforços.

Eu até acredito que Rui Rio seja um tipo decente. E muito o esperei, pois o país precisa de gente para combater esta indecência ontológica que é o PS (o partido de Capoulas Santos, Santos Silva, Vieira da Silva, António Costa, Leitão Marques, José Sócrates, etc.). Mas, raisparta, se um tipo como eu, um mero antropólogo adornado, aprende na vida a reconhecer e a afastar-se dos mariolas, um gajo que anda há décadas na política e há anos a preparar-se para ser presidente do maior partido português não o sabe fazer? E leva um gajo destes para secretário-geral? Caramba, das duas uma: ou é ele próprio um aldrabãozeco (e eu acho que não é). Ou então, e não há como negá-lo, é incapaz de avaliar homens. Um parvo, por assim dizer. E em assim sendo nunca servirá para chefiar políticos. Nem outros.

O secretário-geral do PSD

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A casa nem é pequena, e sobram-me as divisões pois eu aqui sozinho num a caminho de solitário. Ainda assim rearrumo-a, reordenando-a em modo (até desesperado) de me reordenar. Implica isso deixar sair mobílias dos meus predecessores, progenitores, meus e deles, assim qual ecdise, e tantas loiças, estas em notório e definitivo desuso, por ausência de quem delas se saiba servir. E todo este bric-a-brac, para além da imensa tralha que as décadas fizeram acumular, tanta dela morta por desaparecidos os detentores dos segredos que lhe dava um qualquer sentido, mínimo que fosse. E, mais do que tudo, metros e metros cúbicos de papel. Há décadas Eco gozou com a ilusão, doentia, de acumular fotocópias como se isso equivalesse a adquirir o conhecimento que continham. E sofri eu dessa miragem, mania mesmo. Partidos já foram caixotes de lixo delas carregados, e de dezenas de malvados dossiers, de armações enferrujadas e capas amarrotadas. Nisso nada tendo perdido pois, ainda que descreia que voltarei a leccionar, desadequado que fiquei, tudo o que larguei fi-lo após o ter gravado na internet, naquilo do “download pdf”, um talvez patético, ou nem mesmo talvez, “nunca se sabe…”. E há os livros. Aos meus, do Abeles ao Zumthor, neste 18 ainda os pouparei, ainda que tantos deles também ali à merce do “clic” “download”. Mas hesito nas estantes de literatura pois, ainda que Borges tenha avisado que após os 50 um tipo só deve reler, há por aqui tanta coisa que larguei sem mesmo terminar, tanto livro “imprescindível”, tanta “revelação”, afinal só meus erros de “casting”, aliás erros de “bookcasing”, que talvez esteja no momento de os fazer partir. E há os livros velhos, os dos antepassados, tantos deles apartados dos meus interesses e desta época, que fazer das estantes dos ensaios, mais ou menos apocalípticos ou regeneradores, da editorial Estampa e similares, pré e pós-25 de Abril, tiragens vultuosas a cujos remanescentes a minha geração não sabe o que fazer? Ou às divulgações científicas de quando se encetava a “cibernética”? E os mais antigos, que destino dar aos missais de XIX, às esfareladas edições também oitocentistas das obras (completas?) de Camilo, Garrett, Herculano, Dinis, e outros tão mais obscuros,  já para não falar das estantes preenchidas de “preciosidades”, disseram-nas em tempos idos, como as obras completas do cardeal Saraiva ou o Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal, e tanta outras coisas da “construção da nação” daquele então, nada disto encadernado, com letras doiradas de preferência, pois livros que foram de uso, lidos e consultados, assim nada interessantes para aqueles, já poucos, que ainda julgam produzir estatuto na posse de livros velhos adornados de antigos? Mais fácil, porventura preconceito meu, é o enfrentar as estantes e gavetas de revistas, colecções desirmanadas. Pois preservarei até à morte a minha completa do “Tintin” e o legado recebido das (incompletíssimas) “Papagaio” e “Mosquito”. Mas as restantes, literárias com vultos que não vieram a ser, económicas cheias de ciclos concluídos, de relações internacionais desacontecidas, de artes obscuras ou viagens afinal nada aventureiras, a tudo isso digo adeus. Com pena, mágoa até, não pelo papel que assim parte mas pela ausência de quem as comprou. Leu e guardou. Por isso, só por isso, antes de as empilhar folheio-as. Por vezes procurando adivinhar o que terá realmente interessado. Outras atentando nos sublinhados e, até, nas de tempos mais-recentes, nos post-it afixados.

Hoje deparo-me com alguns exemplares desta Mealibra, a qual desconhecia, revista do centro cultural do Alto Minho, publicada quando vivia eu em Moçambique. Num dos números, de 2008, um painel vasto e apetitoso de colaboradores, logo à partida Llansol (trechos inéditos) e João Barrento, e por aí adiante. Lá mais para a frente apanho uma crónica de Onésimo (Teotónio Almeida) e vou logo ler, que dele abundam pérolas, e procuro nada perder. Começa logo assim “Não “armar” deve ser a regra número um de qualquer texto na primeira pessoa. A segunda deve ser algo como “se armares, que seja em bombo da festa.”. Rio-me, do certeiro que o “ó Nézimo” sempre vem, naquela sua ironia bem-disposta. Iluminadora, para não dizer iluminista. E, sabe-se lá porquê, lembro-me do novo secretário-geral do PSD (ainda o é?).

Depois arrumo as revistas. Não é desta que as deitarei fora. Pois, afinal, ainda tão actuais.

O governo está a dormir

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O governo está a dormir. Googlei e vi que tem um tipo chamado João Paulo Rebelo (secretário de estado da juventude e do desporto) que depende do ministro da educação (googlei e vi que se chama Tiago Brandão Rodrigues). Ambos dormem, e ressonam.

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O turismo da escravocracia

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Vejo e vou ler, com interesse. Um pequeno artigo, simpática divulgação sobre um roteiro turístico dedicado à memória da Lisboa escravocrata. Trata-se de um passeio pedestre de 5 horas em Lisboa, apetecível, até porque conduzido por um estrangeiro, assim muito provavelmente menos atreito a ecoar os nossos lugares-comuns, a fazer-nos turistas da nossa própria história, assim a desconhecer-nos. Deve ser interessante, de preferência quando parar de chover.

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Passos Coelho na Universidade

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Vejo no facebook uma mole de protestos face ao anúncio de que Passos Coelho passará a ser professor no ISCSP e, posteriormente, em outras duas universidades. Todos têm implícito que o problema é ser este indivíduo (PPC) o convidado, e muitos o explicitam. É relevante notar que se a adequação do perfil político-partidário ao exercício da docência universitária foi estruturante no Estado Novo, os “democratas” d’agora convocam-na agora como critério.

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A linguagem genderada

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Um texto de hoje no “Público”, o órgão oficioso do BE, mais uma exigência para a depuração de género na língua. Segundo o escrito, se eu recomendar este texto publicado por esta pessoa estou a ser inclusivo. Democrata, até. Se eu partilhar a proposta deste indivíduo (uma opção inabitual mas não incorrecta) estou a ser um falocrata, imundo, reaccionário avesso aos direitos das mulheres. Isto porque o masculino genérico na gramática é uma arma de opressão, vil. Muitos (perdão, muitos e muitas, aliás muit@s) encolhemos os ombros, até enfastiados (e enfastiadas ou enfastiad@s), sobre estas coisas. Mas há três pontos sobre o texto que dão para reflectir: a ciência aplicada; o terrorismo intelectual; o terrorismo político.

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