Olhar os que morreram

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(Fotografia de Rui Duarte Silva, publicada no “Expresso”)

Tendo dedicado a sua recente medalha, obtida na Rússia, a um amigo de infância morto nos incêndios de Pedrógão Grande, e à sua mulher e duas crianças também ali mortos queimados, e acompanhando isso com um texto emotivo, o futebolista Ricardo Quaresma fez algo, e de modo muito genuíno, que está em voga: dar nome e cara às vítimas, sublinhar a individualidade dos perecidos e dos sofredores (algo que também a gente do bairro de origem do homenageado e do futebolista, no meu vizinho Sacavém, também faz, através de um mural, percebo-o nas notícias).

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O ambiente geral

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(Este postal refere o artigo do The Guardian “Teresa May was to scared to meet the Greenfeld survivors“).

X é um jornalista que foi muito animador do bloguismo (e logo no tempo em que a sua corporação ainda bramava contra a nova era da palavra pública) e, depois, de outras formas de expressão na internet. Nisso foi, durante anos, um tipo simpaticíssimo comigo, acolhendo e ajudando. Estou muito grato. Fui agora ver o seu mural de FB e descubro que já não estamos ligados (se calhar, surpreendo-me, terei sido eu a cortar, em dia de mau-humor. Se calhar foi ele, por desinteresse). E é por isso que não o nomeio, pois este postal não é ad hominem, não é mesmo ad hominem. Fui lê-lo porque o vejo (é a minha interpretação) como exemplo da palavra internética atreita ao PS, mas sem a pompa do académico-político ou a verve dos assessores, e tive a curiosidade de lhe ver a linha de recepção do acontecido em Pedrógão Grande e arredores. Talvez porque jornalista, concedo, centra-se na crítica (visceral) ao trabalho da imprensa. Mas imediatamente antes do incêndio reproduzira um postal de um prestigiado vulto da academia portuguesa, partilhando o artigo cuja ligação encima este texto, ambos realçando uma mesma parcela do texto. Vou ver a origem da sua partilha, o mural da intelectual portuguesa, e comparo, em ambos os casos, com a forma como analisam o que aqui aconteceu. É a minha, amadora e atomística, forma de procurar o ambiente geral à “esquerda”.

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A República dos Eucaliptos

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No final dos anos 1980s foi o “surto” das celuloses. Eram mecenas apetecidos, patrocinavam actividades. Era um maná, dizia-se. De facto não precisavam de publicidade para nada, era mesmo a criação da boa imagem, da naturalização da eucaliptização. Os da minha geração lembrar-se-ão disso. Para mim foi também foi esclarecimento político radical: era o tempo em que se vendia a ideia de que Portugal não tinha dimensão para ser agrícola, devendo ser silvícola e “de serviços”, e depois aquilo do Sillicon Valley da europa. Eu, tal como algumas pequenas franjas urbanas, ouvira o excelente Ribeiro Telles do PPM, a única voz pública ecologista, e que algo colheu do impacto dos movimentos ecologistas europeus daquela década, apesar do seu perfil diferenciado face a esses. Depois surgira o governante Carlos Pimenta, enérgico. E que veio a ser, convenientemente, enviado para Bruxelas. Nisso eu deixara-me de quaisquer dúvidas sobre o quão abominável era o poder de Cavaco – que viria a acabar anos depois entre Duartes Limas, Nunos Delerues e ainda da missa não sabíamos quase nada, das trocas da “Mariani” ao conselheiro Dias Loureiro passando por aquela cloaca toda – quando o ministro Mira Amaral declarou que os eucaliptos eram o nosso “petróleo verde”. E passara a votar PS.

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Racismo ou mera ilógica na administração pública?

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O meu amigo é meu colega. Ou o meu colega é meu amigo, como se preferir. Professor em universidade estatal, pós-graduado em país europeu, profissional de sucesso no seu país. Viajado pelo mundo. Aos quarentas chegado (já! quem diria ..;). Vida familiar estável, casado com a minha colega que é minha amiga, ou vice-versa, também ela em universidade estatal, o que quer dizer emprego estável, também ela pós-graduada em país europeu, também ela profissional reconhecida no seu país. Filhos crianças, que a família lhes vai crescendo e a gente saúda. Avanço estes pormenores para chegar ao pormaior: não me parece biografia nem perfil de candidato a imigrante ilegal. E se o fosse cairia na categoria, sempre bem-vinda ainda que tal nunca seja dito, do “brain drain“.

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