As cinzas da Beira Alta, exposição de Miguel Valle de Figueiredo

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Passam hoje exactamente quatro meses sobre os tétricos incêndios no distrito de Viseu, entre o concelho de Tondela e seus limítrofes, devastando a “Beira Alta”, na segunda apocalíptica volta dos incêndios florestais de 2017, dessa vez causando mais de 40 mortos. Desde então o meu amigo Miguel Valle de Figueiredo (o mvf, que durante anos co-blogou comigo) percorreu aquela região, que bem conhece, calcorreou mato, lugares, aldeias, vilas, encarou a gente que ali teima, desta ouvindo do horror de então e da violência posterior, advinda da arrogância burocrática de quem vem podendo. Nisso fotografou as “Cinzas” promovidas pela fúria dos elementos, o desnorte nacional e a incúria estatal, até abjecta. Enquanto uns, urbanos, se menearam vaidosos insanos, lamentando-se “de não ter tirado férias” ou, pelo contrário, “iam de férias” e pediam para “não os fazerem rir” a propósito destes e doutros assassinos fogos, e se gabavam de se preparar para as “cheias de inverno”, inaugurando casas refeitas com dinheiro alheio, apregoando ter revolucionado as florestas como nunca desde a Idade Média, e se faziam entrevistar em quartel de bombeiros, o Miguel foi para aquele lá, verdadeiros “salvados” de um país que insiste em desistir de o querer ser por via do apreço que vota aos tocos que julga gente, e até elegível.

Dessas suas andanças, vindas do seu fervor de fotógrafo e do seu dever de cidadão, produziu, a expensas próprias, pois não é ele daqueles capturáveis por Estado, municípios e respectivos tentáculos, tão pródigos se mostram esses para os fotógrafos “camaradas, companheiros e amigos”, um manancial iconográfico, uma verdadeiro arquivo para alimentar uma memória social do acontecido, deste sofrido que a história recente do país se mancomunou para gerar.

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Carnaval

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No sempre horroroso carnaval tradicionalmente as parvas adultas vão de brasileiras, os parvos adultos de travestis, as meninas de princesas e os petizes do super-herói que a Disney mais tem promovido. Não seria tão mais se os putos fossem assim? E os adultos de helicóptero Kamov? Isso é que era uma brincadeira. A agitar os “valores” …

O Prémio Camões

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O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político). Mostra-o o “costume”, que é orientação explícita, da alternância anual luso-brasileira da premiação (e não me venham com coisas, que conheço um punhado de ex-jurados, e isto é uma verdade factual). Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica. O que o pode indignificar é o que os Estados podem fazer dele. Morreu, “de morte matada”, nessa sua condição política, no ano passado com o silêncio português (é um prémio luso-brasileiro) aquando do inaceitável discurso do ministro da cultura brasileiro quando o gigante Nassar o recebeu. Estou a falar de política e de representação do Estado: o ministro brasileiro, um fascistóide agredindo de modo inaceitável o premiado, também reclamou (como se en passant) para o seu Estado o monopólio da premiação. A apatetada representação portuguesa calou-se. E o “campo literário” português nem tugiu nem mugiu. Não veio mal ao mundo. Mas mostrou a tralha em questão, a do prémio e a das gentes do tal “campo”. Adiante.

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Cana Lusa ou Lusotrópica

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A propósito desta proposta para legalizar o cannabis com fins terapêuticos, questão imensamente relevante no devir nacional, um amigo meu propunha-me há pouco a linha internacional de afirmação portuguesa (diplomática, turística, política, comercial) como a lusotrópica, ultrapassando o vetusto  lusotropicalismo e a estafada lusofonia. Eu, mais moderno e privilegiando a dinâmica das exportações comerciais e de importação de transumantes turistas, advogo a campanha da “Cana Lusa”.

Legalize it?

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O mundo da hipocrisia: este fim-de-semana cá em casa um belíssimo médico que me é muito querido e próximo dizia sobre esta cena da legalização do cannabis para efeitos médicos que “temos uma série de químicos que fazem o mesmo e sobre os quais temos estudos sobre os efeitos secundários, não tanto sobre isto …”. Mas, dizia ele, liberal (eh, eh, liberal de costumes, não é “neoliberal”, não disparem já), “aceite-se“. Até acredito que tenha efeitos terapêuticos, até já li sobre isso. Mas, olivalense adolescente nos finais dos anos 70s, só me sorrio diante disto. Pode ser que seja terapêutico mas a questão é política, lá no fundo é o “legalize it” que animou uns nichos BE da década passada (não disparem, fiz o meu primeiro interrail em 1982, cruzando a “comunista” Jugoslávia com um pin desses. Voltou encardido, tão poucos banhos tomámos nesse mês.). Mas enfrente-se lá a coisa (o brunhol) como “deve de ser”: a gente vive num país de cultura vinícola, e de aguardentes vinícolas, (regresse-se ao Braudel, sff), de facto um país alcoolizado, onde até a sacrossanta selecção da bola publicita cervejas e um puto de 13 anos pode comprar shots no centro de Lisboa. Um consumo alcoólico per capita dos maiores do mundo, alcoólicos “funcionais” por todo o lado e disfuncionais também. Se qualquer pateta de classe média substituiu o bitoque por sushi e as papas de aveia por cuscus, está mas é no momento de dizer “fumem lá isso” (e não chateiem), e bebam um bocado menos (já viram quantos cinquentões estão a morrer do fígado, e nem todos por causa da heroína de antanho?). Sem esta hipocrisia do “terapêutico” …O brunhol faz mal? Imenso. Ao corpo, aos pulmões e etc. E estuporiza. Mas num país onde metade da população que vem ao FB é adepta do Sócrates (aka Costa) qual é o susto?, há tantos estupores que já não há forma de piorar. Em suma, “Kaya”, mas sem este patético requebro sanitário.

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A carta racial

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Diz-se que a beleza está nos olhos de quem vê, cada cabeça sua sentença, etc. Mas é óbvio que nem seria preciso ir buscar um ícone como Richard Gere para assegurar a unanimidade desta afirmação: este sexagenário é muito mais agradável à vista do que a carantonha do perfil deste bloguista ou do que a do presidente da Assembleia da República portuguesa. Ou seja, em termos estéticos pode haver proclamações universais. Ou, pelo menos, avaliações mais ou menos abrangentes, pouco refutáveis.

Dito isto, leio que Rita Ferro Rodrigues, conhecida apresentadora de tv, protesta com o facto das 4 apresentadoras escolhidas para o festival da eurovisão serem brancas, por ser isso uma falta de representatividade. Mais uma vez vai a jogo a “carta racial”, nisto de se exigir que se repartam os trabalhos “representativos” por aqueles que têm diferentes legados genéticos. Algo que o eixo PS-BE entende agora muito importante. O que é relevante é o que isto esconde, nas suas vestes de aparência analítica. Pois vejo a foto das 4 seleccionadas. Só conheço uma, com a qual confesso continuo a abanar à sua visão, Catarina Furtado. As outras 3 desconheço, nem serão beldades olímpicas mas têm um (relativo) palmo de cara, apreensível por esta minha vista desarmada. O que Rita Ferro Rodrigues não pergunta (porque não consegue?, porque não quer?) é quais são os critérios de “representatividade” que existem quando as caras da TV são tendencialmente bonitas? Que lugares há para as mulheres com as quais me cruzo no quotidiano, agradáveis ou desagradáveis à vista? Nas caixas, nos guichets, nos restaurantes, nas lojas, em empregos mais ou menos destinados a mulheres relativamente novas e com poucos (ou pouco especializados) estudos? Esse legado genético (e as possibilidades económicas destinadas às plásticas ou rearranjos externos) pouco lhe(s) importa(m). A única coisa que é relevante, porque está na moda, na crista da onda do surf, é a “carta racial”. Meta-se uma mulata, uma macaísta, que tudo vai bem. Desde que “as nossas meninas” (como dizia o insuspeito Rosas) sejam bonitas. Porque isso é “natural” …

E depois os reaccionários, os racistas, os lusotropicalistas são os outros. Brancos, claro.

Rescaldo de 2017

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Princípio da última tarde do último dia do ano, avanço, distraído, até ao talho da “grande superfície” (antes dita supermercado) defronte à minha casa. Encontro a óbvia azáfama, que deveria ter antevisto, baldo-me à fila e refugio-me junto aos expositores, tentando uma nesga que me deixe surripiar algo. Um talhante está a abastecê-los, rodeado de clientes que o interrogam sobre as disponibilidades do momento enquanto se servem directamente da pilha de caixas carregadas das embalagens que ele está a colocar. Ele está simpático, sorridente, falador, e assim percebo-o brasileiro. Aproveito e pergunto-lhe se não tem uns itens de frango ou peru que procuro, para os trabalhar com o sempre precioso apoio do youtube. Solidário, abre o sorriso, e diz-me que não, que “hoje já não há mais“. E explica, quase que em desculpa: “Este ano está assim, estou em Portugal há 18 anos, há 17 na companhia, e nunca vi as pessoas assim, nunca vi vender tanto no fim de ano“. Eu sorrio e respondo-lhe, “é isso, isto está melhor“. Sorri ainda mais, “é isso, a crise acabou“.

Bom 18“, digo-lhe, já com uns nacos de frango e de peru na mão. “Bom ano“, devolve. A ver vamos.

Os meus vizinhos

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Há ainda quem não goste do Facebook, e alguns sentem isso sem qualquer blaseísmo. Eu gosto, com a minha experiência de emigrado e agora de torna-viagem. Como fonte de informação. Mas também porque forma de contacto com amigos e conhecidos mais ou menos distantes, sabendo novas dos seus passos, relevantes ou quotidianos. Dos seus afazeres e gostos. Da sua vida. Dos seus prazeres, pesares e pensares. E, porque faz parte da vida – e a minha geração já chegou a essa idade, e devemos ombrear nisto -, da sua degenerescência, a miopia, surdez ou até já demência. Como a que reconheço agora em alguns mais ou menos próximos lisboetas, que avizinho no Facebook, há alguns anos indignados e/ou irónicos com a senhora Jonet porque recomendava que não se comesse carne todos os dias. E agora já calados, alheados, porventura no ensimesmamento da senilidade, com esta “raríssima” senhora. Ou, um ou outro, balbuciando, com a vetusta queixada em tremuras, “tecnoforma”.

A EMEL nos Olivais

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Esta foto de 1993 mostra o início da construção dos edifícios numa área descampada nos Olivais-Sul, então dita “centro cívico” e que veio a ser o actual centro comercial e habitações circundantes. Toda a praça foi edificada. A construção, 25 anos depois, ainda não terminou – o que mostra bem da desadequação da dimensão planeada. Na mesma rua abriu-se uma estação de metropolitano, na extensão de 1998. Na rua traseira reabilitou-se uma escola C+S e construiu-se uma primária. Entretanto, e estabelecendo-se uma zona de serviços, as lojas dos antigos prédios, que eram áreas comunitárias, passaram a ser alugadas a pequenas empresas – algo que seria previsível. Nos Olivais-Norte também se fez uma estação de metro. E ali se avizinharam as instalações do aeroporto, em crescendo.

Em nenhum momento Abecassis (1980-1990), Sampaio (1990-1995)/Soares (1995-2002), Lopes/Rodrigues (2002-2007), Costa (2007-2015)/Medina (2015-2017), induziram ou estabeleceram parques de estacionamento adequados ao previsível aumento de trânsito. Nem no bairro nem a montante (neste último caso em articulação com outros concelhos). Esta praça (as ruas cidade de Bolama e de Bissau) é um arquétipo do política camarária lisboeta, a cedência total ao “construtivismo” desbragado, sem qualquer sensibilidade urbanística.

A presidente da Junta de Freguesia prometeu há 4 anos que nunca deixaria entrar a EMEL na freguesia. Reiterou a promessa nesta última campanha. Que fazer? Agora, em assembleias e nas redes sociais, surgem fregueses apelando à instalação dos parquímetros, dizendo-se cansados da falta de estacionamento provocada pelo afluxo diário de viajantes e funcionários. Alguns dos fregueses considerarão que esta é a melhor solução, face à situação. Outros, presumo, falam porque têm esta missão partidária, a de criar a vaga de fundo para que o poder autárquico solicite a entrada do pagamento para estacionar. Como defesa dos fregueses …

Em 30 anos (!) não houve um gajo na Câmara que pensasse (e actuasse) no problema do estacionamento que toda esta infraestruturação provocaria. E agora, neste bairro tão envelhecido, tocará a pagar para ir visitar os velhinhos. Entre outras coisas. “Porque é melhor!”. E depois o facebuqueiro/bloguista é que é azedo …

O Pesar

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Um voto de pesar na Assembleia da República pelo falecimento de alguém não é a expressão de condolências pessoais, é um acto político. Como tal é perfeitamente legítimo, ainda que possa (erradamente) parecer antipático, votar contra a expressão política desse pesar. Belmiro de Azevedo foi um grande empresário português, um grande capitalista como antes se dizia, e também foi simbólico desta nossa via económico-social. Assim sendo é perfeitamente normal que o PCP, como adverso a esta via, vote contra a expressão política de um pesar pelo seu desaparecimento. É isto a política e a sua componente ideológica.

Agora o que não tem qualquer tipo de pertinência, o que é mesmo incompreensível porque inexplicável, é uma abstenção. Por outras palavras, ou sim ou sopas. E assim sendo este pequeno caso político, a posição da assembleia face à morte do empresário, mostra bem a vacuidade medíocre dos … abstencionistas.