40 anos após Brel

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Há 40 anos, passam hoje, morreu Brel e como o homem nasceu aqui na vizinhança, nem dez minutos andando, é só subir a patriotes, virar na plasky e ir até à praça, essa mesmo, seguir na diamant e foi aí no 138, um prédio inócuo sem nada que o faça falar, que já lá estivera, há semanas quando aportei desarvorado, a pedir licença para aqui estar, a benção diriam os crentes, a benção digo eu também, e volto pois é o dia, enfim, e porque não?, e recolher-me-ei mesmo sem saber entoar a bourgeois ou trautear aquela do só nos resta o amor, caramba essa sempre a tocar fundo, e muito menos tendo fôlego para me lembrar da marieke ou de tantas daquelas outras, e hei-de ficar um pouco defronte, fumarei um cigarro e esperarei, espera de esperança, com os olhos na cerveja, aqueles marinheiros do norte, de amsterdão ou assim, ali chegados, vindos hoje pois é o dia, a beberem e a rebeberem e eu rirei, direi arrivei e sentar-me-ei à mesa deles, reclamando-me também marinheiro, de águas-terra porque o fui, mas dizendo ainda o ser, tant pis si je suis menteur, e beberemos às putas de amsterdão ou de hamburgo ou lá de onde vieram estas, com eles mesmo ou então aqui da comuna, atraídas pelo barulho, e chegados ao daqui a umas horas, sempre nisto do amigo enche-me o copo, cantando e felizes, e poderei dizer nesta língua um assim ils pissent comme je pleure sur les femmes infidèles, mas chego lá e só há isto, a rua toda composta,  pintadinha e sossegada, o maldito silêncio desta cidade, e o prédio, inócuo já o disse, a placa descorada, tanto que nem se lê isso do “aqui nasceu Brel” e logo abaixo, até debruando-a, uma outra de fulano de tal, notário, anuncia-se o flamengo, e todos os sacos e saquinhos de lixo, tão arrumadinhos e cuidados, cada um da sua cor, própria a cada dejecto seleccionado, será o dia da recolha decerto, e nada mais, o silêncio, já disse, esse que fere, nem um marinheiro holandês, nem uma puta de hamburgo ou isso, nem mesmo o só espaço para o grito, suave e até timorato, de os burgueses, nós, c’est comme les cochons, como posso? se tudo tão decente, e organizado, e curial, e higiénico, sacos de cada cor e tudo, insisto, e nem uma puta infiel, nem um marinheiro rebebido, e nem um amigo para remplis mon verre …

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Aznavour e o rap

Ainda há dias me surpreendi ao ver um cartaz (dos muitos espalhados na cidade) anunciando um seu concerto aqui durante Outubro – um Matusalem em palco. Morreu agora. Cantou viveu até aos 94. Grande vida. E, como aqui se vê, sempre pronto para a crista da onda …

Brel

Desde os anos 60s que a electricidade na música e a anglofonia nos perverteu as orelhas e seus interiores. Por isso encontrar um velho da minha idade e, menos ainda, alguém mais novo que se lembre que o belga Brel foi um génio, até bem maior que os beatles /stones magníficos que lhe sucederam, e que foi muito, muitíssimo mais rapper do que estes boçais, apenas pretos, que o vão sendo agora, encontrar alguém um velho que disso se lembre, digo eu, é tão difícil … Por isso vão lá ouvir os Santos e as Varelas. Que nunca chegarão aqui. Nem o querem, por desconhecerem.

Nos amitiés sont en partance
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
La mort potence nos dulcinées
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
Les autres fleurs font ce qu’elles peuvent
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
Les hommes pleurent les femmes pleuvent

J’arrive j’arrive
Mais qu’est-ce que j’aurais bien aimé
Encore une fois traîner mes os
Jusqu’au soleil jusqu’à l’été
Jusqu’à demain jusqu’au printemps
J’arrive, j’arrive
Mais qu’est-ce que j’aurais bien aimé
Encore une fois voir si le fleuve
Est encore fleuve voir si le port
Est encore port m’y voir encore
J’arrive j’arrive
Mais pourquoi moi pourquoi maintenant
Pourquoi déjà et où aller
J’arrive bien sûr, j’arrive
N’ai-je jamais rien fait d’autre qu’arriver

De chrysanthèmes en chrysanthèmes
A chaque fois plus solitaire
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
A chaque fois surnuméraire
J’arrive j’arrive
Mais qu’est-ce que j’aurais bien aimé
Encore une fois prendre un amour
Comme on prend le train pour plus être seul
Pour être ailleurs pour être bien
J’arrive j’arrive
Mais qu’est-ce que j’aurais bien aimé
Encore une fois remplir d’étoiles
Un corps qui tremble et tomber mort
Brûlé d’amour le cœur en cendres
J’arrive j’arrive
C’est même pas toi qui est en avance
C’est déjà moi qui suis en retard
J’arrive, bien sûr j’arrive
N’ai-je jamais rien fait d’autre qu’arriver

 

A estátua

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Esta gente daqui fez agora ao Brel o que nós tínhamos feito ao Pessoa. Parece que foi a pedido dos … comerciantes lá da rua. Está bem, o que é que se há-de fazer?

Algumas das canções da minha vida

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(Postal no Delito de Opinião)

O Pedro Correia elencou algumas canções da sua vida, na sequência da bela série que vem colocando no Delito de Opinião. E desafia-nos a colocar (algumas d)as nossas. No seu sumário ele meteu 12. Eu, acorrendo a responder, selecciono de rajada as que me são mais óbvias. Obrigo-me a ficar por estas 18. Não é a lista das “melhores canções”, é um rol de canções que me fizeram. E à minha vida. E espero que a minha filha Carolina se saiba reconhecer aqui. Tal como à sua mãe. E que algumas outras pessoas, se por cá passarem, também possam reconhecer-nos.

 

O Festival da Canção

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A meio da tarde sou surpreendido pela fome. Resolvo-me diante da TV, frugal e rápido. Como tal em modo zapping, hoje em desuso dada a possibilidade de gravação. Na RTP Memória passa o Festival da Canção 1982, apanho a votação final que veio a celebrizar as Doce. Delicioso: o amadorismo daquilo tudo, a votação feita por distritos qual eleições legislativas, os telefonemas dos júris “está? o júri reunido no salão nobre da bela cidade de …”, os enganos no quadro eléctrico da votação, as inacreditáveis vestes da apresentadora e dos concorrentes, os penteados (o mundo da laca, das permanentes, dos cabelos dragónicos), o ar enfastiadíssimo da assistência, a cerimónia de entrega dos prémios, que seria patética se não fosse pateta, a roupa do Tó-Zé Brito.

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Zena Bacar

zb

Morreu a voz canónica do norte de Moçambique, a diva da Ilha se se quiser, ainda que nunca assim dita, pois muito mais a diva vinda da Ilha, a sempre voz dos Eyuphuro.  É assim um muito, enorme, do norte de Moçambique que enrouquece. Últimos tempos de vida difíceis, lia-se na imprensa. Escassez de registos musicais, o que ainda mais se nota nos raros filmes disponíveis na internet. Textos quase nenhuns. Fica a voz e o estar. Que foram enormes.


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A “ficarmos sós”

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Claro, como muitos (todos?) estou aqui a ouvir “Tudo dos Xutos” – desde as “Homem do Leme”, “Remar, Remar”, “1º de Agosto”, “Circo de Feras” que são as que tenho mais incrustadas, os Xutos a falarem / rockarem o que me ia no X. Mas agora mesmo chego a isto, uma cena que não conhecia. Nem imaginava. Uma delícia, aka, uma g’anda malha. E, raisparta, o “(mais)velho” a aguentar-se no meio daquilo, e de que maneira. O lixado é que “ficamos sós” … mesmo.