A propósito dos Oscars

plummer

O velho Plummer (que ficou na história como o anti-nazi Von Trapp, imagine-se) aprestou-se a refazer o papel do Spacey, apagado do filme “Todo o Dinheiro do Mundo” pois este queimado na praça pública por, de facto, não se ter assumido no momento considerado devido como membro do movimento político “gay”. E, toma lá, logo, assim como quem não quer a coisa, levou com a nomeação para o Oscar. E ninguém diz nada a esta sequela do blockbuster “The world according to Stalin”.

A McDormand, excelente nos “3 Cartazes”, como sempre é, recebe o Oscar e manda a raparigada toda levantar-se, que este ano a causa é a feminina (feminista, se se quiser). Tal como antes foi a “afro-americana” (muito fiéis são aqueles tipos à lei da “one-drop”, já agora). A raparigada lá se levantou, aplaudiu, até ululou (as que o sabem fazer). E o mundo vê e acha óptimo, tão “liberals” (não é neoliberal, atenção) são os de Hollywood. E copiam-nos.

Que nojo. Os que copiam. Que os outros são o que são.

Anúncios

Após o caso Nassar

nassar

Distraído, se calhar, só ontem (no FB) tomei conhecimento deste caso Nassar, o médico da selecção de ginástica americana, acusado de violentar 158 jovens mulheres durante cerca de 20 anos. Um caso horrível. Com duas lições aqui para o recanto português:

1. nos excertos do julgamento colocados na imprensa ouvem-se as declarações da juíza. Antes de condenar o homem a 175 anos de prisão, e num discurso tão veemente que corre mundo, a juíza pergunta-lhe “Are you guilty, sir?” e noutro momento (que não reencontro) diz-lhe “Sir, não é digno de voltar a sair da prisão”. O “Observador”, que muitos louvam, traduz “sir” por “você”, o que mostra bem o grau de morcanzice a que chegou o jornalismo português, mesmo o “fino”. Esta é uma monumental lição para a cáfila de juízes portugueses, cuja arrogância de funcionários públicos os leva a destratar os réus – mesmo um tipo destes, num julgamento hiper-mediático, recebe o “senhor” a que um servidor público está obrigado. Os juízes portugueses não perceberão isto, porque, iletrados como o Observador, traduzem “sir” por “você”, e cagões como funcionários públicos remetem-no para o “vossemecê” altaneiro e reduzem-no ao nome próprio desvalorizador.

2. conheci isto via partilhas no FB. Gente com júbilo comemorando uma pena de prisão perpétua e saudando uma juíza que diz “estou a dar-lhe uma pena de morte” (uma perpétua inultrapassável). As pessoas são abjectas. Este abjecto Nassar apenas põe em prática o que esses facebuqueiros são.

Lusotropicalismo

Quando na 1ª década de XXI o Brasil se expandiu em África, no âmbito das celebradas relações “Sul-Sul” mas com uma lógica tão “neo-colonial” como as precedentes (ou mais, por avidez de neófito), algumas das suas grandes empresas aportaram a Moçambique e houve grande incremento de trânsito político (e de “cooperação”). E alguns dos seus agentes explicitamente apontavam que estavam ali “contra o colono” (o “ocidente”, o pérfido “norte”). Pouco depois tornou-se ali corrente o saber do quão a elite política brasileira, incluindo a família presidencial, participava nessa extroversão económica. 

Read more

Os Duendes Alheios

you

(Postal para o Delito de Opinião)

Aquando do horroroso ataque à Charlie Hebdo o então vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg teve estas fundamentais declarações: em democracia não temos o direitos de não sermos ofendidos. O que então disse devia ser um lugar comum, pois é a base da nossa sociedade democrática. Mas não é tão lugar comum. Seja a propósito de situações liminares, como as de então. Seja a propósito de questões (infelizmente) do quotidiano. Isto de agora, do “importunar”, que se quer criminalizar e que se criminaliza. Misturando-o com o assédio, com o exercício de poderes sob formas ilegítimas. Há atitudes que são, mais ou menos generalizadamente, consideradas imorais. Devem ser criticadas, são passíveis de sanções morais, sociais. E devem ser alvo de pedagogia e crítica pública – difundir, o que será difícil em tempos de mediática hipérbole “javardista”, que o “fazia-te isto e aquilo”, “quem me dera aqueloutro” é não só abjecto como é também sinal de enorme fragilidade e de incumprimento. Face às mulheres e também face aos outros homens. Mas não são crimes. E isto tem tanto a ver com os célebres como com os tipos que andam por aí a importunar as nossas queridas (“óh pai, o que tenho que ouvir às vezes”, dizia-me, enjoadíssima, a minha adolescente filha quando o outro dia cá em casa se discutia este assunto das “actualidades”).

Read more

Assédio?

you too

(Postal para o Delito de Opinião)

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida – o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e … demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados – o professor que não “lança” a nota, que “chumba” a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o “poder dos homens” mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores.

Read more

Carmen correcta?

carmen

Esta é uma delícia – a célebre ópera Carmen apresentada com o final invertido, para se adequar à luta feminista da actualidade. Certo, as obras não são sacrossantas e podem ser actualizadas (e são-no), em diálogo com os valores e interesses actuais. Normalmente isso empobrece a compreensão do texto (a patacoada, que se tornou canónica, da “Tormenta” de Shakespeare como discurso colonial é um exemplo máximo). Mas pronto(s), a gente está cá para isso. Há várias formas de fazer essa actualização: mudar a trama, como é este caso narrado, é a mais fácil.

Há outra que é mudar o sentido facial: um exemplo imenso disso são as “leituras” da “Medeia” de Eurípides, tornada há décadas símbolo do feminismo. De facto, a personagem é asquerosa sob o ponto de vista ético (e daí o seu sucesso milenar): rouba a família para ajudar o namorado, manda esquartejar o irmão (querendo impedir-lhe o fundamental funeral) para poder fugir com o tal namorado e os bens roubados, mata os filhos para se vingar do namorado (então já “companheiro”) que se quer casar com outra, no que é a apologia da monogamia e da fidelidade conjugal (coisas tão denunciadas noutros itens das “boas-causas”). E nisso tudo é uma malvada oportunista, acabando por retomar (isto já nas sequelas) o poder político que traíra (ok, talvez sirva para um tratado sobre a política de XXI). Desta cabra imunda fez o feminismo uma higienização glorificadora, adversa à falocracia (e decerto que alguma(s) douta(s) dirá(ão) que eu não percebi nada do texto). Apenas aludo a isto porque, dada esta via “correcta” de revisão das tramas que a notícia descreve, o ideal para este fim dos 10s será fazer uma Medeia soft, sem roubar as coisas para o Jasão, tirando a bateria ao carro do pai para o atrasar na perseguição, e, no final, partindo no carro do Sol com os seus filhos fugindo ao “tribunal de família” para assegurar a sua tutela (forma de denúncia do patriarcado vigente nas instâncias jurídicas). Assim ficará toda a gente contente. Com o telefilme.

Difícil é escrever peças novas.

H&M

HEM

Uma boa provocação serve para agitar as lamacentas mentes. Mas esta não o é. O que se passará nas “cabeças” dos “criativos” e dos aprovadores desta campanha do H&M (entretanto retirada)? Sim, somos todos (primos de) macacos. Mas meter um miúdo “branco” ou “amarelo” nestes propósitos seria uma coisa (e teria sido bem sacada), meter um “preto” é outra – a quantidade de vezes que ouvi chamar “macaco” a “pretos”, e não é preciso ir ao futebol para isso, mostra bem o desadequado disto. Não é só de “brancos” ou “amarelos” para “pretos” (ou de “brancos” para “amarelos” e vice-versa) – e lembro-me do meu espanto ao ouvir um músico maputense, pela primeira vez na Ilha de Moçambique, dizer dos naharas – que defecam na praia, vivem aglomerados no macuti, etc. – “estes tipos são uns macacos”. Mas é, neste mundo global, acima de tudo uma desvalorização, um atraso ontológico atribuído àquela outra “raça”, principalmente à “negra”. Todos protestarão contra isto. Mas muitos, depois, “macacalizam” outrem. Conviria acabar com isso. Nisto do Je suis singe. E não preciso de roupa de (qualquer) marca para o mostrar.

As Personalidades Relevantes de 2017

2017.jpg

(No Delito de Opinião)

A minha escolha das personalidades de 2017. Ainda segue a tradicional, conservadora e até reaccionária distinção de género (“mulher do ano”, “homem do ano”). Presumo que em 18 (ou, vá lá, 19) isso já não seja socialmente aceite e, como tal, aproveito para me ir despedindo deste “uso e costume” indígena:

 

sonia.jpg

Mulher do Ano (Nacional)Sónia Fertuzinhos, ainda deputada vimaranense. Esta trapalhada do Montepio e da Santa Casa  (de que se virá a falar bastante daqui a uns anos, para total pasmo – “nunca me apercebi de nada” – dos inclusos na actual mole geringoncica) tinha que ter uma cabeça como moeda de troca. Ficará por esta cabecita, mera moeda preta …

capoulas.jpg

Homem do Ano (Nacional)Capoulas Santos, grande revolucionário florestal e ainda ministro da Agricultura: “O Governo fez a maior revolução que a floresta conheceu desde os tempos de D. Dinis”, proclamou em meados de Agosto. Conferiu-se.

 

isabel-dos-santos.jpg

Muher do Ano (Internacional): Isabel dos Santos. Injustiçadíssima no processo de transição política no seu país. Nem um discurso solidário dos seus sempre solidários em Portugal.

mugabe.jpg

Homem do Ano (Internacional)Robert Mugabe. O Tio Bob foi condenado a ir para casa (para o palácio, entenda-se …) ouvir o audiolivro The Autumn of the Patriarch. Adormecerá nesses entretantos, claro. Nem um sinal solidário daqueles que tão ufanos ficaram quando o trouxeram a Lisboa, na cimeira UE-Africa, então areando-lhe a legitimidade

Viva Spacey

gspacey

Já estive para blogar um texto “Je suis Kevin!” mas censurei-me (enfim, sou pai, que pensaria a minha filha? …). Mas esta nova notícia é espectacular, gargalhável, obriga-me a botar. Então não é que o mariola foi apalpar o príncipe lá da Sildávia, e no próprio palácio dele … O gajo é um radical, sem limites. Ou seja, literalmente desbragado. Será até, porventura, um pouco uma bicha louca (eu sei, a expressão é um bocado preconceituosa. Mas é usada também por homossexuais, assim entendo-a legítima). G’anda Kevin. A notícia tem também duas implicações políticas: a primeira, lateral, é um estalo nos pobres monárquicos, sempre ciosos de uma qualquer superioridade das linhagens. Pois é óbvio que um cavalheiro nunca falaria em público de uma coisa destas, quanto mais um genro de rei. Assim mostrando-se qual mero espectador de reality show, como qualquer sub-plebeu. Enfim, o episódio serve para fazer engolir a patetice monárquica.

A segunda é mais actual, pois isto mostra bem o ambiente e a injusteza (e injustiça) do execrável ambiente que vem acontecendo. Um tipo é jovem e lê, por exemplo, uns contos do Tennessee Williams e, apesar de tender para outro lado, acha-os o máximo. Como contos, acima de tudo, mas também como liberdade. Depois envelhece e vê este pérfido retrocesso, como esta horrível coisa que andam a fazer ao Spacey – despedido e até o apagam de filmes, pura censura diante do silêncio da dita “esquerda europeia”, sempre tão atenta às censuras e perversões de Hollywood. É de lembrar, isto é um ambiente criado pelo fundamentalismo “genderista” / “identitarista”. Em última análise é autofágico (pois cairá em cima dos seus mais acérrimos defensores, vituperando comportamentos ditos “alternativos).  Pois, de facto, a única coisa de que Spacey é acusado é de ser “promíscuo” (palavra que é um programa político, moralista). Foi moral e profissionalmente linchado por razões políticas – por não se ter assumido como homossexual, e como tal ser uma “fraude”, disse o primeiro delator. Ou seja, por não integrar as fileiras do movimento político “gay”. Nisso acusado de violências morais e físicas, e até pedofilia (a monstruosidade dos nossos dias). Mas de facto o gajo não é mais do que um atrevido, tanto apalpa o tal “príncipe” como diz ao jovem no bar “vamos lá …”. Não assenta o seu (in)comportamento no poder que tem, mas sim no risco (deve ser uma personagem …). Não é que eu esteja a secundar a abordagem (eu, a quem até o canto do olho se engasga, tímido e corado, quando passa alguma senhora mais apresentável). Mas isto não tem nada de violento (“é a vida”, como se diz em inglês) e está provocar a sua lapidação. Pelos radicais homossexuais (em formato autofágico, e nem parece estarem a compreendê-lo). E pelos moralistas mais conservadores. E, apanhando a crista da onda, como se na praia da Nazaré, pelas mais reaccionárias das militantes do “género”, excitadas em versão de mera tradução heterossexual deste fascismo, que tudo quer transformar em “assédio”. Mas, para além disto tudo, fica o fundamental – isto do sacaninha do Spacey ir lá apalpar o decerto que cagão do pseudo-príncipe. Yes!

O massacre de Bir al-Abed

al rawda

O escabroso ataque à simbólica mesquita Rawda, em Bir al-Abed, com 300 mortos num templo, passa um bocado ao lado das nossas preocupações, por ser “demasiado” longínquo. Mas, mais uma vez como em tantos outros atentados na Ásia e em África, demonstra que o que se passa na actualidade é uma guerra interna ao islão (religiosa: contra modos de ser islâmico; política: contra formas “moderadas” [atenção às aspas] de articular teologia com sociedade). E, também, subsidiariamente, contra os incréus, exógenos. Ou seja, por um lado não se reduz a uma guerra do Islão contra a Cristandade (ou o Ocidente), uma “Crescentada”, como gritam os radicais pró-fascizantes por cá; e por outro lado não é mero fruto da malevolência ocidental (aka, “os americanos”) e da falta de uma política de “integração” social europeia, como s’indignam os bloquistas melenchonistas.

Isto está escrito e reescrito por quem percebe da história do assunto e do presente do assunto. Mas como estes radicalismos, tanto os da dita “direita” como os da dita “esquerda”, sempre vivem da ileitura dos seus tontos apoiantes talvez estas monumentais desgraças possam servir para que alguns deles (poucos, que a maioria é mesmo burra) abram os olhos e percebam algo do mundo em que vivem.