Sob João Lourenço

MLU

200 000 congoleses expulsos de Angola, entre os quais refugiados (pelo menos 27 000). A indução de uma desgraça humanitária. Relatos iniciais de saque dos bens dessa população. Violação dos tratados internacionais. Ferocidade e cupidez da tropa angolana, soberanite desbragada do poder angolano.

Onde estão as reacções internacionais? Não falo dos organismos multilaterais, hoje esfacelados nas suas capacidades políticas. Nem mesmo da portuguesa, dissipada qualquer capacidade de influência nos grandes países africanos da CPLP neste XXI, em processo culminado pelo saracoteio banhista do PR que nos cabe e pela pequenez estadista do PM – Marcelo é totamente irrelevante mas quanto a Costa analise-se a frio o conteúdo das suas viagens de 18 a Luanda e Maputo, uma pobreza.

Trata-se mesmo da reacção popular internacional. Não, João Lourenço não ataca as “mulheres” congolesas, os “homossexuais” congoloses, os “afro-africanos” congoleses, não descobre “ciganos” congoloses, não denuncia “muçulmanos” congoleses. Não anuncia um “muro da Lunda”, não agita a “Fortaleza Angola”. Ou seja, não toca as campaínhas que fazem salivar os “indignados” do costume, colhe o silêncio.

Mas João Lourenço expulsa duzentos mil imigrantes, pobres, dezenas de milhares dos quais considerados refugiados da guerra congolesa, outros 180 000 que assim seriam considerados pela imprensa bem-pensante se imigrantes ilegais aportados nas costas italianas, pois gente miserável que fugiu à pobreza da sua terra devastada da guerra. João Lourenço viola os tratados internacionais. Associa o discurso anti-corrupção à violência xenóba estatal e à purificação étnica. Tem todos os constituintes do fascismo. Onde está o  #EleNãoJoãoLourenço?

Mas é só África, para quê a gente chatear-se … Ainda para mais isto confunde essas “categorias” que lhes dão tanto mimo ao pensamento.

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Os pirilampos

brasil

Há alguns dias uma consóror bloguista enviou-me esta palestra muito interessante, longa mas bem animada, com sageza e humor. Forma de olhar um Brasil(eiro) relevante, neste dia, nesta era, tão peculiares. Nada tendo a ver aproveito para deixar duas impressões, uma sobre o PSD (partido ao qual me liga nele ter votado em 1999) e outra sobre o não-PSD.

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#Elenão

jair-bolsonaro-tiro

O blaseísmo lisboeta – essa pandemia de patetice – alastra também ao Porto. Noto-o muito neste fim-de-semana FB: na quantidade de imbecis a gozarem com o repúdio a Bolsonaro. Isto em gente auto-representada como de centro-direita democrática, e que me enche as racções-FB com urros contra os atentados ao estado de direito, e assim à democracia, desta quadrilha-PS (e agora do seu apaniguado, o famigerado Celo de Sousa).

Estes tão democratas, burguesotes de FB e alguns até opinadores avençados, surgem naquele arrastado tãããão lisboeta, tão adamado, “imenso” enfastiados com as manifestações públicas (e com tanta plebe, ainda para mais contendo adeptos de Lula, o Costa, perdão, o Sócrates lá do sítio). E ridicularizam os patrícios que se solidarizam com isso, no kitsch das fotos de perfis, na irrelevância dos postais de sofá. Assim como se fosse “tão baixa classe” – e isto vindo de gente tão socialmente desqualificada que até vive de escrever em jornais ou perorar nas sequelas daquele miserando “Noites da Má Língua”, gente apenas “anunciada na TV” como rezava a velha publicidade dos produtos mais rascas. E da tralha que os “segue” …

Não devemos falar do “estrangeiro”? E quantos destes patetas botam sobre Angola, o simounão Trump, a Catalunha, Merkel e a mão-de-obra barata, perdão, os direitos dos refugiados, o colapso da social-democracia sueca, os brexitófilos/fóbos?

O Lula meteu a mão na massa? Pois. Isso catapulta o Bolsonaro? Provavelmente. E depois? O PSD de Cavaco não meteu, que aquilo foi um fartar vilanagem? E não o louvam? A DC italiana não o fez, berlusconizando o país até agora? Atiram pedras à (espécie de) DC nacional? Por aí fora …

É irrelevante falar do Brasil? Com toda a certeza. Tal como botar sobre qualquer coisa abrangente no FB. Os eucaliptos, as baleias, o Augusto Santos Silva a aldrabar-nos, os kamovs, a procuradora-geral. A gente no sofá ao teclado influencia algo?

“Fica mal” dizer mal do Bolsonaro? O homem é um fascista (“ai! que horror”, “que fora de moda”, dirão os pós-bloguistas tudólogos deste meio, e os patetas que os “seguem”, neste transgenderismo nasalado; outros, que leram a Readers Digest, e se julgam cultos, virão dizer que não, que não corresponde ao tipo ideal, que até já ouviram falar nuns romenos ou italianos ou seja lá o que for). E, como tal, está para além do aceitável. E do brincável. A não ser por gente tal e qual assim, “gente dele”. Essa gentalha que acha “óóptímo”, “fino”, gozar com quem se opõe. A quem é isso que agora lhe ocorre diante desta situação … Ninguém, ainda para mais português, é obrigado a dizer mal do escroque. Mas se vêm gozar com isso, se é a única coisa que lhes ocorre, vão bardarmerda com os calores com a PGR ou as trapalhadas-PS. Porque é óbvio onde lhes estão os afectos. Pois o arrivismo, tão gritado e assim gritante, não explica tudo.

Bolsonaro é um fascista, perigoso. O dono da IURD vem-lhe dar apoio – antes apoiou Roussef, naquela trapalhada imunda que é a política brasileira. Tornando-o ainda mais perigoso. E por isso, porque não preciso de parecer béém, porque tenho berço e família suficientes para não andar para aqui a armar-me em finório, deixo – em particular para os amigos que vivem no Brasil, em formato de abraço – o meu #essefilhodaputanão. E, só para mim, faço estender este dístico para estes patetas blasés, o lixo do meu país, acima e abaixo, à esquerda e à direita: cagões de merda.

A benção

ore

Estar ciente de ser viente é isto, ir saudar os grandes daqui, os donos da terra, a pedir licença para estar, a benção, se se quiser. Hoje fui, de propósito, a este homem que um belga trouxe da América e que Mestre Hergé tornou nosso antepassado no “A Orelha Quebrada”.

Não colhi maldição.

A propósito dos Oscars

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O velho Plummer (que ficou na história como o anti-nazi Von Trapp, imagine-se) aprestou-se a refazer o papel do Spacey, apagado do filme “Todo o Dinheiro do Mundo” pois este queimado na praça pública por, de facto, não se ter assumido no momento considerado devido como membro do movimento político “gay”. E, toma lá, logo, assim como quem não quer a coisa, levou com a nomeação para o Oscar. E ninguém diz nada a esta sequela do blockbuster “The world according to Stalin”.

A McDormand, excelente nos “3 Cartazes”, como sempre é, recebe o Oscar e manda a raparigada toda levantar-se, que este ano a causa é a feminina (feminista, se se quiser). Tal como antes foi a “afro-americana” (muito fiéis são aqueles tipos à lei da “one-drop”, já agora). A raparigada lá se levantou, aplaudiu, até ululou (as que o sabem fazer). E o mundo vê e acha óptimo, tão “liberals” (não é neoliberal, atenção) são os de Hollywood. E copiam-nos.

Que nojo. Os que copiam. Que os outros são o que são.

Após o caso Nassar

nassar

Distraído, se calhar, só ontem (no FB) tomei conhecimento deste caso Nassar, o médico da selecção de ginástica americana, acusado de violentar 158 jovens mulheres durante cerca de 20 anos. Um caso horrível. Com duas lições aqui para o recanto português:

1. nos excertos do julgamento colocados na imprensa ouvem-se as declarações da juíza. Antes de condenar o homem a 175 anos de prisão, e num discurso tão veemente que corre mundo, a juíza pergunta-lhe “Are you guilty, sir?” e noutro momento (que não reencontro) diz-lhe “Sir, não é digno de voltar a sair da prisão”. O “Observador”, que muitos louvam, traduz “sir” por “você”, o que mostra bem o grau de morcanzice a que chegou o jornalismo português, mesmo o “fino”. Esta é uma monumental lição para a cáfila de juízes portugueses, cuja arrogância de funcionários públicos os leva a destratar os réus – mesmo um tipo destes, num julgamento hiper-mediático, recebe o “senhor” a que um servidor público está obrigado. Os juízes portugueses não perceberão isto, porque, iletrados como o Observador, traduzem “sir” por “você”, e cagões como funcionários públicos remetem-no para o “vossemecê” altaneiro e reduzem-no ao nome próprio desvalorizador.

2. conheci isto via partilhas no FB. Gente com júbilo comemorando uma pena de prisão perpétua e saudando uma juíza que diz “estou a dar-lhe uma pena de morte” (uma perpétua inultrapassável). As pessoas são abjectas. Este abjecto Nassar apenas põe em prática o que esses facebuqueiros são.

Lusotropicalismo

Quando na 1ª década de XXI o Brasil se expandiu em África, no âmbito das celebradas relações “Sul-Sul” mas com uma lógica tão “neo-colonial” como as precedentes (ou mais, por avidez de neófito), algumas das suas grandes empresas aportaram a Moçambique e houve grande incremento de trânsito político (e de “cooperação”). E alguns dos seus agentes explicitamente apontavam que estavam ali “contra o colono” (o “ocidente”, o pérfido “norte”). Pouco depois tornou-se ali corrente o saber do quão a elite política brasileira, incluindo a família presidencial, participava nessa extroversão económica. 

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Os Duendes Alheios

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(Postal para o Delito de Opinião)

Aquando do horroroso ataque à Charlie Hebdo o então vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg teve estas fundamentais declarações: em democracia não temos o direitos de não sermos ofendidos. O que então disse devia ser um lugar comum, pois é a base da nossa sociedade democrática. Mas não é tão lugar comum. Seja a propósito de situações liminares, como as de então. Seja a propósito de questões (infelizmente) do quotidiano. Isto de agora, do “importunar”, que se quer criminalizar e que se criminaliza. Misturando-o com o assédio, com o exercício de poderes sob formas ilegítimas. Há atitudes que são, mais ou menos generalizadamente, consideradas imorais. Devem ser criticadas, são passíveis de sanções morais, sociais. E devem ser alvo de pedagogia e crítica pública – difundir, o que será difícil em tempos de mediática hipérbole “javardista”, que o “fazia-te isto e aquilo”, “quem me dera aqueloutro” é não só abjecto como é também sinal de enorme fragilidade e de incumprimento. Face às mulheres e também face aos outros homens. Mas não são crimes. E isto tem tanto a ver com os célebres como com os tipos que andam por aí a importunar as nossas queridas (“óh pai, o que tenho que ouvir às vezes”, dizia-me, enjoadíssima, a minha adolescente filha quando o outro dia cá em casa se discutia este assunto das “actualidades”).

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Assédio?

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(Postal para o Delito de Opinião)

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida – o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e … demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados – o professor que não “lança” a nota, que “chumba” a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o “poder dos homens” mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores.

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Carmen correcta?

carmen

Esta é uma delícia – a célebre ópera Carmen apresentada com o final invertido, para se adequar à luta feminista da actualidade. Certo, as obras não são sacrossantas e podem ser actualizadas (e são-no), em diálogo com os valores e interesses actuais. Normalmente isso empobrece a compreensão do texto (a patacoada, que se tornou canónica, da “Tormenta” de Shakespeare como discurso colonial é um exemplo máximo). Mas pronto(s), a gente está cá para isso. Há várias formas de fazer essa actualização: mudar a trama, como é este caso narrado, é a mais fácil.

Há outra que é mudar o sentido facial: um exemplo imenso disso são as “leituras” da “Medeia” de Eurípides, tornada há décadas símbolo do feminismo. De facto, a personagem é asquerosa sob o ponto de vista ético (e daí o seu sucesso milenar): rouba a família para ajudar o namorado, manda esquartejar o irmão (querendo impedir-lhe o fundamental funeral) para poder fugir com o tal namorado e os bens roubados, mata os filhos para se vingar do namorado (então já “companheiro”) que se quer casar com outra, no que é a apologia da monogamia e da fidelidade conjugal (coisas tão denunciadas noutros itens das “boas-causas”). E nisso tudo é uma malvada oportunista, acabando por retomar (isto já nas sequelas) o poder político que traíra (ok, talvez sirva para um tratado sobre a política de XXI). Desta cabra imunda fez o feminismo uma higienização glorificadora, adversa à falocracia (e decerto que alguma(s) douta(s) dirá(ão) que eu não percebi nada do texto). Apenas aludo a isto porque, dada esta via “correcta” de revisão das tramas que a notícia descreve, o ideal para este fim dos 10s será fazer uma Medeia soft, sem roubar as coisas para o Jasão, tirando a bateria ao carro do pai para o atrasar na perseguição, e, no final, partindo no carro do Sol com os seus filhos fugindo ao “tribunal de família” para assegurar a sua tutela (forma de denúncia do patriarcado vigente nas instâncias jurídicas). Assim ficará toda a gente contente. Com o telefilme.

Difícil é escrever peças novas.