(…)Não

buzinao

Neste corropio que é o hoje duas ideias são constantes: que o que acontece é novidade (ao que se junta a atribuição de “genialidade” à aparente inovação); que o que acontece é um anúncio escatológico. Não sou especialista mas sempre me parecem frutos da influência bíblica. O antropólogo David Graeber afirma este amarelismo francês como um movimento social sucedâneo dos “ocupas” americanos – o tal princípio – e diagnostica que lhe é própria a desnecessidade de uma teoria, que acção e teoria lhe(s) são conjuntas. E que aos intelectuais, assim desapossados do seu estatuto “orgânico”, lhes cumpre menos falar e muito escutar.

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O Frexit

coletes

Um grande amigo veio ontem da África Austral a Paris, para uma actividade académica, e caiu na confusão, envia-me durante a noite uma mensagem sobre o caos. As coisas foram crescendo durante o dia, o Le Monde anuncia 130 000 manifestantes e vários confrontos.

Em Portugal, enquanto o “Verdes” do BE quer legislar sobre os provérbios (deixemo-nos de rodeios, depois desta iniciativa não há qualquer dúvida, o regime acabou, está é mal-enterrado), os ur-fascistas, os comunistas e os idiotas úteis rejubilam com a deriva francesa. Já se haviam meneado com os racistas catalães, bebido uns uísques com o referendo escocês, a este sentindo qual vingança do Ultimato. E, em cada grupo à sua medida, deliciam-se com a (re)emergência dos nacionalismos mais aguerridos, míticos ou místicos, tal como o flamengo, que depois de se dulcificar para entrar no poder foi perdendo apelo e que retoma agora o caminho “durão”, ou os Faragismos avulsos. Seja porque simpatizam com essa via (os tais ur-fascistas), seja porque tudo isso simboliza esta “corja” que manda (e a faz estremecer), e é “porreiro” protestar com isso, cria público para os painéis televisivos e os murais de instagram/facebook, seja porque julgam contribuir para um “amanhã que canta”, a que agora chamam “alterglobalização” ou outra tralha qualquer que sobreviva no “discurso correcto”.

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Clima

Bruxelas, Novembro 2018

Ontem cerca de 300 estudantes liceais manifestaram-se contra a global apatia institucional face às emissões poluentes e seus (muito) presumíveis efeitos climatéricos. Foi aqui mesmo na minha vizinhança, geográfica e pessoal, uma congregação de alunos de várias escolas bruxelenses na praça Schuman, centro das instituições europeias, o coração do “bairro europeu” da capital administrativa da UE.

Os jovens apontam aos organismos multilaterais e governos nacionais o escamotear dos dados reais da situação ecológica actual e dos concomitantes indícios para o futuro. Exigem a divulgação da gravidade da situação e aceleração de novas políticas. Não há aqui o bucólico do sonho pastoral, anti-industrialista e anti-capitalista, que alimentou ecologistas de décadas passadas. Há sim a consciência da necessidade de preservação ambiental – algo que este mais-velho poderá sintetizar como implicando novos moldes produtivos, novas formas de consumo, com novos processos de produção identitária. É um novo radicalismo, bem distinto dos anteriores radicalismos estetizantes, e nisso eunucos, dos ecologismos ocidentais.

A reacção a esta demonstração foi muito interessante. Um dos vice-presidentes da Comissão Europeia, o finlandês Jyrki Katainen, desceu à praça para conversar com os jovens manifestantes (algo que um político da Europa Austral dificilmente faria). E chegou, simpaticamente, com os argumentos de medidas já tomadas ou anunciadas sobre reclicagem ou substituição de plásticos, temas actuais, decerto que importantes e saudáveis, mas de facto apenas presumidas panaceias face à grandeza dos desafios que se enfrentam, até símbolos da modorra político-institucional. Ou seja, Katainen veio, simpática e até paternalmente … desconversar, elidir o fundamental que os manifestantes colocam, assim tentar inconsciencializá-los (algo que um político da Europa Austral facilmente faria), acantoná-los no comezinho do “ecologicamente aceitável” e do folclore a que muitos bem-intencionados ainda se deixam vincular.

À melíflua iniciativa de Katainen a reacção deste jovens foi fantástica. Mal ele enunciou as suas ideias apaziguadoras, o rame-rame do costume, face a quem apela a um debate sobre verdadeiras soluções, um dos manifestantes, um tipo para aí com 17 anos (!) , teve o sangue-frio de improvisar, clamando “Temos uma mensagem para o Vice-Presidente da CE”: “Dois minutos de silêncio”. E todos se calaram, olhando para o homem.  Pois para resposta à desconversa que melhor do que o silêncio?

Isto sim, é um grande radicalismo. O radicalismo nada folclórico do realismo. Exigente.

Adenda: Deixo um trecho de um documento dos manifestantes. Pode ser que os adultos, ainda que decadentes e já degenerados, possam aprender algo:

People have underestimated the power of silence. The omission of climate change facts and solutions has prevailed for way too long in our society – and this needs to change immediately. Indeed, politicians, the media and institutions themselves censor each other due to their inherent conflict and because of external pressure. However, people do not yet know the scale of this censorship and how self-censorship has taken over in modern days and become a power that in fact, culminates in the control of everyone, everywhere. This is so ingrained in society that the population does not seem to either notice it, realize it, or care. We live in an increasingly smaller world, under the impression that it is a more open place, where public and private spheres have blended together and become almost undistinguishable. In this intensely globalized world people do trust politicians and institutions because, after all, in who would they trust? However, people do not see through the curtain. So many powers lie behind these organizations, but their sole interests are all the same: to not scare people and cause endemic panic to society, yet most importantly: to protect our economy, our insatiable economy.

O Brasil, a igreja católica (e os opinadores portugueses)

brasil

Bolsonaro é apoiado por várias igrejas evangélicas – sobre cujas dimensões mariolas e comerciais poucas dúvidas haverá. E é certo que IURD e afins já apoiaram o PT (business as usual …). Mas agora bolsonarizam. Que diz a igreja católica, tradicionalmente menos explícita nos seus apoios? Consulto o insuspeito Vatican News e noto que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil já apelara, em Abril, à participação dos católicos nas eleições, para isso evocando considerações do actual Papa e fundando-se nas perspectivas de Bento XVI. E encontro o texto produzido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta semana (23 e 24 de Outubro): “Nota da CNBB por ocasião do segundo turno das eleições de 2018“.

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Cristas e o Brasil

Malraux

J’ai vu des démocraties intervenir contre à peu près tout, sauf contre les fascismes” é daquelas frases de Malraux que vingaram na Readers Digest de hoje, a wikipedia (e aviso já que não aceitarei comentários invectivando Malraux por não ter criticado Chavez e Maduro).

Cristas anuncia qual seria o seu voto no Brasil. Uma inutilidade, poderia ter-se escudado na não ingerência. Mas opinou, igualando as candidaturas, como se se filiando na crescente simpatia pelo bolsonarismo entre locutores da direita portuguesa. Fez mal. É certo que a sua opinião é irrelevante naquelas eleições (que aparentam estar já decididas – ilustra-o o já velho Chico Buarque terminando em lágrimas o seu discurso num recente comício da candidatura de Haddad). Mas falhou a oportunidade para explicitar o conteúdo exigível ao arco do poder.

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Brasil (e não só)

cantona

Um maravilhoso texto autobiográfico de Eric Cantona, no qual escreve sobre a essência do futebol, o estado do futebol actual, e desvenda o segredo dos triunfos do Manchester United. Mas acima de tudo sobre o mundo actual. Sinto-o imperdível: What is the meaning of life?

Sobre o mundo actual um belo texto de António Guerreiro, Sob o signo do politicamente correcto, no Público de ontem.

A propósito do Brasil, mas também incidindo sobre o mundo actual, dois textos relevantes: O futuro político do Brasil, de Fernando Henrique Cardoso, no El País de hoje; O arauto da revolta popular, de Jaime Nogueira Pinto, no Diário de Notícias de ontem.

Sob João Lourenço

MLU

200 000 congoleses expulsos de Angola, entre os quais refugiados (pelo menos 27 000). A indução de uma desgraça humanitária. Relatos iniciais de saque dos bens dessa população. Violação dos tratados internacionais. Ferocidade e cupidez da tropa angolana, soberanite desbragada do poder angolano.

Onde estão as reacções internacionais? Não falo dos organismos multilaterais, hoje esfacelados nas suas capacidades políticas. Nem mesmo da portuguesa, dissipada qualquer capacidade de influência nos grandes países africanos da CPLP neste XXI, em processo culminado pelo saracoteio banhista do PR que nos cabe e pela pequenez estadista do PM – Marcelo é totamente irrelevante mas quanto a Costa analise-se a frio o conteúdo das suas viagens de 18 a Luanda e Maputo, uma pobreza.

Trata-se mesmo da reacção popular internacional. Não, João Lourenço não ataca as “mulheres” congolesas, os “homossexuais” congoloses, os “afro-africanos” congoleses, não descobre “ciganos” congoloses, não denuncia “muçulmanos” congoleses. Não anuncia um “muro da Lunda”, não agita a “Fortaleza Angola”. Ou seja, não toca as campaínhas que fazem salivar os “indignados” do costume, colhe o silêncio.

Mas João Lourenço expulsa duzentos mil imigrantes, pobres, dezenas de milhares dos quais considerados refugiados da guerra congolesa, outros 180 000 que assim seriam considerados pela imprensa bem-pensante se imigrantes ilegais aportados nas costas italianas, pois gente miserável que fugiu à pobreza da sua terra devastada da guerra. João Lourenço viola os tratados internacionais. Associa o discurso anti-corrupção à violência xenóba estatal e à purificação étnica. Tem todos os constituintes do fascismo. Onde está o  #EleNãoJoãoLourenço?

Mas é só África, para quê a gente chatear-se … Ainda para mais isto confunde essas “categorias” que lhes dão tanto mimo ao pensamento.

Os pirilampos

brasil

Há alguns dias uma consóror bloguista enviou-me esta palestra muito interessante, longa mas bem animada, com sageza e humor. Forma de olhar um Brasil(eiro) relevante, neste dia, nesta era, tão peculiares. Nada tendo a ver aproveito para deixar duas impressões, uma sobre o PSD (partido ao qual me liga nele ter votado em 1999) e outra sobre o não-PSD.

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#Elenão

jair-bolsonaro-tiro

O blaseísmo lisboeta – essa pandemia de patetice – alastra também ao Porto. Noto-o muito neste fim-de-semana FB: na quantidade de imbecis a gozarem com o repúdio a Bolsonaro. Isto em gente auto-representada como de centro-direita democrática, e que me enche as racções-FB com urros contra os atentados ao estado de direito, e assim à democracia, desta quadrilha-PS (e agora do seu apaniguado, o famigerado Celo de Sousa).

Estes tão democratas, burguesotes de FB e alguns até opinadores avençados, surgem naquele arrastado tãããão lisboeta, tão adamado, “imenso” enfastiados com as manifestações públicas (e com tanta plebe, ainda para mais contendo adeptos de Lula, o Costa, perdão, o Sócrates lá do sítio). E ridicularizam os patrícios que se solidarizam com isso, no kitsch das fotos de perfis, na irrelevância dos postais de sofá. Assim como se fosse “tão baixa classe” – e isto vindo de gente tão socialmente desqualificada que até vive de escrever em jornais ou perorar nas sequelas daquele miserando “Noites da Má Língua”, gente apenas “anunciada na TV” como rezava a velha publicidade dos produtos mais rascas. E da tralha que os “segue” …

Não devemos falar do “estrangeiro”? E quantos destes patetas botam sobre Angola, o simounão Trump, a Catalunha, Merkel e a mão-de-obra barata, perdão, os direitos dos refugiados, o colapso da social-democracia sueca, os brexitófilos/fóbos?

O Lula meteu a mão na massa? Pois. Isso catapulta o Bolsonaro? Provavelmente. E depois? O PSD de Cavaco não meteu, que aquilo foi um fartar vilanagem? E não o louvam? A DC italiana não o fez, berlusconizando o país até agora? Atiram pedras à (espécie de) DC nacional? Por aí fora …

É irrelevante falar do Brasil? Com toda a certeza. Tal como botar sobre qualquer coisa abrangente no FB. Os eucaliptos, as baleias, o Augusto Santos Silva a aldrabar-nos, os kamovs, a procuradora-geral. A gente no sofá ao teclado influencia algo?

“Fica mal” dizer mal do Bolsonaro? O homem é um fascista (“ai! que horror”, “que fora de moda”, dirão os pós-bloguistas tudólogos deste meio, e os patetas que os “seguem”, neste transgenderismo nasalado; outros, que leram a Readers Digest, e se julgam cultos, virão dizer que não, que não corresponde ao tipo ideal, que até já ouviram falar nuns romenos ou italianos ou seja lá o que for). E, como tal, está para além do aceitável. E do brincável. A não ser por gente tal e qual assim, “gente dele”. Essa gentalha que acha “óóptímo”, “fino”, gozar com quem se opõe. A quem é isso que agora lhe ocorre diante desta situação … Ninguém, ainda para mais português, é obrigado a dizer mal do escroque. Mas se vêm gozar com isso, se é a única coisa que lhes ocorre, vão bardarmerda com os calores com a PGR ou as trapalhadas-PS. Porque é óbvio onde lhes estão os afectos. Pois o arrivismo, tão gritado e assim gritante, não explica tudo.

Bolsonaro é um fascista, perigoso. O dono da IURD vem-lhe dar apoio – antes apoiou Roussef, naquela trapalhada imunda que é a política brasileira. Tornando-o ainda mais perigoso. E por isso, porque não preciso de parecer béém, porque tenho berço e família suficientes para não andar para aqui a armar-me em finório, deixo – em particular para os amigos que vivem no Brasil, em formato de abraço – o meu #essefilhodaputanão. E, só para mim, faço estender este dístico para estes patetas blasés, o lixo do meu país, acima e abaixo, à esquerda e à direita: cagões de merda.

A benção

ore

Estar ciente de ser viente é isto, ir saudar os grandes daqui, os donos da terra, a pedir licença para estar, a benção, se se quiser. Hoje fui, de propósito, a este homem que um belga trouxe da América e que Mestre Hergé tornou nosso antepassado no “A Orelha Quebrada”.

Não colhi maldição.