Moçambique 2018, a África desta era

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O meu amigo João Xavier acaba de publicar estas suas fotografias, de um prédio novo na centralíssima avenida Eduardo Mondlane, em Maputo. Não valerá a pena dizer muito, são mais do que explícitas da era que se vive, em Moçambique na África global. Ao vê-las foi-me imediata a recordação da célebre foto do Ricardo Rangel, tornada ícone da denúncia do racismo colonial (esse que tantos de nós, portugueses, estuporadamente continuamos a negar):

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Ao olhar estas novas imagens, não surpreendentes pela realidade que gritam, que essa é óbvia, mas sim pela desfaçatez que demonstram, estanco naquela tão bela expressão moçambicana, o “estou a chorar”.  Como é isto possível?, como decorreu o processo nacional para que se aceitem as aleivosias desta nova interacção de XXI?

Quando nós, portugueses ou europeus em geral, resmungamos com as modalidades, absolutamente predatórias da articulação chinesa com África, e com Moçambique em particular, a reacção local é imediata, aventando que isso é fruto da “nostalgia colonial”, dos tempos em que “nós” mandávamos. Mas é tão óbvio que não é isso. É certo que as relações entre Moçambique (e África) e a Europa (ou o “mundo pan-europeu”, como Wallerstein muito bem especificou) não têm sido absolutamente virtuosas, nem isentas de mecanismos de apropriação, nem decorrem simétricas. Mas é notório que, muito pelos processos de independência africanos mas não só, se geraram nas sociedades “pan-europeias” constatações e conflitualidades, preocupações ecológicas, derivas desenvolvimentistas, ideologias democratizadoras (sistematizadas na “condicionalidade política” que vigorou de facto durante breve período de tempo), e até uma feroz auto-crítica societal quanto às relações com o dantes chamado “Terceiro Mundo”, etc.

Este é um processo histórico, com corolários culturais e ideológicos, que a China desconheceu. E a abordagem que a sociedade chinesa, seu poder e suas empresas, tão articulados, faz a África é tipo “tábua rasa”. Com os preconceitos gritados (e não sussurrados como os de outros), com o descuido da issolidariedade óbvia, numa vertigem de apropriação de desrespeito. E nisto seria interessante perceber, o que exigiria um conhecimento profundo da sociedade chinesa actual, que estratos socioculturais chineses se envolvem na relação com África, e Moçambique, tanto na própria China como nos fluxos de migração sazonal (ou mesmo de assentamento).

E tudo isto é aceite. A troco de quê? De umas pontes, de umas estradas (tudo isso que virá a ser pago, entenda-se, e caro …)? Honestamente esta cena de tamanho profundo racismo, que mais audível (e assim visível) seria se percebendo mandarim, expressa neste apartar de “apartamentos” no centro da capital da cidade, é o grau zero da soberania. Convoca-me a dor d’alma, e nisso a demagogia, assumida: como é que no país de Mabote, de Machel, de Magaia, de Marcelino, de Mondlane, é permitida a situação que a isto conduziu?

(Ok, desabafo feito, podem vir apupar-me de “xi-colono”, saudoso do tempo em que “eu” é que mandava).

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Ilha de Moçambique: 200 anos de cidade

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A Ilha de Moçambique comemora hoje os 200 anos de elevação a cidade. A festa está a ser boa, decerto. Eu gostava de estar lá, com os amigos, claro. É dia de nostalgia, pois gosto mesmo da Ilha e das memórias das tantas vezes que lá fui.

Hoje muitos colocam fotos da beleza natural e humana ali. Eu deixo esta, um naco que acho significativo (talvez mais que as “belezas”): é a “fronteira” interna da Ilha, o começo do macuti. Ou, se se preferir, da “pedreira”. Da igreja pedra-e-cal (muito cimentada na primeira década de XXI por iniciativa de um padre português, para aí de Mafra ou assim, de apelido Teixeira), desce-se para a cidade. Quem perceber que é assim conhece a Ilha. Quem não perceber, os das belezas do “património” e as da baía? É mero turista, viente, venha lá de onde vier …

A floresta arrasada em Moçambique

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(imagem colhida aqui)

Em finais de 2017 após 3 anos de ausência fui a Moçambique. Vi, nessa altura, um mapa da involução florestal moçambicana. E vejo agora este partilhado por várias pessoas no Facebook. Durante essa minha viagem todos por lá me perguntavam o que achava que tinha mudado nessa minha ausência. Para quê responder, diante daquela desgraça e da radical inconsciência dos cidadãos e residentes? Quando voltei a Portugal botei um postal sobre as mudanças – para quê falar?, elidi tudo, completamente desiludido. Ainda por cima porque quando um português fala do assunto logo vem a conversa de que somos colonos. Brancos. Que queremos imiscuir-nos, que temos inveja dos chineses, que esse sim fazem, dão, cooperam. A permissividade à rapina externa é gigantesca. E ao boçalismo interno também. Sem rebuço (sem burka, como adoram os multiculturalistas), a capacidade crítica no país é pequeníssima. A devastação ecológica é dramática. A hipoteca do futuro é abissal.

Olhe-se para a desgraça que acontece. A ecológica. E o que significa para o futuro do país. É uma dor de alma. Sim, a minha cor de pele é branca, sou cidadão português. Não sou “dono da terra”. Mas, raisparta, que “donos da terra”, coitada da terra. Da fauna, da flora. E do futuro de tudo aquilo.

Sobre o olhar destinado a Moçambique

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(Postal no Delito de Opinião, 29.3.2018)

Há alguns dias deixei aqui um postal aludindo à incoerência, sinal de incompetência e submissão ao casuístico, do parlamento português, o qual votou, de modo unânime, um pesar pelo assassinato de uma vereadora do Rio de Janeiro e que havia, recentemente, ignorado o assassinato do presidente de Nampula. Aquele que me pareceu ser um texto liso (“flat“) foi comentado de forma que me surpreendeu (concedo que cada vez mais tenho dificuldades em dialogar em comentários nos blogs, pois o tom parece-me bem menos profundo, num apenas provocatório, do que o que acontece no FB, mesmo que ali sendo abrasivos, o que se prende, decerto, com o efectivo anonimato de grande parte dos comentários bloguísticos). Assim ser contraposto naquele meu texto por considerações que julgam normal (“natural”) que o parlamento siga a agenda mediática é difícil de contra-argumentar. Pior ainda deparar-me com comentários reduzindo, de forma altaneira, o que havia escrito a um “disparate” ou a “misoginia”. Não é um lamento o que agora escrevo, é mesmo um cansaço. Explico-o, agora, através de dois pontos:

1. Não reclamei o interesse para um qualquer contexto longínquo. A Assembleia da República não é o governo. Como tal é normal, até desejável, que funcione um pouco segundo as comoções e pressões do eleitorado, da opinião pública. E que os interesses e focos de atenção das forças sociais que apoiam os partidos sejam mais ecoados através dos deputados. Assim sendo, é normal que o que tem mais peso mediático (o Rio é mais sonante do que Nampula, claro) induza mais reacções. Não é um defeito, é uma característica do parlamento. Ou seja, se a AR está vinculada à “razão de estado” vive esse vínculo de forma menos radical, em termos de imagem e discursos públicos, do que o governo, particularmente em questões de política externa. Sendo mais sensível a ecoar as correntes de pensamento internas, muitas vezes potenciadas pelas emoções colectivas e pela agenda mediática, esta salutar em democracia.

Dizer isso não implica que a AR não tenha também uma dimensão “estadista”. Nela está gente que se dedica à política externa e, mais em particular, à ajuda pública ao desenvolvimento, vulgo “cooperação” (terá comissões, grupos de trabalho; terá profissionais disso eleitos; terá políticos que já ocuparam postos na área; representa interesses económicos envolvidos; tem deputados da emigração; etc.). Assim, em questões estrangeiras não está, nem pode estar, limitada às solidariedades dos partidos representados, às comunhões ideológicas. Nem às parangonas das televisões e jornais. Poder-se-á discutir a pertinência formal de um parlamento votar um pesar sobre o assassinato de um vereador municipal (talvez que a reacção das instâncias políticas nacionais devesse incorrer sob o âmbito da Assembleia dos Municípios Portugueses, e das assembleias municipais – em particular a das grandes cidades portuguesas geminadas com o Rio; isso daria uma homologia). Mas pode-se ter querido incrementar o peso simbólico da reacção (duvido que tenha havido sequer essa consideração, mas enfim … dou de barato). Mas isso implica uma questão – deve a AR debruçar-se sobre qualquer assassinato de agentes políticos estrangeiros? Deverá ter uma atenção abrangente? E se sim sobre que universo se dedicará, e segundo que critérios? Só os do Rio? Só os Brasil? Só os da CPLP? Também os da UE? Ou por aí adiante até englobar os da ONU? Ou vota-se apenas segundo as proximidades ideológicas com alguns partidos da nossa AR, mais diligentes nas propostas?

Talvez que a AR não deva apenas depender da mera agenda  mediática e das solidariedades internacionais dos seus partidos.  Moçambique é o 2º país mais populoso da CPLP. Esta é um vector fundamental da política externa portuguesa (pelo menos ao nível discursivo). Portugal tem interesses no país (variados, desde os “morais” aos “económicos”, etc.). Tem tido papel na mediação de conflitos (inclusivamente nas negociações do recente conflito militar entre o Estado e o partido Renamo). Nampula é a segunda cidade do país. É a capital administrativa e económica da zona linguística macua – e há mais falantes de macua como primeira língua do que portugueses em Portugal, o que também dará para reflectir quando o discurso estatal e social aqui se centra na noção da “lusofonia” (ainda recentemente recuperada pelo nosso ministro da cultura, com reacção inexistente e debate nulo por parte das outras forças políticas nacionais). O presidente da câmara de Nampula (não um mero vereador) pertencia ao terceiro partido moçambicano, instaurado como o mais importante partido autárquico do país. E estava, dizia-se, de saída para fundar um quarto partido. Era um católico num contexto regional de esmagadora maioria muçulmana. Moçambique tem vivido conflitos militares nos últimos anos (houve uma pacificação nos últimos meses), e tem havido assassinatos de membros importantes do partido Renamo.

Nada disto explica o seu assassinato, sobre o qual não há informações. Mas tudo isto dá um contexto, óbvio, em que seria normal que a AR portuguesa, se entende expressar “pesar” pelo assassinato de autarcas estrangeiros, entendesse ter uma opinião política, de valor simbólico. Mas não teve, esqueceu-se: muito provavelmente apenas porque não há no seu seio um partido que se considere “companheiro de estrada” do falecido presidente. Ou, se calhar, porque nem sequer se lembraram do assunto. A mim parece-me simples, é um reflexo sobre as (in)competências da nossa AR em termos de reflexão sobre a política externa. Não é reclamar atenção para Nampula ou menosprezar a indignidade do lamentável assassinato da autarca carioca.  Mas é dizer que a AR não é apenas o fruto das primeiras páginas dos jornais (ainda que neles deva atentar) nem o rescaldo dos guias turísticos – que obviamente valorizam a “cidade maravilhosa” em detrimento da “cidade da chuva”.

Mas se aludir a tudo isto é sinal de misoginia e a continuidade de um costumeiro disparatar então não haja dúvida: sou eu, apesar de mim-mesmo, um disparatado misógino;

2. Ericino de Salema, jurista e jornalista moçambicano, comentador político na televisão, foi anteontem raptado e violentamente agredido, tendo, felizmente, o seu sequestro sido interrompido pela chegada de um grupo de crianças ao local para onde tinha sido levado e onde o espancavam com barras de ferro tentando partir-lhe os membros. Na sequência do acontecido o jornal Verdade elenca os 12 crimes políticos dos últimos 3 anos, incluindo vários assassinatos, desde o do constitucionalista Gilles Cistac, bem como o sequestro de Jaime Macuane, também comentador televisivo, levado de casa e baleado com cinco tiros nas pernas, ambos apartidários e meus colegas na Universidade Eduardo Mondlane. Este é um traço do processo político no, como acima refiro, 2º país mais populoso da CPLP, essa que é uma dimensão importante da política externa portuguesa, num país que a retórica estatal (e parlamentar) nacional afirma como bastante próximo – recordo, como símbolo, que Rebelo de Sousa convidou apenas três países para a sua tomada de posse: Espanha, Brasil, …. Moçambique. Referir que será expectável uma particular atenção, e concomitantes actos simbólicos, sobre este processo e seus epifenómenos, por parte do parlamento (e de outras instâncias políticas) será, no entender daqueles que entendem a política como um feixe de solidariedades sobre as causas identitárias (o género, a raça, a etnia, a … religião) que dominam o pós-marxismo actual, uma misoginia, falocrata, e um disparate, reaccionário.

Eu penso que não. E continuarei a pensar. Apesar dos comentários.

Sopesar os pesares

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(Postal no Delito de Opinião, 20.3.2018)

Um voto de pesar da Assembleia da República convoca-me a pesquisar se um análogo terá sido feito há alguns meses. No “dia da Paz” em Moçambique, data da assinatura do tratado de Roma em 1992, que estipulou o final da guerra civil, foi no ano transacto assassinado o presidente do conselho municipal (o equivalente à câmara municipal) de Nampula. Eu cheguei à cidade uns dias depois, percebendo o trauma generalizado que vigorava. Para mais, foi-me descrito o assassinato por um amigo meu que o acompanhava naquele preciso momento. Nestes últimos dias aconteceram as eleições autárquicas, com vista a substitui-lo.

Procuro agora no Google se a Assembleia da República se pronunciou sobre aquele atentado. Nada encontro, após várias buscas. Presumo pois que o facto tenha passado ao lado das preocupações e das agendas parlamentares portuguesas. Dos pesares dos senhores deputados e respectivas direcções partidárias. Se assim é (se o Google não estiver a esconder alguma referência ao assunto …) isto demonstra bem a mundividência de centenas de parlamentares e de alguns milhares de influentes luso-opinantes.

Ou seja, uma vereadora do município do Rio de Janeiro, segunda cidade do Brasil, país da CPLP, é assassinada (“brutalmente assassinada” é uma redundância, e isso poderia ser ensinado aos deputados), e a AR vota o seu pesar. O presidente do município de Nampula, segunda cidade de Moçambique, país da CPLP, foi assassinado e a AR ignora o facto, não expressa o “pesar”. Se não o votou porque será? Porque é em África, lá onde os gajos se matam uns aos outros, a necessitarem de umas “campanhas de pacificação”? Ou porque não pertencia ao partido feminista? Ou porque era homem? Ou porque, raisparta, o homem era negro, não uma mestiça (mulata/parda), bom material para os estes racistas subscritores do ideário “one-drop” a afirmarem “negra” (“preta”, no português brasileiro)?

O recente assassinato é lamentável e indicia um ambiente político tétrico no Brasil. Mas a minha questão, antipática, é a dualidade de critérios analíticos da totalidade da elite política portuguesa, expressa na reacção a estes dois casos. No afã demagógico de seguir o agit-prop de agora, a abjecta filiação ao “correctismo”, mostra-se bem a hierarquia de significados, importâncias e solidariedades. E transpira, de facto, bem lá no âmago, o fedorento racismo colonialista. Por mais tralhas intelectuais, a coberto da patetice dita “lusofonia”, que regurgitem.

Agora vão lá agitar as caudas no Can-Can gauchiste.

O turismo na Ilha de Moçambique

Terraço das Quitandas, Ilha de Moçambique, November 2017 from Finnegan Flint on Vimeo.

Um pequeno filme turístico sobre a Ilha de Moçambique – sempre bela. E centrado sobre o “Terraço das Quitandas Guest House“, o mais belo sítio para ali nos hospedarmos. Uma casa que eu vi crescer (ser reabilitada), aboletando-me. E que é uma delícia, mesmo. Venturosos os que lá chegam.

Quando o “Terraço das Quitandas” ficou pronto voltei algumas vezes, já como cliente (como se impunha). A primeira vez fomos em família, a nossa filha tinha 7 anos, e bastante habituada a ir a hotéis ou similares. Ficámos uns dias, muito bem acolhidos. Na despedida eu disse ao gerente “bem, vamos lá fazer a conta”. E ela, surpreendidíssima, “ó pai, afinal paga-se, isto é um hotel?”. Pois sentira-se tão bem recebida, tão aconchegada em tão belo e acolhedor sítio, que nem se imaginava num qualquer hotel. É isso, como na Bíblia se diz, “da boca das criancinhas sai o perfeito louvor”.

A estátua de Salazar em Maputo

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(Fotografia de Vasco Ribeiro)

Um texto de Miguel Alexandre Ganhão no Correio da Manhã sobre a estátua de Salazar, actualmente (res)guardada na Biblioteca Nacional, em Maputo. Sofre, o texto, daquela reaccionarite aguda que é aprofundado sintoma da demência senil. Não a do autor, entenda-se, mas sim a da mundividência que propaga. Mas, ainda assim, nessa sua vetustez titubeante dá azo a algumas questões:

1. A “turistização” da visão sobre o universo em causa. Pois ao afirmar que os milhares de portugueses ali residentes “perfilhem eles seja que ideologia for” “sentem-se incomodados com a situação” está a falar de algo misterioso. Dou o meu exemplo: sendo eu um liberal lite com laivos de social-democracia (ou seja, no actual linguajar dos funcionários públicos intelectuais um “neoliberal, reaccionário, lusotropicalista”, aka proto-fascista), em 18 anos de residência nunca esta situação me incomodou e até surpreendeu risonhamente. Um ricto partilhado com a esmagadora maioria dos portugueses que têm conhecimento do facto (a enormíssima maioria nunca entrou na BN; a maioria não sabe disto). Todos ficam surpreendidos com a preservação da estátua, num imediato “Afinal?…” muito local.

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Guerrilha islâmica em Moçambique

Guerrilheiros islâmicos em Moçambique. Partilhar isto – ainda para mais não conhecendo a origem das imagens, o que deixa em aberto a hipótese da sua encenação – é também um acto de divulgação e, como tal, um acto algo irresponsável. Assumo-o. Tirando esses meus pruridos: isto é o mais plausível. E o há muito temido, pois qualquer pessoa que conheça o país espera, e há já muito, a emergência de algo assim.

 

Em relação às grelhas analíticas dois princípios a afirmar já: 1) tenho visto os habituais negacionistas, a afirmar que isto nada tem a ver com o Islão. Mentem, por ingenuidade ou estratégia. Pois a história das religiões proselitistas (como o cristianismo e o islamismo) sempre se fez com a Palavra e a Arma (assim, com maiúsculas, para enfatizar a santidade da coisa). E a história do islamismo, logo após Maomé, sempre se fez com guerra (na nossa cristã história safou-nos Poitiers) – por mais que os sábios demagogos do nosso pérfido “ocidente” queiram resumir tudo à maldade das “Cruzadas” as “Crescentadas” foram uma constante. E a história das guerras entre facções intra-religiosas também (como as nossas guerras religiosas europeias tanto o demonstraram). Ou seja, “isto” também é o Islão.

2) Agitam-se os do “sociologês”: atribuindo a responsabilidade (de facto, dizem-na “culpa”) disto às malevolências do Estado (“a corrupção da Frelimo”, agitam-se os do antigamente), à exclusão social, às assimetrias regionais, ao falhanço do modelo de desenvolvimento, etc. É o mesmo tipo de discurso que aponta a culpa dos estados europeus no terrorismo interno. De facto, esse sociologês vale nada: são “explicações” que tudo explicam (todos os fenómenos podem ser atribuídos a essas causas) e, como tal, em nada contribuem para a compreensão. E, em última análise, retiram a intencionalidade (o livre-arbítrio, os objectivos próprios, a racionalidade estratégica e utilitária) aos participantes. Pois, no afã de inculpar a perfídia ocidental (branca), o seu poder capitalista, e as suas sequelas pós-coloniais (em tempos ditas “burguesias compradoras”), são incapazes de verdadeiramente se libertarem do “eurocentrismo” que aparentam abominar mas que é o único eixo de pensamento que perseguem. Por isso menorizam as práticas e seus agentes. Infatilizam-nos. Barbarizam-nos. Dizendo que estes são o que são, perseguem o que perseguem, apenas porque desprovidos dos recursos económicos que desejam – “análises” que são apenas fruto um materialismo rasteiro, básico. Desvalorizador. E cego.

Em suma. Moçambique enfrenta guerrilheiros. Islâmicos, convictos, estrategas. Causados e com causas. A ver iremos no que isto dará. Lamentavelmente.

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A “casa das três girafas” de Maputo

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Leio que “A Casa das Três Girafas” do arquitecto Pancho Guedes, na rua Armando Tivane no bairro Polana (Maputo), vai ser demolida.

Há duas coisas aqui para contexto: a) a pressão imobiliária em Maputo é enorme, na vertigem de transformar as zonas “nobres” (entenda-se, ricas) da cidade em parques de prédios, sobredimensionados. Nesta zona o esquema histórico é simples: construção anos 1950/60s para a burguesia colona e algumas empresas; nacionalização pós-independência; aquisição a preços baixos pela burguesia nacional pós-1990s; venda dos talhões (edificados) a empresas internacionais de investimento imobiliário (principalmente desde finais de 00s). Tudo isto permeado pelo facto de que a ausência de capital desde a independência deixou o tecido urbano do Maputo central (o Maputo “cimento”) intocado durante décadas, ainda que decadente, interrompendo as transformações encetadas no final do período colonial, em que houve um novo plano urbanístico e um disseminação da construção de prédios.

Dizer isto leva logo muitos a resmungarem: uns no “malandros, roubaram-nos as casas no comunismo e agora vendem-nas no capitalismo”; outros “xi-colono, o que vocês querem são as casas de novo” – ou a preservação do Maputo qual Lourenço Marques do saudosismo, em termos analíticos. Então que fique explícito, não vejo ilegitimidade alguma neste processo histórico – até porque as terras assim edificadas já haviam sido expropriadas aos seus anteriores proprietários. É a história universal, uma sucessão da apropriações fundiárias, em prejuízo dos menos fortes;

b) o património arquitectónico e urbanístico erigido nos períodos pré-colonial (como a Ilha ou o Ibo) e colonial não é verdadeira e socialmente sentido como nacional. O mito do “desenvolvimento” afronta aquilo do “velho” – e isto não é de Moçambique, é do mundo. E uma história colonial de opressão implicava a exclusão das cidades, uma dicotomia social e racial (o “cimento” para a comunidade colona, o “caniço” para a colonizada – algo contra o qual Pancho Miranda Guedes escreveu e projectou). Ou seja, a relação identitária, “afectiva”, com as edificações, ainda para mais numa população imensamente jovem e suburbana, é muito ténue.

Para além da história há isto do presente, que se calhar conta muito mais: as cidades são vivas e têm que se renovar, demolir e reconstruir. Mas no contexto em que as novas Urbes chinesas e árabes são um “exemplo” (patético mas vigoroso) de como fazer e símbolo de progresso pouco haverá a fazer neste campo. Apenas dizer, lamentar, que é uma imbecilidade monumental (deixar) fazer estas coisas. Pode-se construir (e o Grande Maputo é enorme, e está com muito melhores acessos) sem devastar a história da cidade. E sem tornar o velho centro num inferno urbanístico. Promovendo até vários “centros” – como se tentou fazer nos princípios de XXI.

Alguns individuais ganharão menos com esse processo? Talvez. Mas também poderão articular-se na dinamização desses novos pólos urbanos. Aliás, muitos deles já estarão integrados nisso. E poderão deixar de pé as construções do grande arquitecto da cidade, que são, e poderão ser no futuro, seu emblema. Bastará haver vontade iluminada.

A guerra no norte de Moçambique

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Cada vez mais habituais as notícias de ataques e assassinatos no extremo litoral norte de Moçambique. Por vias mais pessoais chegam-me notícias de ataques, imagens privadas (ontem mesmo filmagens em telemóvel de população na estrada falando sobre a situação e os ataques). E muitas especulações: a imorredoira cartilha marxista-leninista atribui aos “interesses americanos” a responsabilidade pelos acontecimentos, os radicais críticos do Frelimo aludem à responsabilidade estatal, como se esta criando uma “cortina de fumo” distraindo de outras questões, alguns mais estupefactos aventam “será a Renamo?”, outros querem reduzir a uma bandidagem, mas a esta não dando o tom elevado de “social banditry”. E há quem creia no anunciado movimento (oficial ou oficioso) “Al-shabaab”. Não sei do que se trata, não encontro iluminação no que tenho lido, tenho a minha mera crença – que nunca será a do “mínimo denominador comum” entre as várias versões. E que se alimenta de anos na perspectiva de que isto emergisse, vendo no norte e em Maputo as nuvens que o presumiam. Quem me dera poder ir comprová-la no terreno, inquirindo. Esperançado em provar-me errado. Porque há uma coisa, terrível, e inovadora no país, nesse presumível inimigo: não negoceia. Pois quer tudo – que é uma forma do “nada”, do vazio político. E se for esse ele não está encerrado no norte extremo, mas pujante e afirmando-se pelo país, como é visível a qualquer olhar interessado. A sociedade moçambicana, a modorra dos seus poderes, chocou a mamba? Parece-me que sim. Só espero estar errado …