A papaia de(sde) há 3 anos, digo hoje

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Há exactamente três anos, cumprem-se hoje, mais ou menos a esta hora depois de jantar, parti de vez de Moçambique, depois de 18 anos. Botei isto antes de sair no blog ma-schamba, onde escrevia então. Às vezes, só às vezes, nada saudosista, lembro-me da maldita papaia. Porque ainda não a consegui engolir. Um dia destes tenho que me fazer operar, a ver se algum cirurgião a consegue arrancar.

A papaia (8.9.14)

Almoço no Marítimo, com casal amigo, a Carolina encontra amigas, é nosso último Índico, hoje particularmente revolto, “os espíritos zangam-se com a minha partida“, brinca este ateu. No telemóvel vejo que no facebook um leitor daqui (um tipo insensível? insensato? ou só inexperiente da vida?) me pergunta qualquer coisa como “como se sente ao partir de onde foi feliz?“.

Sorrio, já com o Jameson na mão. Não sou o Knopfli, o Kok já morreu [Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me obliquamente nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não, escreveu o poeta narrando-se em Mavalane aquando da sua saída, naquele para sempre de 1975], e aos meus Koks não os deixo ir ao aeroporto. Além de que os tempos são diferentes, daí as causas do partir e as possibilidades do ir-e-vir. E por isso nada de grande ou profundo me ocorre ripostar.

Apetece-me responder-lhe apenas assim, à minha despoética maneira: sinto-me com uma papaia na garganta, foda-se.

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Interdisciplinaridade

fac

António Cabrita escreve sobre o congresso lisboeta ocorrido na passada semana, dedicado a João Paulo Borges Coelho, escritor moçambicano. Com a sua costela de jornalista nota ele: “É uma vergonha haver um escritor do calibre de Borges Coelho (muito resolutamente um dos melhores no espaço da língua portuguesa) que é contemplado com um congresso internacional – com gente que vinha de Moçambique, Brasil e Estados Unidos [e também, pelo menos, da Alemanha, Angola, Espanha, Itália, Polónia, acrescento eu, jpt] –, e não haver espaço nos jornais para uma notícia, não se ter deslocado um único jornalista para cobrir e divulgar o acontecimento.”.

Eu, que não sou jornalista, noto isso mas noto mais. Borges Coelho é um excelente escritor mas é também um historiador emérito e um vulto fundamental na investigação sobre segurança marítima e as questões políticas do Índico actual. É, na velha acepção do termo, um grande intelectual. É um tétrico sinal de moribundismo local, nacional, muito pior do que mera “vergonha”, que não houvesse alguém presente, pois interessado, vindo das áreas da antropologia, da sociologia, da história (da história de África e não só), das relações internacionais, e etc “e tal”, nem mesmo desses híbridos “estudos africanos” (já para não falar do chamado Camões – Instituto de Cooperação, que desses pouco se pode esperar). E é certo que depois todas essas corporações enchem textos a que chamam papers com referências a algo que dizem “interdisciplinaridade”. Mas para irem ali ao Campo Grande, interdisciplinarem, já lhes falta o arreganho … Um tipo nota isso e há sempre um qualquer boçal, funcionário público da academia, que vem dizer que são afirmações de “ressabiado”, “invejoso” ou “ressentido” (o mais abjecto e básico dos psicologismos, pensamento de cloaca que estes graduados não têm vergonha de publicar, explicitando a indigência própria). Eu notei e referi esta absurda ausência e “explicaram-me” que “ah, sabes, esta altura é de férias, é natural que não apareçam“. Mas de facto as férias são 22 dias úteis, a maioria goza-as em Agosto. Quem está de férias são os alunos, as avaliações terão (na sua maioria) terminado. Deveria ser o melhor momento para fazer encontros, seminários, etc. Mas não é.

O Paiol

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(Explosões no paiol de Malhazine, Maputo, 2007; fotografia de Pedro Sa da Bandeira)

Não terá a ver mas esta história do assalto ao paiol (e não só, e não só …) tem-me recordado quando, há uma década, rebentou o paiol de Maputo. Eu chegara de Manica nesse dia, a São fora-me buscar a Mavalane, na saída ambos, distraídos, a achar estranho uma trovoada com céu tão limpo. Só em casa as empregadas me disseram o que era, angustiadissimas, a Inês a telefonar, o prédio onde estava em reunião, um qualquer ministério perto da Nyerere, até parecia abanar, e logo correu para casa, nós corações nas mãos até ela chegar, que aquilo foram horas de explosões, munições projectadas de modo totalmente errático. A causarem mais de cem mortos, se não erro (coisa devida ao calor, veio dizer o ministro, que nisto da desresponsabilização governamental há mesmo lusofonia). Numa casa grande mas toda envidraçada juntaram-se as empregadas, a Inês e a ainda filhota Carolina numa nesga, entre a copa e a cozinha, único recanto menos atreito a hipotéticos estilhaços. Os telefones não paravam, gente em cuidados, a falar para exorcizar, a dar conta dos locais atingidos, e tantos e tão díspares eram. Nós ali ao fundo da Zimbabwe, e ainda me lembro do esgar que fiz diante do olhar de interrogação da Inês com mais uns SMS que chegavam anunciando rebentamentos “na OMM“, “perto da casa do Mia“. É nestas alturas que um tipo percebe mesmo onde está o seu amor. Medo? Por elas sim, claro, não por mim, coirão resoluto. Nisso telefonou o meu irmão, oficial artilheiro, daqueles com espada, lá dos Açores, soubera da coisa, em cuidados e conselhos, que não fossemos para as vias de saída da cidade, decerto que congestionadas – e claro que não, sabido que era estarem as rotas da Matola, Marracuene e da Costa do Sol a serem fustigadas. E perguntou-me o mano-artilheiro que material estaria armazenado e eu num “sei lá, deve estar apinhado de material velho, no tempo da guerra os russos inundaram isto com os restos deles, dizem-me agora que por lá estão até Órgãos de Estaline“. Ao que o meu mano-velho, artilheiro de formação e profissão, exclamou “ai, meu filho!“. Então sim, com esse primeiro “filho” que ele me deu em 45 anos de vida, assomou-me o medo. Já bebemos uns uísques, os dois, com esta minha memória.

Um novo livro de Luís Bernardo Honwana

 

Ouvira rumores há algumas semanas, confirmo-os agora mesmo, recebendo anúncio de um novo livro de Luís Bernardo Honwana. Em 1964 ele publicou o, justamente, célebre “Nós Matámos o Cão-Tinhoso“. Que é belíssimo. E fundacional, da literatura moçambicana (o que não quer dizer que seja o primeiro, pois não se trata nem do “génesis” nem de biologia). E nunca mais publicou. Agora este “A Velha Casa de Madeira e Zinco” (e que bela capa!). Entusiasmante. Não sei se se trata de ficção, como tantos admiradores sonham; ou de memórias (como o título deixa suspeitar); ou de uma colecção de textos (intervenções, reflexões, ensaios), que é o meu palpite. Seja o que for é imensamente entusiasmante. Pois Honwana.

A apresentação será na próxima semana em Maputo. Acorram. E leia-se, claro.

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Para nosso alívio a editora Alcance distribui em Portugal. E assim, mais cedo do que mais tarde, será possível aceder ao livro.