Notre-Dame de Paris e o racismo negro

Partilho este filme, do Le Monde, para ilustrar um postal sobre o que li num mural de FB de um fotógrafo moçambicano. Gente invectivando quem se comoveu (e o mostrou, partilhando notícias e/ou comentando-as) com o incêndio da Notre-Dame. O autor devido a isso chamando-nos estúpidos, “falsa gente”, sendo, para meu estupor, aplaudido até por escritora de livros infantis e artistas plásticos – que artista plástico aplaude o vitupério de um “edifício velho” como a Notre-Dame de Paris? Gente clamando que essa (a igreja) “são coisas dos brancos”, e protestando contra os negros que se preocupam com o tal “edifício velho”. Que fique explícito, ninguém é obrigado a gostar de igrejas ou de monumentos históricos. Mas este fel, esta radical aversão ao que é dos “brancos”, tem um nome: racismo. É um racismo fascista, obscurantista. Que muitos não são capazes de reconhecer, porque prisioneiros do arquétipo do fascista cabeça-rapada, supremacista branco (ou japonês, lembro para quem se esqueça da História), portador de insígnias (tatuadas ou amovíveis) já consagradas. Este fascismo africano, “negro”, é tão boçal, racista e agressivo como o euro/américo-asiático, “branco/amarelo” tradicional, e tem os seus ícones (Malema talvez o mais da moda – e lembro do meu espanto preocupado quando já nesta década a juventude do Frelimo surgiu num congresso do partido com as boinas típicas do movimento de Malema, algo felizmente depois extirpado mas que mostrou a receptividade ao radicalismo racista/fascista por parte de alguns sectores mais jovens do partido).

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Abertura do ano académico na Lúrio

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A conferência para a abertura do ano académico na Universidade Lúrio, no pólo de Pemba, a ser proferida daqui a uns dias por um renomado professor japonês. É uma coincidência, a conferência fora programada há meses e ocorrerá durante esta tragédia.

Mas é também uma enorme demonstração da diferença entre os literatos, donos da palavra pública, sempre prontos às declarações tonitruantes, para não serem esquecidos, tendencialmente inúteis, e os intelectuais. Estes que procuram, com os constrangimentos de meios que sempre têm, sedimentar espaços de reflexão e canais de influência das opiniões. São duas coisas até inversas. 

Esta programação mostra bem como a Lúrio, universidade recente e ainda com corpos discentes e docentes relativamente pequenos, está num bom caminho. A pensar e a antecipar o que é possível antecipar. E é claro que não sendo uma universidade redutível ao seu reitor, este é um exemplo do trabalho iluminado do seu magnífico Magnífico Reitor (o termo protocolar ainda muito usado no país), Francisco Noa, um grande quadro moçambicano. Magnífico reitor mesmo, excelente intelectual. E uma pessoa decentíssima.

Que seja uma bela conferência. Constitutiva. Parabéns, já!.

Moçambique: a ajuda portuguesa

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Vejo agora um filme da BBC com declarações de Graça Machel de há dois dias. Ex-ministra, e celebrizada por ser viúva de Machel e de Mandela, é uma figura muito relevante na sociedade moçambicana. Há dois dias afirmava, com clarividência, que a “calamidade” (o termo corrente em Moçambique para este tipo de situações) é vasta demais para ser enfrentada por um único país, sublinhava que Zimbabwé e Malawi estão assolados pela mesma situação, que é um problema regional. Disse ainda ter solicitado ao secretário-geral adjunto da ONU o envio de uma força altamente especializada para fazer o diagnóstico da situação, que é totalmente deficitária, desesperante até. Isto é o que quem conhece o que está (e não está) no terreno sabe.

Dado que ontem botei breve postal sobre o assunto junto algumas considerações. No dia seguinte a estas declarações públicas o governo português envia o secretário de estado das Comunidades Portuguesas para fazer um diagnóstico. Isto nota o vazio luso. Mas há mais: só quem nunca assistiu ou ouviu falar de uma delegação deste tipo não percebe que vai atrapalhar mais do que ajudar. É um grupo de amadores, sempre. Um político de terceira linha, com alguns assessores apparatchiki, e normalmente sem experiência deste tipo de terrenos e situações, muito preocupados com algo que lhes é sempre o fundamental: a comunicação social portuguesa. Porventura (sublinho o porventura) irá um ou outro profissional, oficial superior (major, tenente-coronel, coisa assim), sem ser especializado nestas situações. Convocarão uma articulação no terreno – seja das autoridades moçambicanas, alagadas de trabalho que estarão, seja dos funcionários portugueses ali estacionados, que seriam mais úteis se numa articulação directa com os oficiais moçambicanos. Visitas destas, costumeiras, são quase sempre inúteis. Muito mais o são em momentos destes. São até uma falta de respeito por quem está a trabalhar. Portugal tem embaixada, consulados. Se precisa de informações o pessoal diplomático ou associado que as recolha, ou então mande quem as saiba recolher, não uma “delegação” destas. É totalmente descabido.

Acabo de ler que seguiu hoje uma força de intervenção rápida, sob tutela do ministro da Defesa. E o qual anuncia que só irá a Moçambique se necessário. Ainda bem. É outra coisa. Podemos dizer que é algo tardio (um dia de atraso é surpreendente nestas situações). Mas é um eixo de actividade curial, necessário. E pelos vistos gerido com inteligência.

E a tutela é diferente: goste-se ou não do governo, goste-se ou não do ministro, Cravinho é alguém de gabarito intelectual, para além de que conhece o país (doutorou-se sobre o processo moçambicano, foi presidente do Instituto da Cooperação, foi secretário de estado da Cooperação, e foi-o com distinção). E o tipo de articulação que Portugal poderá ter com esta gigantesca operação terá que ser ao nível da Defesa e dos Negócios Estrangeiros – entenda-se, o secretário de estado dos negócios estrangeiros e das comunidades portuguesas é sempre alguém diminuído, politica e culturalmente, é uma tradição portuguesa que é imensamente significante do que o poder pensa da emigração. Como tal não faz parte do núcleo que pode pensar esta situação e a intervenção portuguesa. Será bem-vindo aos futuros jantares da Academia do Bacalhau, se levar algum subsídio para acções de assistência. De resto é (sempre) inútil.

Ou seja, é boa esta inflexão do governo, e já que critiquei antes, saúdo agora. A acção de ajuda de emergência entregue a verdadeiros especialistas, profissionais de gabarito (militares ou para-militares) que têm cadeias de comando, as quais costumam funcionar (tão ao invés da trapalhada civil). A tutela política entregue a um político de peso, que muito provavelmente será o MNE do próximo governo, e que não se apresta a ir visitar o local, em busca de um directo na TV. E que poderá servir – pela sua experiência política, gabarito intelectual, conhecimento de terreno e, muito em particular, pelos especialistas que tutela – para pensar as formas de integrar os recursos portugueses numa necessária acção internacional conjunta.

Estou a exagerar nos elogios, dirão alguns? Não. O meu ponto de partida, que é dogma, é simples: ninguém que tenha feito parte de um governo de Sócrates deverá estar num governo ou numa administração de empresa pública. Mas este não é o momento para se discutir o futuro português. Nem o presente.

A ajuda ao Moçambique submerso

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Razões minhas, e fastio também, levaram a que há mais de três meses tivesse fechado a minha conta FB (fiquei a blogar). Reabro-a hoje, para juntar o meu teclado aos que pedem ajuda para Moçambique (o qual é, se os mais “anti-tuga” de lá me permitirem dizê-lo, também “minha” terra, pois onde está a terra vermelha na qual preferirei morrer, na estação das chuvas se possível).

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As águas de Moçambique

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Não tenho quaisquer informações especiais sobre Moçambique. Recebo imensas mensagens de amigos de Portugal, que bem me sabem na Bélgica, formas solidárias percebo-o, perguntando-me se os “meus” por lá estão bem. Conheço pouca gente na Beira, os tais “meus” estão a sul e a norte. Esses estão a salvo, felizmente. 

Quando há notícias em Portugal sobre Moçambique sempre as relativizo, aprendi isso durante 20 anos, da tendência para o exagero. E da incapacidade para se compreender as enormes distâncias.

Mas esse relativizar não conta quando o assunto são as águas do país. Vivemos as cheias de 2000 em Maputo, quando a cidade foi sitiada pelas águas. Lembro-me do ar abismado da minha mulher, quando regressou do Limpopo alagado, inserida numa missão de ajuda. E de, semanas depois, termos passado Xai-Xai, onde as marcas da água eram visíveis nos prédios, tão distantes e tão elevados face ao longínquo leito do rio. Como fora possível tamanha cheia? Depois, em 2001, vivi as cheias da bacia do Zambeze (deixei no meu blog uma crónica que não quis escatológica ou demasiadamente realista) . E em 2007 trabalhei nos campos de refugiados de outras cheias do Zambeze (do meu relatório fez-se um livrito).

E nunca tive palavras para descrever o abissal daquelas cheias. Tenho, sim, uma certeza. É que se as palavras são insuficientes para transmitir a imensidão das desgraças provocadas, também o são as imagens, fotográficas ou em movimento. As cheias e as desgraças que causam têm ali dimensões indizíveis e “trans-visíveis”, se me faço compreender. 

Do que sei agora é que tudo se associa: um ciclone terrível, a bater a belíssima Beira, essa que um dia foi construída, por óbvio erro, abaixo da linha de água. Enormes chuvas a montante, a tumultuar um feixe de rios. A maré equinocial, cujo cume será hoje, ao que me dizem. E a prevista abertura das barragens nos países vizinhos, que estão nos limites. Não consigo prever pior cenário (a não ser uma ruptura de barragens, longe vá o agoiro).

Nos últimos dias aconteceu um desastre terrível no centro de Moçambique. Mas temo que nos próximos dias ainda venha a piorar. Eu sou ateu, não rezo. Nunca. Apenas vou à varanda e fumo. E espero que o futuro imediato não seja tão mau como ameaça. E comovo-me, num renitente pessimismo. E blogo.

É necessário acudir. E será necessário reconstruir. “Cuidar dos vivos e (talvez, pois tantos deles desaparecidos) enterrar os mortos“. Tudo isso em condições tétricas. E num país que é paupérrimo. Se puderem, por favor, ajudem. Por pouco que seja, uma mera pequena transferência para uma qualquer instituição. Não evitará o inimaginável. Mas sarará um pouco. Os efeitos do verdadeiro horror.

Adendaaqui, no portal da SAPO, encontram-se informações sobre instituições envolvidas na ajuda de emergência, e formas de contribuir.

Os livros de João Paulo Borges Coelho

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Quem me vai lendo os blogs saberá do meu apreço pela ficção de João Paulo Borges Coelho. Pelo prazer enorme que me dá ler os livros. Mas também porque o olhar que ele tem sobre Moçambique muito me ilumina, mostra-me o país.

Já escrevi e falei sobre isso. Agora dei forma final a um texto que explica porque uso aqueles livros como a minha bengala para entender o “do Zumbo às águas do Índico, do Rovuma ao Maputo”. Está aqui, para quem tiver paciência e interesse: “O programa ficcional de João Paulo Borges Coelho.” (basta clicar no título que se aportará no texto)

Escravismo e actualidade

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Tenho andado arredio disto do bloguismo. Escrevo outras coisas, menos ligeiras. Caso alguém tenha interesse (e paciência) coloquei agora na minha página da rede Academia.edu um texto que acabo de concluir: José Capela e a violência estruturante: o escravismo em Moçambique e a sociedade actual.

Se alguém o ler e me quiser enviar comentário ou crítica muito agradecerei.

Moçambique 2018, a África desta era

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O meu amigo João Xavier acaba de publicar estas suas fotografias, de um prédio novo na centralíssima avenida Eduardo Mondlane, em Maputo. Não valerá a pena dizer muito, são mais do que explícitas da era que se vive, em Moçambique na África global. Ao vê-las foi-me imediata a recordação da célebre foto do Ricardo Rangel, tornada ícone da denúncia do racismo colonial (esse que tantos de nós, portugueses, estuporadamente continuamos a negar):

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Ao olhar estas novas imagens, não surpreendentes pela realidade que gritam, que essa é óbvia, mas sim pela desfaçatez que demonstram, estanco naquela tão bela expressão moçambicana, o “estou a chorar”.  Como é isto possível?, como decorreu o processo nacional para que se aceitem as aleivosias desta nova interacção de XXI?

Quando nós, portugueses ou europeus em geral, resmungamos com as modalidades, absolutamente predatórias da articulação chinesa com África, e com Moçambique em particular, a reacção local é imediata, aventando que isso é fruto da “nostalgia colonial”, dos tempos em que “nós” mandávamos. Mas é tão óbvio que não é isso. É certo que as relações entre Moçambique (e África) e a Europa (ou o “mundo pan-europeu”, como Wallerstein muito bem especificou) não têm sido absolutamente virtuosas, nem isentas de mecanismos de apropriação, nem decorrem simétricas. Mas é notório que, muito pelos processos de independência africanos mas não só, se geraram nas sociedades “pan-europeias” constatações e conflitualidades, preocupações ecológicas, derivas desenvolvimentistas, ideologias democratizadoras (sistematizadas na “condicionalidade política” que vigorou de facto durante breve período de tempo), e até uma feroz auto-crítica societal quanto às relações com o dantes chamado “Terceiro Mundo”, etc.

Este é um processo histórico, com corolários culturais e ideológicos, que a China desconheceu. E a abordagem que a sociedade chinesa, seu poder e suas empresas, tão articulados, faz a África é tipo “tábua rasa”. Com os preconceitos gritados (e não sussurrados como os de outros), com o descuido da issolidariedade óbvia, numa vertigem de apropriação de desrespeito. E nisto seria interessante perceber, o que exigiria um conhecimento profundo da sociedade chinesa actual, que estratos socioculturais chineses se envolvem na relação com África, e Moçambique, tanto na própria China como nos fluxos de migração sazonal (ou mesmo de assentamento).

E tudo isto é aceite. A troco de quê? De umas pontes, de umas estradas (tudo isso que virá a ser pago, entenda-se, e caro …)? Honestamente esta cena de tamanho profundo racismo, que mais audível (e assim visível) seria se percebendo mandarim, expressa neste apartar de “apartamentos” no centro da capital da cidade, é o grau zero da soberania. Convoca-me a dor d’alma, e nisso a demagogia, assumida: como é que no país de Mabote, de Machel, de Magaia, de Marcelino, de Mondlane, é permitida a situação que a isto conduziu?

(Ok, desabafo feito, podem vir apupar-me de “xi-colono”, saudoso do tempo em que “eu” é que mandava).

Ilha de Moçambique: 200 anos de cidade

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A Ilha de Moçambique comemora hoje os 200 anos de elevação a cidade. A festa está a ser boa, decerto. Eu gostava de estar lá, com os amigos, claro. É dia de nostalgia, pois gosto mesmo da Ilha e das memórias das tantas vezes que lá fui.

Hoje muitos colocam fotos da beleza natural e humana ali. Eu deixo esta, um naco que acho significativo (talvez mais que as “belezas”): é a “fronteira” interna da Ilha, o começo do macuti. Ou, se se preferir, da “pedreira”. Da igreja pedra-e-cal (muito cimentada na primeira década de XXI por iniciativa de um padre português, para aí de Mafra ou assim, de apelido Teixeira), desce-se para a cidade. Quem perceber que é assim conhece a Ilha. Quem não perceber, os das belezas do “património” e as da baía? É mero turista, viente, venha lá de onde vier …

A floresta arrasada em Moçambique

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(imagem colhida aqui)

Em finais de 2017 após 3 anos de ausência fui a Moçambique. Vi, nessa altura, um mapa da involução florestal moçambicana. E vejo agora este partilhado por várias pessoas no Facebook. Durante essa minha viagem todos por lá me perguntavam o que achava que tinha mudado nessa minha ausência. Para quê responder, diante daquela desgraça e da radical inconsciência dos cidadãos e residentes? Quando voltei a Portugal botei um postal sobre as mudanças – para quê falar?, elidi tudo, completamente desiludido. Ainda por cima porque quando um português fala do assunto logo vem a conversa de que somos colonos. Brancos. Que queremos imiscuir-nos, que temos inveja dos chineses, que esse sim fazem, dão, cooperam. A permissividade à rapina externa é gigantesca. E ao boçalismo interno também. Sem rebuço (sem burka, como adoram os multiculturalistas), a capacidade crítica no país é pequeníssima. A devastação ecológica é dramática. A hipoteca do futuro é abissal.

Olhe-se para a desgraça que acontece. A ecológica. E o que significa para o futuro do país. É uma dor de alma. Sim, a minha cor de pele é branca, sou cidadão português. Não sou “dono da terra”. Mas, raisparta, que “donos da terra”, coitada da terra. Da fauna, da flora. E do futuro de tudo aquilo.