O Paiol

psb malhazine

(Explosões no paiol de Malhazine, Maputo, 2007; fotografia de Pedro Sa da Bandeira)

Não terá a ver mas esta história do assalto ao paiol (e não só, e não só …) tem-me recordado quando, há uma década, rebentou o paiol de Maputo. Eu chegara de Manica nesse dia, a São fora-me buscar a Mavalane, na saída ambos, distraídos, a achar estranho uma trovoada com céu tão limpo. Só em casa as empregadas me disseram o que era, angustiadissimas, a Inês a telefonar, o prédio onde estava em reunião, um qualquer ministério perto da Nyerere, até parecia abanar, e logo correu para casa, nós corações nas mãos até ela chegar, que aquilo foram horas de explosões, munições projectadas de modo totalmente errático. A causarem mais de cem mortos, se não erro (coisa devida ao calor, veio dizer o ministro, que nisto da desresponsabilização governamental há mesmo lusofonia). Numa casa grande mas toda envidraçada juntaram-se as empregadas, a Inês e a ainda filhota Carolina numa nesga, entre a copa e a cozinha, único recanto menos atreito a hipotéticos estilhaços. Os telefones não paravam, gente em cuidados, a falar para exorcizar, a dar conta dos locais atingidos, e tantos e tão díspares eram. Nós ali ao fundo da Zimbabwe, e ainda me lembro do esgar que fiz diante do olhar de interrogação da Inês com mais uns SMS que chegavam anunciando rebentamentos “na OMM“, “perto da casa do Mia“. É nestas alturas que um tipo percebe mesmo onde está o seu amor. Medo? Por elas sim, claro, não por mim, coirão resoluto. Nisso telefonou o meu irmão, oficial artilheiro, daqueles com espada, lá dos Açores, soubera da coisa, em cuidados e conselhos, que não fossemos para as vias de saída da cidade, decerto que congestionadas – e claro que não, sabido que era estarem as rotas da Matola, Marracuene e da Costa do Sol a serem fustigadas. E perguntou-me o mano-artilheiro que material estaria armazenado e eu num “sei lá, deve estar apinhado de material velho, no tempo da guerra os russos inundaram isto com os restos deles, dizem-me agora que por lá estão até Órgãos de Estaline“. Ao que o meu mano-velho, artilheiro de formação e profissão, exclamou “ai, meu filho!“. Então sim, com esse primeiro “filho” que ele me deu em 45 anos de vida, assomou-me o medo. Já bebemos uns uísques, os dois, com esta minha memória.

Um novo livro de Luís Bernardo Honwana

 

Ouvira rumores há algumas semanas, confirmo-os agora mesmo, recebendo anúncio de um novo livro de Luís Bernardo Honwana. Em 1964 ele publicou o, justamente, célebre “Nós Matámos o Cão-Tinhoso“. Que é belíssimo. E fundacional, da literatura moçambicana (o que não quer dizer que seja o primeiro, pois não se trata nem do “génesis” nem de biologia). E nunca mais publicou. Agora este “A Velha Casa de Madeira e Zinco” (e que bela capa!). Entusiasmante. Não sei se se trata de ficção, como tantos admiradores sonham; ou de memórias (como o título deixa suspeitar); ou de uma colecção de textos (intervenções, reflexões, ensaios), que é o meu palpite. Seja o que for é imensamente entusiasmante. Pois Honwana.

A apresentação será na próxima semana em Maputo. Acorram. E leia-se, claro.

lbh3

Para nosso alívio a editora Alcance distribui em Portugal. E assim, mais cedo do que mais tarde, será possível aceder ao livro.

No Porto

Portugal, Porto

Há quinze dias fui ao belo Porto, para participar numa conferência dedicada ao historiador José Capela. A qual decorreu muito bem, boas comunicações, bom ambiente, uma mais que digna homenagem a quem muito a mereceu.

Escrevi um texto como base da minha intervenção. Deparei-me com aquele problema de articular Rossio e Betesga. Ou seja, está palavroso. É um texto sobre história de Moçambique colonial. Quem tiver algum interesse pode encontrá-lo aqui: “a especificidade portuguesa face à historiografia de José Capela“.

A propósito de prémios literários

camoes

 

(Escrito no telefone, depois de ler este artigo no jornal “i”)

Em Moçambique, durante a guerra de independência houve a “poesia de combate”, feita por combatentes e militantes, num “a minha arma é uma pluma”, ou “… é também uma pluma”, e foi ela justamente celebrada, pois cumprindo a missão. Entre outros escreveu-a Kalungano (o camarada Marcelino, personagem apaixonante, pois “maior do que a vida”), Jorge Rebelo, de quem todos guardamos (ou deveríamos guardar) o seu belíssimo “não basta …”, até Guebuza. Epitomizou-a, já após o fim da guerra, o genial António Quadros quando se heteronomizou Mutimati. Passaram alguns anos e algo foi mudando, o incipiente “campo literário” nacional foi-se constituindo, e nisso aos textos foram sendo pedidas, e esperadas, outras funções, ou até nenhuma. Muito pelo velho Craveirinha, até naquele sumarento “As tangerinas d’Inhambane”, e depois pelo povo da “Charrua” (e também do Xiphefo …), mais que tudo talvez pelo desassombrado White. Mais anos passaram, lá pelos finais de XX o “campo literário” sedimentara-se, e vieram os prémios, meio de recompensar, modo de consagrar, forma de publicitar. Assim foram sendo reconhecidos os escritores e, até porque tudo decorrendo num espectro autoral (ainda) algo estreito, também os grandes estudiosos da matéria, figuras-chave do tal “campo literário”, da difusão da leitura, da compreensão da escrita. Mas não os “poetas de combate”, ainda que respeitados, sempre referidos e, porventura, ainda lidos. Mesmo sendo eles presidente, vice-presidente da república ou ministros. Porque se percebe, e aceita, que se trata de outra coisa. Ao longo dos anos tenho lido vários autores que referem que a autonomização dos “campo literário” e “artístico” é sintoma de complexificação, desenvolvimento e democratização das sociedades. Afinal talvez devamos olhar para Moçambique. E aprender.