A estátua de Salazar em Maputo

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(Fotografia de Vasco Ribeiro)

Um texto de Miguel Alexandre Ganhão no Correio da Manhã sobre a estátua de Salazar, actualmente (res)guardada na Biblioteca Nacional, em Maputo. Sofre, o texto, daquela reaccionarite aguda que é aprofundado sintoma da demência senil. Não a do autor, entenda-se, mas sim a da mundividência que propaga. Mas, ainda assim, nessa sua vetustez titubeante dá azo a algumas questões:

1. A “turistização” da visão sobre o universo em causa. Pois ao afirmar que os milhares de portugueses ali residentes “perfilhem eles seja que ideologia for” “sentem-se incomodados com a situação” está a falar de algo misterioso. Dou o meu exemplo: sendo eu um liberal lite com laivos de social-democracia (ou seja, no actual linguajar dos funcionários públicos intelectuais um “neoliberal, reaccionário, lusotropicalista”, aka proto-fascista), em 18 anos de residência nunca esta situação me incomodou e até surpreendeu risonhamente. Um ricto partilhado com a esmagadora maioria dos portugueses que têm conhecimento do facto (a enormíssima maioria nunca entrou na BN; a maioria não sabe disto). Todos ficam surpreendidos com a preservação da estátua, num imediato “Afinal?…” muito local.

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Guerrilha islâmica em Moçambique

Guerrilheiros islâmicos em Moçambique. Partilhar isto – ainda para mais não conhecendo a origem das imagens, o que deixa em aberto a hipótese da sua encenação – é também um acto de divulgação e, como tal, um acto algo irresponsável. Assumo-o. Tirando esses meus pruridos: isto é o mais plausível. E o há muito temido, pois qualquer pessoa que conheça o país espera, e há já muito, a emergência de algo assim.

 

Em relação às grelhas analíticas dois princípios a afirmar já: 1) tenho visto os habituais negacionistas, a afirmar que isto nada tem a ver com o Islão. Mentem, por ingenuidade ou estratégia. Pois a história das religiões proselitistas (como o cristianismo e o islamismo) sempre se fez com a Palavra e a Arma (assim, com maiúsculas, para enfatizar a santidade da coisa). E a história do islamismo, logo após Maomé, sempre se fez com guerra (na nossa cristã história safou-nos Poitiers) – por mais que os sábios demagogos do nosso pérfido “ocidente” queiram resumir tudo à maldade das “Cruzadas” as “Crescentadas” foram uma constante. E a história das guerras entre facções intra-religiosas também (como as nossas guerras religiosas europeias tanto o demonstraram). Ou seja, “isto” também é o Islão.

2) Agitam-se os do “sociologês”: atribuindo a responsabilidade (de facto, dizem-na “culpa”) disto às malevolências do Estado (“a corrupção da Frelimo”, agitam-se os do antigamente), à exclusão social, às assimetrias regionais, ao falhanço do modelo de desenvolvimento, etc. É o mesmo tipo de discurso que aponta a culpa dos estados europeus no terrorismo interno. De facto, esse sociologês vale nada: são “explicações” que tudo explicam (todos os fenómenos podem ser atribuídos a essas causas) e, como tal, em nada contribuem para a compreensão. E, em última análise, retiram a intencionalidade (o livre-arbítrio, os objectivos próprios, a racionalidade estratégica e utilitária) aos participantes. Pois, no afã de inculpar a perfídia ocidental (branca), o seu poder capitalista, e as suas sequelas pós-coloniais (em tempos ditas “burguesias compradoras”), são incapazes de verdadeiramente se libertarem do “eurocentrismo” que aparentam abominar mas que é o único eixo de pensamento que perseguem. Por isso menorizam as práticas e seus agentes. Infatilizam-nos. Barbarizam-nos. Dizendo que estes são o que são, perseguem o que perseguem, apenas porque desprovidos dos recursos económicos que desejam – “análises” que são apenas fruto um materialismo rasteiro, básico. Desvalorizador. E cego.

Em suma. Moçambique enfrenta guerrilheiros. Islâmicos, convictos, estrategas. Causados e com causas. A ver iremos no que isto dará. Lamentavelmente.

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A “casa das três girafas” de Maputo

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Leio que “A Casa das Três Girafas” do arquitecto Pancho Guedes, na rua Armando Tivane no bairro Polana (Maputo), vai ser demolida.

Há duas coisas aqui para contexto: a) a pressão imobiliária em Maputo é enorme, na vertigem de transformar as zonas “nobres” (entenda-se, ricas) da cidade em parques de prédios, sobredimensionados. Nesta zona o esquema histórico é simples: construção anos 1950/60s para a burguesia colona e algumas empresas; nacionalização pós-independência; aquisição a preços baixos pela burguesia nacional pós-1990s; venda dos talhões (edificados) a empresas internacionais de investimento imobiliário (principalmente desde finais de 00s). Tudo isto permeado pelo facto de que a ausência de capital desde a independência deixou o tecido urbano do Maputo central (o Maputo “cimento”) intocado durante décadas, ainda que decadente, interrompendo as transformações encetadas no final do período colonial, em que houve um novo plano urbanístico e um disseminação da construção de prédios.

Dizer isto leva logo muitos a resmungarem: uns no “malandros, roubaram-nos as casas no comunismo e agora vendem-nas no capitalismo”; outros “xi-colono, o que vocês querem são as casas de novo” – ou a preservação do Maputo qual Lourenço Marques do saudosismo, em termos analíticos. Então que fique explícito, não vejo ilegitimidade alguma neste processo histórico – até porque as terras assim edificadas já haviam sido expropriadas aos seus anteriores proprietários. É a história universal, uma sucessão da apropriações fundiárias, em prejuízo dos menos fortes;

b) o património arquitectónico e urbanístico erigido nos períodos pré-colonial (como a Ilha ou o Ibo) e colonial não é verdadeira e socialmente sentido como nacional. O mito do “desenvolvimento” afronta aquilo do “velho” – e isto não é de Moçambique, é do mundo. E uma história colonial de opressão implicava a exclusão das cidades, uma dicotomia social e racial (o “cimento” para a comunidade colona, o “caniço” para a colonizada – algo contra o qual Pancho Miranda Guedes escreveu e projectou). Ou seja, a relação identitária, “afectiva”, com as edificações, ainda para mais numa população imensamente jovem e suburbana, é muito ténue.

Para além da história há isto do presente, que se calhar conta muito mais: as cidades são vivas e têm que se renovar, demolir e reconstruir. Mas no contexto em que as novas Urbes chinesas e árabes são um “exemplo” (patético mas vigoroso) de como fazer e símbolo de progresso pouco haverá a fazer neste campo. Apenas dizer, lamentar, que é uma imbecilidade monumental (deixar) fazer estas coisas. Pode-se construir (e o Grande Maputo é enorme, e está com muito melhores acessos) sem devastar a história da cidade. E sem tornar o velho centro num inferno urbanístico. Promovendo até vários “centros” – como se tentou fazer nos princípios de XXI.

Alguns individuais ganharão menos com esse processo? Talvez. Mas também poderão articular-se na dinamização desses novos pólos urbanos. Aliás, muitos deles já estarão integrados nisso. E poderão deixar de pé as construções do grande arquitecto da cidade, que são, e poderão ser no futuro, seu emblema. Bastará haver vontade iluminada.

A guerra no norte de Moçambique

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Cada vez mais habituais as notícias de ataques e assassinatos no extremo litoral norte de Moçambique. Por vias mais pessoais chegam-me notícias de ataques, imagens privadas (ontem mesmo filmagens em telemóvel de população na estrada falando sobre a situação e os ataques). E muitas especulações: a imorredoira cartilha marxista-leninista atribui aos “interesses americanos” a responsabilidade pelos acontecimentos, os radicais críticos do Frelimo aludem à responsabilidade estatal, como se esta criando uma “cortina de fumo” distraindo de outras questões, alguns mais estupefactos aventam “será a Renamo?”, outros querem reduzir a uma bandidagem, mas a esta não dando o tom elevado de “social banditry”. E há quem creia no anunciado movimento (oficial ou oficioso) “Al-shabaab”. Não sei do que se trata, não encontro iluminação no que tenho lido, tenho a minha mera crença – que nunca será a do “mínimo denominador comum” entre as várias versões. E que se alimenta de anos na perspectiva de que isto emergisse, vendo no norte e em Maputo as nuvens que o presumiam. Quem me dera poder ir comprová-la no terreno, inquirindo. Esperançado em provar-me errado. Porque há uma coisa, terrível, e inovadora no país, nesse presumível inimigo: não negoceia. Pois quer tudo – que é uma forma do “nada”, do vazio político. E se for esse ele não está encerrado no norte extremo, mas pujante e afirmando-se pelo país, como é visível a qualquer olhar interessado. A sociedade moçambicana, a modorra dos seus poderes, chocou a mamba? Parece-me que sim. Só espero estar errado …

Zena Bacar

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Morreu a voz canónica do norte de Moçambique, a diva da Ilha se se quiser, ainda que nunca assim dita, pois muito mais a diva vinda da Ilha, a sempre voz dos Eyuphuro.  É assim um muito, enorme, do norte de Moçambique que enrouquece. Últimos tempos de vida difíceis, lia-se na imprensa. Escassez de registos musicais, o que ainda mais se nota nos raros filmes disponíveis na internet. Textos quase nenhuns. Fica a voz e o estar. Que foram enormes.


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Moçambique, de José Cabral

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Hoje é a apresentação de “Moçambique”, o livro do fotógrafo moçambicano José Cabral (edição conjunta XYZ Books (Lisboa) / Associação Kulungwana (Maputo). Cerca de 150 fotografias, a maioria, como é costume no Cabral, no preto-e-branco mas também com uma incursão nas coloridas. O livro tem dois textos, enquadrando a “coisa”, um de Alexandre Pomar, que organizou a publicação, e outro de Drew Thompson, americano especialista na história da fotografia moçambicana. Hoje, dia da festa por causa do livro, o preço será de 20 euros, uma verdadeira pechincha para uma peça destas. A tal festa acontecerá no “Irreal”, Rua do Poço dos Negros, 59, em Lisboa, naquela hora das 19.

O Zé Cabral é um entroncamento na fotografia de Moçambique. Quem desta conhece algo sempre refere os mais-velhos, icónicos, pelas fotos e por eles próprios, tipos sui generis (passe a aparente contradição), ambos “maiores do que a vida”, Ricardo Rangel e Kok Nam, grandes fotorepórteres, que narraram e construíram a história do país, e que marcaram as gerações seguintes dos fotógrafos por lá. O Cabral vem a seguir, porque é mais novo, entenda-se, sui generis também, pois “mais complexo do que a vida”, e escapou-se à reportagem, pouco ou nada atreito à disciplina da imagem correcta para ilustrar o discurso correcto, requerido por quem a podia requerer. E assim se pôs a construir o seu mundo, num carinho sulfuroso. Foram estes seus passos que mostraram no país outra forma de falar com a câmara, essa que veio a impregnar os fotógrafos mais novos, que se têm agora tornado conhecidos: Felix Mula, Mauro Pinto, Mário Macilau, Filipe Branquinho.

Há alguns anos Alexandre Pomar escreveu o texto para o catálogo da exposição “Anjos Urbanos” e apanhou bem o Cabral.

Até logo?

A Última Aula de Alexandre Mate

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Amanhã é a “última aula” de Alexandre Mate, meu amigo, meu “querido líder” – foi-o mesmo, nos 15 anos que foi meu chefe, como responsável do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM.

Há momentos profissionais muito felizes. E para o autor deste cartaz este foi-o. A sua aparente singeleza, nisso até excêntrica, é uma acertada súmula do percurso e da personalidade do agora jubilado Alex Mate. Despojado, avesso a protocolos (tão habituais nas suas cercanias), invaidoso, acima de tudo nosso camarada. O seu esforço, continuado e nunca egocêntrico, sempre foi o do reforço institucional, a defesa da nossa autonomia (universitária, intelectual, e assim também política), através do possibilitar do máximo da formação de todos os colegas – e neles integrando as moles de alunos que acorreram desde finais de XX aos cursos de ciências sociais na então UFICS e, claro, em particular aos que se quiseram antropólogos. E que isso se associasse ao máximo de pesquisa possível, descentralizada – ou seja, não tutorada por si ou qualquer abencerragem, e não dependente de qualquer pólo preferencial de financiamento. Pois nada homem de “capelas” e sim de saber (e defender) que os caminhos dos homens são diversificados. É um modo de pensar muito raro. E foi uma tarefa muito difícil. No contexto. Como teria sido em qualquer outro contexto.

Mate trabalhou em particular questões que (nos) eram centrais nos tempos da nossa formação – as mudanças na produção e, como tal no trabalho, na dieta, e nas formas de organização social promovidas pelo sistema colonial no norte rural do país. E depois complexificadas no regime nacional actual. E, na sua tal aparente singeleza que acima refiro, nunca foi nem é homem de dizer “vão lá ler o que fiz” mas sempre de dizer “vão lá fazer o que eu lerei”. E isso é de uma grandeza, neste nosso ofício …

Espero que amanhã o auditório encha para a “última aula” do meu camarada chefe. Pois ele é uma grande personagem, apesar de nunca o querer parecer. Lamento imenso não estar lá. Apesar de estar.

A Sala José Soares Martins (José Capela) no Camões-Maputo

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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1; 2; 3; 4).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

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O Savana

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Semana algo acidentada, esta minha. Deparei-me com esta absurda situação na Universidade Eduardo Mondlane, onde trabalhei durante anos. Fotografei e partilhei no meu mural do facebook, insurgindo-me. E constatei a energia dessa “plataforma” (como se diz) de comunicação, a rapidez das partilhas que possibilita, a cascata de comentários relativos. Os blogs estão ultrapassados, não têm a capacidade de interacção e integração que FB (e talvez o twitter) têm. Tenho pena e nostalgia – não só pelo suporte em si, mais repousado e amigável, ordenável. Mas também porque o texto, mais cuidado e burilado, é antagonizado por esses “suportes” …

Entretanto esta minha fotografia foi seleccionada como “imagem da semana” no jornal “Savana” (sem identificação, uma pilhagem que é uma longa tradição naquele jornal, tanto em imagens como em textos). De qualquer forma o que interessa é que a recuperação do painel de Malangatana no edifício do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane se tornou numa necessidade pública.