Um Nome

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António e os Cartoons

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[Cartoon de António, 2019, New York Times]

O filho de Trump protestou com esta caricatura de António, o NYTimes censurou-a, siga o politicamente correcto, e as invectivas de racismo ou fobismo a tudo o que mexe a pasmaceira … à “direita” e à “esquerda” os paroquianos em frémitos constantes.

Mas António não tem espaço político para protestar, e explico-me. Há anos, logo a seguir ao assassinato dos seus colegas da Charlie Hebdo, António e dois dos seus colegas (Bandeira e um outro que não recordo), foram a um debate sobre a liberdade de expressão (e dos cartoonistas, em especial). Moderada pelo socialista Guilherme de Oliveira Martins, ali presente na condição de presidente do Centro Nacional de Cultura. Eu fui à sessão, regressara há pouco a Portugal e ainda estava bastante desambientado, atrapalhado quanto aos usos e costumes. Por outras palavras, tendente a desenfiar-me, a calar-me se em público. A sala estava cheia, e havia algum empenho atendendo à comoção gerada pelo vil atentado.

No início um dos presentes entre o público, um jurista que conheço pessoalmente (não o identifico, pois “faço cerimónia” com ele, e não só porque então, mui viçoso, tardo-septuagenário) – e porventura porque sabia que aquilo iria descarrilar – explicitou, e à mesa em particular, que os limites à liberdade de expressão eram unicamente os estipulados na lei. Anuíram, e o sorridente moderador em especial. Uma hora e meia depois, o mesmo jurista pediu a palavra e, com placidez, concluiu “então estamos todos de acordo, os únicos limites à liberdade de expressão são os colocados na lei”. “Claro que sim” anuiu-se, e em particular o moderador socialista. Pouco depois o ilustre jurista, após a sua simpática demonstração de sageza, saiu, decerto que para jantar, pois longa ia a sessão, deixando a sala a abarrotar continuar a conversa. Às 8.30 o conhecido moderador, homem da política, da cultura e das finanças, considerou que a hora ia tardia e anunciou que iria fazer a última intervenção. Concluindo-a, jesuítico e sorridente, que “estamos então de acordo, não há limites para a liberdade de expressão … a não ser o bom gosto”. Já sem o ilustre, sábio e ponderado jurista na sala, ninguém se opôs ao senhor Presidente do Tribunal de Contas, do Centro Nacional de Cultura, ex-ministro socialista, futuro homem da Gulbenkian, etc. e sei lá mais o quê. Nem António, nem os seus colegas, nem as dezenas de participantes na sessão. Todos sorridentes e coniventes à perfídia – dizer aquilo, e logo depois do assassinato da gente da Charlie Hebdo, é de crápula hediondo – do Magnífico Moderador. Até eu me calei, entã retornado atrapalhado com ânsias de lhe gritar a vilania que ali escarrara, mas sem saber como ali o fazer no meio daquela parcela do “le tout-Lisbonne” (passei depois o jantar, com um grupo alargado de participantes, a perdigotar o meu desespero com a cumplicidade generalizada com aquela aleivosia, tamanho o desespero sentido com a minha cobardia). Como tal, se António se calou ali, para não afrontar o mandarim socialista, que coma e se cale agora. Pois um gajo que nem os seus colegas assassinados defende não merece qualquer solidariedade quando é atrapalhado. Por outras palavras, que se aguente à bronca …

Entretanto, tendo o Trump filho protestado, o coro de coirões trumpianos portugueses, patetas estuporados a sonharem-se tetranetos de baleeiros açorianos enterrados em New Bedford, e como tal veementes empenhados no presidente dos EUA, andam por aí aos guinchos de falsete a convocaram António para gozar os muçulmanos e seus símbolos, saracoteando que ele goza com o papa (os pecadores de sacristia nunca tal lhe perdoaram) e com os judeus, mas nunca com os muçulmanos e seus radicais. Imbecis que nem o google sabem usar.

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[Cartoon de António, 2001 (Expresso?)]

Vejam lá isto, de 2001, mesmo em cima do  mais mortífero e atemorizador dos atentados dos radicais islâmicos. Desiludam-se os luso-trumpistas. Pois o respeitinho timorato que o cartoonista tem pelos manda-chuvas do PS não tem ele pelos radicais islâmicos. Ao menos essa (parca) honra ninguém lhe tira.

Memórias de adepto de futebol

(Postal para o És a Nossa Fé)

Não tenho acompanhado os jogos portugueses, literalmente perdi a paciência. Não é a primeira vez que isto me acontece. A primeira vez, assim tão radical, foi no início dos anos 1990s. Tinha por costume ir ver os jogos em casa, antes na superior, depois na “bancada nova”. Num Sporting-Porto, que terminou 0-0 (1990?, 1991?, por aí …), saí tão irritado com o árbitro – um mariola muito sabido, que controlou o jogo com “faltas” e “desfaltas” a meio-campo, assim sem ter que recorrer aos “roubos de catedral” – que jurei não voltar aos estádios. Com efeito, para quê gastar dinheiro e, fundamentalmente, tempo, em algo que se sabe estar viciado? Só regressei a Alvalade para ver o Real Madrid (1994/1995), numa eliminatória que o Sporting ingloriamente perdeu por défice de guarda-redes.* Já emigrado, durante umas férias no país em 2002, ali voltaria ainda para me despedir do estádio antes da sua patética demolição – a estupidez de construir um estádio novo em vez de um municipal é uma coisa tão vergonhosa que os adeptos continuam a falar de outras coisas -, numa derrota caseira contra o Porto, mas tendo tido o prazer de ver o recém-titular Quaresma, então em puro estado mustang, e também um jovenzito ex-júnior (como se dizia antes desta patetice de chamar “academia” às escolas de jogadores), um tal de Cristiano.

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José Nuno Martins e a Besta Negra

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José Nuno Martins chamou “besta negra” ao Jorge Andrade e caiu o Carmo e a Trindade. O Jorge Andrade, que eu saiba, não reagiu ao dichote mas já reconheceu que se havia “esticado”. Ele foi um extraordinário jogador, um magnífico defesa-central (muito prejudicado por lesões) e é um homem simpaticíssimo e muito bem-disposto. E “esticou-se” porque disse na tv que ao miúdo-maravilha que por ora desponta no Benfica ele “daria um pisão”, para o amansar em campo. Sejamos francos, é o que os gajos da bola fazem. E é o que os gajos da bola falam. Mas não em público, claro, que a compostura e o respeitinho são muito apreciados. Faltou ao Jorge Andrade mudar de registo (de “chip” diz-se agora), ali no estúdio da tv. E, francamente, para quem gosta de futebol, para além dos clubes, este miúdo, que dá pela graça de João Félix, é um regalo, o franzino reguila artista, o tipo de jogador que nós povo adoramos: guardem lá os “pisões” para outros morcões …

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O meu irmão

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(Postal para o Delito de Opinião)

(Patrícia Reis fala de violência doméstica e do femicídio.  E lembra-me uma história da minha meninice.)

Eu tenho 4 ou 5 anos, não sei bem, é cerca de 1969 mas não me acordaram ou acordarão para ver Armstrong dar o pequeno passo, e por isso já estou amuado com os meus pais e assim continuarei no próximo meio século. Estou doente, ouvi que tenho uma coisa no rim, pois aparece-me sangue no xixi, acho que há meses que não vou à escola, as minhas avós revezam-se a acompanhar-me, ainda que cá em casa haja várias empregadas (chamar-se-ão assim no futuro, quando eu entrar no liceu, que agora dizemos criadas) e ama. Se calhar não são meses, julgo que pensarei isso no futuro, mas agora tenho a certeza que estou doente há imenso tempo. Hoje é sexta-feira, e, como não posso ir brincar para a rua, estou na varanda deste rés-do-chão a ver os amigos ali mesmo defronte, numa rua como se pátio deste nossos Olivais, a Cabinda. As criadas estão comigo, atraídas pelo barulho, a gritaria. Pois um pouco abaixo, junto à rua, uma porteira está a ser espancada pelo marido, um bêbedo, dizem enquanto entre elas espreito. Ele bate-lhe, ela está no chão e grita. Às portas da mercearia, da farmácia, do café e às dos prédios está gente a ver o que se passa, e também às janelas das casas chegaram curiosos.

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Penélope

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Há algum (demasiado) tempo, tarde e péssimas horas, pus-me a escrever um texto profissional (“para quê?” logo me perguntou um sábio amigo). Arrastando essa maldita cruz jurei-me terminá-lo, ao calvário-texto inútil, em 18. Falhei rotundamente. E percebo que há tanto levo vida tal e qual aquela Penélope da história, desfazendo de noite o que teço de dia. Tão e tal e qual a dita rainha que me interrogo, serei eu gay? (Ok, amanhã eu apagarei o postal)

Os beijos dos mais-velhos

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1. Esta historieta que corre em Portugal lembra-nos, cá em casa, um episódio. Em Março de 2010 Sócrates visitou Moçambique. Em época tão avançada do seu poder só os Santos Silva, Vieira da Silva, Leitão Marques e quejandos, mais os seus propagandistas a la blog Jugular ou Eixo do Mal, secundados pela mole de aficionados deficientes cívicos, podiam ainda negar o quão corrupto e corruptor do país o energúmeno seguia, e o quão abjectos eram os apparatchiki, essa rede clientelar que hoje de novo tanto se (ka)move no poder.

Nessa ida a Maputo Sócrates, como é da praxe ali, visitou a Escola Portuguesa, onde estudava a minha filha, então com 7 anos. Lá enfileiraram as criancinhas para a recepção a Sua Excelência, como sempre se faz. Por coincidência o escroque avançou para o ror de petizes e pediu à nossa Carolina e à colega que a ladeava “dão-me um beijinho?“. Conta ela ainda hoje “eu lembrei-me do mal que dele dizias e tive medo“. Mas, claro, nos seus 7 anos não teve a autonomia para se esquivar, e creio que até sentiu a excitação do falso brilho do poder, pois “o nem tudo o que reluz é ouro” é algo que se aprende mais tarde.
À noite, em casa, irei-me ao saber da história. Quis ir à escola reclamar, escrever para o ministério, que direito tinha a equipa docente em expor a minha filha a tão pernicioso e indecente contacto.? “Não vale a pena”, foi a derrotada conclusão a que cheguei. Pois parte dos funcionários lambuza(va)m-se com o imundo, a outra tinha medo. Chamando-lhe respeito. Seria envolver, ainda que indirectamente, a minha filha no asco pelo governo e seus apoiantes. Semeando até, quiçá, antipatia entre o corpo docente.

Mas lá está, há que controlar os contactos físicos dos mais-velhos com as crianças, não as obrigar ao indesejado, ao temido, ao naturalmente repugnante.

2. O professor Daniel Cardoso que tantos nas redes sociais agora gozam e insultam não disse nada demais. Os pais medianamente informados e sensíveis educam os filhos a ser polidos – ou seja, pulem os filhos, adequam a sua autonomia a regras sociais. O professor, que tal como tantos outros colegas, bota Foucault a torto e a direito (pelo menos na tv) – não é nada de especial, no meu tempo era o Althusser, daqui a uma década será outro – esquece-se um bocado disso, que a “autonomia” desses monstros egocêntricos que são as crianças é burilada por nós, mais-velhos. Mas ao polirmos os filhos não devemos rasgar-lhes essa liberdade decisória.

E nisso da sua gestão dos beijos e outros contactos físicos com os mais-velhos, e os algo externos ao núcleo da família elementar. Quando fui criança era muito mais usual que gente da parentela ou amigos de pais ou avós nos beijassem, beliscassem as faces, acariciassem a cabeça. Coisas de carinho, sem a malícia que hoje em tudo se coloca, pela actual sobre-erotização da vida.

Tal como refere o professor educámos a nossa filha sem nunca a obrigar a beijar ou abraçar. Cumprimentar e agradecer sim, é uma regra. Contacto físico não, é uma decisão. E quantas vezes se recusou a beijar adultos, até próximos, por desconforto ou timidez (mas não por humores, por “birra”, que isso é coisa diferente e não aceitável). E no ambiente actual, em que a consciência educada é diferente das vigentes nas anteriores gerações, também as pessoas não impõem às crianças esse contacto. “Dás-me depois” ouvi tantas vezes dizer. A mim acontecia-me isso com as minhas sobrinhas-netas, eu chegado a Lisboa uma ou duas vezes por ano, gordo, encanecido, barbudo, fedor a tabaco entranhado. Elas beijavam a minha mulher, abraçavam a prima, não me beijavam. Viam o carinho de mana mais-velha que a sua avó me dava, o relativo apreço das suas mães para comigo, mas nem isso as convencia. E ficou como nosso código, ainda hoje aos quase 10 anos risonhamente jogam essa negação de me beijarem.

O que nós, pais, fazemos é induzir a extroversão, aquilo de que o corpo não é um cofre, combater os medos e a excessiva timidez: cuidado com as festinhas aos gatos que são erráticos, atenção aos cães, os quais se podem acariciar desde que os conheçamos, se se pode ou deve (no sentido de “ficar bem”, ser “gentil”) beijar fulano – e quantas vezes a minha pequenina filha me olhou indagando se devia ou não beijar alguém, esperando um aceno ou um encolher de ombros quase imperceptível, consoante o caso. Tal como, depois, mais crescidos, a questão tão portuguesa do tratamento, na segunda ou terceira pessoa (complicado código), onde a regra de oiro cá de casa foi “não tratas ninguém por tio, a não ser os tios mesmo …”, que não há paciência para estes patetas arrivistas de agora.

Ou seja, o professor não disse nada de errado. Como todos os de bom senso e educação percebem. Daniel Cardoso está a ser canibalizado por uma enxurrada de imbecis, mal-educados ainda por cima. Principalmente por razões sociológicas, pois o homem não é “Lisboa”, notório até nisso de ir à plateia do “Prós e Contras” para botar opinião, coisa mais “Preço Certo” do que “Quadratura do Círculo” na indústria de entretenimento. E os blasés não lhe perdoam o aparente berço, visível no sotaque, no léxico e na en-to-a-ção. Os blasés gostam da desenvoltura televisiva do Marques Lopes ou da Clara Ferreira Alves (“aqui no programa só nos enganámos numa coisa – 4 de nós 5 -, sempre acreditámos que havia uma campanha da direita contra Sócrates”, vi há dias a referida indivíduo, num trecho de youtube partilhado no facebook, sem mostrar qualquer vergonha e com toda a fluidez televisiva e sotaque lisboeta. E toda a gente acha elegante … a ninguém apetece lapidar este “avençadismo”), mas detestam berços diferentes, a não ser que sejam patuscos objectos etnográficos, “emplastros” risíveis.

E depois há as razões moralistas, moralistóides. O professor é um tipo sui generis (conversando entre amigos eu diria “uma ave rara”) e mostra-o. E depois? Não parece um forcado da Chamusca ou o terceira-linha do CDUL. E depois? Mostra que vive com várias mulheres. E depois? É um bocado piroso naquilo do “poliamoroso”? É, mas nem sequer é particularmente novidade (que tal a gente ler sobre os anos 60s? ou ouvir a música e ver os filmes?). E a quantidade de gente que tem vários casos, ou que vai aos “profissionais do sexo” (é a expressão agora correcta, mas eu recuso-me a abandonar o masculino universal, como os patetas actuais fazem)? Faz fotografia erótica? E depois? Não há tantos facebuqueiros que fotografam ocasos e lhes chamam “sunset“, há coisa mais indigente do que isso? Não há tantos luxuriosos que fotografam os camarões que comem, há menoridade estética maior do que essa?

Porquê este meu lençol, irritado? Porque me fartei de ver gente a botar coisas estúpidas sobre o homem, de gente obtusa. E perversa, uma perversão explicitada nas críticas ao facto de Daniel Cardoso ser professor, de ataques à empresa onde ele trabalha. Não conhecem o conteúdo do trabalho dele, as capacidades que tem. Mas põem-lhe, só para botar mais um “post” (como, rastejantes ignorantes iletrados, chamam aos postais), em causa o emprego, até o direito ao trabalho. Eu não conheço o homem mas espero bem que a sua universidade saiba defendê-lo, saiba garantir a sua imagem pública afirmando a pertinência dos seus critérios de recrutamento. Apoiando-o. E menosprezando a torpeza desta mole de morcões ululantes.

Dentinho

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Conheci o Paulo Dentinho quando recém-chegados a Maputo, e logo ficámos amigos. Éramos jovens, ele recém-pai eu ainda não, ambos fascinados com o país magnífico, tão interessante e esperançoso, embrenhadíssimos no trabalho, ele correspondente da rtp e eu adido cultural, nisso muito cruzando opiniões e informações sobre o quanto se nos deparava, num constante convívio. Chegámos a viajar juntos no país, quando ele dinamizou a visita de um grupo de artistas encabeçados por Júlio Resende, uma magnífica aventura, e dor de cabeça logística na Ilha de Moçambique de então. Por vezes discordávamos sobre o seu trabalho (ele sempre teve a piedade de não criticar o meu), eu já armado (em) comendador a requerer-lhe uma espécie de “posição de Estado” dada a visibilidade da RTP(África) no país. E ele com uma perspectiva diferente – lembro-me de lhe contestar uma reportagem sobre os habitantes do jardim zoológico da Beira, gente que vivia no local e até nas jaulas, por causa da má recepção que havia tido em Maputo, as pessoas tinham-se sentido aviltadas. O Paulo dizia o contrário, e é evidente que tinha razão, pois tanto a vocação como a deontologia jornalísticas convocavam a reportagem, tão denotativa era aquela situação e não seria a “má impressão” que a RTP poderia colher que o iria fazer suspender o trabalho.

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Olivais nos anos 70

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Inaugura hoje na Casa de Cultura dos Olivais, Lisboa – à Rua Conselheiro Mariano de Carvalho, entre os Olivais Velhos e a Expo – e ficará até 27 de Outubro, esta exposição fotográfica do Sandro (João Alexandre Taborda). É uma memória única – que então fotografar era muito mais raro – da geração lisboeta, olivalense, dos anos 1970s e início dos 1980s, roupas, hábitos, personagens, artefactos usados, e a arquitectura vivida daquele bairro. Pura história cultural, se quiserem. Há dias em que custa estar longe …

Quando o Sandro morreu, há (já!?) um ano, deixei este breve postal – Driol (o grão-diminutivo que nos merecia). Se quiserem vão lê-lo mas, acima de tudo, olivalenses ou não, vão ver a exposição. Para saberem como foi …