José Nuno Martins e a Besta Negra

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José Nuno Martins chamou “besta negra” ao Jorge Andrade e caiu o Carmo e a Trindade. O Jorge Andrade, que eu saiba, não reagiu ao dichote mas já reconheceu que se havia “esticado”. Ele foi um extraordinário jogador, um magnífico defesa-central (muito prejudicado por lesões) e é um homem simpaticíssimo e muito bem-disposto. E “esticou-se” porque disse na tv que ao miúdo-maravilha que por ora desponta no Benfica ele “daria um pisão”, para o amansar em campo. Sejamos francos, é o que os gajos da bola fazem. E é o que os gajos da bola falam. Mas não em público, claro, que a compostura e o respeitinho são muito apreciados. Faltou ao Jorge Andrade mudar de registo (de “chip” diz-se agora), ali no estúdio da tv. E, francamente, para quem gosta de futebol, para além dos clubes, este miúdo, que dá pela graça de João Félix, é um regalo, o franzino reguila artista, o tipo de jogador que nós povo adoramos: guardem lá os “pisões” para outros morcões …

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O meu irmão

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(Postal para o Delito de Opinião)

(Patrícia Reis fala de violência doméstica e do femicídio.  E lembra-me uma história da minha meninice.)

Eu tenho 4 ou 5 anos, não sei bem, é cerca de 1969 mas não me acordaram ou acordarão para ver Armstrong dar o pequeno passo, e por isso já estou amuado com os meus pais e assim continuarei no próximo meio século. Estou doente, ouvi que tenho uma coisa no rim, pois aparece-me sangue no xixi, acho que há meses que não vou à escola, as minhas avós revezam-se a acompanhar-me, ainda que cá em casa haja várias empregadas (chamar-se-ão assim no futuro, quando eu entrar no liceu, que agora dizemos criadas) e ama. Se calhar não são meses, julgo que pensarei isso no futuro, mas agora tenho a certeza que estou doente há imenso tempo. Hoje é sexta-feira, e, como não posso ir brincar para a rua, estou na varanda deste rés-do-chão a ver os amigos ali mesmo defronte, numa rua como se pátio deste nossos Olivais, a Cabinda. As criadas estão comigo, atraídas pelo barulho, a gritaria. Pois um pouco abaixo, junto à rua, uma porteira está a ser espancada pelo marido, um bêbedo, dizem enquanto entre elas espreito. Ele bate-lhe, ela está no chão e grita. Às portas da mercearia, da farmácia, do café e às dos prédios está gente a ver o que se passa, e também às janelas das casas chegaram curiosos.

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Penélope

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Há algum (demasiado) tempo, tarde e péssimas horas, pus-me a escrever um texto profissional (“para quê?” logo me perguntou um sábio amigo). Arrastando essa maldita cruz jurei-me terminá-lo, ao calvário-texto inútil, em 18. Falhei rotundamente. E percebo que há tanto levo vida tal e qual aquela Penélope da história, desfazendo de noite o que teço de dia. Tão e tal e qual a dita rainha que me interrogo, serei eu gay? (Ok, amanhã eu apagarei o postal)

Os beijos dos mais-velhos

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1. Esta historieta que corre em Portugal lembra-nos, cá em casa, um episódio. Em Março de 2010 Sócrates visitou Moçambique. Em época tão avançada do seu poder só os Santos Silva, Vieira da Silva, Leitão Marques e quejandos, mais os seus propagandistas a la blog Jugular ou Eixo do Mal, secundados pela mole de aficionados deficientes cívicos, podiam ainda negar o quão corrupto e corruptor do país o energúmeno seguia, e o quão abjectos eram os apparatchiki, essa rede clientelar que hoje de novo tanto se (ka)move no poder.

Nessa ida a Maputo Sócrates, como é da praxe ali, visitou a Escola Portuguesa, onde estudava a minha filha, então com 7 anos. Lá enfileiraram as criancinhas para a recepção a Sua Excelência, como sempre se faz. Por coincidência o escroque avançou para o ror de petizes e pediu à nossa Carolina e à colega que a ladeava “dão-me um beijinho?“. Conta ela ainda hoje “eu lembrei-me do mal que dele dizias e tive medo“. Mas, claro, nos seus 7 anos não teve a autonomia para se esquivar, e creio que até sentiu a excitação do falso brilho do poder, pois “o nem tudo o que reluz é ouro” é algo que se aprende mais tarde.
À noite, em casa, irei-me ao saber da história. Quis ir à escola reclamar, escrever para o ministério, que direito tinha a equipa docente em expor a minha filha a tão pernicioso e indecente contacto.? “Não vale a pena”, foi a derrotada conclusão a que cheguei. Pois parte dos funcionários lambuza(va)m-se com o imundo, a outra tinha medo. Chamando-lhe respeito. Seria envolver, ainda que indirectamente, a minha filha no asco pelo governo e seus apoiantes. Semeando até, quiçá, antipatia entre o corpo docente.

Mas lá está, há que controlar os contactos físicos dos mais-velhos com as crianças, não as obrigar ao indesejado, ao temido, ao naturalmente repugnante.

2. O professor Daniel Cardoso que tantos nas redes sociais agora gozam e insultam não disse nada demais. Os pais medianamente informados e sensíveis educam os filhos a ser polidos – ou seja, pulem os filhos, adequam a sua autonomia a regras sociais. O professor, que tal como tantos outros colegas, bota Foucault a torto e a direito (pelo menos na tv) – não é nada de especial, no meu tempo era o Althusser, daqui a uma década será outro – esquece-se um bocado disso, que a “autonomia” desses monstros egocêntricos que são as crianças é burilada por nós, mais-velhos. Mas ao polirmos os filhos não devemos rasgar-lhes essa liberdade decisória.

E nisso da sua gestão dos beijos e outros contactos físicos com os mais-velhos, e os algo externos ao núcleo da família elementar. Quando fui criança era muito mais usual que gente da parentela ou amigos de pais ou avós nos beijassem, beliscassem as faces, acariciassem a cabeça. Coisas de carinho, sem a malícia que hoje em tudo se coloca, pela actual sobre-erotização da vida.

Tal como refere o professor educámos a nossa filha sem nunca a obrigar a beijar ou abraçar. Cumprimentar e agradecer sim, é uma regra. Contacto físico não, é uma decisão. E quantas vezes se recusou a beijar adultos, até próximos, por desconforto ou timidez (mas não por humores, por “birra”, que isso é coisa diferente e não aceitável). E no ambiente actual, em que a consciência educada é diferente das vigentes nas anteriores gerações, também as pessoas não impõem às crianças esse contacto. “Dás-me depois” ouvi tantas vezes dizer. A mim acontecia-me isso com as minhas sobrinhas-netas, eu chegado a Lisboa uma ou duas vezes por ano, gordo, encanecido, barbudo, fedor a tabaco entranhado. Elas beijavam a minha mulher, abraçavam a prima, não me beijavam. Viam o carinho de mana mais-velha que a sua avó me dava, o relativo apreço das suas mães para comigo, mas nem isso as convencia. E ficou como nosso código, ainda hoje aos quase 10 anos risonhamente jogam essa negação de me beijarem.

O que nós, pais, fazemos é induzir a extroversão, aquilo de que o corpo não é um cofre, combater os medos e a excessiva timidez: cuidado com as festinhas aos gatos que são erráticos, atenção aos cães, os quais se podem acariciar desde que os conheçamos, se se pode ou deve (no sentido de “ficar bem”, ser “gentil”) beijar fulano – e quantas vezes a minha pequenina filha me olhou indagando se devia ou não beijar alguém, esperando um aceno ou um encolher de ombros quase imperceptível, consoante o caso. Tal como, depois, mais crescidos, a questão tão portuguesa do tratamento, na segunda ou terceira pessoa (complicado código), onde a regra de oiro cá de casa foi “não tratas ninguém por tio, a não ser os tios mesmo …”, que não há paciência para estes patetas arrivistas de agora.

Ou seja, o professor não disse nada de errado. Como todos os de bom senso e educação percebem. Daniel Cardoso está a ser canibalizado por uma enxurrada de imbecis, mal-educados ainda por cima. Principalmente por razões sociológicas, pois o homem não é “Lisboa”, notório até nisso de ir à plateia do “Prós e Contras” para botar opinião, coisa mais “Preço Certo” do que “Quadratura do Círculo” na indústria de entretenimento. E os blasés não lhe perdoam o aparente berço, visível no sotaque, no léxico e na en-to-a-ção. Os blasés gostam da desenvoltura televisiva do Marques Lopes ou da Clara Ferreira Alves (“aqui no programa só nos enganámos numa coisa – 4 de nós 5 -, sempre acreditámos que havia uma campanha da direita contra Sócrates”, vi há dias a referida indivíduo, num trecho de youtube partilhado no facebook, sem mostrar qualquer vergonha e com toda a fluidez televisiva e sotaque lisboeta. E toda a gente acha elegante … a ninguém apetece lapidar este “avençadismo”), mas detestam berços diferentes, a não ser que sejam patuscos objectos etnográficos, “emplastros” risíveis.

E depois há as razões moralistas, moralistóides. O professor é um tipo sui generis (conversando entre amigos eu diria “uma ave rara”) e mostra-o. E depois? Não parece um forcado da Chamusca ou o terceira-linha do CDUL. E depois? Mostra que vive com várias mulheres. E depois? É um bocado piroso naquilo do “poliamoroso”? É, mas nem sequer é particularmente novidade (que tal a gente ler sobre os anos 60s? ou ouvir a música e ver os filmes?). E a quantidade de gente que tem vários casos, ou que vai aos “profissionais do sexo” (é a expressão agora correcta, mas eu recuso-me a abandonar o masculino universal, como os patetas actuais fazem)? Faz fotografia erótica? E depois? Não há tantos facebuqueiros que fotografam ocasos e lhes chamam “sunset“, há coisa mais indigente do que isso? Não há tantos luxuriosos que fotografam os camarões que comem, há menoridade estética maior do que essa?

Porquê este meu lençol, irritado? Porque me fartei de ver gente a botar coisas estúpidas sobre o homem, de gente obtusa. E perversa, uma perversão explicitada nas críticas ao facto de Daniel Cardoso ser professor, de ataques à empresa onde ele trabalha. Não conhecem o conteúdo do trabalho dele, as capacidades que tem. Mas põem-lhe, só para botar mais um “post” (como, rastejantes ignorantes iletrados, chamam aos postais), em causa o emprego, até o direito ao trabalho. Eu não conheço o homem mas espero bem que a sua universidade saiba defendê-lo, saiba garantir a sua imagem pública afirmando a pertinência dos seus critérios de recrutamento. Apoiando-o. E menosprezando a torpeza desta mole de morcões ululantes.

Dentinho

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Conheci o Paulo Dentinho quando recém-chegados a Maputo, e logo ficámos amigos. Éramos jovens, ele recém-pai eu ainda não, ambos fascinados com o país magnífico, tão interessante e esperançoso, embrenhadíssimos no trabalho, ele correspondente da rtp e eu adido cultural, nisso muito cruzando opiniões e informações sobre o quanto se nos deparava, num constante convívio. Chegámos a viajar juntos no país, quando ele dinamizou a visita de um grupo de artistas encabeçados por Júlio Resende, uma magnífica aventura, e dor de cabeça logística na Ilha de Moçambique de então. Por vezes discordávamos sobre o seu trabalho (ele sempre teve a piedade de não criticar o meu), eu já armado (em) comendador a requerer-lhe uma espécie de “posição de Estado” dada a visibilidade da RTP(África) no país. E ele com uma perspectiva diferente – lembro-me de lhe contestar uma reportagem sobre os habitantes do jardim zoológico da Beira, gente que vivia no local e até nas jaulas, por causa da má recepção que havia tido em Maputo, as pessoas tinham-se sentido aviltadas. O Paulo dizia o contrário, e é evidente que tinha razão, pois tanto a vocação como a deontologia jornalísticas convocavam a reportagem, tão denotativa era aquela situação e não seria a “má impressão” que a RTP poderia colher que o iria fazer suspender o trabalho.

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Olivais nos anos 70

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Inaugura hoje na Casa de Cultura dos Olivais, Lisboa – à Rua Conselheiro Mariano de Carvalho, entre os Olivais Velhos e a Expo – e ficará até 27 de Outubro, esta exposição fotográfica do Sandro (João Alexandre Taborda). É uma memória única – que então fotografar era muito mais raro – da geração lisboeta, olivalense, dos anos 1970s e início dos 1980s, roupas, hábitos, personagens, artefactos usados, e a arquitectura vivida daquele bairro. Pura história cultural, se quiserem. Há dias em que custa estar longe …

Quando o Sandro morreu, há (já!?) um ano, deixei este breve postal – Driol (o grão-diminutivo que nos merecia). Se quiserem vão lê-lo mas, acima de tudo, olivalenses ou não, vão ver a exposição. Para saberem como foi …

 

Sem ter esperado à porta do Lux

Varinas no Bairro Alto

(Rua da Atalaia, 105. Fotografia de Garcia Nunes, 1969 (AML). Encontrada no blog Lisboa de Antigamente)

A morte de Manuel Reis (ou “do Manel Reis”), acima de tudo pelas reacções que provocou, causou um eixo de resmungos interessantes pela sua origem intelectual. Um artigo no Público de João Miguel Tavares (“Nós, que esperámos à porta do Lux“), simpático com a pessoa mas adverso às reacções, é o mais sonante. Um postal no FB de Alberto Gonçalves e uma série de comentários até ácidos também no FB vindos de gente que escreve, e bem, em blogs, jornais e redes sociais, juntam-se-lhe. Grosso modo, o tom oscila entre o desdenhoso “nunca ouvira falar em tal homem” e a “análise sociológica” invectivando os “elitistas endinheirados” que agora louvam o falecido, ele próprio “elitista”. Não tenho eu o saber para arengar sobre as mutações culturais em Lisboa, e no país, nos últimos vinte anos de XX, nas quais o Manel Reis (ou “Manuel Reis”) foi “pivot” – mais “pivot” do que “protagonista”, tanto por personalidade como pelas características da sua intervenção. Mas interessam-me os implícitos dessas críticas/resmungos, dado o ambiente intelectual do qual provêm.

Desde logo são oriundos de gente que não é lisboeta. E que se depara(ou) com os tiques da capital. A “cagança”, como eu dizia em puto, e que vinte anos de emigração me levaram a chamar “blaseísmo”, um “ismo” que procura reconhecer uma (espécie de) ideologia de nacos da classe média lisboeta, em particular nos nichos das “indústrias culturais e educacionais” e em “quadros do funcionalismo público” com aquelas interligados. Pois viver fora deu-me para ainda mais lhes reconhecer os tiques, que os próprios lisboetas impercebem (e negam, se lhos digo): o aparente flanar, que nada flana, que de facto é gente arado, sulcando a “terra” que querem património; este ligeiro arrastar da voz e o encenado esvoaçar do olhar, ambos desfixando interlocutores; o másculo cumprimento “um abraço”, prenunciando vigorosas palmadas nas costas, mas que de facto nada mais é do que o adamado “não me toques”; a patética despedida “temos que ir almoçar” que, na realidade, soa “espero bem não te ver mais …”. E um sem-número de pequenos (e não tão pequenos) detalhes que mostram uma “sociedade” (uma cultura comportamental) de pequenos grupos solidários, tendencialmente enquistados, entre-demarcando-se em feroz compita por escassos recursos estatutários (e assim económicos). Coisa que os emigrantes tanto reconhecem quando (por) cá. Tal como, pelos vistos, também o reconhecem os não-lisboetas, tantas vezes ditos “provincianos”. De facto, trata-se de uma adversidade ao ideal de uma “sociedade aberta”, aquela que alguns (poucos?) sonham e pela qual alguns (ainda menos?) pugnam. Daí um mal-estar face ao “estado da arte” na “pequena Lisboa”, que sumarizo citando a grande antropóloga Mary Douglas: “This world we are in still longs for sincerity, and for simple and direct dealings between equals. It still rejects the outward forms of social distinction, and still finds that differences of power and wealth are as effective as barriers to direct communication as ever” (Natural Symbols, 1996, xii – o livro está mesmo aqui ao meu lado, apeteceu-me citá-lo).

Ok, será muito esse mal-estar que leva alguns  a resmungarem com as sentidas loas tecidas por estes lisboetas agora de  meia-idade ao homem que tanto mudou a paisagem cultural, e a maneira de estar e de aparentar estar na Lisboa pós-1980. Mas o engraçado são os implícitos ideológicos que mostram. Os locutores a que me refiro são todos abarcáveis pelas etiquetas “centro” ou “direita” ou “liberais”. E nesse sentido é relevante, e até surpreendente, perceber os implícitos que manuseiam. Por um lado, é óbvio um estatismo subliminar. O meu raciocínio é contra-factual, e assim é fácil de negar, mas é tão cristalino que a desvalorização de Manuel Reis (“do Manel Reis”) advém do facto ter sido um “empreendedor” (como agora se diz), dinamizador privado de locais e de actividades com efeitos estruturantes, e com dimensões mecenáticas. Se nesse âmbito tivesse, por absurdo que fosse para quem o conheceu, assumido funções estatais (por exemplo secretário de estado ou vereador da cultura), a sua menorização agora recorrente não surgiria. Mas o homem foi “apenas” um privado.

No mesmo âmbito, há um institucionalismo subliminar: tivesse ele fundado uma fundação, ou entrado numa outra existente, ou sido presidente de uma qualquer associação comercial (uma espécie de CIP ou CAP)? Tivesse sido vulto oficial da Europália ou da Lisboa Capital da Cultura, soturno administrador da Expo-98? Com toda a certeza que não o menorizariam tanto. Ou seja, se a então célebre “movida” madrilena (o “Madrid me mata”) patrocinada pelo município (o carismático Tierno Gálvan) tinha a “patine” estatal e institucional, assim “nacional”, a bem mais modesta lisboeta girou em torno de alguns “pivots”, nos quais sobressaiu o agora falecido Manel Reis. E isso, a estes críticos, e apesar deles-próprios, retira-lhe brilho.

Em segundo lugar, há um pungente e surpreendente (pobre)marxismo, uma vulgata classista resumida no “ricos” vs “pobres”. As imprecações contra os “endinheirados” “lisboetas”, “elitistas” (aqueles que não esperavam à porta do Frágil ou do Lux) que agora lamentam a morte do seu “guru” ou “xamã” não colhe com a realidade de então. Que um jovem caloiro recém-chegado a Lisboa em 1985 ou 1990 desabafasse isso, impedido de entrar num pequeno bar-discoteca, porque desconhecido da casa, tinha todo o cabimento. Que um intelectual o repita em 2018 é uma patetice. Pois é uma profunda ignorância, e não só do que aconteceu na altura. Pois é também uma recusa da análise sociológica, do que era o Portugal de então. Uma sociedade pobre, causticada pelas obrigações impostas pelo FMI (simbolizado por Ernâni Lopes, então demonizado pela esquerda como o foi agora Vítor Gaspar, e que tantos elogios colheu aquando da sua recente morte, o que nos deveria fazer pensar um bocado sobre o governo de PPC). Uma sociedade muito piramidal – o Frágil abriu apenas 8 anos depois do 25 de Abril e quatro anos antes da enxurrada de fundos com a entrada na CEE. E muito estratificada. Era, sim, uma sociedade de privilégios (e de imensos desprivilégios). Quem frequentou aquele Bairro Alto renovado, e uns anos depois desceu para perto do rio (o “Plateau”, o “Metalúrgica”, o “Bar do Rio”, etc.) não era uma elite económica e cultural, os “endinheirados” “elitistas”. Eram os filhos da “pequena-burguesia” (a classe média “média”, como agora se dirá). Gente dos subúrbios, como nós dos Olivais, ou os de Benfica, ou os filhos do funcionalismo público das Avenidas Novas, etc. E, logo a seguir, ainda nos 80s, a malta que vinha, para nosso espanto, da “outra banda”. Era uma sociedade piramidal, ainda não tinha havido a massificação escolar, quem andava por lá pertenceria à franja dos universitários ou, pelo menos, dos que acabavam o liceu, gente das artes e da imprensa ou que a isso aspirava – ou seja, estudantes e gente dos ofícios. Mas esse universo não era o dos “endinheirados”, os “ricos”, os “privilegiados”. E, muito menos, a “elite”. Ainda que muitos a quisessem integrar, sonho em todas as gerações, e que alguns muito tenham feito por isso. Seria sim, quanto muito, e grosso modo, o dos “remediados”. A tal “classe média”, contra a qual não se usam agora similares impropérios, e tão melhor vive ela agora do que no dealbar dos 1980s.

Em terceiro lugar, estes resmungos mostram um desprezo pela história social, e das práticas culturais. A foto acima mostra a célebre Rua da Atalaia em 1969. O Bairro Alto que eu conheci em 1982 foi o da Tasca Azul (o nome oficial era “Arroz Doce”), defronte ao Frágil e propriedade da “Tia” Alice, irmã do Alfredo, o célebre guardião do Frágil (e depois do Lux), um camionista insone que fazia os turnos da noite defronte à porta e guiava de dia. A Tasca Azul que conheci era ainda aquela em que nos sentávamos a beber bebidas escabrosas, vínhamos cá fumar cigarros também escabrosos, e onde, naquela bruma, víamos as mulheres dali, velhas (para nós), gastas, de anca larga, deixar as malas na arca “frigorifica” quando os homens dali as vinham buscar. Para depois voltarem. Abrir ali um bar novo, diferente, exigia mudar o ambiente, escolher o universo da clientela. O que encetou a “gentrificação” (como se diz agora) da actividade comercial do bairro – então hiper-decadente (a qual, uma década depois, se repopularizou, em outros moldes, de anárquica venda de álcool diante da complacência inerte do município). Promovendo uma enorme mudança naquele bairro, na forma como os lisboetas (e vizinhos) olhavam e viviam o(s) bairro(s) histórico(s). Uma década antes da Europália, ainda mais antes da “Capital Europeia da Cultura”. E, também, nos tais apenas 8 anos depois do 25 de Abril, do fim do “Deus, Pátria, Autoridade”, nas formas como os lisboetas se comportavam, na festa, no namoro, nas cumplicidades, na convivência. Até na “conspiração”, então já a dos famigerados “projectos”, na elaboração dos “conceitos” (quem é que não tinha, no final dos anos 1980s, um “conceito” próprio para desenvolver?um irritante jargão a esconder o cinzento vácuo e a embrulhar a saudável ambição). No ser e, fundamentalmente, no aparentar ser, essa coisa tão importante. E isso foi uma “revolução” – porque, por mais que os intelectuais portugueses deste XXI queiram, as “revoluções” não são apenas as tomadas do “Palácio de Inverno” ou as decapitações das “Marias Antonietas”.

Ok, um tipo quando fala do que viveu com prazer, mesmo que eu fosse apenas um puto anónimo (e muito desajeitado), que teve a sorte de ter uns belos amigos lá nos Olivais, que abriam portas dado o seu brilho público de então (alguns mantiveram-no, outros têm-no entre nós), tem a tendência para dulcificar o ido. Até para o saudosismo. Mas não virá grande mal ao mundo.

Agora grande mal a este mundo vem quando os intelectuais. felizmente libertos da cartilha (pós)marxista dominante, surgem, até inconscientemente, brandindo os nada liberais ressentimentos regionalistas, o estatismo e o institucionalismo, a refutação da análise sociológica, os contributos da história social e cultural, esta que tantos mitos desmonta. E nisso se deixam pensar sob os (transviados) laivos do velho humanismo, isso de um mundo de “ricos” vs. “pobres”. Esses condimentos metidos no mesmo caldeirão dão para um manjar que teve um nome no pantagruel político: fascismo.

Conviria que, lá porque não se entrou no Frágil (ou no Lux, no caso dos mais-novos), não se pensasse tão mal.

Algumas das canções da minha vida

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(Postal no Delito de Opinião)

O Pedro Correia elencou algumas canções da sua vida, na sequência da bela série que vem colocando no Delito de Opinião. E desafia-nos a colocar (algumas d)as nossas. No seu sumário ele meteu 12. Eu, acorrendo a responder, selecciono de rajada as que me são mais óbvias. Obrigo-me a ficar por estas 18. Não é a lista das “melhores canções”, é um rol de canções que me fizeram. E à minha vida. E espero que a minha filha Carolina se saiba reconhecer aqui. Tal como à sua mãe. E que algumas outras pessoas, se por cá passarem, também possam reconhecer-nos.

 

Hawking

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O blaseísmo é a pior infecção nacional. E não há antibiótico que lhe chegue.

Filho de engenheiro fui ofertado de livros infanto-juvenis de sensibilização para as “ciências naturais” e para as tecnologias. E tive a casa sempre cheia de livros de divulgação científica e de história das ciências, edições francesas as mais antigas, traduções nacionais depois (em particular após a explosão da Gradiva). Entre muitos outros li, em pós-puto, cada um à sua maneira, Reeves, Sagan, Jastrow. Estuporado por um sistema de ensino medíocre (e corporativo, já agora) fui arrancado à matemática e adjacentes com 14 anos (e os especialistas passeiam-se por aí, sem serem lapidados na rua). Quando chegou a “Breve História do Tempo” de Hawking li e, como tantos dos (bocados dos) outros livros do “género”, não percebi. Muito por impaciência, desinteligente, presumo. E muito por me faltarem os instrumentos. Ficou-me a imagem do autor (que homem!) e a memória do impacto do livro. E, muito mais do que isso, ficou-me a ideia (já a tinha, e continuei a comprová-la depois) de que há coisas que têm que me ser explicadas, que não chego lá nem sozinho nem pela leitura. Como qualquer de nós, vulgaríssimo de Lineu, respeitando (idólatra ateu) os que algo mais têm.

Hawking morreu agora. Leio que se dedicava a alguns tópicos surpreendentes: à análise de como levar a selecção inglesa de futebol ao título mundial (uma impossibilidade cosmológica) e de como marcar penaltis com sucesso (uma deriva jocosa? ou uma costela de alquimista a la Newton?). E, ainda mais surpreendente para mim, que reflectia ele sobre o pré-Big Bang: pois eu julgava que a reflexão actual se detinha no intervalo 1 elevado a -37 ao 1 elevado a -42 de segundo após o estouro-mor (se calhar estou errado nos números, mas ideia geral é esta), que o antes disso se remetia para uma metafísica. Ou seja, não só não percebi o velho livro como não sei o até onde a astrofísica ou cosmologia andam a fazer. Tenho assim, cinquentão, uma boçal noção sobre a ciência actual e a imagem do universo que constitui. Isso não me impediu de sentir a morte do enorme intelectual (ok, ok, deve-se dizer “cientista”) e do tão peculiar homem: um ícone.

Ao que leio, em tanta gente botando nas redes sociais, “parece mal” referir o assunto, porque lamentar/assinalar a morte de Hawking é como se reclamar a compreensão do seu trabalho e implicações. Exprimir um “luto” neste caso é um “armar aos cucos”, como antes se dizia. É engraçado, pois quando morre uma actriz, daquelas celebrizadas pelo voluptuoso com que se apresentavam em jovens, muitos (e até muitas) daqueles que vão incapazes de colaborar num orgasmo feminino surgem a lamentar o facto. Se vai um actor “sério” gente incapaz de falar em público condói-se. Se se morre um grande maestro ou uma qualquer Lady Gaga, nós-gente incapaz de ler uma pauta ou de soltar um trinado, assinalamos a perda . Etc. E em nenhum destes casos há a acusação de nos estarmos “a armar”. Podemos respeitar, idolatrar até, sem que nos seja exigido perceber o conteúdo e as implicações do trabalho alheio, o “como”, “para quê” e, acima de tudo, “até onde” desses trabalhos alheios.

Mas agora, porque é “ciência”, coisa “profunda” e até mais “digna”, saem à rua os “blaseístas” a gozarem com a admiração que nós-vulgares temos. Não tanto porque eles “percebem”. Mas acima de tudo porque assim querem dizer que têm o estatuto firmado, reconhecido, “não se armam aos cucos”, pois disso não precisam. Entenda-se bem, o “cagão”, o “armado aos cucos” é o blasé. A ignorância, estatutariamente interesseira e, afinal, nada entediada, é este blaseísmo. Tão, mas tão, lisboeta. E não há antibiótico que lhe chegue. Como titulava o escritor, “não se pode exterminá-los”.

O secretário-geral do PSD

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A casa nem é pequena, e sobram-me as divisões pois eu aqui sozinho num a caminho de solitário. Ainda assim rearrumo-a, reordenando-a em modo (até desesperado) de me reordenar. Implica isso deixar sair mobílias dos meus predecessores, progenitores, meus e deles, assim qual ecdise, e tantas loiças, estas em notório e definitivo desuso, por ausência de quem delas se saiba servir. E todo este bric-a-brac, para além da imensa tralha que as décadas fizeram acumular, tanta dela morta por desaparecidos os detentores dos segredos que lhe dava um qualquer sentido, mínimo que fosse. E, mais do que tudo, metros e metros cúbicos de papel. Há décadas Eco gozou com a ilusão, doentia, de acumular fotocópias como se isso equivalesse a adquirir o conhecimento que continham. E sofri eu dessa miragem, mania mesmo. Partidos já foram caixotes de lixo delas carregados, e de dezenas de malvados dossiers, de armações enferrujadas e capas amarrotadas. Nisso nada tendo perdido pois, ainda que descreia que voltarei a leccionar, desadequado que fiquei, tudo o que larguei fi-lo após o ter gravado na internet, naquilo do “download pdf”, um talvez patético, ou nem mesmo talvez, “nunca se sabe…”. E há os livros. Aos meus, do Abeles ao Zumthor, neste 18 ainda os pouparei, ainda que tantos deles também ali à merce do “clic” “download”. Mas hesito nas estantes de literatura pois, ainda que Borges tenha avisado que após os 50 um tipo só deve reler, há por aqui tanta coisa que larguei sem mesmo terminar, tanto livro “imprescindível”, tanta “revelação”, afinal só meus erros de “casting”, aliás erros de “bookcasing”, que talvez esteja no momento de os fazer partir. E há os livros velhos, os dos antepassados, tantos deles apartados dos meus interesses e desta época, que fazer das estantes dos ensaios, mais ou menos apocalípticos ou regeneradores, da editorial Estampa e similares, pré e pós-25 de Abril, tiragens vultuosas a cujos remanescentes a minha geração não sabe o que fazer? Ou às divulgações científicas de quando se encetava a “cibernética”? E os mais antigos, que destino dar aos missais de XIX, às esfareladas edições também oitocentistas das obras (completas?) de Camilo, Garrett, Herculano, Dinis, e outros tão mais obscuros,  já para não falar das estantes preenchidas de “preciosidades”, disseram-nas em tempos idos, como as obras completas do cardeal Saraiva ou o Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal, e tanta outras coisas da “construção da nação” daquele então, nada disto encadernado, com letras doiradas de preferência, pois livros que foram de uso, lidos e consultados, assim nada interessantes para aqueles, já poucos, que ainda julgam produzir estatuto na posse de livros velhos adornados de antigos? Mais fácil, porventura preconceito meu, é o enfrentar as estantes e gavetas de revistas, colecções desirmanadas. Pois preservarei até à morte a minha completa do “Tintin” e o legado recebido das (incompletíssimas) “Papagaio” e “Mosquito”. Mas as restantes, literárias com vultos que não vieram a ser, económicas cheias de ciclos concluídos, de relações internacionais desacontecidas, de artes obscuras ou viagens afinal nada aventureiras, a tudo isso digo adeus. Com pena, mágoa até, não pelo papel que assim parte mas pela ausência de quem as comprou. Leu e guardou. Por isso, só por isso, antes de as empilhar folheio-as. Por vezes procurando adivinhar o que terá realmente interessado. Outras atentando nos sublinhados e, até, nas de tempos mais-recentes, nos post-it afixados.

Hoje deparo-me com alguns exemplares desta Mealibra, a qual desconhecia, revista do centro cultural do Alto Minho, publicada quando vivia eu em Moçambique. Num dos números, de 2008, um painel vasto e apetitoso de colaboradores, logo à partida Llansol (trechos inéditos) e João Barrento, e por aí adiante. Lá mais para a frente apanho uma crónica de Onésimo (Teotónio Almeida) e vou logo ler, que dele abundam pérolas, e procuro nada perder. Começa logo assim “Não “armar” deve ser a regra número um de qualquer texto na primeira pessoa. A segunda deve ser algo como “se armares, que seja em bombo da festa.”. Rio-me, do certeiro que o “ó Nézimo” sempre vem, naquela sua ironia bem-disposta. Iluminadora, para não dizer iluminista. E, sabe-se lá porquê, lembro-me do novo secretário-geral do PSD (ainda o é?).

Depois arrumo as revistas. Não é desta que as deitarei fora. Pois, afinal, ainda tão actuais.