Natal

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A ala Cancionite que polui a sociedade portuguesa abomina o amplexo CM (pois este, qual mastim, abocanhou o Sócrates, esse mesmo de quem a dita ala tanto gost[ou]a, em formato original ou sob mero avatar). Só por isso é-me o tal CM algo simpático, ainda que nunca o veja. Ou leia.

Dito isto, o meu jantar de ontem foi frugal, a sopa de legumes, uma singela posta de bacalhau com uma farripa de couves e uma batata cozida. Uma parca fatia de bolo-rei. Meio copo de vinho. Já na hora da ceia, em casa, uma colher de chá de lampreia de ovos e um dedal de uísque (um “rótulo preto” que uma querida amiga teve a caridade de me ofertar). Dormi bem e o suficiente. O mata-bicho foi torrada com manteiga, debruada com uma fina camada de ovo mexido, e um bom chá preto. Chego assim àquela hora do almoço o impecável que esta era etária me permite, sem azia, ressaca ou modorra. E até contaminado pela alegria que os familiares exsudam. Sem excesso de acedia ou ponta de ira. Ainda assim dou graças ao deus que a mole circundante comemora, no seu formato filial, ao encontrar aberto o estabelecimento “Ali”, onde os quatro empregados, decerto que infiéis e porventura indocumentados (como sói dizer-se), se afadigam a servir clientes solitários (ou sozinhos, vá-se lá saber …). Simpáticos, disponibilizam-se para me servir o par de bicas de que estou, apesar do já aludido bom “estado da arte”, necessitado. Sento-me a bebê-las na marquise a que chamam esplanada, decerto que feita à revelia de uma qualquer postura camarária. Na qual pontifica a CMTV, como é actualmente mandatório nos estabelecimentos de “restauração”, como é também agora curial referi-los.

Enquanto bebo o primeiro café e depois o segundo a televisão ali transmite a notícia de um atropelamento em Moscovo, 5 mortos e vários feridos numa escada do metropolitano. Distraio-me a acompanhar a notícia – o incidente (atentado?) foi filmado por câmaras de vigilância. A CM TV transmite, vejo ali no “Ali”, incessantemente as imagens do autocarro a descer umas escadas e a atropelar pessoas – fazendo-as literalmente desaparecer. Uma vez, segunda vez, terceira vez, quarta vez, etc … até eu acabar os cafés. Eu não me venho com uma merda destas (sim, é dia de Natal, um tipo não deve falar do pecaminoso onanismo, nem o próprio nem o alheio) e, como tal, levanto-me e vou fumar um cigarro para fora da marquise, perdão, da esplanada. A lamentar, mas com muito desprezo, a pobre gente que precisa disto para expelir fluídos.

Depois meto-me no carro, na via para norte do Tejo. Vou já Haddock. Podem os trastes que padecem de Cancionite (e tantos que propositadamente tatuaram essa maldita maleita) não gostar do amplexo CM. Mas isso não me impede de também o desprezar. Imenso. Acalmo no tabuleiro da ponte vermelha – a lembrar-me que é natal, é desaconselhável falar de política entre a família. Que ainda azedam as azevias e avinagra o vinho. E venho aqui ao blog. Serei assim melhor conviva para o repasto que se segue. E manter-me-ei frugal. Por causa dos tais efeitos colaterais, aquele da acedia, o outro da ira.

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Zé Pedro, Homem do Leme

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(É um postal escrito para o És a Nossa Fé, blog sportinguista).

Ontem ao meio da tarde vou ao café de sempre, aqui no bairro. Dois amigos, daqueles daquele antes, logo me chamam à mesa. O Paulo Morisson, que no início dos 80s andou anos com os Xutos por todo o país, diz-me que têm uma má notícia, e logo ma dá, isto de que “o Zé Pedro morreu”. Surpreendo-me, que no último ano tenho estado encerrado em mim, lá num algures longe, e estive agora um mês e meio em Moçambique, voltei a semana passada, não soube sequer do espectáculo do Coliseu (ao qual teria ido, de certeza). Abato, ali na mesa do café. Não só como quando morrem os meus parcos ícones, o Lou Reed e talvez mais nenhum, a deixarem-me (ainda mais) sozinho. Mas porque agora tem sido uma revoada de mortos próximos, gente querida, conhecida, amigos, e há tão pouco ainda o João, meu irmão de pai e mãe diferentes, que não há maneira de parar de o chorar, (es)corram ou não os uísques. E também porque o Zé Pedro se ícone era próximo, aqui dos Olivais (ainda que do Norte), do Bairro Alto dos 1980s. Assim ele não divino mas herói, semi-divino, pois meio-homem, encontrável. E, mais do que tudo, terráqueo porque Zé Pedro é Xutos, aquele intangível afinal tangível que ecoou o “esse frio surdo / … que te envolve …”, que ouviu “berras às bestas / que te envolvem” e soube que “todas as tuas explosões / redundam em silêncio” avisando que “a vida é sempre a perder“, porque “nunca dei um passo que fosse o correcto / nunca fiz nada que batesse certo“. Estou agora, já velho, a cumprir um texto, um meneio serôdio, nele meti um capítulo – que me dizem para cortar, que desajustado, mas não posso, que perderei todo o sentido – de propósito para me narrar/justificar numa almadia atascada no Zambeze, entre crocodilos, a trautear “e mais que uma onda, mais que uma maré / tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé / mas, vogando à vontade, rompendo a saudade / vai quem já nada teme, vai o homem do leme“, o mais que se foda! que já me assomou na vida, e muitos, tantos, já foram. Por tudo isso, abato, frágil, velho, ali na mesa do café, este mesmo de onde o Driol partiu há semanas, e exactamente do mesmo, e a isto já o disse. O Paulo, e é natural que o faça, comovido que está, arranca com umas memórias do início do on the road dos Xutos. O Chico recebe notas no telemóvel, a notícia já é pública. Eu ouço um pouco e depois saio, até casa. A lembrar que puto de liceu vi Xutos com os Minas e Armadilhas. E também, um pouco, pois já nem sei bem com que amiga estava, o 1º de Agosto no Rock Rendez-Vous, mas também é certo que me lembro muito pouco de tudo o que passei no RRV, por razões que são mais que óbvias, mas ainda tenho, um pouco ainda, a memória do sentir “É amanhã dia um de Agosto / E tudo em mim, é um fogo posto / Sacola às costas, cantante na mão / Enterro os pés no calor do chão / E há tanto sol pelo caminho / Que sendo um, não me sinto sózinho“. E tantos outros concertos, em Lisboa ou pelo país, até mesmo quando amigos me quiseram, mesmo sendo o puto que eu era, “road manager” – sem imaginarmos então que eu viria mesmo a ser, anos depois, um road manager em versão “mordomo” -, a apanhá-los num qualquer entroncamento ribatejano. E mais tarde, bem mais tarde, em Maputo, eu num abismo laboral, devido aos dementes lisboetas, mas feliz, feliz, pois no meio do desarranjo haviam enviado os Xutos – e no fim do espectáculo na Feira Popular, eu e o peculiar e vistoso Hernâni na primeira fila em X, como então se fazia, entro no camarim e o Kalu “estes gajos não gostam de rock?!“, que o silêncio e a apatia haviam sido gerais, e eu a mentir, a dizer que ali era assim, mas claro que tudo era incompreensível para aquele público e o ZP no sorriso “vi-te na primeira fila“, e eu claro que sim, pois seríamos apenas meia dúzia entre milhares a verdadeiramente ser “Xutos”, naquele rock n’roll. Conheceramo-nos, mesmo, antes, ali numa massada de peixe no Mercado do Peixe, a Isabel Ramos ofertara o peixe, eu as bebidas, o Vitorino cozinhara, a delegação musical, enorme, e os convidados comeram. E acabáramos numa festa em casa da Nice, a Princesa de Pemba, porventura a mulher mais bela que eu conheci, que o Andrea andava pelas Etiópias, feita de propósito para os visitantes. E eu, só ali, abancados a conversar, a perceber que o sorriso do Zé Pedro não era matreiro, era mesmo sorriso. E saltei, para há dois anos, no Sol da Caparica, eu e a minha Carolina, princesa da minha vida, aos 13 anos, juntos aos 30 000 em X e ela, desiludida (repito, aos 13!), “pai, eles não tocaram a Maria”, já ela, também, percebi, vinda do Maputo-Bruxelas, X.

Um postal destes num blog sportinguista, sobre clubes (e futebol)? Porque o Zé Pedro era do Benfica. Como o Kalu (seu companheiro, amigo, mano, camarada), diz, era do Porto, ele fez-se do Benfica, para o picar. Há muitos anos escrevi uma coisa sobre isso. Porque, de facto, os clubes são para isto, o clubismo é para isto. Só para isto, para nos picarmos fazendo-nos manos. E é por isso, até por isto, até por este só isto, mero futebol, que o Zé Pedro é o Homem do Leme. E mal vai quem não o percebe. E não o sente. Ao X.

As crendices

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(texto longo, a exorcizar a irritação):

Vou-me casar. Depois de amanhã. Apanho o avião, de Maputo para Lisboa, tão perto da cerimónia que até causei algum “frisson” nos meus mais próximos, até no geral dos convidados, naquilo do “se no caminho acontece alguma coisa…”, um qualquer algo que possa prejudicar a cerimónia. A minha noiva, a mulher da minha vida, por quem estou apaixonado, apesar desta idade que já me ocorre, veio à frente, há já quatro dias, para ultimar preparativos.

Entro no avião e constato que o acaso me senta ao lado de um conhecido. Jurista, antigo cooperante na Universidade Eduardo Mondlane, agora visita recorrente em Maputo, e com o qual já organizei sessões comuns, palestras e até sessões de apresentação de uma revista que ele coordena. Um tipo refinado, daqueles que percebi acima da mole que o Estado partidarizado costuma catapultar. Sorri-me, saúda e saudamos a coincidência, que nos faz juntos nesta noite de cruzarmos tamanha distância.

Bagagens arrumadas, preparativos terminados, cintos apertados, livros e revistas nos bolsos dianteiros, o avião parte. Conversamos, pergunta-me sobre a sempre complexa situação política moçambicana, de qual a minha opinião sobre o propalado “potencial económico” do país, acerca das competências e incompetências da política europeia, a célebre “ajuda”. Claro que abordamos a situação da dita “comunidade” portuguesa, tão aumentada nestes últimos anos. Fiel ao meu percurso inflicto para algumas recentes mutações nas artes visuais e até na literatura do país, procurando alertá-lo para vultos diversos dos já sacralizados.

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Driol

bolamas
Estes eram (alguns dos) putos da Bolama, nos finais de 1970s, aqui fotografados nas célebres “escadas dos Pachecos”. A vida apartou alguns mas os outros ficámos manos. Logo nessa época a morte levou-nos o Nuno, tão lindo. E agora, neste 17, décadas passadas, regressou, a malvada. Inesperada, a arrancar-nos o (para nós sempre “puto”) João, assim deixando uma chaga que os meses não saram. E ontem, já esperada, pois ele muito doente há bastante tempo, que tão resistente foi, o Driol.
O Sandro era da “geração acima”, 4-5 anos mais velho. Por isso então a seita dele era outra, esses que a gente conhecia de vista e nome, cobiçando-lhes as motos e as maravilhosas namoradas. Ou pelos irmãos mais novos. Mas, vizinho, também acampava por vezes, e, mais tarde, já nós mais crescidos, ainda mais, já ombreando.
O Drinô (como alguém graffitou em fugaz era de influência do “glamour rock”) era um dos tipos mais idiossincráticos que havia – e tantas décadas passadas ainda dele tenho imensos fogachos: o espeta de moto nas traseiras da minha casa, a que acudi dado o barulho; a dicção peculiar; aquela tão sua casquinada; e, depois, mais tarde, o apreço pela BD; a generosidade da partilha, ainda que muito cuidada, ponderada; o chamar-me, e era o único nisso, Zezélio; e, talvez mais do que tudo, um verdadeiro espanto com coisas do real que, por vezes, eu, jovem boçal, julguei candura mas que era, mesmo, curiosidade e entusiasmo.
Mas o que muito marcou a imagem pública do Driol foi o ter ele sido o fotógrafo “oficial” daquela nossa geração: raros eram os que tinham máquina, ainda menos os que tinham dinheiro para rolos e revelações, apenas dois ou três os que tinham o gosto, mas só ele trazia a tiracolo a paixão de fotografar. Mas na foto acima ele estava do lado de lá, entre – não me recordo quem a tirou, talvez o Vilão, talvez o Pampan.
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[Rua Vila de Fulacunda, Olivais-Sul. Fotografia de João Alexandre Taborda]
E fez um arquivo lindo sobre aquela época de “dias gloriosos”. Nesta foto estava a fotografar os irmãos mais novos da sua geração, os finais dos anos 70s, os putos a descerem (descermos) as ruas nos carrinhos de rolamentos. Em tantas outras tem os outros, as andanças de nós mais-velhos. Voltar ao acervo do Driol é uma delícia, cada um encontra-se e aos seus queridos de então, na beleza da memória. Certo, há uma “patine” afectiva que nos convoca. Mas há outro registo, bem mais alargado, há muito mais nesse legado do Driol. Encontra-se a memória da paisagem urbana como foi: as vestes, os tiques, os penteados, as poses – e quão cinéfilo tudo parece, ainda para mais naquele preto-e-branco. As ruas, os carros, as motos, a arquitectura então tão nova.  Mas é ainda mais do que essa memória social. Pois o Driol teve um olhar, amador mas muito cuidado,  e tão jovem sobre a sua geração naquele tão especial bairro. E assim nessa sua colecção o que nós encontramos não é o retrato daquela geração. É mesmo um auto-retrato, a voz própria de uma “malta”, esses que nos sonhámos “heróicos” naqueles confusos tempos do pós-pós-Abril. E, se calhar, fomos.

A Falange na Catalunha

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O meu pai nasceu em 1923 e morreu já nesta década. Faz-me falta. Claro que não só por isso mas também, e muito, pelos infindáveis (e inacabados) debates, encetados na minha adolescência. Comunista ferrenho, viperino em matérias políticas (em questões pessoais era uma jóia), irónico, sarcástico. Auto-irónico: no hospital, muito enfraquecido, eu ao fundo da cama, a seu lado a neta Patricia, um dos seus grandes amores, disse-lhe “Avô, hoje estás mais rosado” (e de facto estava menos translúcido). E ele murmurou, quase inaudível: “Rosa por fora, mas vermelho por dentro“. Morreu umas horas depois. Foi com este camarada Pimentel que aprendi a debater, a ficar desarmado mas não convencido. E que há áreas que não vale a pena discutir. E que só são aceitáveis naqueles que têm a tal auto-ironia, essa que é, de facto, a única forma de relativismo intelectualmente digna, pois delineando os limites da crença / dos princípios, sem dela/deles abdicar.

De duas das suas formulações muito me lembro. Até irado com a sua abjecção aos “dissidentes” remeti-lhe um “Se vivesses na URSS tinhas sido fuzilado” e ele, de imediato, “Com toda a certeza!“. Uma outra vez, desesperei, de novo, com a sua filiação à horrível distopia. E ele, calmo, “tu esqueces-te que eu cresci durante a guerra de Espanha” (e depois na II GM, aquela do “paizinho dos povos”, convém juntar). Lembrei-me disto (e dele) ao ler agora mesmo, no Facebook, um intelectual renomado, presumível tardo-sexagenário, botando “Viva a Catalunha livre do franquismo do governo de Espanha“. Se o camarada Pimentel fosse vivo eu contar-lhe-ia esta tirada (entre outras) e ele, ateu anti-clerical ainda para mais, abanaria a cabeça naquele seu vagar de sarcasmo diante da inconsciência alheia e exclamaria “Meu Deus!“. E beberíamos um cálice de genebra. Ou de rum.

As Praxes

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Todos os santos anos, nesta época pós-balnear, surgem os protestos contra as praxes, esse boçalismo a céu aberto que vem moldando o devir nacional. Em tempos bloguei a minha praxe, nos inícios dos 1980s. No primeiro dia de aulas eu e o meu querido amigo Tiago chegámos à Fac. de Direito, onde os caloiros estavam a ser recebidos. Apenas a porta central estava aberta, as mais laterais guardadas por “porteiros” praxadores; os neófitos subiam a uma mesa posta na entrada, eram apupados, e depois percorriam o longo átrio entre duas alas, levando uns leves calduços, sendo algo pintalgados ou amputados de madeixas. O gáudio ululante era geral. De facto não era nada demais, uma mera brincadeira, uma “recepção” até na coreografia, sem indignidades. Ainda assim eu e o Tiago entreolhámos-nos num “quem é que estes caralhos julgam que são para praxarem uns gajos dos Olivais?”, fomos a uma das portas mesmo ao lado, o “porteiro” hesitou, nós empertigados, eu terei arqueado a sobrancelha num “não me lixes, ó keke”, o Tiago mandou-lhe um “ó chavalo, desvia-te lá”, e logo entrámos, quais verdadeiros finalistas, e fomos lá para o fundo do átrio desprezar aquela cena parva.

Os tempos eram muito diferentes e nem tudo era bom: não havia taco, tamanha a crise que “Vitor Gaspar” se dizia “Ernani Lopes”, o FMI administrava e o Zé Mario Branco protestava, os liceus haviam quase-implodido, a religião dominante era a kaya e começara a vaga do “cavalo”. E Lisboa era provinciana, apertada entre o Jamaica/Tokyo e o “Arroz Doce” (“tasca azul”, como devia ser). Mas, ainda assim, nós éramos os “filhos da revolução”. Acontece que o tempo passou e os pais dos universitários de hoje foram os “filhos do João Baião”. Está-se à espera de quê desta gente?

Armando Trigo de Abreu

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Aos meus exemplares de três números desta Revista Trimestral de Histórias & Ideias (publicados em 1978 e 1979, na editora Afrontamento) comprei-os em 1984, durante a licenciatura. Dois deles ainda têm a tarja dos preços, 130 escudos o número simples, 150 escudos o número duplo (nº 3/4), e a lápis o preço de venda real, 50$ cada. Demoro-me nestes detalhes para lembrar que já então a revista fora descontinuada, nunca soube se por dificuldades económicas se por outros afazeres dos seus directores, Artur J. Castro Neves e Armando Trigo de Abreu, e se destinava a saldos ou alfarrabistas. É óbvio que eu não tinha então, nem tenho hoje, um verdadeiro conhecimento do panorama intelectual e editorial dos anos da sua publicação, decorrida durante a minha puberdade. Mas logo que as comprei, nos meus 19 anos, fiquei com a ideia que aquilo era muito “à frente” do que seria corrente. A revista era excelente, uma verdadeira mina intelectual, discutindo as temáticas do desenvolvimento num registo alheio às ortodoxias vigorosas de então, tanto a marxista estrita como a matizada social-democrata, pois mesclando as contribuições. E muito actualizada face ao que “lá fora” surgia.

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A papaia de(sde) há 3 anos, digo hoje

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Há exactamente três anos, cumprem-se hoje, mais ou menos a esta hora depois de jantar, parti de vez de Moçambique, depois de 18 anos. Botei isto antes de sair no blog ma-schamba, onde escrevia então. Às vezes, só às vezes, nada saudosista, lembro-me da maldita papaia. Porque ainda não a consegui engolir. Um dia destes tenho que me fazer operar, a ver se algum cirurgião a consegue arrancar.

A papaia (8.9.14)

Almoço no Marítimo, com casal amigo, a Carolina encontra amigas, é nosso último Índico, hoje particularmente revolto, “os espíritos zangam-se com a minha partida“, brinca este ateu. No telemóvel vejo que no facebook um leitor daqui (um tipo insensível? insensato? ou só inexperiente da vida?) me pergunta qualquer coisa como “como se sente ao partir de onde foi feliz?“.

Sorrio, já com o Jameson na mão. Não sou o Knopfli, o Kok já morreu [Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me obliquamente nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não, escreveu o poeta narrando-se em Mavalane aquando da sua saída, naquele para sempre de 1975], e aos meus Koks não os deixo ir ao aeroporto. Além de que os tempos são diferentes, daí as causas do partir e as possibilidades do ir-e-vir. E por isso nada de grande ou profundo me ocorre ripostar.

Apetece-me responder-lhe apenas assim, à minha despoética maneira: sinto-me com uma papaia na garganta, foda-se.

Meninos e meninas

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A Carolina estava no que chamáramos “ciclo preparatório”, na Escola Portuguesa de Maputo (uma boa escola, com professores empenhados). O dia era de actividades festivas (nas quais a EPM é fértil) e lá fomos assistir ao concerto de marchas, teatrinhos, danças, poesias e cantos. Nisso ficámos entre a amálgama parental, uma quase turba ululando mimos, uma tempestuosa maré de fotógrafos acotovelando-se sem qualquer dó ou piedade. De súbito chocámos com uma boa amiga da Inês e com ela ficámos um pouco. Finlandesa, casara com um moçambicano e os filhos estudavam ali. Passado um pouco disse-nos, sorrindo, “vocês, portugueses, distinguem imenso os rapazes das raparigas. Nas danças, nas roupas, nos papéis, em tudo, é até estranho”. Rimo-nos, do óbvio, e perguntámos-lhe como é que lá na terra dela. “Muito diferente, até à adolescência vão iguais, vestem igual, dançam igual, fazem as mesmas coisas, tratamo-los como iguais. Só lá para os 15/16 anos é que se começam a distinguir nas coisas”. E depois acrescentou, decerto que para nos ser simpática, “se calhar até é demais”. Rimo-nos mais, e lá voltámos a olhar as apresentações, os nossos marialvazinhos a rodopiarem o “vira do Minho”, as nossas princesas a rebolarem as ancas ao som das marrabentas em ritmo de kwassa-kwassa (sim, o conteúdo cultural ali transmitido às crianças daria um belo texto sobre a actualização do velho multirracialismo em “novo” multiculturalismo). Eu, sarcástico, fiquei a pensar, que se calhar é por isso que eles são assim pois, deixemo-nos de coisas que são os próprios escandinavos que o dizem, os finlandeses são uns macambúzios, diante deles até um norueguês rural é um meridional festivo. Mas a nossa amiga tinha ali toda a razão, a gente aparta os miúdos em demasia, e não “havia necessidade” para tanto. Tratá-los com mais fluidez não fará crescer patilhas às nossas princesas nem maminhas aos nossos galfarros (digo eu, que estrafeguei a minha princesa com mimos e que lamento não ter tido também a sorte de um morcãozito, para o levar aos treinos de râguebi para aprender as delícias de pisar com pitons todos os circundantes).

Dizer isto não tem nada a ver com defender que o Estado pressione uma editora, tão sua dependente ainda por cima, para retirar uma publicação que não viola a lei nem a moral pública, nem sequer afronta as práticas generalizadas. E que se destina exclusivamente ao mercado familiar, tal como roupas, brinquedos e tanta outra coisa. É criticável, critique-se, desaconselhe-se, apupe-se. Mas defender a sua retirada do mercado por “recomendação” (aliás, pressão) estatal é mesmo atentar contra aquela “conquista de Abril”, a liberdade autoral e editorial, recorrendo a uma interpretação abusiva e extremada da lei. É um radicalismo boçal, um acto de censura. Na nossa sociedade, por enquanto relativamente laica, a censura tem dois nomes: fascismo, comunismo. São estes dois ideários que sempre recorrem a ela, sempre a tornam estruturante. E sempre justificando-a com “boas causas”. Vê-la agora, pujante no aparelho estatal, acolhida com satisfação na sociedade, sua classe média urbana, é o óbvio sintoma de se ter entregue poderes aos comunistas, os partidos (PCP, UDP) e os grupelhos adjacentes (PSR, Livre, etc.). Este é o caminho deles, sempre o foi, sempre é. E há que combatê-lo, “rua a rua, prédio a prédio, flete a flete, caderno de actividades a caderno de actividades”. Ou estaremos a (deixar) chocar o ovo da serpente.

Sobre esta vil patetice meti um postal-FB com um símbolo de sanitários “meninos/meninas”, dizendo que se acabe com essa divisão e com os discriminatórios urinóis. Veio de tudo, e até demais. Sei que, e contrariando a teoria económica (essa vil ideologia fascista/neoliberal), a cagança é um recurso infinito. Daí que uma antropóloga graduada me tenha vindo ensinar a distinção entre “sexo” e “género” (a base do genderismo, ideologia de cujos radicais estão agora no poder). O que me foi engraçado é que nenhum dos radicais – aqueles pequeno-burgueses de fachada socialista, como alguém os dissecou – chegou ao ponto que é óbvio. De facto, não há qualquer razão, nem sequer anatómica, para distinguirmos os sanitários sexualmente. Há “razões”, construções sociais, legados culturais. Distinguirmos os sanitários, ainda por cima em tenra idade, ensina os miúdos que são diferentes, reifica diferenças que são culturalmente estipuladas (e estipula que “há coisas que não se devem ver”). E são discriminatórias, como qualquer pessoa que tenha estado num velho Dramático de Cascais ou em qualquer discoteca apinhada sabe, tendo visto as enormes filas de raparigas (ou meninas, ou gajas, como se preferir), trémulas em ânsias, enquanto nós outros, rapazes (ou meninos, ou gajos, como se preferir), passávamos triunfantes, copos de cerveja na mão ainda para mais, sorridentes e aliviados. Dir-se-á que distinguir sanitários é por pudor, a tal moral pública, e está certo, mas essa é uma construção social. Ou por segurança, mas a insegurança também é uma construção social. É claro que eu prefiro urinar e proceder aos cuidados higiénicos necessários (aquele sacudir, para quem não perceba) em paz, sem ter um bando de balzaquianas ao lado, a rirem-se do parco membro que me coube em sorte. Mas mesmo essa “paz” é uma construção social.

Quer-se educar os sexos em equidade de género? Sim. Quer-se viver os sexos em equidade de género? Sim. Quer-se viver com abusos estatais, a la carte, consoante ideologias totalitárias ou apenas as patacoadas da moda? Ok, então comecemos por mijar todos juntos.

O mais belo

Atravesso a ponte, a velha, a vermelha, entro em Lisboa, telefono-lhe para jantar, não atende, e assim eu vou sozinho para a Ferreira Durão, onde comecei em casal,  há mais de duas décadas. Agora deslastrei-me todo, torna-viagem demente crente nas virtudes da terra queimada. Sento-me na pequena esplanada como se que a sorver a felicidade que ali foi. Descomo e bebo. Ele telefona. (Vais escrever algo? perguntam-me na celebração de hoje). E vai lá ter. Desjanta comigo. “Borrego …” (e é o único que me chama, ainda, borrego, quem mais me dirá assim, tão assim?) “… o que é que te deu?” pergunta-me, finalmente, que nada disse das últimas vezes que estivemos juntos, na sageza de deixar acalmar o negrume que me invadira.  Resmungo o meu queixume, tão óbvio desatino, e ele “pareces uma gaja a falar“, diz-me. Rio-me, é o meu amigo mais bonito, mais belo, são para aí 40 anos disto de o sermos assim (Não, soluço, é-me próximo demais, respondo, cabeceando já), e tenho que lhe aceitar o juízo. Que é certeiro. Avançamos, paramos na loja de conveniência a comprar uísques, coisa que aqui já não se bebe, só comigo que venho do sul, e vamos para o nosso prédio de sempre, de meninos. Onde o meu pai António já morreu e a minha mãe Marília já não vive. Invadimos a velha casa, agora minha. Andares abaixo dorme, repousada, sua mãe. Nós bebemos com a sede dos adolescentes que já cinquentões ainda somos. (Não sei resumir tudo o que foi, gaguejo). Rimos na madrugada, lágrimas mesmo, da tanta alegria, por assim juntos, e ainda. Vasculha-me os vinis dos meus pais, “A Tebaldi!!, aprendi a ouvir ópera com a tua mãe …” mente-me descaradamente, e confrontamo-la com a Callas, altos berros, para espanto e horror dos octogenários sobreviventes da Bolama (haverão de o referir, semanas depois, os que ainda conseguem reter memórias). Como não?, se é ele o mais belo, o mais bonito, dos meus. Choramos com a Tebaldi, talvez do quanto já bebemos (Com quem mais chorarei árias?, teclo eu agora), decerto porque estamos aqui juntos. E eu porque ele é o mais bonito, o mais belo, dos meus. E ele, estou certo, porque eu sou o borrego dele, para ele (Vais escrever algo? perguntam-me na celebração de hoje) (Não, respondo, é-me próximo demais). Ele, já manhã feita, navega elevador abaixo e eu cambaleio corredor afora até ao borco. Feliz, só agora e só assim, pois ele é mais bonito, o mais belo dos meus (Não sei resumir tudo o que foi, gaguejo). (E choro-me. Imenso, pareces uma gaja, diria ele, naquela sua infinita doçura).