Armando Trigo de Abreu

IMG_03621

Aos meus exemplares de três números desta Revista Trimestral de Histórias & Ideias (publicados em 1978 e 1979, na editora Afrontamento) comprei-os em 1984, durante a licenciatura. Dois deles ainda têm a tarja dos preços, 130 escudos o número simples, 150 escudos o número duplo (nº 3/4), e a lápis o preço de venda real, 50$ cada. Demoro-me nestes detalhes para lembrar que já então a revista fora descontinuada, nunca soube se por dificuldades económicas se por outros afazeres dos seus directores, Artur J. Castro Neves e Armando Trigo de Abreu, e se destinava a saldos ou alfarrabistas. É óbvio que eu não tinha então, nem tenho hoje, um verdadeiro conhecimento do panorama intelectual e editorial dos anos da sua publicação, decorrida durante a minha puberdade. Mas logo que as comprei, nos meus 19 anos, fiquei com a ideia que aquilo era muito “à frente” do que seria corrente. A revista era excelente, uma verdadeira mina intelectual, discutindo as temáticas do desenvolvimento num registo alheio às ortodoxias vigorosas de então, tanto a marxista estrita como a matizada social-democrata, pois mesclando as contribuições. E muito actualizada face ao que “lá fora” surgia.

Read more

Anúncios

A papaia de(sde) há 3 anos, digo hoje

a-excelente-papaia

Há exactamente três anos, cumprem-se hoje, mais ou menos a esta hora depois de jantar, parti de vez de Moçambique, depois de 18 anos. Botei isto antes de sair no blog ma-schamba, onde escrevia então. Às vezes, só às vezes, nada saudosista, lembro-me da maldita papaia. Porque ainda não a consegui engolir. Um dia destes tenho que me fazer operar, a ver se algum cirurgião a consegue arrancar.

A papaia (8.9.14)

Almoço no Marítimo, com casal amigo, a Carolina encontra amigas, é nosso último Índico, hoje particularmente revolto, “os espíritos zangam-se com a minha partida“, brinca este ateu. No telemóvel vejo que no facebook um leitor daqui (um tipo insensível? insensato? ou só inexperiente da vida?) me pergunta qualquer coisa como “como se sente ao partir de onde foi feliz?“.

Sorrio, já com o Jameson na mão. Não sou o Knopfli, o Kok já morreu [Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me obliquamente nos olhos: Não voltas mais? Digo-lhe só que não, escreveu o poeta narrando-se em Mavalane aquando da sua saída, naquele para sempre de 1975], e aos meus Koks não os deixo ir ao aeroporto. Além de que os tempos são diferentes, daí as causas do partir e as possibilidades do ir-e-vir. E por isso nada de grande ou profundo me ocorre ripostar.

Apetece-me responder-lhe apenas assim, à minha despoética maneira: sinto-me com uma papaia na garganta, foda-se.

Meninos e meninas

aawc

 

A Carolina estava no que chamáramos “ciclo preparatório”, na Escola Portuguesa de Maputo (uma boa escola, com professores empenhados). O dia era de actividades festivas (nas quais a EPM é fértil) e lá fomos assistir ao concerto de marchas, teatrinhos, danças, poesias e cantos. Nisso ficámos entre a amálgama parental, uma quase turba ululando mimos, uma tempestuosa maré de fotógrafos acotovelando-se sem qualquer dó ou piedade. De súbito chocámos com uma boa amiga da Inês e com ela ficámos um pouco. Finlandesa, casara com um moçambicano e os filhos estudavam ali. Passado um pouco disse-nos, sorrindo, “vocês, portugueses, distinguem imenso os rapazes das raparigas. Nas danças, nas roupas, nos papéis, em tudo, é até estranho”. Rimo-nos, do óbvio, e perguntámos-lhe como é que lá na terra dela. “Muito diferente, até à adolescência vão iguais, vestem igual, dançam igual, fazem as mesmas coisas, tratamo-los como iguais. Só lá para os 15/16 anos é que se começam a distinguir nas coisas”. E depois acrescentou, decerto que para nos ser simpática, “se calhar até é demais”. Rimo-nos mais, e lá voltámos a olhar as apresentações, os nossos marialvazinhos a rodopiarem o “vira do Minho”, as nossas princesas a rebolarem as ancas ao som das marrabentas em ritmo de kwassa-kwassa (sim, o conteúdo cultural ali transmitido às crianças daria um belo texto sobre a actualização do velho multirracialismo em “novo” multiculturalismo). Eu, sarcástico, fiquei a pensar, que se calhar é por isso que eles são assim pois, deixemo-nos de coisas que são os próprios escandinavos que o dizem, os finlandeses são uns macambúzios, diante deles até um norueguês rural é um meridional festivo. Mas a nossa amiga tinha ali toda a razão, a gente aparta os miúdos em demasia, e não “havia necessidade” para tanto. Tratá-los com mais fluidez não fará crescer patilhas às nossas princesas nem maminhas aos nossos galfarros (digo eu, que estrafeguei a minha princesa com mimos e que lamento não ter tido também a sorte de um morcãozito, para o levar aos treinos de râguebi para aprender as delícias de pisar com pitons todos os circundantes).

Dizer isto não tem nada a ver com defender que o Estado pressione uma editora, tão sua dependente ainda por cima, para retirar uma publicação que não viola a lei nem a moral pública, nem sequer afronta as práticas generalizadas. E que se destina exclusivamente ao mercado familiar, tal como roupas, brinquedos e tanta outra coisa. É criticável, critique-se, desaconselhe-se, apupe-se. Mas defender a sua retirada do mercado por “recomendação” (aliás, pressão) estatal é mesmo atentar contra aquela “conquista de Abril”, a liberdade autoral e editorial, recorrendo a uma interpretação abusiva e extremada da lei. É um radicalismo boçal, um acto de censura. Na nossa sociedade, por enquanto relativamente laica, a censura tem dois nomes: fascismo, comunismo. São estes dois ideários que sempre recorrem a ela, sempre a tornam estruturante. E sempre justificando-a com “boas causas”. Vê-la agora, pujante no aparelho estatal, acolhida com satisfação na sociedade, sua classe média urbana, é o óbvio sintoma de se ter entregue poderes aos comunistas, os partidos (PCP, UDP) e os grupelhos adjacentes (PSR, Livre, etc.). Este é o caminho deles, sempre o foi, sempre é. E há que combatê-lo, “rua a rua, prédio a prédio, flete a flete, caderno de actividades a caderno de actividades”. Ou estaremos a (deixar) chocar o ovo da serpente.

Sobre esta vil patetice meti um postal-FB com um símbolo de sanitários “meninos/meninas”, dizendo que se acabe com essa divisão e com os discriminatórios urinóis. Veio de tudo, e até demais. Sei que, e contrariando a teoria económica (essa vil ideologia fascista/neoliberal), a cagança é um recurso infinito. Daí que uma antropóloga graduada me tenha vindo ensinar a distinção entre “sexo” e “género” (a base do genderismo, ideologia de cujos radicais estão agora no poder). O que me foi engraçado é que nenhum dos radicais – aqueles pequeno-burgueses de fachada socialista, como alguém os dissecou – chegou ao ponto que é óbvio. De facto, não há qualquer razão, nem sequer anatómica, para distinguirmos os sanitários sexualmente. Há “razões”, construções sociais, legados culturais. Distinguirmos os sanitários, ainda por cima em tenra idade, ensina os miúdos que são diferentes, reifica diferenças que são culturalmente estipuladas (e estipula que “há coisas que não se devem ver”). E são discriminatórias, como qualquer pessoa que tenha estado num velho Dramático de Cascais ou em qualquer discoteca apinhada sabe, tendo visto as enormes filas de raparigas (ou meninas, ou gajas, como se preferir), trémulas em ânsias, enquanto nós outros, rapazes (ou meninos, ou gajos, como se preferir), passávamos triunfantes, copos de cerveja na mão ainda para mais, sorridentes e aliviados. Dir-se-á que distinguir sanitários é por pudor, a tal moral pública, e está certo, mas essa é uma construção social. Ou por segurança, mas a insegurança também é uma construção social. É claro que eu prefiro urinar e proceder aos cuidados higiénicos necessários (aquele sacudir, para quem não perceba) em paz, sem ter um bando de balzaquianas ao lado, a rirem-se do parco membro que me coube em sorte. Mas mesmo essa “paz” é uma construção social.

Quer-se educar os sexos em equidade de género? Sim. Quer-se viver os sexos em equidade de género? Sim. Quer-se viver com abusos estatais, a la carte, consoante ideologias totalitárias ou apenas as patacoadas da moda? Ok, então comecemos por mijar todos juntos.

O mais belo

Atravesso a ponte, a velha, a vermelha, entro em Lisboa, telefono-lhe para jantar, não atende, e assim eu vou sozinho para a Ferreira Durão, onde comecei em casal,  há mais de duas décadas. Agora deslastrei-me todo, torna-viagem demente crente nas virtudes da terra queimada. Sento-me na pequena esplanada como se que a sorver a felicidade que ali foi. Descomo e bebo. Ele telefona. (Vais escrever algo? perguntam-me na celebração de hoje). E vai lá ter. Desjanta comigo. “Borrego …” (e é o único que me chama, ainda, borrego, quem mais me dirá assim, tão assim?) “… o que é que te deu?” pergunta-me, finalmente, que nada disse das últimas vezes que estivemos juntos, na sageza de deixar acalmar o negrume que me invadira.  Resmungo o meu queixume, tão óbvio desatino, e ele “pareces uma gaja a falar“, diz-me. Rio-me, é o meu amigo mais bonito, mais belo, são para aí 40 anos disto de o sermos assim (Não, soluço, é-me próximo demais, respondo, cabeceando já), e tenho que lhe aceitar o juízo. Que é certeiro. Avançamos, paramos na loja de conveniência a comprar uísques, coisa que aqui já não se bebe, só comigo que venho do sul, e vamos para o nosso prédio de sempre, de meninos. Onde o meu pai António já morreu e a minha mãe Marília já não vive. Invadimos a velha casa, agora minha. Andares abaixo dorme, repousada, sua mãe. Nós bebemos com a sede dos adolescentes que já cinquentões ainda somos. (Não sei resumir tudo o que foi, gaguejo). Rimos na madrugada, lágrimas mesmo, da tanta alegria, por assim juntos, e ainda. Vasculha-me os vinis dos meus pais, “A Tebaldi!!, aprendi a ouvir ópera com a tua mãe …” mente-me descaradamente, e confrontamo-la com a Callas, altos berros, para espanto e horror dos octogenários sobreviventes da Bolama (haverão de o referir, semanas depois, os que ainda conseguem reter memórias). Como não?, se é ele o mais belo, o mais bonito, dos meus. Choramos com a Tebaldi, talvez do quanto já bebemos (Com quem mais chorarei árias?, teclo eu agora), decerto porque estamos aqui juntos. E eu porque ele é o mais bonito, o mais belo, dos meus. E ele, estou certo, porque eu sou o borrego dele, para ele (Vais escrever algo? perguntam-me na celebração de hoje) (Não, respondo, é-me próximo demais). Ele, já manhã feita, navega elevador abaixo e eu cambaleio corredor afora até ao borco. Feliz, só agora e só assim, pois ele é mais bonito, o mais belo dos meus (Não sei resumir tudo o que foi, gaguejo). (E choro-me. Imenso, pareces uma gaja, diria ele, naquela sua infinita doçura).

O negacionismo e a paciência

bulgaria-sofia-sculpture-park-of-socialist-art-giant-red-star-formerly-J2CPPX

(Sofia, Bulgária, monumento antes colocado na sede do partido comunista)

selo polaco

(Selo polaco)

 

checos

(Condecoração ordem Estrela Vermelha, Checoslováquia)

 

urss

(Emblema do Exército Vermelho, URSS)

 

hun

(Condecoração húngara)

yugoslavia048

(Condecoração jugoslava)

china

(China)

cuba

(Cuba)

vietname

(Vietname)

Poderia continuar no google a sacar imagens do ícone comunista “estrela vermelha”, há uma infinidade. Mas não é preciso. Ontem, em conversa apolítica, aludi a um pequeno exemplo em que surgia um monumento com a estrela vermelha. Na pequena vila Mopeia, na Zambézia, terra plana, uma das vezes que por lá passei, o único sítio onde havia rede para telemóveis era em torno do monumento com a “estrela vermelha”, edificação recorrente do tempo revolucionário.

MopeiaMonumento

(Mopeia, Moçambique, 2008)

Dizia eu, risonho, a interessante (paradoxal, se muito se quiser) confluência desta febre de consumo de “celular” à volta do símbolo comunista. De imediato, ainda eu falava, uma senhora moçambicana, sentada atrás de mim me disse, professoral, ciosa e até ríspida: “o monumento não era comunista!”. Eu, virei-me e sorri, e até perguntei, delicado, “ah sim? e era a quê?“.

E a gente tem que ter paciência. Porque senão o mal está em nós. Ou, como dizem os mais abjectos dos imbecis, somos ressentidos. E se um tipo diz que o negacionismo é imoral, intelectualmente desonesto, e recorda derivas democráticas da sua ilegalização, é dito maluquinho. Assim tudo vai bem, e um tipo tem que levar com as piadinhas alheias. De quem acha natural, honesto e até consequente intelectualmente este tipo de … nada.