As crendices

buda24

(texto longo, a exorcizar a irritação):

Vou-me casar. Depois de amanhã. Apanho o avião, de Maputo para Lisboa, tão perto da cerimónia que até causei algum “frisson” nos meus mais próximos, até no geral dos convidados, naquilo do “se no caminho acontece alguma coisa…”, um qualquer algo que possa prejudicar a cerimónia. A minha noiva, a mulher da minha vida, por quem estou apaixonado, apesar desta idade que já me ocorre, veio à frente, há já quatro dias, para ultimar preparativos.

Entro no avião e constato que o acaso me senta ao lado de um conhecido. Jurista, antigo cooperante na Universidade Eduardo Mondlane, agora visita recorrente em Maputo, e com o qual já organizei sessões comuns, palestras e até sessões de apresentação de uma revista que ele coordena. Um tipo refinado, daqueles que percebi acima da mole que o Estado partidarizado costuma catapultar. Sorri-me, saúda e saudamos a coincidência, que nos faz juntos nesta noite de cruzarmos tamanha distância.

Bagagens arrumadas, preparativos terminados, cintos apertados, livros e revistas nos bolsos dianteiros, o avião parte. Conversamos, pergunta-me sobre a sempre complexa situação política moçambicana, de qual a minha opinião sobre o propalado “potencial económico” do país, acerca das competências e incompetências da política europeia, a célebre “ajuda”. Claro que abordamos a situação da dita “comunidade” portuguesa, tão aumentada nestes últimos anos. Fiel ao meu percurso inflicto para algumas recentes mutações nas artes visuais e até na literatura do país, procurando alertá-lo para vultos diversos dos já sacralizados.

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Driol

bolamas
Estes eram (alguns dos) putos da Bolama, nos finais de 1970s, aqui fotografados nas célebres “escadas dos Pachecos”. A vida apartou alguns mas os outros ficámos manos. Logo nessa época a morte levou-nos o Nuno, tão lindo. E agora, neste 17, décadas passadas, regressou, a malvada. Inesperada, a arrancar-nos o (para nós sempre “puto”) João, assim deixando uma chaga que os meses não saram. E ontem, já esperada, pois ele muito doente há bastante tempo, que tão resistente foi, o Driol.
O Sandro era da “geração acima”, 4-5 anos mais velho. Por isso então a seita dele era outra, esses que a gente conhecia de vista e nome, cobiçando-lhes as motos e as maravilhosas namoradas. Ou pelos irmãos mais novos. Mas, vizinho, também acampava por vezes, e, mais tarde, já nós mais crescidos, ainda mais, já ombreando.
O Drinô (como alguém graffitou em fugaz era de influência do “glamour rock”) era um dos tipos mais idiossincráticos que havia – e tantas décadas passadas ainda dele tenho imensos fogachos: o espeta de moto nas traseiras da minha casa, a que acudi dado o barulho; a dicção peculiar; aquela tão sua casquinada; e, depois, mais tarde, o apreço pela BD; a generosidade da partilha, ainda que muito cuidada, ponderada; o chamar-me, e era o único nisso, Zezélio; e, talvez mais do que tudo, um verdadeiro espanto com coisas do real que, por vezes, eu, jovem boçal, julguei candura mas que era, mesmo, curiosidade e entusiasmo.
Mas o que muito marcou a imagem pública do Driol foi o ter ele sido o fotógrafo “oficial” daquela nossa geração: raros eram os que tinham máquina, ainda menos os que tinham dinheiro para rolos e revelações, apenas dois ou três os que tinham o gosto, mas só ele trazia a tiracolo a paixão de fotografar. Mas na foto acima ele estava do lado de lá, entre – não me recordo quem a tirou, talvez o Vilão, talvez o Pampan.
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[Rua Vila de Fulacunda, Olivais-Sul. Fotografia de João Alexandre Taborda]
E fez um arquivo lindo sobre aquela época de “dias gloriosos”. Nesta foto estava a fotografar os irmãos mais novos da sua geração, os finais dos anos 70s, os putos a descerem (descermos) as ruas nos carrinhos de rolamentos. Em tantas outras tem os outros, as andanças de nós mais-velhos. Voltar ao acervo do Driol é uma delícia, cada um encontra-se e aos seus queridos de então, na beleza da memória. Certo, há uma “patine” afectiva que nos convoca. Mas há outro registo, bem mais alargado, há muito mais nesse legado do Driol. Encontra-se a memória da paisagem urbana como foi: as vestes, os tiques, os penteados, as poses – e quão cinéfilo tudo parece, ainda para mais naquele preto-e-branco. As ruas, os carros, as motos, a arquitectura então tão nova.  Mas é ainda mais do que essa memória social. Pois o Driol teve um olhar, amador mas muito cuidado,  e tão jovem sobre a sua geração naquele tão especial bairro. E assim nessa sua colecção o que nós encontramos não é o retrato daquela geração. É mesmo um auto-retrato, a voz própria de uma “malta”, esses que nos sonhámos “heróicos” naqueles confusos tempos do pós-pós-Abril. E, se calhar, fomos.

A Falange na Catalunha

vfra

O meu pai nasceu em 1923 e morreu já nesta década. Faz-me falta. Claro que não só por isso mas também, e muito, pelos infindáveis (e inacabados) debates, encetados na minha adolescência. Comunista ferrenho, viperino em matérias políticas (em questões pessoais era uma jóia), irónico, sarcástico. Auto-irónico: no hospital, muito enfraquecido, eu ao fundo da cama, a seu lado a neta Patricia, um dos seus grandes amores, disse-lhe “Avô, hoje estás mais rosado” (e de facto estava menos translúcido). E ele murmurou, quase inaudível: “Rosa por fora, mas vermelho por dentro“. Morreu umas horas depois. Foi com este camarada Pimentel que aprendi a debater, a ficar desarmado mas não convencido. E que há áreas que não vale a pena discutir. E que só são aceitáveis naqueles que têm a tal auto-ironia, essa que é, de facto, a única forma de relativismo intelectualmente digna, pois delineando os limites da crença / dos princípios, sem dela/deles abdicar.

De duas das suas formulações muito me lembro. Até irado com a sua abjecção aos “dissidentes” remeti-lhe um “Se vivesses na URSS tinhas sido fuzilado” e ele, de imediato, “Com toda a certeza!“. Uma outra vez, desesperei, de novo, com a sua filiação à horrível distopia. E ele, calmo, “tu esqueces-te que eu cresci durante a guerra de Espanha” (e depois na II GM, aquela do “paizinho dos povos”, convém juntar). Lembrei-me disto (e dele) ao ler agora mesmo, no Facebook, um intelectual renomado, presumível tardo-sexagenário, botando “Viva a Catalunha livre do franquismo do governo de Espanha“. Se o camarada Pimentel fosse vivo eu contar-lhe-ia esta tirada (entre outras) e ele, ateu anti-clerical ainda para mais, abanaria a cabeça naquele seu vagar de sarcasmo diante da inconsciência alheia e exclamaria “Meu Deus!“. E beberíamos um cálice de genebra. Ou de rum.

As Praxes

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Todos os santos anos, nesta época pós-balnear, surgem os protestos contra as praxes, esse boçalismo a céu aberto que vem moldando o devir nacional. Em tempos bloguei a minha praxe, nos inícios dos 1980s. No primeiro dia de aulas eu e o meu querido amigo Tiago chegámos à Fac. de Direito, onde os caloiros estavam a ser recebidos. Apenas a porta central estava aberta, as mais laterais guardadas por “porteiros” praxadores; os neófitos subiam a uma mesa posta na entrada, eram apupados, e depois percorriam o longo átrio entre duas alas, levando uns leves calduços, sendo algo pintalgados ou amputados de madeixas. O gáudio ululante era geral. De facto não era nada demais, uma mera brincadeira, uma “recepção” até na coreografia, sem indignidades. Ainda assim eu e o Tiago entreolhámos-nos num “quem é que estes caralhos julgam que são para praxarem uns gajos dos Olivais?”, fomos a uma das portas mesmo ao lado, o “porteiro” hesitou, nós empertigados, eu terei arqueado a sobrancelha num “não me lixes, ó keke”, o Tiago mandou-lhe um “ó chavalo, desvia-te lá”, e logo entrámos, quais verdadeiros finalistas, e fomos lá para o fundo do átrio desprezar aquela cena parva.

Os tempos eram muito diferentes e nem tudo era bom: não havia taco, tamanha a crise que “Vitor Gaspar” se dizia “Ernani Lopes”, o FMI administrava e o Zé Mario Branco protestava, os liceus haviam quase-implodido, a religião dominante era a kaya e começara a vaga do “cavalo”. E Lisboa era provinciana, apertada entre o Jamaica/Tokyo e o “Arroz Doce” (“tasca azul”, como devia ser). Mas, ainda assim, nós éramos os “filhos da revolução”. Acontece que o tempo passou e os pais dos universitários de hoje foram os “filhos do João Baião”. Está-se à espera de quê desta gente?

Armando Trigo de Abreu

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Aos meus exemplares de três números desta Revista Trimestral de Histórias & Ideias (publicados em 1978 e 1979, na editora Afrontamento) comprei-os em 1984, durante a licenciatura. Dois deles ainda têm a tarja dos preços, 130 escudos o número simples, 150 escudos o número duplo (nº 3/4), e a lápis o preço de venda real, 50$ cada. Demoro-me nestes detalhes para lembrar que já então a revista fora descontinuada, nunca soube se por dificuldades económicas se por outros afazeres dos seus directores, Artur J. Castro Neves e Armando Trigo de Abreu, e se destinava a saldos ou alfarrabistas. É óbvio que eu não tinha então, nem tenho hoje, um verdadeiro conhecimento do panorama intelectual e editorial dos anos da sua publicação, decorrida durante a minha puberdade. Mas logo que as comprei, nos meus 19 anos, fiquei com a ideia que aquilo era muito “à frente” do que seria corrente. A revista era excelente, uma verdadeira mina intelectual, discutindo as temáticas do desenvolvimento num registo alheio às ortodoxias vigorosas de então, tanto a marxista estrita como a matizada social-democrata, pois mesclando as contribuições. E muito actualizada face ao que “lá fora” surgia.

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