O negacionismo e a paciência

bulgaria-sofia-sculpture-park-of-socialist-art-giant-red-star-formerly-J2CPPX

(Sofia, Bulgária, monumento antes colocado na sede do partido comunista)

selo polaco

(Selo polaco)

 

checos

(Condecoração ordem Estrela Vermelha, Checoslováquia)

 

urss

(Emblema do Exército Vermelho, URSS)

 

hun

(Condecoração húngara)

yugoslavia048

(Condecoração jugoslava)

china

(China)

cuba

(Cuba)

vietname

(Vietname)

Poderia continuar no google a sacar imagens do ícone comunista “estrela vermelha”, há uma infinidade. Mas não é preciso. Ontem, em conversa apolítica, aludi a um pequeno exemplo em que surgia um monumento com a estrela vermelha. Na pequena vila Mopeia, na Zambézia, terra plana, uma das vezes que por lá passei, o único sítio onde havia rede para telemóveis era em torno do monumento com a “estrela vermelha”, edificação recorrente do tempo revolucionário.

MopeiaMonumento

(Mopeia, Moçambique, 2008)

Dizia eu, risonho, a interessante (paradoxal, se muito se quiser) confluência desta febre de consumo de “celular” à volta do símbolo comunista. De imediato, ainda eu falava, uma senhora moçambicana, sentada atrás de mim me disse, professoral, ciosa e até ríspida: “o monumento não era comunista!”. Eu, virei-me e sorri, e até perguntei, delicado, “ah sim? e era a quê?“.

E a gente tem que ter paciência. Porque senão o mal está em nós. Ou, como dizem os mais abjectos dos imbecis, somos ressentidos. E se um tipo diz que o negacionismo é imoral, intelectualmente desonesto, e recorda derivas democráticas da sua ilegalização, é dito maluquinho. Assim tudo vai bem, e um tipo tem que levar com as piadinhas alheias. De quem acha natural, honesto e até consequente intelectualmente este tipo de … nada.

Brincar ao comunismo

bones
(ossos cambodjanos, memorial)

Quando fui em 1994 durante uns (gloriosos) meses para a África do Sul como observador eleitoral apanhei um punhado de gente que vinha das longas missões das Nações Unidas no Cambodja (o tão british tanzaniano Fidelis, um vero príncipe, o ruivo irlandês irlandês Brian, “já bebi o suficiente na vida”, tão assumido (des)acompanhava ele as nossas apneias naquela ambiente supra-aquecido, a maravilhosa francesa Marie-Vi, entre outros). As conversas sobre o Cambodja, seu processo, eram sempre e intensas (“levei ano e meio até voltar a pisar relva“, disse-me alguém que bem lembro, tamanha a angústia que lhe ficara com as minas), a demência polpotista, esse cúmulo da deriva marxista, constante assunto entre steaks, castles e famous grouses, gente marcada até à medula com o testemunho, refractado, da última diabólica comunistice de XX. Lembro-me disso quando vejo agora no facebook tanta gente (até velhos bloguistas de teclados habitualmente conscientes) a participar e partilhar desses “testes” (quizz, no português imbecil) “que comunista famoso você é?“, a brincaram ao comunismo, a abjecta “naturalização” do mal, a perversa banalização do mal de que a filósofa falou. “Eu sou o Lenine”, “eu sou o Estaline”, “eu sou o Che”, “eu sou o Pol Pot”, arrotam, peidam a la Sobral, os compatriotas … E acham que têm piada! Se eu pusesse aqui “eu sou o Heydrich” ou similar vil imbecilidade até eles me cairiam em cima. Estamos, nós portugueses, tramados no meio desta paisagem humana.

O Paiol

psb malhazine

(Explosões no paiol de Malhazine, Maputo, 2007; fotografia de Pedro Sa da Bandeira)

Não terá a ver mas esta história do assalto ao paiol (e não só, e não só …) tem-me recordado quando, há uma década, rebentou o paiol de Maputo. Eu chegara de Manica nesse dia, a São fora-me buscar a Mavalane, na saída ambos, distraídos, a achar estranho uma trovoada com céu tão limpo. Só em casa as empregadas me disseram o que era, angustiadissimas, a Inês a telefonar, o prédio onde estava em reunião, um qualquer ministério perto da Nyerere, até parecia abanar, e logo correu para casa, nós corações nas mãos até ela chegar, que aquilo foram horas de explosões, munições projectadas de modo totalmente errático. A causarem mais de cem mortos, se não erro (coisa devida ao calor, veio dizer o ministro, que nisto da desresponsabilização governamental há mesmo lusofonia). Numa casa grande mas toda envidraçada juntaram-se as empregadas, a Inês e a ainda filhota Carolina numa nesga, entre a copa e a cozinha, único recanto menos atreito a hipotéticos estilhaços. Os telefones não paravam, gente em cuidados, a falar para exorcizar, a dar conta dos locais atingidos, e tantos e tão díspares eram. Nós ali ao fundo da Zimbabwe, e ainda me lembro do esgar que fiz diante do olhar de interrogação da Inês com mais uns SMS que chegavam anunciando rebentamentos “na OMM“, “perto da casa do Mia“. É nestas alturas que um tipo percebe mesmo onde está o seu amor. Medo? Por elas sim, claro, não por mim, coirão resoluto. Nisso telefonou o meu irmão, oficial artilheiro, daqueles com espada, lá dos Açores, soubera da coisa, em cuidados e conselhos, que não fossemos para as vias de saída da cidade, decerto que congestionadas – e claro que não, sabido que era estarem as rotas da Matola, Marracuene e da Costa do Sol a serem fustigadas. E perguntou-me o mano-artilheiro que material estaria armazenado e eu num “sei lá, deve estar apinhado de material velho, no tempo da guerra os russos inundaram isto com os restos deles, dizem-me agora que por lá estão até Órgãos de Estaline“. Ao que o meu mano-velho, artilheiro de formação e profissão, exclamou “ai, meu filho!“. Então sim, com esse primeiro “filho” que ele me deu em 45 anos de vida, assomou-me o medo. Já bebemos uns uísques, os dois, com esta minha memória.

No Porto

Portugal, Porto

Há quinze dias fui ao belo Porto, para participar numa conferência dedicada ao historiador José Capela. A qual decorreu muito bem, boas comunicações, bom ambiente, uma mais que digna homenagem a quem muito a mereceu.

Escrevi um texto como base da minha intervenção. Deparei-me com aquele problema de articular Rossio e Betesga. Ou seja, está palavroso. É um texto sobre história de Moçambique colonial. Quem tiver algum interesse pode encontrá-lo aqui: “a especificidade portuguesa face à historiografia de José Capela“.

Em Évora

mal

Passo por Évora, levam-me a conhecer a célebre confeitaria do “Pão de Rala”, sento-me e olho as paredes da pequena sala pejadas de fotos de ilustres clientes, como se tornou costume. E noto, em destaque, a foto do Velho. Comovo-me, fotografo a foto, “conhecia-o?“, pergunta-me a dona, e conta, com simpatia feliz, que ele recebia encomendas dos seus doces. E que quando foi a Évora receber o honoris causa logo que a cerimónia acabou para ali se dirigiu, “era um 22 de Fevereiro e chovia muito, mas ainda assim quis vir“, para conhecer a casa e a (magnífica) doceira que tão deliciosamente o abastecia. Sorrio, imaginando o quão Malangatana ali terá sido em tão especial dia. E notando a bela memória que ali deixou. Como sempre, como sempre …