No Xigubo, de Craveirinha

xigubo

Dizem os entendidos, e nisso deverão ter razão, que o melhor Craverinha foi o de mais tardia publicação, e de mais íntima verve (o livro “Maria”, em seu torno), assim algo desvalorizando, pelo menos comparativamente, as suas primeiras e mais programáticas décadas, aqueles de “Manifesto”, o da proclamação da legitimidade cultural e política local. Será, repito, talvez verdade. Mas regresso ao Xigubo, ao velho Craveirinha, então mais novo, claro. E há nacos de uma sapiência …

“Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos / e na minha boca diluem o abstracto / sabor da carne de hóstias em milionésimas / circunferências hipóteses católicas de pão. / E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo / vendem-me a sua desinfectante benção … / Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço / em rodelas de latão em vez dos meus autênticos / mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens / do ciúme e da colheita de amendoim novo.”

É este um trecho do seu célebre – e ideologizado dirão os “estetas” de hoje – “África“. Escrito lá pelos anos 1950s, presumo. Informo os que não sabem que “mutovana” é um amuleto. E que quase 70 anos depois continua a ser raro – entre boreais e austrais – quem diga, escreva ou pense algo assim. Principalmente lá pelo sul, cada vez com mais crendices cristãs e/ou corânicas. Mas também muito pelo norte.

Voltar a casa: Aníbal Aleluia

Laban

Voltar a casa, após um ano. É voltar às estantes, militantemente desarrumá-las, ler bocados, livros a reler, recomeçar os abandonados, reesquecer os esquecidos. Depois, uns dias depois do tal regresso, acampei aqui, esteira e tudo, debaixo das estantes moçambicanas. Reabri e releio, entre tanta outra coisa, dois livros de entrevistas a escritores moçambicanos (melhor dizer, de Moçambique), ambos publicados em 1998, este “Encontro com Escritores” de Michel Laban, 3 volumes, e o “Os Habitantes da Memória”, de Nelson Saúte.

Ambos começam com Aníbal Aleluia, o qual infelizmente nunca conheci, falecido antes de eu chegar a Moçambique  pela primeira vez. Grande verve, excelente pensamento, e modo absolutamente excêntrico no país. Noto que perdi o seu MBelele e Outros Contos – e irrito-me comigo mesmo, pois é o tipo de livro que dificilmente reencontrarei, num mundo em que abunda tralha “autorada” por gente iletrada e Aleluia não é reeditado. Será lido? Mas vejo via motores de busca, e assim me “des-irrito”, que o Nelson Saúte escreveu, e bem, há pouco um “Elogio a Aníbal Aleluia” – que assim recomendo.

aleluia gajo

Vou agora reler o seu curto “O Gajo e os Outros“, o que dele me ficou. E deixo duas citações das suas entrevistas, que muito mostram o perfil: do intelectual e do cidadão. Decerto que foi daqueles homens, inquietos, com quem se aprende. Ao contrário de tantos simpáticos que para aí andam, perorando:

Fui marcado por um tal de Romão Félix que, sob o pseudónimo de Parafuso, utilizou o método dos blackface minstrels usando um pseudo-linguajar de negro a que muito racicamente chamavam de “pretoguês” para fazer pouco, principalmente, do negro evoluído. Epígonos de Parafusos e macaqueadores de vária espécie recuperam esse linguajar que o nosso poeta nacional [Presumo que Aleluia se refira a Craveirinha] escalpelizou um dia. Na onda de desvios e anfibologias oraculizantes surgem os espíritos levianos e dão-se as mãos em elogios mútuos num cabotinismo concertado. E é assim que esses movimentos parecem vingar, até que um dia apareça um inocente a mostrar a nudez do rei. A tristeza é quando aqueles que de facto têm jeito e sabem distinguir os caminhos a percorrer batem palmadinhas nas costas dos imitadores desajeitados” (em Nelson Saúte, Os Habitantes da Memória, p. 29).

E depois (em Michel Laban, Moçambique: Encontro com Escritores, 37) ao apropriar-se de Guerra Junqueiro para referir a sua terra de então. Mas um dito que devemos reclamar de volta, pois radicalmente nosso, não sei dos outros: “Isso que para ai está é uma bacanal de percevejos numa enxerga podre”.

Gogol não era economista

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Inúmeros políticos e assessores saíram à liça para defender o governo neste “affaire famigilia” (que já ecoa na imprensa estrangeira). Até o candidato socratista ao parlamento europeu veio, melífluo, dizer que “não mas enfim …” (ler o texto ligado pelo Pedro Correia em postal abaixo). Os “comentadores” eixo-domaljugular já confirmaram que tudo está bem no reino. E, cerveja para cima do bolo, Pacheco Pereira reduz as críticas ao emaranhado do governo português à incapacidade geral em criticar as políticas económico-financeiras do PS. Ou seja, na visão do meu antigo professor, um tipo como eu, e nisso parecido com tantos outros, que não estudou economia não tem o direito a interrogar-se ou indignar-se. Mesmo que tenha a ideia de que alguma coisa não correrá bem, que tenha a sensação que este texto de Joaquim Miranda Sarmento é capaz de ser um bom diagnóstico da situação económica nacional, para Pacheco Pereira isso não chega: não sendo eu capaz de escrever a crítica e/ou melhorá-la ou sustentá-la, tenho que me ir calando. Nos tempos em que ele, Pacheco Pereira, nos ensinava a isto chamava-se “economicismo”. Mas enfim, os tempos mudam, e há que adaptar as ideias aos novos ares.

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Os livros de João Paulo Borges Coelho

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Quem me vai lendo os blogs saberá do meu apreço pela ficção de João Paulo Borges Coelho. Pelo prazer enorme que me dá ler os livros. Mas também porque o olhar que ele tem sobre Moçambique muito me ilumina, mostra-me o país.

Já escrevi e falei sobre isso. Agora dei forma final a um texto que explica porque uso aqueles livros como a minha bengala para entender o “do Zumbo às águas do Índico, do Rovuma ao Maputo”. Está aqui, para quem tiver paciência e interesse: “O programa ficcional de João Paulo Borges Coelho.” (basta clicar no título que se aportará no texto)

O Raposão, com a ministra no México

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(Teodorico e Alpedrinha por Rui Campos Matos)

Foi-se a ministra, orgulhosamente lesbiana, a Guadalajara, decerto que com adido à ilharga – mas não a Cuernavaca com o necessário Cônsul, estou disso certo – e por lá resmungou algo, sobranceira a portugueses, Portugal e seus jornalistas e jornaleiros. Entretanto, cá longe, noutro “lá fora”, ando eu a reler, 35 anos depois, o “Relíquia”. Eça não é, diz quem sabe, o Zola, o Balzac, muito menos o Flaubert, mas é o que temos, e ainda que me solavanque o encanto – tetrali o “Os Maias” por causa do filme de João Botelho, e disso me apercebi, já nada adolescente ou vinteanista, franzindo o meu cenho ao traço grosso da caricatura que escorrega daquele Ega – continua uma delícia.

Enfim, perorava a ministra lá em Guadalajara quando o Raposão, o bom do Teodorico, me aportou a Alexandria, naquela sua ímpia, pois humana, peregrinação à então Terra Santa. Logo se acolheu ao afamado e recomendado “Hotel das Pirâmides”, deparando-se com um patrício (onde é que não há um português?), “moço de bagagens e triste“, ali algo desvalido dados os infortúnios de amores e impensares, o Alpedrinha, figura ímpar do panteão queiroziano, mais que não seja por aquela sua sábia e monumental saída, que em mim habitava sem lhe recordar a autoria (“Tu já estiveste em Jerusálem, Alpedrinha?“, perguntou-lhe o Teodorico, “Não senhor, mas sei … Pior que Braga“, algo que talvez tenha acicatado aquele Luiz Pacheco). Chegava-se pois, no mesmo fim-de-semana da ministra no México, o bom do Teodorico às terras da Esfinge e, lá de tão longe, responde à sáfica governante: “E se o cavalheiro trouxesse por aí algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a política.”, atreveu-se o Alpedrinha. “Concedi-lhe generosamente todos os “Jornais de Notícias” que embrulhavam os meus botins“, logo concedeu o malandrote.

Isto nem em Cuernavaca lá iria. Quanto mais em Guadalajara.

 

O PS É QUE FEZ, O PS É QUE FAZ!

saramago

Num dia é o apelo da esquerda socialista à perseguição e expulsão de imigrantes que não votam para os países deles segundo os “nossos” princípios e valores – nenhum dos deles, nenhum líder, jornalista, deputado, bloguista-facebuqueiro, sempre tão ciosos da sua “superioridade moral”, protesta com o desaforo destas aspirantes a modelos (até vejo antropólogos doutorados a convocar essa mesma perseguição, os democratas …, nuns “que fazem eles neste país”, “como é que os vamos tirar daqui”, aos brasileiros residentes). Não se lê uma única pessoa da chamada esquerda, do arco “geringonça” a denunciar, contestar esta vilania. Um único.

No dia seguinte é esta apropriação necrófaga.

Em Moçambique numa campanha os propagandistas inventaram o belo chavão “A Frelimo é que fez, a Frelimo é que faz”. O PS também se apropriou disso, virou-o “O PS É QUE FEZ, O PS É QUE FAZ!”. Até o morto Saramago …

O geringoncismo é mesmo isto. Execrável

Os pirilampos

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Há alguns dias uma consóror bloguista enviou-me esta palestra muito interessante, longa mas bem animada, com sageza e humor. Forma de olhar um Brasil(eiro) relevante, neste dia, nesta era, tão peculiares. Nada tendo a ver aproveito para deixar duas impressões, uma sobre o PSD (partido ao qual me liga nele ter votado em 1999) e outra sobre o não-PSD.

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O Prémio Camões

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O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político). Mostra-o o “costume”, que é orientação explícita, da alternância anual luso-brasileira da premiação (e não me venham com coisas, que conheço um punhado de ex-jurados, e isto é uma verdade factual). Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica. O que o pode indignificar é o que os Estados podem fazer dele. Morreu, “de morte matada”, nessa sua condição política, no ano passado com o silêncio português (é um prémio luso-brasileiro) aquando do inaceitável discurso do ministro da cultura brasileiro quando o gigante Nassar o recebeu. Estou a falar de política e de representação do Estado: o ministro brasileiro, um fascistóide agredindo de modo inaceitável o premiado, também reclamou (como se en passant) para o seu Estado o monopólio da premiação. A apatetada representação portuguesa calou-se. E o “campo literário” português nem tugiu nem mugiu. Não veio mal ao mundo. Mas mostrou a tralha em questão, a do prémio e a das gentes do tal “campo”. Adiante.

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Prenda de Natal

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Estamos já na época das prendas. Aqui fica uma sugestão: tem(ns) um parente/amigo que é algo dado à leitura? Dê(á)-lhe o “Almas Mortas” de Gógol. É uma delícia. E uma obra-prima. Características que nem sempre vão juntas, que há obras-primas que se vivem com labor. Mas esta nada disso. E isso é importante nestas coisas das ofertas. Entenda-se, o tal parente/amigo a ofertar não precisa de ser um “grande leitor”. Pois a prosa é fabulosa, o texto jovial, e um ir até ao osso da “sociedade russa de XIX” (entenda-se, da humanidade). Um tipo (re)lê exaltado de prazer. E um (quase) constante sorriso na cara, que é o da felicidade na leitura.

A tradução é de Nina e Filipe Guerra (ele um ex-bloguista e também facebuquista). E esta leva de livros é uma reedição (ou reimpressão, nunca sei como definir). O preço em livraria é de 20 euros (o que para a maioria de nós implica que o ofertado tem que ser bastante próximo). Mas o texto vale mais do que qualquer garrafa de uísque ou aguardente ou pacote de chocolate ou perfume, garanto. Comprado na internet vai a 15 euros – e sobrarão os 5 euros para as azevias.

Nota: atenção aos mais relapsos à poesia. Se o título na capa diz “Poema” o texto é em prosa, que isso não vos afaste da compra/leitura. (Eu, vil censor, informei as senhoras livreiras da Bertrand que talvez fosse melhor, comercialmente falando, tirar o livro da estante “Poesia” e deixá-lo no de “Literatura Estrangeira” – não vou comentar sobre estas etiquetas. O que elas se aprestaram a fazer. Não estou certo de que o escritor aplaudisse o acto. Mas espero que o editor tenha apreciado. Ou, pelo menos, o seu contabilista).

Sobre o “Ponta Gea” …

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Volto ao “Ponta Gea”, o recente livro de João Paulo Borges Coelho. Fartei-me de o recomendar – na minha conta na Academia.edu (o texto está aqui), no blog, na goodreads, no facebook, boca-a-boca, blog, entre-uísques, twitter, na via das 2M, email, acho-o belíssimo. Acontece que tanto em comentário no blog como em mensagens privadas sou informado que o livro está inexistente nas livrarias portuguesas – dito “esgotado”, até nas pesquisas na internet (que só os leitores mais sequiosos fazem), quanto mais nas estantes das livrarias (escaparates já nem digo, que o homem é pouco “exótico” para ser afixado). Ou seja, o “Ponta Gea” – que comprei na Bertrand dos Olivais, pela nada módica quantia de 20 euros – está “desaparecido em acção”. Eu a aborrecer as pessoas com a minha “sugestão” e para nada. Peço desculpa pelo incómodo.

Entretanto, se alguém tiver tempo e paciência, poder-me-á explicar que raio de estratégia de comercialização de livros é esta a da Editorial Caminho? A deixar desaparecer um livro destes, que publicou há tão pouco tempo?

Adenda:

Já referi o que entendo ser o assassinato deste livro por parte da sua editora, a Caminho. O livro foi apresentado num congresso sobre o seu autor em Julho e julgo que colocado à venda em Portugal em Setembro. Como muito dele gostei divulguei-o através de várias redes sociais. Recebi várias questões sobre onde seria possível adquiri-lo, dado que inexistente nas livrarias. E porque nem sequer aparece nas pesquisas na internet (o que só uma escassa minoria dos leitores faz). Em Setembro consegui encontrar um exemplar numa Bertrand (cerca de 20 euros). Agora o meu FB-amigo Luís Serpa avisa que o comprou, em primeira mão, na Voz do Operário, por 3,5 euros. Ou seja, já está transformado em mono.

Esta forma pateta e incompetente da editora tratar o livro terá várias explicações. O editor já me disse que o “João Paulo Borges Coelho não vende” – talvez não venda muito, mas assim não vende mesmo. Eu tenho outra explicação, que talvez seja uma teoria da conspiração. Mas considero que é propositado: à ampla estratégia comercial da Caminho (Leya) nunca conveio (e cada vez convém menos) que o JPBC seja um autor mais lido e reconhecido. Só não vê quem não … lê. Penso-o há mais de uma década. E não vale a pena dizer mais nada.