O Prémio Camões

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O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político). Mostra-o o “costume”, que é orientação explícita, da alternância anual luso-brasileira da premiação (e não me venham com coisas, que conheço um punhado de ex-jurados, e isto é uma verdade factual). Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica. O que o pode indignificar é o que os Estados podem fazer dele. Morreu, “de morte matada”, nessa sua condição política, no ano passado com o silêncio português (é um prémio luso-brasileiro) aquando do inaceitável discurso do ministro da cultura brasileiro quando o gigante Nassar o recebeu. Estou a falar de política e de representação do Estado: o ministro brasileiro, um fascistóide agredindo de modo inaceitável o premiado, também reclamou (como se en passant) para o seu Estado o monopólio da premiação. A apatetada representação portuguesa calou-se. E o “campo literário” português nem tugiu nem mugiu. Não veio mal ao mundo. Mas mostrou a tralha em questão, a do prémio e a das gentes do tal “campo”. Adiante.

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Prenda de Natal

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Estamos já na época das prendas. Aqui fica uma sugestão: tem(ns) um parente/amigo que é algo dado à leitura? Dê(á)-lhe o “Almas Mortas” de Gógol. É uma delícia. E uma obra-prima. Características que nem sempre vão juntas, que há obras-primas que se vivem com labor. Mas esta nada disso. E isso é importante nestas coisas das ofertas. Entenda-se, o tal parente/amigo a ofertar não precisa de ser um “grande leitor”. Pois a prosa é fabulosa, o texto jovial, e um ir até ao osso da “sociedade russa de XIX” (entenda-se, da humanidade). Um tipo (re)lê exaltado de prazer. E um (quase) constante sorriso na cara, que é o da felicidade na leitura.

A tradução é de Nina e Filipe Guerra (ele um ex-bloguista e também facebuquista). E esta leva de livros é uma reedição (ou reimpressão, nunca sei como definir). O preço em livraria é de 20 euros (o que para a maioria de nós implica que o ofertado tem que ser bastante próximo). Mas o texto vale mais do que qualquer garrafa de uísque ou aguardente ou pacote de chocolate ou perfume, garanto. Comprado na internet vai a 15 euros – e sobrarão os 5 euros para as azevias.

Nota: atenção aos mais relapsos à poesia. Se o título na capa diz “Poema” o texto é em prosa, que isso não vos afaste da compra/leitura. (Eu, vil censor, informei as senhoras livreiras da Bertrand que talvez fosse melhor, comercialmente falando, tirar o livro da estante “Poesia” e deixá-lo no de “Literatura Estrangeira” – não vou comentar sobre estas etiquetas. O que elas se aprestaram a fazer. Não estou certo de que o escritor aplaudisse o acto. Mas espero que o editor tenha apreciado. Ou, pelo menos, o seu contabilista).

Sobre o “Ponta Gea” …

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Volto ao “Ponta Gea”, o recente livro de João Paulo Borges Coelho. Fartei-me de o recomendar – na minha conta na Academia.edu (o texto está aqui), no blog, na goodreads, no facebook, boca-a-boca, blog, entre-uísques, twitter, na via das 2M, email, acho-o belíssimo. Acontece que tanto em comentário no blog como em mensagens privadas sou informado que o livro está inexistente nas livrarias portuguesas – dito “esgotado”, até nas pesquisas na internet (que só os leitores mais sequiosos fazem), quanto mais nas estantes das livrarias (escaparates já nem digo, que o homem é pouco “exótico” para ser afixado). Ou seja, o “Ponta Gea” – que comprei na Bertrand dos Olivais, pela nada módica quantia de 20 euros – está “desaparecido em acção”. Eu a aborrecer as pessoas com a minha “sugestão” e para nada. Peço desculpa pelo incómodo.

Entretanto, se alguém tiver tempo e paciência, poder-me-á explicar que raio de estratégia de comercialização de livros é esta a da Editorial Caminho? A deixar desaparecer um livro destes, que publicou há tão pouco tempo?

Adenda:

Já referi o que entendo ser o assassinato deste livro por parte da sua editora, a Caminho. O livro foi apresentado num congresso sobre o seu autor em Julho e julgo que colocado à venda em Portugal em Setembro. Como muito dele gostei divulguei-o através de várias redes sociais. Recebi várias questões sobre onde seria possível adquiri-lo, dado que inexistente nas livrarias. E porque nem sequer aparece nas pesquisas na internet (o que só uma escassa minoria dos leitores faz). Em Setembro consegui encontrar um exemplar numa Bertrand (cerca de 20 euros). Agora o meu FB-amigo Luís Serpa avisa que o comprou, em primeira mão, na Voz do Operário, por 3,5 euros. Ou seja, já está transformado em mono.

Esta forma pateta e incompetente da editora tratar o livro terá várias explicações. O editor já me disse que o “João Paulo Borges Coelho não vende” – talvez não venda muito, mas assim não vende mesmo. Eu tenho outra explicação, que talvez seja uma teoria da conspiração. Mas considero que é propositado: à ampla estratégia comercial da Caminho (Leya) nunca conveio (e cada vez convém menos) que o JPBC seja um autor mais lido e reconhecido. Só não vê quem não … lê. Penso-o há mais de uma década. E não vale a pena dizer mais nada.

Ponta Gea

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(lendo o “Ponta Gea” na Ilha de Moçambique)

João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, Caminho, 2017

Tornámos a vida num bazar de opiniões, frenético, feito do tropel dos nossos egos, tonitruantes, como se nós, assim gritados, algo fossemos verdadeiramente. Nisso se vão esgarçando os adjectivos, nesta nossa escalada de superlativos, sinónimos ou antónimos, que nos valham para sermos ouvidos, numa dança vã do exigir atenção, um patético xigubo de vaidades, digo-o já que em Moçambique.

Veio-me isto a propósito deste “Ponta Gea”, de João Paulo Borges Coelho, o seu 12º livro em registo ficcional, seu percurso começado em 2003 com o, para mim, deslumbrante “As Duas Sombras do Rio”. O qual fora antecedido pelas três bandas desenhadas publicadas na década de 1980. Pois agora, diante deste último livro, ficou-me a dúvida, esta de como o definir, adjectivar? Pois é óptimo e, de facto, opinião mais sonora é impossível, e este termo deveria ser o suficiente para convocar a atenção. E, como tal, assim fico: “Ponta Gea” é um livro óptimo.

O formato do livro é o de memórias, entre o rapazinho virgem de mangal que nele se aventura, descobrindo-o e a si próprio, e o finalista liceal, aprestando-se a partir para sempre daquele local que lhe foi infância e que lhe virá a ser o país estrangeiro e para sempre inatingível, esse que sempre é o passado.

Ponta Gea é um “bairro”, até mítico, da Beira colonial, e é do ambiente dessa cidade que emanam os quinze episódios, entrelaçados entre eles e com tantos outros que neles se invocam, do que consiste o livro. Neles ressurge a Beira – e um pouco do meridiano entre Sofala e Manica, até aquela Gondola – do ocaso colonial, entre 50s e o início de 70s, mas sem grama do tão recorrente saudosismo ou exotismo que polui a Africana, essa espécie “literária” muito em voga. O que “Ponta Gea” traz é uma Beira cosmopolita, coito de misteriosas personagens, uma vasta galeria de dançarinas eróticas e artistas circenses transoceânicos, pugilistas advindos do longínquo hinterland, prostitutas sem rumo, mágicos e sábios de vão de escada, assassinos e dementes, ladrões célebres e aristocratas ou seus avatares asiáticos. O que nele se desvenda é ter sido aquela Beira centro e cerne de enigmas até insondáveis, dos anónimos falecimentos no mangal às causas do assassinato do primeiro-ministro sul-africano, culminando na eterna questão do navio “Angoche”, abandonado no alto mar por uma tripulação para sempre desaparecida, do canal de Moçambique fazendo vedadeiro “triângulo das Bermudas”.

A escrita-ritmo do João Paulo Borges Coelho é aqui gloriosa: e se é deslumbrante o como narra a descoberta infantil do mangal é até comovente a página e meia dedicada à aprendizagem da degustação de sadza (xima, uchua, como se preferir), a massa de milho, com camarão frito, lição de mundo e disso do ser homem, não só mas também muito através do palato e da aceitação do protocolo alheio. Assim lição de cultura, acto de formação, no nada simples molhar os dedos na massa, misturando-a, de modo até voraz, com o camarãozinho.

Os ramos deste “Ponta Gea” são muitos, e mostram diálogos. Lendo-o é impossível não lembrar Sebald, e não só pelo meneio desta “assemblage” literária d’agora, na utilização de imagens alusivas – algo que jpbc já havia feito, mas restrito a imagens escritas, no seu “O Olho de Hertzog”. Mas não é só isso que nos avisa do tempero sebaldista. Pois a este notamo-lo naquilo que é já usual no autor, e que, de facto, lhe foi sempre projecto, a híbrida mistura das memórias próprias, da memória social do país, da vontade ficcional, da historiografia – de que é ele próprio profissional -, da autobiografia. É esta mescla, entre ficção até onírica e “memórias”, cerzindo os factos com a ficção, que aqui surge acima do que já havia feito nos livros anteriores. E é assim que o autor prossegue o que sempre persegue, aquilo do inventar a História que realmente foi, que aprendemos a cultivar com Borges.

Mas estas histórias vistas pelo rapazinho, ágil, sonhador curioso, até atrevido, cruzando as misteriosas vielas beirenses, atento aos seus esconsos habitantes, e até deles inquiridor, aparecem como um “romance de formação”, qual primeira parte do grande bildungsroman que talvez o autor nunca venha a completar. Pois tarefa porventura demasiado dolorosa, na apneia moral que exigiria, no desinteresse que a exagerada vizinhança, não coada pelo passar das décadas, implicará. O que não é defeito, nem em nada apouca este “Ponta Gea”. Pois, bem lá no fundo, o que ele mostra é um Tom Sawyer renascido (um Tom Sawyer, não um Huck Finn), encantado, cuja prodigiosa imaginação disseca o que aconteceu e o estabelece como foi, tal e qual.

Repito-me, “Ponta Gea” é um livro óptimo. Desde há muito que me surpreende como é que João Paulo Borges Coelho não é um escritor muito mais lido, cá em Moçambique e em Portugal, onde também é publicado. Durante anos lamentei-o. Já não. Egoísta até me apraz que não sejamos muitos os que lhe amamos os livros. Pois assim percorremos a “Beira”, suas vielas, arrabaldes e até avenidas e, cuidadosos, trocamos entre nós, só entre nós, seus leitores apaixonados, os nossos sinais de iniciados. E os outros, ileitores, seguem no seu mundo. Algo mais pobres do que nós … E tão mais sós.