Carlos Gil

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Em 2003, no início da era blogal, eu vivia em Moçambique e abri o ma-schamba. Nos anos imediatos não houve bloguismo no país e as minhas interacções foram com leitores e blogs portugueses – os bloguistas muito se interligavam (os célebres “links” que eram uma espécie de “likes” avant la lettre, dos quais se recebia aviso através do então célebre sistema technorati) e nisso qualquer coisa se congregava, havendo até quem falasse de algo quase orgânico, uma “blogosfera”.

Nessas minhas interacções surgiu-me bastante gente oriunda de África, principalmente de Moçambique, os sempre chamados (quantas vezes malevolamente) “retornados”. Em diálogos que eram, por vezes, muito agrestes, com leitores abrasivos, invectivando o não me dedicar eu à crítica (até radical) do país e, nisso subjacente, à afirmação da ilegitimidade ontológica daquela independência. Trinta anos haviam passado sobre a descolonização e o apaziguamento interior de alguns sectores da vida portuguesa, amputados no processo descolonizador e descuidados e até desprezados pela sociedade portuguesa, não havia ocorrido. E julgo que não terá acontecido neste tempo que passou.

Mas havia também outro tipo de diálogos. Com gente oriunda de Moçambique, com muito interesse num país que, de facto, desconheciam, muito saudosa da sua juventude e meninice (como tantos de nós o somos), assim saudosa do país mas nisso solidária e, ainda que com olhar atento, preocupado e até crítico, sem denotarem a amargura ressentida de tantos outros. Alguns bloguistas nisso também, em interessante registo muito memorialista ainda que a ele não se limitando: e, entre vários, lembro o Chora que Logo Bebes e o Chuinga (que foi apagado). Este Chuinga era de Isabella Oliveira que havia publicado um muito interessante livro de memórias, Memória & Utopia, Companhia Ilimitada, sobre o qual até escrevi um texto um pouco mais longo.

E havia o Carlos Gil, claro, no seu Xicuembo (que teve várias versões e até outro nome). Que se estabeleceu como companheiro blogal do meu ma-schamba, leitor atento, comentador. E depois também como correspondente, pois ao longo dos anos fomos trocando mensagens, fosse ele estar preocupado com alguma notícia da “terra” a que eu não aludira, fosse querer saber como passara eu por algumas das agruras noticiadas (cheias, manifestações, vagas de crimes). E mesmo do que se passava na minha cabeça, alguns indícios de menor “boa onda” minha que ele teria detectado num ou outro postal. Trocámos assim algumas preocupações pessoais. Um dia, eu mal-disposto com aquilo dos 40 anos cruzados, a perceber que, de facto, “já fora”, decidi fechar o blog e despedi-me dos leitores. O tal technorati foi lesto a informar-me, o Gil fizera-me um poema, lindo – neste cadinho de blogs mudados de endereço não o consigo encontrar, e tenho pena. Fiquei mesmo comovido – aquilo de um tipo escrever e perceber que pelo menos há uma pessoa a quem verdadeiramente interessa o que bota. Tanto que lhe deixei a expressão que me viera à cabeça ao lê-lo: “deixaste-me com uma papaia na garganta“. A qual viria a usar passada um década: na véspera de partir de Moçambique, após 18 anos, escrevi as minhas despedidas no meu mural de Facebook. Um antigo aluno ali logo me perguntou “como é partir depois de tantos anos num país onde se foi tão feliz?” e eu, diante de tamanha candura juvenil, que só essa permitiria uma pergunta pública como aquela,  lembrei-me do Gil e respondi-lhe “é ter uma papaia na garganta“.

Ao longo dos anos, em blog e no Facebook, fomos mantendo o contacto. Lá por 2007, 2008, eu comecei a botar mais sobre Portugal, um pouco desaustinado pelo que ia lendo e ouvindo sobre o país, e ainda mais pelo que amigos, de visita a Maputo ou nas minhas idas à terra, me iam contando dos interstícios do consulado de então. A isso, ao meu perorar político, o Gil nem ligava, deveria achar-me um bocado para o reaccionário … Mas  botando eu sobre Moçambique lá aparecia ele – às vezes deixando sinal (em comentários ou nos laiques-FB) em textos até já algo antigos. E eu a pensar “o Gil passou por cá”. E chegámos a conhecer-nos pessoalmente. Há cerca de uma década eu estava em Portugal aquando da apresentação de um dos livros do João Paulo Borges Coelho, e desafiei-o a aparecer. Pouca gente compareceu, naquele desamparo tão típico dessas sessões em Lisboa, e quase toda oriunda de Moçambique. Depois fomos jantar ao Cais do Sodré, autor e parte dos presentes, na maioria gente de um núcleo bem conhecido que tem uma tertúlia no British Bar, “moçambicanos” da geração do Gil mas que ele (tal como eu) desconhecia. Jantámos juntos, algo excêntricos àquele meio. O Gil adorou o dia, disse-me, eu a perceber o quanto estava ele a ser aspergido pelos ares do Índico.

xicuembo

Antes ele publicara (e com imenso prazer o fizera) um muito bonito livro das suas memórias laurentinas, o Xicuembo (um termo com vários sentidos mas que pode ser traduzido como Espírito). O Gil fora rebelde em jovem, radical existencial por assim dizer, como tantos da geração dele (“born in the 50s”) e da minha. E o seu livro, imensamente sensível – como o seu autor -, dá um quadro único das vivências da Lourenço Marques tardo-colonial, sem qualquer veleidade de ser tratado historiográfico ou sociológico, ajuste de contas com regimes ou processos. É o quis ser, uma memória especial, e muito rica. Um dia, em Maputo, fiz uma pequena nota sobre o livro, e reproduzo parte. Porque resume bem o quanto sempre gostei do olhar do Gil, da camaradagem com o país onde nasceu e cresceu:

“São memórias daqui e não só, uma imensidão de saudades daqui, uma coisa que em blog e no livro sempre parece a entreolhar um qualquer outro talvez: “Para mim, o Aeroporto de Mavalane foi só uma porta de saída, atrás dela ficou uma vida que podia ter sido talvez assim, e hoje é, naturalmente, assado”. (116) Ler o Gil, e para além do encanto de ver como as vezes aparece mesmo nu lá no meio das páginas, é ler essas saudades de um outro tempo moçambicano, saudades pesadas até. Mas nunca saudosistas, um olhar para trás mas sem lá querer estar, sem reclamar por terem os tempos mudado: “Nunca ouvi falar num negro milionário no período colonial. Agora, parece que os há aos pontapés e, por infeliz norma, aceito que a regra é obtida com percursos escuros nesse enriquecimento pessoal, em detrimento dum país que já foi o mais pobre do mundo. Só que, antes, não se conhecia ou ouvia falar de algum. Zero. Classe média? Só se for média lá para o muito baixo, a roçar o nível do desenrascanso diário. E isto na cidade e sua periferia, pois não recordo antes do final de 1974 qualquer negro a viver nas “Polanas” das cidades de Moçambique. (…) Tanta coisa que estava errada e só em 25 de Abril de 1974 se tornou visível para uma certa população que olhava, no seu global, só de soslaio para as injustiças que, sob esses olhos, corriam a céu aberto, Eu, inclusive.” (76-78). “Todos nós, hemisfério norte europeu, branco e rico, devemos algo muito importante a África, negra e pobre. Durante séculos foi o nosso quintal de férias e banco estrangeiro, a Europa possui obrigações que secular incúria gerou, e não pode olvidá-las” (121).

Há algum tempo o Gil anunciou que estava doente. O meu companheiro blogal morreu esta semana. Um tipo sem peneiras algumas. Com evidente prazer nos outros, no “estar junto”, no partilhar ideias e sensações. Um homem bom. Sei que às vezes diante desta afirmação se pensa que se diz isso porque não há mais nada a apontar. Bem pelo contrário, é isso que realmente conta. Um homem morrer e deixar a memória de ter sido bom.

Cumpriste, Gil.

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Aventino Teixeira

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Sabia que era por este mês a “efeméride”, e ainda mais que ele rugiria imprecações se lhe falassem em “efemérides” a seu respeito. Confirmo agora, no passado 10 de Abril cumpriu-se já uma década que morreu Aventino Teixeira, amigo inolvidável, verve única, coração enorme. Deixa saudades, daquelas que vão crescendo pela falta que faz. Deixou um baú de textos a merecerem atenção, não sei do seu destino. E uma história de vida por contar, haja quem a narre. E um coro de coirões (como ele dizia), injustamente dele sobreviventes. Faz-me falta, na sua verve ácida, implacável, até azeda. A desnudar(-nos). 

Aventino por Sam (1)

Recordo duas homenagens de seus amigos. A de Sam, ali vizinho pois durante décadas tendo o seu estúdio nas imediações das nossas casas,  coisa tão genuína, apanhando a sua tão típica auto-depreciação sarcástica; e a de Jacinto Lucas Pires, num belíssimo e certeiro texto quando o “coronel” (como sempre o tratei) “Tininho” (como tantos dos nossos lhe chamavam) findou.

““Morreu o coronel Aventino Teixeira.” “Morreu o Aventino.” Lê-se e não se percebe, claro. Frases absurdas, onde sujeito e predicado não batem certo. E, não, não é só por nos parecer sempre injusta a morte de um amigo. É que o Aventino era mesmo diferente. Vejo-o na sua magreza de décadas, com aquele bigode mítico, o copo de uísque, e as palavras saindo, velozes, ferozes (e no entanto estranhamente calmas), de uma boca escondida; ideias, personagens, anedotas, citações, tudo baralhado num caldeirão genial. O Aventino seria o “militar do 25 de Abril e do PREC” de que os jornais falaram no dia da sua morte, mas era também, para lá disso, o caso raro de uma pessoa que morava no presente do indicativo. Alguém que, desconfiando das posteridades, apostava tudo no aqui-e-agora, sempre sem cobrar favores ao tempo que passou, sempre com o humor de quem ama a vida a todo o momento. Por isso, pensá-lo assim em modo pretérito surge, mais do que como uma violência, como um erro, um terrível erro de concordância. “Morreu o Aventino.” Que frase mais sem nexo, caramba.Um homem que não era dos dias de hoje, é certo; exactamente o oposto do formatado-engravatado da nossa indiferença, ele que terá sido um dos fundadores do “politicamente incorrecto” português. E, também, é verdade, alguém a quem não era indiferente a memória, na qualidade dupla de personagem e de narrador. Pelo contrário, trata-se do exemplo refrescante de um pensador sem cátedra nem sistema que “fazia História” pela via pacífica de um “fazer histórias”. Conheci-o como amigo dos meus pais, enquanto visita lá de casa, a visita dos jantares mais tardios e sonoros. Para a criança que eu era, o Aventino era todo um espectáculo. Uma linguagem fascinante, que misturava gíria proibida e culta invenção, uns olhos de brilho malandro, e um tu-cá-tu-lá comigo que eu recebia como uma honra. Desde então me habituei a admirar as tiradas fantásticas daquele espírito inédito e inimitável. Descrevê-lo é, pois, um exercício de literatura dos mais utópicos. A frase conhecida afirma que era o “mais civil dos militares”, mas a verdade é que ele era também o “mais à paisana dos civis”. Uma espécie única de subversivo sentimental, conspirador transparentíssimo, revolucionário sem nostalgia, manso boémio, conversador de horas extraordinárias. Às vezes, para o provocar, eu pegava na personagem de uma canção do Vitorino e chamava-lhe Coronel Sensível. Mas, coisa rara, ele aí levava a sério e dizia que não, não, ele não era esse. E depois ria-se, “Coronel Sensível…” Fará muita falta a sua alegria crítica, a sua alfinetada permanente, a sua graça. Lembrando isso, tentemos sorrir, apesar de tudo. Se houver céu, o nosso coronel já arrastou o São Pedro para um Procópio improvisado numa qualquer nuvem mais escondida, tenho a certeza. E, se não houver nada, o Aventino já tratou de inventar alguma coisa, não haja dúvidas.”

Agora, coronel, vou ali beber um uísque à sua. Ou mais do que um, para lhe fazer justiça.

 

Aznavour e o rap

Ainda há dias me surpreendi ao ver um cartaz (dos muitos espalhados na cidade) anunciando um seu concerto aqui durante Outubro – um Matusalem em palco. Morreu agora. Cantou viveu até aos 94. Grande vida. E, como aqui se vê, sempre pronto para a crista da onda …

Hawking

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O blaseísmo é a pior infecção nacional. E não há antibiótico que lhe chegue.

Filho de engenheiro fui ofertado de livros infanto-juvenis de sensibilização para as “ciências naturais” e para as tecnologias. E tive a casa sempre cheia de livros de divulgação científica e de história das ciências, edições francesas as mais antigas, traduções nacionais depois (em particular após a explosão da Gradiva). Entre muitos outros li, em pós-puto, cada um à sua maneira, Reeves, Sagan, Jastrow. Estuporado por um sistema de ensino medíocre (e corporativo, já agora) fui arrancado à matemática e adjacentes com 14 anos (e os especialistas passeiam-se por aí, sem serem lapidados na rua). Quando chegou a “Breve História do Tempo” de Hawking li e, como tantos dos (bocados dos) outros livros do “género”, não percebi. Muito por impaciência, desinteligente, presumo. E muito por me faltarem os instrumentos. Ficou-me a imagem do autor (que homem!) e a memória do impacto do livro. E, muito mais do que isso, ficou-me a ideia (já a tinha, e continuei a comprová-la depois) de que há coisas que têm que me ser explicadas, que não chego lá nem sozinho nem pela leitura. Como qualquer de nós, vulgaríssimo de Lineu, respeitando (idólatra ateu) os que algo mais têm.

Hawking morreu agora. Leio que se dedicava a alguns tópicos surpreendentes: à análise de como levar a selecção inglesa de futebol ao título mundial (uma impossibilidade cosmológica) e de como marcar penaltis com sucesso (uma deriva jocosa? ou uma costela de alquimista a la Newton?). E, ainda mais surpreendente para mim, que reflectia ele sobre o pré-Big Bang: pois eu julgava que a reflexão actual se detinha no intervalo 1 elevado a -37 ao 1 elevado a -42 de segundo após o estouro-mor (se calhar estou errado nos números, mas ideia geral é esta), que o antes disso se remetia para uma metafísica. Ou seja, não só não percebi o velho livro como não sei o até onde a astrofísica ou cosmologia andam a fazer. Tenho assim, cinquentão, uma boçal noção sobre a ciência actual e a imagem do universo que constitui. Isso não me impediu de sentir a morte do enorme intelectual (ok, ok, deve-se dizer “cientista”) e do tão peculiar homem: um ícone.

Ao que leio, em tanta gente botando nas redes sociais, “parece mal” referir o assunto, porque lamentar/assinalar a morte de Hawking é como se reclamar a compreensão do seu trabalho e implicações. Exprimir um “luto” neste caso é um “armar aos cucos”, como antes se dizia. É engraçado, pois quando morre uma actriz, daquelas celebrizadas pelo voluptuoso com que se apresentavam em jovens, muitos (e até muitas) daqueles que vão incapazes de colaborar num orgasmo feminino surgem a lamentar o facto. Se vai um actor “sério” gente incapaz de falar em público condói-se. Se se morre um grande maestro ou uma qualquer Lady Gaga, nós-gente incapaz de ler uma pauta ou de soltar um trinado, assinalamos a perda . Etc. E em nenhum destes casos há a acusação de nos estarmos “a armar”. Podemos respeitar, idolatrar até, sem que nos seja exigido perceber o conteúdo e as implicações do trabalho alheio, o “como”, “para quê” e, acima de tudo, “até onde” desses trabalhos alheios.

Mas agora, porque é “ciência”, coisa “profunda” e até mais “digna”, saem à rua os “blaseístas” a gozarem com a admiração que nós-vulgares temos. Não tanto porque eles “percebem”. Mas acima de tudo porque assim querem dizer que têm o estatuto firmado, reconhecido, “não se armam aos cucos”, pois disso não precisam. Entenda-se bem, o “cagão”, o “armado aos cucos” é o blasé. A ignorância, estatutariamente interesseira e, afinal, nada entediada, é este blaseísmo. Tão, mas tão, lisboeta. E não há antibiótico que lhe chegue. Como titulava o escritor, “não se pode exterminá-los”.

Zena Bacar

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Morreu a voz canónica do norte de Moçambique, a diva da Ilha se se quiser, ainda que nunca assim dita, pois muito mais a diva vinda da Ilha, a sempre voz dos Eyuphuro.  É assim um muito, enorme, do norte de Moçambique que enrouquece. Últimos tempos de vida difíceis, lia-se na imprensa. Escassez de registos musicais, o que ainda mais se nota nos raros filmes disponíveis na internet. Textos quase nenhuns. Fica a voz e o estar. Que foram enormes.


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Zé Pedro, Homem do Leme

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(É um postal escrito para o És a Nossa Fé, blog sportinguista).

Ontem ao meio da tarde vou ao café de sempre, aqui no bairro. Dois amigos, daqueles daquele antes, logo me chamam à mesa. O Paulo Morisson, que no início dos 80s andou anos com os Xutos por todo o país, diz-me que têm uma má notícia, e logo ma dá, isto de que “o Zé Pedro morreu”. Surpreendo-me, que no último ano tenho estado encerrado em mim, lá num algures longe, e estive agora um mês e meio em Moçambique, voltei a semana passada, não soube sequer do espectáculo do Coliseu (ao qual teria ido, de certeza). Abato, ali na mesa do café. Não só como quando morrem os meus parcos ícones, o Lou Reed e talvez mais nenhum, a deixarem-me (ainda mais) sozinho. Mas porque agora tem sido uma revoada de mortos próximos, gente querida, conhecida, amigos, e há tão pouco ainda o João, meu irmão de pai e mãe diferentes, que não há maneira de parar de o chorar, (es)corram ou não os uísques. E também porque o Zé Pedro se ícone era próximo, aqui dos Olivais (ainda que do Norte), do Bairro Alto dos 1980s. Assim ele não divino mas herói, semi-divino, pois meio-homem, encontrável. E, mais do que tudo, terráqueo porque Zé Pedro é Xutos, aquele intangível afinal tangível que ecoou o “esse frio surdo / … que te envolve …”, que ouviu “berras às bestas / que te envolvem” e soube que “todas as tuas explosões / redundam em silêncio” avisando que “a vida é sempre a perder“, porque “nunca dei um passo que fosse o correcto / nunca fiz nada que batesse certo“. Estou agora, já velho, a cumprir um texto, um meneio serôdio, nele meti um capítulo – que me dizem para cortar, que desajustado, mas não posso, que perderei todo o sentido – de propósito para me narrar/justificar numa almadia atascada no Zambeze, entre crocodilos, a trautear “e mais que uma onda, mais que uma maré / tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé / mas, vogando à vontade, rompendo a saudade / vai quem já nada teme, vai o homem do leme“, o mais que se foda! que já me assomou na vida, e muitos, tantos, já foram. Por tudo isso, abato, frágil, velho, ali na mesa do café, este mesmo de onde o Driol partiu há semanas, e exactamente do mesmo, e a isto já o disse. O Paulo, e é natural que o faça, comovido que está, arranca com umas memórias do início do on the road dos Xutos. O Chico recebe notas no telemóvel, a notícia já é pública. Eu ouço um pouco e depois saio, até casa. A lembrar que puto de liceu vi Xutos com os Minas e Armadilhas. E também, um pouco, pois já nem sei bem com que amiga estava, o 1º de Agosto no Rock Rendez-Vous, mas também é certo que me lembro muito pouco de tudo o que passei no RRV, por razões que são mais que óbvias, mas ainda tenho, um pouco ainda, a memória do sentir “É amanhã dia um de Agosto / E tudo em mim, é um fogo posto / Sacola às costas, cantante na mão / Enterro os pés no calor do chão / E há tanto sol pelo caminho / Que sendo um, não me sinto sózinho“. E tantos outros concertos, em Lisboa ou pelo país, até mesmo quando amigos me quiseram, mesmo sendo o puto que eu era, “road manager” – sem imaginarmos então que eu viria mesmo a ser, anos depois, um road manager em versão “mordomo” -, a apanhá-los num qualquer entroncamento ribatejano. E mais tarde, bem mais tarde, em Maputo, eu num abismo laboral, devido aos dementes lisboetas, mas feliz, feliz, pois no meio do desarranjo haviam enviado os Xutos – e no fim do espectáculo na Feira Popular, eu e o peculiar e vistoso Hernâni na primeira fila em X, como então se fazia, entro no camarim e o Kalu “estes gajos não gostam de rock?!“, que o silêncio e a apatia haviam sido gerais, e eu a mentir, a dizer que ali era assim, mas claro que tudo era incompreensível para aquele público e o ZP no sorriso “vi-te na primeira fila“, e eu claro que sim, pois seríamos apenas meia dúzia entre milhares a verdadeiramente ser “Xutos”, naquele rock n’roll. Conheceramo-nos, mesmo, antes, ali numa massada de peixe no Mercado do Peixe, a Isabel Ramos ofertara o peixe, eu as bebidas, o Vitorino cozinhara, a delegação musical, enorme, e os convidados comeram. E acabáramos numa festa em casa da Nice, a Princesa de Pemba, porventura a mulher mais bela que eu conheci, que o Andrea andava pelas Etiópias, feita de propósito para os visitantes. E eu, só ali, abancados a conversar, a perceber que o sorriso do Zé Pedro não era matreiro, era mesmo sorriso. E saltei, para há dois anos, no Sol da Caparica, eu e a minha Carolina, princesa da minha vida, aos 13 anos, juntos aos 30 000 em X e ela, desiludida (repito, aos 13!), “pai, eles não tocaram a Maria”, já ela, também, percebi, vinda do Maputo-Bruxelas, X.

Um postal destes num blog sportinguista, sobre clubes (e futebol)? Porque o Zé Pedro era do Benfica. Como o Kalu (seu companheiro, amigo, mano, camarada), diz, era do Porto, ele fez-se do Benfica, para o picar. Há muitos anos escrevi uma coisa sobre isso. Porque, de facto, os clubes são para isto, o clubismo é para isto. Só para isto, para nos picarmos fazendo-nos manos. E é por isso, até por isto, até por este só isto, mero futebol, que o Zé Pedro é o Homem do Leme. E mal vai quem não o percebe. E não o sente. Ao X.

A “ficarmos sós”

zp

Claro, como muitos (todos?) estou aqui a ouvir “Tudo dos Xutos” – desde as “Homem do Leme”, “Remar, Remar”, “1º de Agosto”, “Circo de Feras” que são as que tenho mais incrustadas, os Xutos a falarem / rockarem o que me ia no X. Mas agora mesmo chego a isto, uma cena que não conhecia. Nem imaginava. Uma delícia, aka, uma g’anda malha. E, raisparta, o “(mais)velho” a aguentar-se no meio daquilo, e de que maneira. O lixado é que “ficamos sós” … mesmo.

Driol

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Estes eram (alguns dos) putos da Bolama, nos finais de 1970s, aqui fotografados nas célebres “escadas dos Pachecos”. A vida apartou alguns mas os outros ficámos manos. Logo nessa época a morte levou-nos o Nuno, tão lindo. E agora, neste 17, décadas passadas, regressou, a malvada. Inesperada, a arrancar-nos o (para nós sempre “puto”) João, assim deixando uma chaga que os meses não saram. E ontem, já esperada, pois ele muito doente há bastante tempo, que tão resistente foi, o Driol.
O Sandro era da “geração acima”, 4-5 anos mais velho. Por isso então a seita dele era outra, esses que a gente conhecia de vista e nome, cobiçando-lhes as motos e as maravilhosas namoradas. Ou pelos irmãos mais novos. Mas, vizinho, também acampava por vezes, e, mais tarde, já nós mais crescidos, ainda mais, já ombreando.
O Drinô (como alguém graffitou em fugaz era de influência do “glamour rock”) era um dos tipos mais idiossincráticos que havia – e tantas décadas passadas ainda dele tenho imensos fogachos: o espeta de moto nas traseiras da minha casa, a que acudi dado o barulho; a dicção peculiar; aquela tão sua casquinada; e, depois, mais tarde, o apreço pela BD; a generosidade da partilha, ainda que muito cuidada, ponderada; o chamar-me, e era o único nisso, Zezélio; e, talvez mais do que tudo, um verdadeiro espanto com coisas do real que, por vezes, eu, jovem boçal, julguei candura mas que era, mesmo, curiosidade e entusiasmo.
Mas o que muito marcou a imagem pública do Driol foi o ter ele sido o fotógrafo “oficial” daquela nossa geração: raros eram os que tinham máquina, ainda menos os que tinham dinheiro para rolos e revelações, apenas dois ou três os que tinham o gosto, mas só ele trazia a tiracolo a paixão de fotografar. Mas na foto acima ele estava do lado de lá, entre – não me recordo quem a tirou, talvez o Vilão, talvez o Pampan.
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[Rua Vila de Fulacunda, Olivais-Sul. Fotografia de João Alexandre Taborda]
E fez um arquivo lindo sobre aquela época de “dias gloriosos”. Nesta foto estava a fotografar os irmãos mais novos da sua geração, os finais dos anos 70s, os putos a descerem (descermos) as ruas nos carrinhos de rolamentos. Em tantas outras tem os outros, as andanças de nós mais-velhos. Voltar ao acervo do Driol é uma delícia, cada um encontra-se e aos seus queridos de então, na beleza da memória. Certo, há uma “patine” afectiva que nos convoca. Mas há outro registo, bem mais alargado, há muito mais nesse legado do Driol. Encontra-se a memória da paisagem urbana como foi: as vestes, os tiques, os penteados, as poses – e quão cinéfilo tudo parece, ainda para mais naquele preto-e-branco. As ruas, os carros, as motos, a arquitectura então tão nova.  Mas é ainda mais do que essa memória social. Pois o Driol teve um olhar, amador mas muito cuidado,  e tão jovem sobre a sua geração naquele tão especial bairro. E assim nessa sua colecção o que nós encontramos não é o retrato daquela geração. É mesmo um auto-retrato, a voz própria de uma “malta”, esses que nos sonhámos “heróicos” naqueles confusos tempos do pós-pós-Abril. E, se calhar, fomos.

Armando Trigo de Abreu

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Aos meus exemplares de três números desta Revista Trimestral de Histórias & Ideias (publicados em 1978 e 1979, na editora Afrontamento) comprei-os em 1984, durante a licenciatura. Dois deles ainda têm a tarja dos preços, 130 escudos o número simples, 150 escudos o número duplo (nº 3/4), e a lápis o preço de venda real, 50$ cada. Demoro-me nestes detalhes para lembrar que já então a revista fora descontinuada, nunca soube se por dificuldades económicas se por outros afazeres dos seus directores, Artur J. Castro Neves e Armando Trigo de Abreu, e se destinava a saldos ou alfarrabistas. É óbvio que eu não tinha então, nem tenho hoje, um verdadeiro conhecimento do panorama intelectual e editorial dos anos da sua publicação, decorrida durante a minha puberdade. Mas logo que as comprei, nos meus 19 anos, fiquei com a ideia que aquilo era muito “à frente” do que seria corrente. A revista era excelente, uma verdadeira mina intelectual, discutindo as temáticas do desenvolvimento num registo alheio às ortodoxias vigorosas de então, tanto a marxista estrita como a matizada social-democrata, pois mesclando as contribuições. E muito actualizada face ao que “lá fora” surgia.

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