Uma entrevista de Vitorino Nemésio

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O meu amigo Luís Alvarães acaba de partilhar estas declarações de Vitorino Nemésio, proferidas na época em que se prepara a sua nomeação para director de O Século, algo que acabou por abortar, talvez também por causa dessa mesma entrevista.

Hoje impera a informação. Informação moderna, caminhando mesmo no sentido da informática, ciência que, a partir da termodinâmica, abarcou o próprio boato como objecto. É uma informação quantificada.” (Vitorino Nemésio, entrevista à revista Flama, 1973).

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Sobre “fake news”

Um belo texto de Nuno Garoupa no novo Polígrafo. Deixo excerto:

(10) Acredito que a única forma de evitar o percurso mais doloroso é reconstruir o “juste milieu” regenerado. Para isso, fact checking é fundamental. Não para proibir as fake news, um perigoso disparate. Mas sim para permitir distinguir aquilo que são interpretações realistas do mundo que nos rodeia das verdades pós-modernas que radicalizam e emocionam. Não acredito na Verdade. Há muitas verdades. Mas há verdades e verdades. Há verdades que fomentam o “agree do disagree”, que facilitam a convivência política, que relembram aos eleitos porque são privilegiados em democracia, que regeneram o contrato social na busca de uma organização social mais adequada para o século XXI. E há verdades que dividem, eliminam, alimentam o ódio, existem apenas pela emoção e para uma visão maniqueísta dos bons (aqueles que partilham essa verdade) e os maus (os outros), promovem a superioridade moral de um grupo em detrimento do resto da sociedade.

A ler, mesmo. E é de acompanhar o tal Polígrafo.

Dentinho

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Conheci o Paulo Dentinho quando recém-chegados a Maputo, e logo ficámos amigos. Éramos jovens, ele recém-pai eu ainda não, ambos fascinados com o país magnífico, tão interessante e esperançoso, embrenhadíssimos no trabalho, ele correspondente da rtp e eu adido cultural, nisso muito cruzando opiniões e informações sobre o quanto se nos deparava, num constante convívio. Chegámos a viajar juntos no país, quando ele dinamizou a visita de um grupo de artistas encabeçados por Júlio Resende, uma magnífica aventura, e dor de cabeça logística na Ilha de Moçambique de então. Por vezes discordávamos sobre o seu trabalho (ele sempre teve a piedade de não criticar o meu), eu já armado (em) comendador a requerer-lhe uma espécie de “posição de Estado” dada a visibilidade da RTP(África) no país. E ele com uma perspectiva diferente – lembro-me de lhe contestar uma reportagem sobre os habitantes do jardim zoológico da Beira, gente que vivia no local e até nas jaulas, por causa da má recepção que havia tido em Maputo, as pessoas tinham-se sentido aviltadas. O Paulo dizia o contrário, e é evidente que tinha razão, pois tanto a vocação como a deontologia jornalísticas convocavam a reportagem, tão denotativa era aquela situação e não seria a “má impressão” que a RTP poderia colher que o iria fazer suspender o trabalho.

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O director do Correio da Manhã sobre Gelson

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(Um postal para o És a Nossa Fé)

No “Record” Octávio Ribeiro, director do “Correio da Manhã”, escreve um texto execrável sobre Gelson. Ou melhor, a propósito de Gelson, pois, de facto, utiliza a situação protagonizada pelo jogador para dissertar, em modo totalmente populista, com requebros de análise sociológica verdadeiramente retirada de uma cloaca mental, de ignorante que é, sobre a escola pública, seus agentes, sobre a sociedade. E, já agora, secundariamente também sobre o Sporting.

É importante lembrar que quando se fazem críticas radicais a comunicação social logo surgem coros (como surgiram há tão pouco tempo, aquando das recentes declarações do presidente sportinguista) que as dizem inadmissíveis, pois anti-democráticas, adversas à liberdade de informação. E outros “contextualizam” (no sentido de “des-culpam”) os constantes desatinos, atribuindo-os às difíceis condições de trabalho, ainda mais nesta era de grandes transformações no mundo da imprensa. E sempre nos recordam a existência de excelência no jornalismo, como se essa fosse capote para a indecência que grassa.

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O Savana

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Semana algo acidentada, esta minha. Deparei-me com esta absurda situação na Universidade Eduardo Mondlane, onde trabalhei durante anos. Fotografei e partilhei no meu mural do facebook, insurgindo-me. E constatei a energia dessa “plataforma” (como se diz) de comunicação, a rapidez das partilhas que possibilita, a cascata de comentários relativos. Os blogs estão ultrapassados, não têm a capacidade de interacção e integração que FB (e talvez o twitter) têm. Tenho pena e nostalgia – não só pelo suporte em si, mais repousado e amigável, ordenável. Mas também porque o texto, mais cuidado e burilado, é antagonizado por esses “suportes” …

Entretanto esta minha fotografia foi seleccionada como “imagem da semana” no jornal “Savana” (sem identificação, uma pilhagem que é uma longa tradição naquele jornal, tanto em imagens como em textos). De qualquer forma o que interessa é que a recuperação do painel de Malangatana no edifício do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane se tornou numa necessidade pública.

Requiem pelo fotojornalismo desportivo?

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Talvez por alguns dos meus grandes amigos serem fotógrafos. Talvez por um deles ser mesmo um fotorepórter desportivo, actividade que desempenhou durante anos … talvez por isso mesmo me surpreenda, e angustie, isto. Sim, a gente sabe que a profissão fotógrafo capotou nos últimos anos – as milhares de milhões de pobres “imagens” avassalaram as algumas Fotografias que os oficiais do ofício sabiam manufacturar.

No campo do futebol, nos campos de futebol, idem. É ver os espectadores, em vez de seguirem o jogo, distraídos com os seus telefones a “filmarem” e “fotografarem” o jogo, produzindo um patético lixo cuja única inocência é não ocupar espaço físico.

Enfim, vem isto a propósito do Sporting-Juventus de anteontem. Aos 69 minutos, vindo lá do canto da baliza, Rui Patrício fez uma defesa extraordinária – não exactamente espectacular mas absolutamente extraordinária, no que mostrou de capacidade técnica de controlo do seu espaço próprio, a baliza e a pequena-área. Fica-me, aos meus 53 anos, como aquela defesa do meu ídolo de sempre, Vítor Damas, no estádio de Wembley ao serviço da selecção nacional.

Procuro no google uma fotografia dessa defesa, várias buscas. Nada encontro a não ser esta imagem televisiva. É possível que alguma haja, mas não a encontrando facilmente, com as tecnologias digitais de agora, mostra bem que a reportagem fotográfica está desmoralizada.

E sigo, no tom do envelhecido, com as saudades dos tempos de António Capela e Nuno Ferrari. Esses que, com outra tecnologia, teriam arrancado, e imortalizado, este voo de Rui Patrício. E assim teriam inundado capas e primeiras páginas de jornais de papel.

“A Bola”

Jornal A Bola - Armazém Leonino

O meu pai António nunca leu um jornal desportivo – lá em casa lia-se o “Século” de manhã e o “Diário de Lisboa” à tarde, e as coisas da bola eram-lhe indiferentes, até incomodativas. Nas férias, em São Martinho do Porto, eu ia-lhe buscar os jornais à papelaria na “rua dos cafés” e ele dava-me dinheiro para que eu também comprasse “A Bola”, que saía 3 vezes por semana. Ele achava piada (ou seja, bem) que eu lesse jornais, eu queria-os pelos nomes do ciclismo, do “Tour” e também da “Vuelta”, com os quais decorávamos as caricas para os “grandes prémios” nas pistas de praia, e também pelas notícias de Deus Nosso Senhor Vítor Damas, do Yazalde, do Nelson, do Marinho e Manaca, do Dinis e Bastos e Alhinho, e depois do Fraguito (sempre) de meias-caídas, também do Carlos Lopes, Aniceto Simões, Nelson Albuquerque, da belíssima Conceição Alves, Jorge Theriaga, Manuel Brito, Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e Livramento e tantos outros.

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