A Sala José Soares Martins (José Capela) no Camões-Maputo

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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1; 2; 3; 4).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

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Sobre o escravismo

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Na semana que passou num belo mural de FB discutiu-se o escravismo a propósito de um artigo publicado na imprensa portuguesa. Há sempre os tipos da sacristia que aparecem nestas alturas mas, para além deles, houve uma boa troca de opiniões. Um queridíssimo amigo meu, historiador, lá deixou uma veemente invectiva aos “traficantes que romperam com a dimensão ética de reconhecer o outro.”. Nestas coisas dá-me sempre a sensação que as pessoas acreditam realmente que houve uma qualquer “idade de ouro ética” que foi rompida por uma qualquer malevolência. E que essa(s) qualquer(quaisquer) malevolência(s) é(são) agora convocada(s) segundo o poder que os descendentes dos seus agentes aparentam ter hoje (“aparentam” a negrito, bold em português actual). 

A abrangência de uma “dimensão ética de reconhecer o outro” (ou a “alteridade” para falar mais fino) é uma coisa muito recente (moderna, contemporânea, escolham). A história e a História estão condensadas nesta magnífica prancha do Pratt. E quem não percebe isso está na idade do Spirou, é um verdadeiro Marsupilami.

No Porto

Portugal, Porto

Há quinze dias fui ao belo Porto, para participar numa conferência dedicada ao historiador José Capela. A qual decorreu muito bem, boas comunicações, bom ambiente, uma mais que digna homenagem a quem muito a mereceu.

Escrevi um texto como base da minha intervenção. Deparei-me com aquele problema de articular Rossio e Betesga. Ou seja, está palavroso. É um texto sobre história de Moçambique colonial. Quem tiver algum interesse pode encontrá-lo aqui: “a especificidade portuguesa face à historiografia de José Capela“.

Fátima, segundo Vasco Pulido Valente

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Começo por lembrar que em 2010, centenário da instauração de república em Portugal, o papa Bento XVI (para além de tudo o mais um intelectual muitíssimo respeitável) visitou Portugal e Fátima durante o 13 de Maio. Com óbvio, mas então “esquecido”, significado político. “Esquecido” pois se a infalibilidade dos Papas já não é dogma as questões da dimensão estritamente política da acção deles continua a ser capeada pela retórica metafísica.

Sobre este fenómeno de Fátima deixo excerto de um texto de 1992 da autoria de Vasco Pulido Valente (“A República Velha“), publicado em livro em 1997 pela Gradiva. Um excerto que dedico àqueles que pensam (e o têm dito) que não se deve questionar a “fé” nem cutucar este fenómeno fatiminiano. Quadro de pensamento que não utilizam para tudo o mais, nem mesmo para as outras as actividades e suposições dos crentes em outras fés.

Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (Vasco Pulido Valente, A República Velha, Gradiva, 1997, pp. 115-117)

José Capela e a história de Moçambique

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José Soares Martins foi jornalista no Moçambique colonial e, depois, durante 19 anos conselheiro cultural de Portugal em Maputo. Foi como José Capela que assinou a sua vasta, seminal e até fundacional obra historiográfica dedicada a Moçambique (aqui elencada). Morreu em 2014, tendo a sua débil condição de saúde nos últimos meses de vida impedido a realização da cerimónia de atribuição do doutoramento honoris causa que a Universidade do Porto decidira outorgar-lhe.

Agora, daqui a três semanas, nessa mesma universidade decorrerá uma conferência internacional que se lhe dedica, ao conteúdo da sua obra e aos rumos analíticos que ela despertou. As sessões decorrerão no 29 e 30 de Maio e o seu programa é este. Seria bom, e bonito, que se pudessem congregar os interessados na história e sociedade moçambicana, na história colonial e portuguesa. Para convívio intelectual. E para a homenagem devida a alguém que foi verdadeiramente relevante. E um supremo cavalheiro, coisa nada despicienda.

A organização da conferência está centralizada no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, onde Capela se sediou após o seu regresso a Portugal em 1996. No seu sítio electrónico poder-se-ão encontrar mais informações sobre as actividades.