A estátua de Salazar em Maputo

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(Fotografia de Vasco Ribeiro)

Um texto de Miguel Alexandre Ganhão no Correio da Manhã sobre a estátua de Salazar, actualmente (res)guardada na Biblioteca Nacional, em Maputo. Sofre, o texto, daquela reaccionarite aguda que é aprofundado sintoma da demência senil. Não a do autor, entenda-se, mas sim a da mundividência que propaga. Mas, ainda assim, nessa sua vetustez titubeante dá azo a algumas questões:

1. A “turistização” da visão sobre o universo em causa. Pois ao afirmar que os milhares de portugueses ali residentes “perfilhem eles seja que ideologia for” “sentem-se incomodados com a situação” está a falar de algo misterioso. Dou o meu exemplo: sendo eu um liberal lite com laivos de social-democracia (ou seja, no actual linguajar dos funcionários públicos intelectuais um “neoliberal, reaccionário, lusotropicalista”, aka proto-fascista), em 18 anos de residência nunca esta situação me incomodou e até surpreendeu risonhamente. Um ricto partilhado com a esmagadora maioria dos portugueses que têm conhecimento do facto (a enormíssima maioria nunca entrou na BN; a maioria não sabe disto). Todos ficam surpreendidos com a preservação da estátua, num imediato “Afinal?…” muito local.

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Peçamos as desculpas …

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Não estará na altura de reabilitarmos Miguel Vasconcelos? Considerarmos que foi assassinado por crer no / praticar o “europeísmo” de então, avant la lettre? Pedir, até, “desculpa” à figura e aos seus descendentes? “Não matarás; mas quem assassinar estará sujeito a juízo” (Mateus 5: 21) não era então, desde antes e até agora, o valor dominante na Cristandade (hoje em dia dita Ocidente)?

A Sala José Soares Martins (José Capela) no Camões-Maputo

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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1; 2; 3; 4).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

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Sobre o escravismo

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Na semana que passou num belo mural de FB discutiu-se o escravismo a propósito de um artigo publicado na imprensa portuguesa. Há sempre os tipos da sacristia que aparecem nestas alturas mas, para além deles, houve uma boa troca de opiniões. Um queridíssimo amigo meu, historiador, lá deixou uma veemente invectiva aos “traficantes que romperam com a dimensão ética de reconhecer o outro.”. Nestas coisas dá-me sempre a sensação que as pessoas acreditam realmente que houve uma qualquer “idade de ouro ética” que foi rompida por uma qualquer malevolência. E que essa(s) qualquer(quaisquer) malevolência(s) é(são) agora convocada(s) segundo o poder que os descendentes dos seus agentes aparentam ter hoje (“aparentam” a negrito, bold em português actual). 

A abrangência de uma “dimensão ética de reconhecer o outro” (ou a “alteridade” para falar mais fino) é uma coisa muito recente (moderna, contemporânea, escolham). A história e a História estão condensadas nesta magnífica prancha do Pratt. E quem não percebe isso está na idade do Spirou, é um verdadeiro Marsupilami.

No Porto

Portugal, Porto

Há quinze dias fui ao belo Porto, para participar numa conferência dedicada ao historiador José Capela. A qual decorreu muito bem, boas comunicações, bom ambiente, uma mais que digna homenagem a quem muito a mereceu.

Escrevi um texto como base da minha intervenção. Deparei-me com aquele problema de articular Rossio e Betesga. Ou seja, está palavroso. É um texto sobre história de Moçambique colonial. Quem tiver algum interesse pode encontrá-lo aqui: “a especificidade portuguesa face à historiografia de José Capela“.

Fátima, segundo Vasco Pulido Valente

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Começo por lembrar que em 2010, centenário da instauração de república em Portugal, o papa Bento XVI (para além de tudo o mais um intelectual muitíssimo respeitável) visitou Portugal e Fátima durante o 13 de Maio. Com óbvio, mas então “esquecido”, significado político. “Esquecido” pois se a infalibilidade dos Papas já não é dogma as questões da dimensão estritamente política da acção deles continua a ser capeada pela retórica metafísica.

Sobre este fenómeno de Fátima deixo excerto de um texto de 1992 da autoria de Vasco Pulido Valente (“A República Velha“), publicado em livro em 1997 pela Gradiva. Um excerto que dedico àqueles que pensam (e o têm dito) que não se deve questionar a “fé” nem cutucar este fenómeno fatiminiano. Quadro de pensamento que não utilizam para tudo o mais, nem mesmo para as outras as actividades e suposições dos crentes em outras fés.

Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (Vasco Pulido Valente, A República Velha, Gradiva, 1997, pp. 115-117)

José Capela e a história de Moçambique

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José Soares Martins foi jornalista no Moçambique colonial e, depois, durante 19 anos conselheiro cultural de Portugal em Maputo. Foi como José Capela que assinou a sua vasta, seminal e até fundacional obra historiográfica dedicada a Moçambique (aqui elencada). Morreu em 2014, tendo a sua débil condição de saúde nos últimos meses de vida impedido a realização da cerimónia de atribuição do doutoramento honoris causa que a Universidade do Porto decidira outorgar-lhe.

Agora, daqui a três semanas, nessa mesma universidade decorrerá uma conferência internacional que se lhe dedica, ao conteúdo da sua obra e aos rumos analíticos que ela despertou. As sessões decorrerão no 29 e 30 de Maio e o seu programa é este. Seria bom, e bonito, que se pudessem congregar os interessados na história e sociedade moçambicana, na história colonial e portuguesa. Para convívio intelectual. E para a homenagem devida a alguém que foi verdadeiramente relevante. E um supremo cavalheiro, coisa nada despicienda.

A organização da conferência está centralizada no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, onde Capela se sediou após o seu regresso a Portugal em 1996. No seu sítio electrónico poder-se-ão encontrar mais informações sobre as actividades.

Portugal e a escravatura

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Rebelo de Sousa foi ao Senegal e meteu-se a falar sobre Portugal e a escravatura. Falou mal, em modo anti-intelectual (e tendo ele  criado para si a figura do “professor Marcelo” obrigou-se a dar outro lustro às suas afirmações). E falou mal em termos políticos, abrindo um tema nas relações políticas com os países africanos que lhe virá, decerto, a ser cobrado.

As reacções logo vieram. Na esquerda radical, sempre prisioneira do catolicismo, do culto do cilício purificador, sequela da filiação iconófila (e talvez também sensual) a São Sebastião, afirmou-se a necessidade da expiação nacional. Nada de novo, pois, como se sabe, se a maldade do capitalismo (e da sua “acumulação primitiva”) é total, a deste rincão e suas gentes é supra-total. À direita surgiu a habitual flatulência adversa às reflexões das “ciências sociais” (assim mesmo, com as aspas) e à análise histórica que fuja à eulogia da gesta pátria. Exemplo até antológico desse “boçalismo a céu aberto” é este texto de Maria João Marques no Observador (um bom jornal, que foge ao paradigma “voz do dono” dos ex-ministros de José Sócrates, que agora recobre a generalidade da imprensa dita de referência no país).

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Centenário da morte de Hermenegildo Capelo

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Há exactamente 140 anos, em 5 de Maio de 1877, o capitão-tenente Hermenegildo Capelo, e o major Serpa Pinto partiram de Lisboa para Luanda, onde se lhes juntou o primeiro-tenente Roberto Ivens. Cumpria-lhes a Expedição Portuguesa ao Interior da África Austral, de objectivos algo fluídos mas com particular incidência na recolha científica de dados geográficos (cartográficos e hidrográficos) do interior continental, aquela gigantesca área que os interesses portugueses vieram a intitular (e reclamar) Mapa Cor-de-Rosa. Divergências sobre o conteúdo da missão implicaram a sua divisão. Serpa Pinto, em viagem decorrida entre 1877-79, avançou da actual Angola até Pretória (relatando o feito em “Como Eu Atravessei África”). Os dois marinheiros percorreram, entre 1877 e 1878, uma vasta zona de Angola mas falhando a tentativa de penetrar a leste, viagem da qual produziram (Ivens escrevia, ambos assinavam) “De Benguela às Terras de Iáca”. Mas redimir-se-iam desse relativo fracasso, pois em 1884, por incumbência do então ministro da Marinha e do Ultramar, o célebre escritor e jornalista Pinheiro Chagas, partiriam em nova expedição, cruzando o continente de Moçâmedes a Quelimane, deixando o relato em “De Angola à Contracosta”.

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Os militares no 25 de Abril

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No FB vejo agora esta foto, realçando Salgueiro Maia durante as operações do 25 de Abril de 1974 na baixa lisboeta. Acompanhada de um breve texto supra-elogioso daquele militar. Sou muito sensível à coragem física, “máscula” dizia-se antigamente, antes da consciencialização das questões de género. E diante de uma fotografia destas não deixo de me perfilar, “é de homem!” exclamo, esquecendo-me das tais questões …

Todos os anos Salgueiro Maia é (re)afirmado como símbolo da data fundadora da democracia, o tempo vai passando e os elogios engrandecem-se (“a ele devemos a liberdade” e vários similares, li-os ontem no FB). A gente precisa de símbolos para conseguir pensar e, até, para sentir. E ainda mais, muito mais, de homens simbólicos, os santos das coisas profanas.

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