O empréstimo e o discernimento

(Postal para o És a Nossa Fé)

Ao que compreendi o período de subscrição do empréstimo que o clube convocou já terminou. E com sucesso, mostrando a confiança dos agentes económicos e, acima de tudo, dos adeptos e associados. Confiança no valor do clube e confiança na competência (e discernimento) da nova direcção do Sporting Clube de Portugal. Magnífico desiderato, também contra os profetas da desgraça.

Terminado o período também termina um período de contenção crítica. No qual, em meu entender, qualquer posição menos entusiástica poderia fazer germinar (ou potenciar) a dúvida em qualquer hipotético “investidor” (com aspas, pois quero crer que muitos não entendem isto como um investimento económico mas muito como um acto moral). E em assim sendo já me sinto à vontade para botar algumas coisas:

1) O Sporting tem largos milhões gastos em jogadores de futebol. Entre Vivianos e Marcos Túlios decerto que tudo bem contado sobre as despesas das suas licenças desportivas daria para chegar ao “mínimo” necessário para o empréstimo. Que fique claro na memória de todos – mesmo daqueles apoiantes destas medidas que mandam passear (ou ir de viagem) todos os que não subscreveram o empréstimo – que as “asneiras” (serão asneiras ou modus vivendi?) na contratação de jogadores não começaram com Bruno de Carvalho. Mas terão que acabar com ele, ou então daqui a um ou dois anos lá estarão outra vez a mandar “passear” (ou ir de viagem) quem não subscrever o empréstimo de então.

2) Em tempos recuados, julgo que até bíblicos, mesmo antediluvianos, houve um ano em que uma direcção do Sporting contratou 2 ou 3 jogadores no período de transferências de Inverno. Os quais vieram a ser precioso contributo para vitórias da equipa de futebol, verdadeiros reforços. Nunca mais aconteceu. De então para cá dinheiro gasto no inverno nunca fez medrar. Convém lembrar isso. Ou então, como acima já disse, daqui a um ou dois anos lá estarão outra vez a mandar “passear” (ou ir de viagem) quem não subscrever o empréstimo de então.

3) Em 1995 o presidente Pedro Santana Lopes fez um grande alarido com a contratação do checo Skuhravy, avançado caríssimo – para os dinheiros de então. Fez notícia também o carro de luxo que o clube lhe alugara (tempos em que estes custos ainda eram notícia e não, como agora o é, os milhões dados aos comissionistas de fatos brilhantes e gingares televisivos, alguns até içados a directores de clube). Na mesma época pediu-se aos associados um ano de mensalidades adiantados (se não laboro em erro uns meros 14 contos, 70 euros de agora). O checo esteve em Lisboa uns meses, jogou e rematou uma vez à barra. Eu, para seguir o paradigma da economia moral de alguns paladinos das obrigações morais, “fui de viagem”. E não só porque emigrei.

Em suma, diz este viajante, “não há dinheiro … não há futebolista”. Enfim, até ao próximo empréstimo.

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Quaresma

 

(Postal para o És a Nossa Fé)

Eu sei que para muitos visitantes do blog falar elogiosamente de jogadores e técnicos que não sejam radicalmente sportinguistas é uma verdadeira heresia – para os interessados na História das mentalidades mergulhar no clubismo actual explicará muito das enormes sevícias cometidas nas guerras religiosas que assolaram a Europa durante séculos. Nesses tempos os nossos antepassados traíam-se, denunciavam-se, torturavam-se, queimavam-se, massacravam-se entre si por uns adorarem estátuas ou relíquias ditas ídolos enquanto outros preferiam paredes (semi)nuas nos locais de culto. E os mais perseguidos eram os apóstatas, aqueles que transumavam entre igrejas ou seja, pura e simplesmente, se “transferiam” de um clube para outro, nisso mudando de símbolos adorados, diante dos quais se prostravam e pelos quais se identificavam.

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Brasil (e não só)

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Um maravilhoso texto autobiográfico de Eric Cantona, no qual escreve sobre a essência do futebol, o estado do futebol actual, e desvenda o segredo dos triunfos do Manchester United. Mas acima de tudo sobre o mundo actual. Sinto-o imperdível: What is the meaning of life?

Sobre o mundo actual um belo texto de António Guerreiro, Sob o signo do politicamente correcto, no Público de ontem.

A propósito do Brasil, mas também incidindo sobre o mundo actual, dois textos relevantes: O futuro político do Brasil, de Fernando Henrique Cardoso, no El País de hoje; O arauto da revolta popular, de Jaime Nogueira Pinto, no Diário de Notícias de ontem.

Cristiano Ronaldo

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[Cristiano Ronaldo agradecendo os aplausos dos adeptos da Juventus após o (2º) golo marcado em Turim]

À saída de Nelspruit não paro nos semáforos desligados, que quando assim funcionam como sinal de “stop”, pois nenhum carro se avistava no cruzamento. E logo dois policias saltam à estrada, mandando-me parar. “Estou tramado!”, resmungo, antevendo os rands da multa e o atraso na viagem. Desculpo-me, explico-me, eles impávidos. Claro que viram a matrícula moçambicana, e tão habituados estão ao tráfego inter-fronteira, mas perguntam-me para onde vamos (“Maputo“, respondo), de onde somos (“portugueses“, digo-lhes), se viemos às compras. Que não, esmiúço, em busca de hipotética solidariedade, que ali vim para trazer a miúda ao (orto)dentista, a Carolina a comprová-lo no banco traseiro, com o aparelho dentário tão brilhante, acabado de calibrar na visita mensal. Um deles (suazi? tsonga? sotho?, não lhes consigo destrinçar a origem), inclina-se sobre a minha janela, quase enfiando a cabeça no carro e pergunta “how are you, sissi (maninha)?” e assim percebo que não pagarei multa. Depois diz-me “se você é português vou-lhe fazer uma pergunta” e eu logo que sim, dando-lhe um sorriso prestável, antevendo uma qualquer dúvida sobre ares ou gentes de Moçambique. Mas afinal “Qual é o melhor, Ronaldo ou Messi?“. Eu rio-me, num “Ah, meu amigo, são ambos excepcionais, diferentes mas excepcionais“, enfatizo, mas ele insiste, “mas qual é o melhor?“. “Ok“, e enceno-me, olhando à volta, “só vocês é que me ouvem, assim posso falar, sou português mas o maior é Messi“, e estou a idolatrar o jongleur, o driblador dono da bola, alegria do povo, nós-todos miúdos de rua. “Não, você está errado” riposta ele (ndebele? zulu? khosa?, não lhe consigo destrinçar a origem), “Ronaldo é o melhor. Messi nasceu assim, Ronaldo é trabalho, muito trabalho!“. Ri-se, riem-se, rimo-nos, e conclui num “podem ir“. Avanço pela N4 e sorrio a este afinal meu espelho, apatetado europeu (armado em) intelectual com prosápias desenvolvimentistas, a levar uma lição de ética de trabalho de uma pequena autoridade (formal) africana.

 
(Fica a historieta para os que acham mal resmungar com os patrícios que, sistematicamente, apoucam o labor do maior atleta em actividade. Talvez nisso ombreando com Federer, mas muito mais célebre).

Viktoria Plzen-Sporting

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Apesar da transmissão ser em canal aberto, fui ver o jogo a casa do meu bom amigo Bill, um já hábito nos grandes jogos do Sporting. O jogo era cedo, às 18 horas, cheguei meia hora antes. “Que é que queres beber?“, “nada, nada, estou bem …”. “Um gin, um vodka?” insistiu ele (àquela hora ainda é cedo para o uísque), “não, não quero nada, obrigado“. “Então?, que se passa?!“, “nada, estou bem, bebo um copo de água“. “Olha, vou beber uma jola” disse-me ele, a baixar a parada. “Não obrigado, estou bem. Estou a guiar, pá, vim de carro, não vou começar a beber já, é melhor estar quieto“.

Começa a partida, nela a hipótese da passagem aos quartos-de-final, o ânimo para o final da época, o reforço para a conquista da Taça, quem sabe se ainda para o tão possível segundo lugar no campeonato (a ida à Champions, claro). E, até, a quase-miragem da conquista desta Liga Europa. Eu ali, Água do Luso (a melhor do mundo, insisto) e uns deliciosos pinhões e também amendoas. O dono da casa numa(s) cervejinha(s).

Intervalo. “Então, não bebes nada?” levanta-se ele. “Hé pá, faz-me um café (que estou para aqui a dormir)”.

Raios partam isto.

O governo está a dormir

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O governo está a dormir. Googlei e vi que tem um tipo chamado João Paulo Rebelo (secretário de estado da juventude e do desporto) que depende do ministro da educação (googlei e vi que se chama Tiago Brandão Rodrigues). Ambos dormem, e ressonam.

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O director do Correio da Manhã sobre Gelson

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(Um postal para o És a Nossa Fé)

No “Record” Octávio Ribeiro, director do “Correio da Manhã”, escreve um texto execrável sobre Gelson. Ou melhor, a propósito de Gelson, pois, de facto, utiliza a situação protagonizada pelo jogador para dissertar, em modo totalmente populista, com requebros de análise sociológica verdadeiramente retirada de uma cloaca mental, de ignorante que é, sobre a escola pública, seus agentes, sobre a sociedade. E, já agora, secundariamente também sobre o Sporting.

É importante lembrar que quando se fazem críticas radicais a comunicação social logo surgem coros (como surgiram há tão pouco tempo, aquando das recentes declarações do presidente sportinguista) que as dizem inadmissíveis, pois anti-democráticas, adversas à liberdade de informação. E outros “contextualizam” (no sentido de “des-culpam”) os constantes desatinos, atribuindo-os às difíceis condições de trabalho, ainda mais nesta era de grandes transformações no mundo da imprensa. E sempre nos recordam a existência de excelência no jornalismo, como se essa fosse capote para a indecência que grassa.

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Gelson

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(Postal colocado ontem no És a Nossa Fé)

Fico francamente estupefacto face à onda de simpatia, qual compreensão, para com o acto do Gelson Martins ontem em Alvalade. Por duas razões. A primeira, mais rasteira, isto da bola e dos hipotéticos triunfos: o jogador já tem 22 anos, cumpre a terceira época na equipa principal, na qual decerto que sabe ser figura fundamental, é internacional A, e é um profissional bastante bem pago, ainda que possa aspirar a novos e “arábicos” contratos, desses que animam a cena futebolística actual. Ou seja, é já experiente e exige-se-lhe responsabilidade. Presume-se ainda que tenha alguma compreensão do que o que o rodeia e espera: diz-se que Garrincha quando se sagrou campeão do mundo no Suécia-58 não sabia que o campeonato tinha acabado, denotando a bruma (genial, mas obscura) em que dirimia o seu inesquecível talento. Mas espero que Gelson, para seu bem, extra-futebol até, não seja epígono dessa abstracção existencial. E que assim saiba, pelo menos, o “jogo” que a vida lhe prepara, o “calendário” que aí vem. Pelo menos o a curto prazo, que, de facto, é o máximo que podemos antever com alguma razoabilidade. Em suma, que soubesse que a próxima jornada é fundamental para as aspirações do clube que o formou, acarinhou e lhe paga. Fazer-se expulso, isentar-se desse compromisso, é totalmente inaceitável. Mimar um jogador querido, “da casa”, competente, ainda para mais jongleur, assim alegria do povo? Sim, com toda a certeza. Mas aceitar isto que aconteceu, “compreendê-lo”, é estragá-lo com mimos. Gelson está em dívida.

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Porque não te calas?

(Postal para o És a Nossa Fé)

O enorme mundial de 1982 acabou com o Itália-Alemanha. Foi o melhor mundial que me lembro, o magnífico Brasil e o “menino d’oiro” italiano acima de tudo. Mas a final ficou-me na memória também por isto, o velho (então velhíssimo para mim, nos seus 86 anos) presidente italiano, Sandro Pertini, exultante na tribuna de honra, ao lado do chanceler alemão e dos reis espanhóis, entre outros (no filme a partir de cerca do minuto e vinte segundos). E com a belíssima cena, que não se vê, de sacudir o seu cachimbo e ofertá-lo ao treinador Enzo Bearzot quando este subiu à tribuna (ou será imaginação minha?). As imagens correram mundo (num tempo de tão menos imagens), tornando-se icónicas. E com vários sentidos: o velho presidente símbolo do adepto, “tiffosi”, mas também do combatente antifascista que via então a sua Itália campeã, cinco décadas depois dos títulos sob Mussolini. Ficou assim consagrado o direito ao festejo, exultante, na tribuna de honra.

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Meia-final da taça da Liga

Um jogo mau, 50 e tal faltas, para além dos lançamentos laterais lentos e da muita gente a rolar no chão como se em imenso sofrimento. Qualquer Brighton-West Bromwich tem mais futebol do que isto. Claro que é bom aceder à final da taça (em tempos dita Lucílio Baptista, agora rebaptizada CTT) e espera-se que não aconteça como na primeira edição do prestigiado troféu, quando o Vitória de Setúbal triunfou na final com o Sporting.

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