“Cinzas” da Beira Alta, de Miguel Valle de Figueiredo, em Lisboa

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Quando foi inaugurada em Tondela referi aqui  – mostrando, em baixa definição, várias das 42 imagens – esta “Cinzas”, a exposição fotográfica que o Miguel Valle de Figueiredo construiu a partir do seu trabalho de três meses nas regiões da Beira Alta devastadas pelos fogos de 2017. Agora a itinerância atinge Lisboa, tendo inaugurando ontem na Atmosfera M, na Rua Castilho.

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O Miguel Valle de Figueiredo é dali oriundo, família ancorada em Tondela. Após a calamidade percorreu a região, que bem conhece. Ele que durante anos percorreu o mundo fotografando voltou agora às raizes familiares, em trabalho de verdadeiro luto, devagar calcorreou mato, lugares, aldeias, vilas, encarou a gente que ali teima, desta ouvindo do horror de então e da violência posterior, advinda da arrogância burocrática de quem vem podendo – e de que nós todos, entretanto, fomos ouvindo parcas notícias. Nisso fotografou as “Cinzas” promovidas pela fúria dos elementos, o desnorte nacional e a incúria estatal, até abjecta. Enquanto uns, urbanos, se menearam vaidosos insanos, lamentando-se “de não ter tirado férias” ou, pelo contrário, “iam de férias” e pediam para “não os fazerem rir” a propósito destes e doutros assassinos fogos, e se gabavam de se preparar para as “cheias de inverno”, inaugurando casas refeitas com dinheiro alheio, apregoando ter revolucionado as florestas como nunca desde a Idade Média, e se faziam entrevistar em quartel de bombeiros, o Miguel foi para aquele lá, verdadeiros “salvados” de um país que insiste em desistir de o querer ser por via do apreço que vota aos tocos que julga gente, e até elegível.

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Dessas suas andanças, vindas do seu fervor de fotógrafo e do seu dever de cidadão, produziu, a expensas próprias, pois não é ele daqueles capturáveis por Estado, municípios e respectivos tentáculos, tão pródigos se mostram esses para os fotógrafos “camaradas, companheiros e amigos”, um manancial iconográfico, uma verdadeiro arquivo para alimentar uma memória social do acontecido, deste sofrido que a história recente do país se mancomunou para gerar. Desse acervo seleccionou esta exposição. Será muito pedagógico ir lá ver o horror e desperdício que o mvf vagorosa e condoidamente captou. Para que não o esqueçamos. Citadinos, julgados cosmopolitas e assim de memória muito chocha

(Já agora, as fotografias estão à venda, diferentes tamanhos a diferentes preços, assim acessíveis a diferentes bolsas, revertendo os proventos para ajuda às populações. Atenção, reverte mesmo, que o Miguel é um tipo muito fora de moda, é dado às coisas da honra)

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Olivais nos anos 70

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Inaugura hoje na Casa de Cultura dos Olivais, Lisboa – à Rua Conselheiro Mariano de Carvalho, entre os Olivais Velhos e a Expo – e ficará até 27 de Outubro, esta exposição fotográfica do Sandro (João Alexandre Taborda). É uma memória única – que então fotografar era muito mais raro – da geração lisboeta, olivalense, dos anos 1970s e início dos 1980s, roupas, hábitos, personagens, artefactos usados, e a arquitectura vivida daquele bairro. Pura história cultural, se quiserem. Há dias em que custa estar longe …

Quando o Sandro morreu, há (já!?) um ano, deixei este breve postal – Driol (o grão-diminutivo que nos merecia). Se quiserem vão lê-lo mas, acima de tudo, olivalenses ou não, vão ver a exposição. Para saberem como foi …

 

As cinzas da Beira Alta, exposição de Miguel Valle de Figueiredo

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Passam hoje exactamente quatro meses sobre os tétricos incêndios no distrito de Viseu, entre o concelho de Tondela e seus limítrofes, devastando a “Beira Alta”, na segunda apocalíptica volta dos incêndios florestais de 2017, dessa vez causando mais de 40 mortos. Desde então o meu amigo Miguel Valle de Figueiredo (o mvf, que durante anos co-blogou comigo) percorreu aquela região, que bem conhece, calcorreou mato, lugares, aldeias, vilas, encarou a gente que ali teima, desta ouvindo do horror de então e da violência posterior, advinda da arrogância burocrática de quem vem podendo. Nisso fotografou as “Cinzas” promovidas pela fúria dos elementos, o desnorte nacional e a incúria estatal, até abjecta. Enquanto uns, urbanos, se menearam vaidosos insanos, lamentando-se “de não ter tirado férias” ou, pelo contrário, “iam de férias” e pediam para “não os fazerem rir” a propósito destes e doutros assassinos fogos, e se gabavam de se preparar para as “cheias de inverno”, inaugurando casas refeitas com dinheiro alheio, apregoando ter revolucionado as florestas como nunca desde a Idade Média, e se faziam entrevistar em quartel de bombeiros, o Miguel foi para aquele lá, verdadeiros “salvados” de um país que insiste em desistir de o querer ser por via do apreço que vota aos tocos que julga gente, e até elegível.

Dessas suas andanças, vindas do seu fervor de fotógrafo e do seu dever de cidadão, produziu, a expensas próprias, pois não é ele daqueles capturáveis por Estado, municípios e respectivos tentáculos, tão pródigos se mostram esses para os fotógrafos “camaradas, companheiros e amigos”, um manancial iconográfico, uma verdadeiro arquivo para alimentar uma memória social do acontecido, deste sofrido que a história recente do país se mancomunou para gerar.

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