Greta D’Arc

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Nas últimas semanas fui vendo em blogs e no Facebook vários pequenos textos de gente que leio com atenção e até de amigos bem próximos, que surgiram azedos sobre Greta Thunberg, a jovem sueca tornada ícone ambientalista. Alguns até partilhando um texto viperino, gozando com a propalada condição da jovem, dita com o síndrome de Asperger. Trata-se de um meio intelectual definível, ainda que algo heterogéneo ideologicamente: é gente que se revê num “centro”, “direita” ou até “extrema-direita”, que anuncia filiação a um conservadorismo ou a um liberalismo, ou mesclando-os, às vezes de forma um pouco atrapalhada. O argumento é sempre similar: o aquecimento global é um mito, ouvir uma jovem é um populismo e/ou uma infantilização da vida política. Alguns complementam sobre a impossibilidade desta adolescente ter a solução para o problema, ainda que este inexistente, segundo as suas perspectivas, um oxímoro argumentativo que parece escapar a estes locutores.

Foi comentando um desses textos, oriundo de um intelectual português que bem aprecio, que me surgiu a ideia – a qual, de tão óbvia me pareceu, porventura outrem já terá avançado mas se assim aconteceu desconheço-o – que esta adolescente é uma Jeanne D’Arc actual. Pois, lendo a história da donzela de Orleans, tornada símbolo da cristandade e do seu país, de facto do polissémico “morrer pela Pátria“, como não intuir que aquele comportamento obsessivo da adolescente camponesa poderá ter sido originado numa peculiar condição? E com toda a certeza, como aliás comprova o seu final, também ela incomodou os sábios “bloguistas” e “facebuquistas” de então. Apesar de ter sido útil ao reino.

Daí esta minha Greta D’Arc, obsessiva na sua dedicação à causa ambientalista. E que tanto incomoda tantos locutores. Esta dedicação extrema teve impacto. Ela apareceu induzindo um movimento ecologista geracional. Se em Outubro os iniciais pequenos grupos ecologistas deste movimento tinham ainda alguma dificuldade em chegar à fala com o secretário-geral da ONU (ainda que acolhidos pelo seu gabinete), agora Thunberg, a sua inspiradora, é recebida, sinal da crescente consciência de alguns líderes políticos da gravidade da situação. Uma esmagadora maioria dos cientistas está convencida que o problema é enorme e urgente. Uma minoria nega-o. Como se sabe, na história nem sempre a maioria dos cientistas (a “ciência normal”) tem a razão face às minorias. Mas este argumento tem uma fragilidade nesta questão: as minorias que estavam certas normalmente (ainda que nem sempre) fundamentavam-se em hipóteses e métodos inovadores, afrontando as perspectivas vigentes. Neste caso as minorias renitentes não apresentam essas características inovadoras. Mas mesmo assim é possível que os que negam a hipótese do aquecimento global poderão estar certos – e que bom que será se assim for. Mas ainda que assim seja, que não estejamos na alvorada de uma dramática mudança climática causada pela humanidade, algo é inegável: a degradação ecológica é gigantesca.  E universal. E justifica toda a atenção.

Os que negam a hipótese de aquecimento – e a pertinência de atentar nesta jovem ícone e no actual movimento ecologista juvenil – são também um fenómeno intelectual interessante: os que se dizem conservadores alheiam-se de um tradicional item das agendas políticas conservadoras, a protecção ecológica; e os que se dizem liberais, estão totalmente alheados de uma visão capitalista, se se quiser da “destruição criativa” (eu sei que Schumpeter não é o arquétipo do liberal mas não pode ser dito como um radical anti-liberal), das imensas possibilidades lucrativas de novas políticas ecológicas (nas várias áreas da actividade). Ou seja, nestes locutores não é um conservadorismo e muito menos um verdadeiro liberalismo que vigoram. É um mero atavismo. Não de agora. O sufragar das posições americanas sobre o assunto mostram-no bem: há quase duas décadas, no seu primeiro discurso de tomada de posse presidencial, George W. Bush anunciou o seu distanciamento ao protocolo de Quioto por este ser adverso ao “american way of live”. Dizer (resmungar) na altura – e depois – que tal afirmação era vácua, pois o tal “modo de vida” assentou na vigorosa abertura a transformações, devida à capacidade inovadora, organizativa e tecnológica, de uma sociedade cheia de recursos e livre de imensas barreiras institucionais que vigoravam nas suas concorrentes industrializadas de então, surgiria como uma resposta “comunista” ou parecida. Mas é uma coisa tão óbvia …

Este atavismo impensante dos irritados com o impacto de Greta Thunberg, e do movimento que ela simboliza (e induziu), nota-se num aspecto e prova-se noutro. É comum (porventura como o foi nas gerações precedentes) ouvir os actuais adultos menorizarem as práticas da juventude actual: não são dados à leitura, atentam em youtuberes vácuos, não brincaram na rua, seguem sobre-protegidos e assim alheados da natureza, não socializam, encerrados em consolas de jogos e telemóveis, na futilidade da internet imediatista, são consumidores mimados, são totalmente apolitizados, etc. Subitamente, no espaço de um semestre, um movimento internacional de jovens cresceu: na sua heterogeneidade não surgem folclóricos, presos a velhas pantominas hippiescas; não são um culto de falsos heróis que encestam bolas em redes; nem cultuam LSD ou heroinas, que tanto maceraram as gerações precedentes; não destroem as propriedades públicas e privadas, como os seus “tios” vestidos de coletes amarelos; não saíram dos “seminários de insurreição” promovidos em acampamentos de maoístas e trotskistas; não têm como ídolos um qualquer Ernesto Guevara (“fuzilamos e continuaremos a fuzilar“) em frémitos de utopias devastadoras; não seguem perversos pregadores hindús, islâmicos ou evangelistas, advogados de uma “purificação” das almas. Querem, e para isso se manifestam ordeiramente, numa saudável heterogeneidade de estilos, uma mais ampla informação sobre o estado da situação ecológica, e que se desenvolvam políticas de protecção ambiental – questão que há décadas está na agenda internacional mas que não tem conhecido grandes progressos, devido às resistências das elites político-económicas. Querem isso e assim se mostram jovens cidadãos. Interessados e empenhados, bem ao contrário do que deles dizem os mais-velhos, que os proclamam alienados.

Uma questão recente mostra, provando-a, a radical superficialidade destes críticos. Ou a sua estreita visão do futuro: há duas semanas Mike Pompeo – antigo director da CIA e agora ministro dos negócios estrangeiros americano, como tal alguém bem mais importante e escrutinável do que Greta Thunberg – discursou no Conselho Ártico e disse: “Because far from the barren backcountry that many thought it to be in Seward’s time, the Arctic is at the forefront of opportunity and abundance. It houses 13 percent of the world’s undiscovered oil, 30 percent of its undiscovered gas, and an abundance of uranium, rare earth minerals, gold, diamonds, and millions of square miles of untapped resources. Fisheries galore. 

And its centerpiece, the Arctic Ocean, is rapidly taking on new strategic significance. Offshore resources, which are helping the respective coastal states, are the subject of renewed competition. Steady reductions in sea ice are opening new passageways and new opportunities for trade. This could potentially slash the time it takes to travel between Asia and the West by as much as 20 days. Arctic sea lanes could come before – could come the 21s century Suez and Panama Canals.”

Passados dias percebe-se que nem um dos incomodados com a visibilidade de Thunberg, desta Greta D’Arc de hoje, e do juvenil movimento ecológico, comentou estas declarações do governante americante. Omnívoras, demonstrando uma visão do mundo até demencial. Nem um, que tenha atentado, destes locutores portugueses as comentou. Nem um. Nem um … 

Isto em Pompeo, e no mundo “trumpiano”, é um fundamentalismo mercantil (não liberal, entenda-se bem) patético, tal e qual como os fundamentalismos desses radicais de outros cultos. E nestes luso-locutores (até nos meus amigos próximos que assim bacocam) é muito um mero blaseísmo, a patetice do fastio. Pois ficam muito enfastiados com a agitação alheia, destes “jovens”. Isto não é “direita”, nem “extrema-direita”, nem “centro”. É só parvoíce. Perversa. E carregadinha de presunção, a presunção da “distinção”. Que gente … Que se julga, saber-se-á lá porquê, que por intelecto não é, com toda a certeza, acima do vulgo. De nós, comuns … Vão nisso enganados, pois se, como disse Ulianov, “o esquerdismo é a doença infantil do comunismo”, este blaseísmo nada mais é que a doença senil do capitalismo. O tal atavismo …

 

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Marcha pelo clima

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Em imensos países os estudantes saem hoje à rua, exigindo melhores e urgentes políticas de protecção ambiental. Em Novembro aqui deixei nota de uma primeira manifestação estudantil, em Bruxelas. Organizada por um pequeno grupo ecológico da Escola Europeia, e já reflectindo o exemplo da estudante sueca Greta Thunberg (com a qual este núcleo tem até algumas relações pessoais prévias), tornada símbolo de um movimento geracional contra a inconsciência produtivista da corporação etária no poder: pois ninguém das gerações adultas quer prescindir de nesga que seja dos seus “direitos adquiridos” ao consumo para assumir as medidas drásticas necessárias. As grandes empresas veiculam a ideia de que é preciso “reciclar” e aumentar os preços dos combustíveis, qual panaceia. Os (neo)comunistas dizem que não, que o necessário é controlar as grandes empresas. Ou seja, sobre isto apenas reflectem a “luta de classes”. Nenhum tem razão, pois todos têm razão. É preciso prejudicar todos, para a todos beneficiar. É isso que os putos, tão mais esclarecidos e cultos do que as bestas adultas que ocupamos todos os tipos de poder, nos estão a dizer. Desde então, em constantes (semanais) manifestações, num movimento crescente em vários locais do mundo, em mais de 100 países (notícias indicam 123).

Clima

(pressionando a frase “La Onu …” acede-se ao filme do discurso de Guterres. 3 minutos e 50 segundos que justificam ser ouvidos)

Um bom discurso de Guterres sobre as alterações climáticas. Duas notas, sobre a produção e a recepção. O mais relevante de tudo é compreender-se (no sentido de se aceitar a plausibilidade) que as informações sobre este processo são muito filtradas, surgem minoradas: por um lado, o secretário-geral da ONU tem que tentar dialogar com uma miríade de interlocutores, se radicalizar (“escatologizar”) o discurso perde a hipotética eficácia junto de muitos eixos da audiência. Mas há muito mais do que isso: os organismos especializados da ONU filtram a informação disponível. E os centros de investigação que os alimentam também o fazem – e muito porque perspectivas muito “pessimistas” têm efeitos perniciosos no mercado de financiamento. Os técnicos e cientistas usam, há anos, a auto-censura, dulcificando projecções para tentarem manter um diálogo frutífero com os poderes políticos (em especial os multilaterais). E no complexo institucional mundial os quadros mais radicalizados sobre esta questão – muitos devido ao simples processo do “tomar conhecimento” – vão sendo afastados dos “centros” dos organogramas. Isto são práticas com décadas. Ou seja, a situação é muito má mas ainda deve ser pior do que se anuncia, dada a confluência destes filtros todos. Para mais, as previsões integram desenvolvimentos tecnológicos que ainda … não estão. Apesar de já haver alarme nas elites institucionais estas ainda vivem num optimismo quase suicidário.

A outra questão é a da recepção. Nós, os cidadãos, não queremos ouvir falar de fenómenos que nos perturbem as perspectivas existenciais. Catástrofes ocasionais, crises epifenomenais, até animam o quotidiano. Questões estruturais já é outra coisa, são por demais complexas, cansativas, porque preocupações perenes. E, neste caso, por demais angustiantes. Sendo assim intrusivas, obstáculos ao rame-rame. Por exemplo, e ainda que português, o secretário-geral da ONU não é particularmente acompanhado pela imprensa nacional. Mas o CR7 sim. No passado sábado em Lisboa cerca de 20 000 pessoas foram votar para um presidente do Sporting. Mas apenas algumas centenas desfilarem na marcha pelo ambiente. Algo de estranho se passa nas mentes das pessoas, no como hierarquizam as suas prioridades. O anterior e o actual governo, em confluência que expressa o acordo social sobre a matéria, afadigam-se em projectos de exploração de petróleo e gás, em nome da riqueza e desenvolvimento do país. Correntes de pensamento ditas liberais negam a plausibilidade destas alterações climáticas advindas da industrialização – lembro do meu estupor, há mais de uma década, quando surgiram os liberais na internet portuguesa, e acima de tudo no blog Blasfémias, o chorrilho incessante de asneiras sobre a matéria, acicatadas pela discussão do protocolo de Quioto e no apoio ao bushismo, de facto assentes no inculto dogma, que julgavam o cerne do liberalismo, “o entrechoque dos interesses individuais é virtuoso” e como tal nada de tão mau disso pode surgir.

Dentro de algumas décadas analisar-se-á esta nossa época, mundial. E decerto que uma das perguntas cruciais será a do “como é que tanta informação, tanta formação, tanta riqueza, promoveram tamanha alienação”? Vai ser muito difícil explicar.