Caderno preto

caderno

Abro uma gaveta à procura de papel para escrever, nesta sei que estão guardados cadernos usados. Retiro um velho, dos últimos do meu pai, ainda inacabado. Percorro-o em busca de páginas vazias, mas demoro-me lendo-lhe a lista de livros para ler e comprar, interesses datados de 2011 – “Meridiano de Sangue”?, aos 88 anos ele queria entrar no Cormac McCarthy? (e digo-me eu velho para novas ficções …) -, as notas de leitura, as citações recolhidas …

Lá para o fim das páginas escritas apanho esta, esplêndida: “Tudo o que é difícil de alcançar é facilmente atacado pela multidão“, um dito identificado como de Ptolomeu (e muito provavelmente, pelo encadear das notas, retirado do “O Dedo de Galileu” de Peter Atkins). Se assim o disse é óbvio que para uma coisa destas nunca haverá uma revolução coperniciana.

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Racializar Portugal

nYAgliz

A propósito deste artigo do “Público”, “Governo quer que Censos tenha dados étnicos da população“.

Ora lá está, vem aí a racialização da sociedade. A “etnia” (tribal) das certezas lá virá chamar-nos, aos que a isto se opõem, “fascistas”, “racistas”, “xenófobos”, “escravistas”, “colonialistas” e, pior do que tudo, “neoliberais”. Muito provavelmente esta é uma causa perdida. Pois nestas coisas da ideologia identitarista o PCP assobia para o lado (as suas questões são outras) e não se oporá, para o BE isto é a razão de ser retórica – de facto, quase ninguém na sua base social de apoio quer viver numa sociedade correspondente aos “modelos” que os partidos coligados perseguem, só querem mais redistribuição de recursos estatais. E ao PS convém-lhe, para atrair os pequeno-burgueses urbanos mais dados às “causas” festivas, e para os lucros na táctica de cabotagem governativa.

Ainda assim, porque isto é um dislate execrável, e não só por ser a refracção das concepções dominantes nos EUA, há que enfrentar esta palhaçada da racialização da sociedade. E não é com (já as antevejo) declarações líricas do “lusotropicalismo”, Portugal “país de brandos costumes”, “multirracial” e “lusófono” a la família Rebelo de Sousa ou ministro Castro Mendes. A discriminação racial existe? Enfrente-se. Mas não deste modo, nunca deste modo. Para uma posição mais-do-que-lúcida cito excerto de um texto de 2006 dos antropólogos brasileiros Yvonne Maggie e Peter Fry, sobre esta questão no seu país, e que explicitam exactamente o que está em causa. E porque nos devemos bater contra esta aparente “boa intenção”:

O que está em pauta são dois projetos de combate ao racismo: um pela via do fortalecimento das identidades “raciais” ( …); outro pela via do anti-racismo que procura concentrar esforços na diminuição das diferenças de classe e uma luta contínua contra as representações negativas atribuídas às pessoas mais escuras. Esses projetos também são projetos distintos de nação. Um vislumbra uma nação pautada das diferenças “étnicas/raciais”—isto é uma nação de comunidades. Outro projeto aposta na construção de uma cidadania com direitos em comum independentemente de “raça”, “etnia”, gênero, orientação sexual, etc., salvaguardando o direito de cada individuo a seguir o estilo de vida que mais lhe convém—isto é uma nação de indivíduos. Enfim, argumentamos que não se pode acabar com o racismo com uma política que entroniza a “raça”. Quando o Estado legisla sobre esta matéria ele funda a “raça”, cria justamente aquilo que quer ver destruído. Merecemos melhor solução para os graves problemas que nos assolam“.

Veja-se o texto do Público que está aqui ligado, de Gorjão Henriques, jornalista que se tem dedicado à questão do racismo em Portugal e que é considerada especialista na matéria. O conteúdo é elucidativo da trapalhada ideológica (e desonesta) que os defensores desta questão colocam: o título diz que os censos querem dados “étnicos” (como se a etnia fosse uma realidade objectiva, o que é o cúmulo da ignorância). Depois o texto diz “A resposta iria permitir saber, no quadro da população, quantos portugueses negros, ciganos, de origem indo-asiática e outros não-brancos existem”. Um “português negro” tem etnia? [E o que é “negro”, a cena do “one-drop” americana? a auto-definição? e muito mais questões]. Há alguma etnia “indo-asiática”? O que é dado étnico para alguém que venha ou seja descendente do subcontinente indiano? Que dado étnico permite agregar “não-branco”? Etc. Ou seja, o artigo de jornal fala de “raça” e são as categorias raciais (que não são objectivas, mas isso não lhe(s) interessa) que defende constituir nos censos. Mas esconde o assunto através do reenvio para a “etnia”, que é um conceito que nem sabe utilizar. E isto não é um defeito da senhora que escreve, é a amálgama atrapalhada e viscosa de quem vai defender isto. É uma vergonha.

O ensino do latim

borges

Ontem foi o dia argentino. Acabei-o a refolhear Borges. E logo a lembrar-me porque foi tão pouco querido de alguns: “Cada dia que passa o nosso país é mais provinciano. Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia que o ensino do latim fosse abandonado pelo do guarani.” (no “O Livro de Areia”).

antonio sergio

Já nem me lembrava que António Sérgio havia sido efígiezado nas notas, recorda-me o google. Vem a imagem a propósito disto: “…porque em questão de fé toda a discussão é vácua. Quando um dos interlocutores de uma palestra qualquer declara que para ele certo ponto é de fé – creio eu que o coloca, por esse simples ditame, fora de qualquer discussão; e se o outro, depois, quer discutir ainda, toma uma atitude francamente absurda. Não discutirei, por consequência, a fé de ninguém …”.

(“Sobre o método mais próprio para converter o incréu”, Ensaios VI, Editorial Inquérito, 1946, p. 254)

Que sociedade para Portugal?

Population_density_of_Portugal

 

Cada um interpreta o que lê conforme quer e consoante pode. Para hoje, dia em que o poder político se congrega com as autoridades eclesiásticas para celebrar o processo de Fátima e a canonização de duas crianças portuguesas, recolho e partilho, consciente que assim dele me aproprio,  um excerto de um texto do jesuíta Manuel Antunes, durante quase duas décadas director da revista Brotéria. Alguns poderão dizer que o manipulo. Se assim for que fique explícito que o faço com boa-fé.

Que espécie de sociedade desejamos? ( …) Uma sociedade em que estejam definitivamente para trás de nós o liberalismo atomista e o colectivismo totalitarista. Uma sociedade em que não se maximize o lucro nem se sacralize o poder. Uma sociedade em que o Estado, em vez de fim em si mesmo e de fim dos grupos que o compõem, se encontre, de verdade, ao serviço da comunidade das pessoas que o excedem em toda a linha. (…) Uma sociedade em que o espectro da mentira generalizada pela propaganda, da mentira que gera a mentira, por omissão ou comissão, se encontre afastado para o mundo das trevas exteriores. Uma sociedade em que os messianismos secularizados não se apresentem como substituto fácil da fé na transcendência e em que esta não possa cobrir com o seu manto protector um mundo de superstição ou de interesses bem mesquinhos” [Manuel Antunes, Repensar Portugal, Multinova, 2005 (edição original de 1979), pp. 30-32]