O ensino do latim

borges

Ontem foi o dia argentino. Acabei-o a refolhear Borges. E logo a lembrar-me porque foi tão pouco querido de alguns: “Cada dia que passa o nosso país é mais provinciano. Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia que o ensino do latim fosse abandonado pelo do guarani.” (no “O Livro de Areia”).

antonio sergio

Já nem me lembrava que António Sérgio havia sido efígiezado nas notas, recorda-me o google. Vem a imagem a propósito disto: “…porque em questão de fé toda a discussão é vácua. Quando um dos interlocutores de uma palestra qualquer declara que para ele certo ponto é de fé – creio eu que o coloca, por esse simples ditame, fora de qualquer discussão; e se o outro, depois, quer discutir ainda, toma uma atitude francamente absurda. Não discutirei, por consequência, a fé de ninguém …”.

(“Sobre o método mais próprio para converter o incréu”, Ensaios VI, Editorial Inquérito, 1946, p. 254)

Que sociedade para Portugal?

Population_density_of_Portugal

 

Cada um interpreta o que lê conforme quer e consoante pode. Para hoje, dia em que o poder político se congrega com as autoridades eclesiásticas para celebrar o processo de Fátima e a canonização de duas crianças portuguesas, recolho e partilho, consciente que assim dele me aproprio,  um excerto de um texto do jesuíta Manuel Antunes, durante quase duas décadas director da revista Brotéria. Alguns poderão dizer que o manipulo. Se assim for que fique explícito que o faço com boa-fé.

Que espécie de sociedade desejamos? ( …) Uma sociedade em que estejam definitivamente para trás de nós o liberalismo atomista e o colectivismo totalitarista. Uma sociedade em que não se maximize o lucro nem se sacralize o poder. Uma sociedade em que o Estado, em vez de fim em si mesmo e de fim dos grupos que o compõem, se encontre, de verdade, ao serviço da comunidade das pessoas que o excedem em toda a linha. (…) Uma sociedade em que o espectro da mentira generalizada pela propaganda, da mentira que gera a mentira, por omissão ou comissão, se encontre afastado para o mundo das trevas exteriores. Uma sociedade em que os messianismos secularizados não se apresentem como substituto fácil da fé na transcendência e em que esta não possa cobrir com o seu manto protector um mundo de superstição ou de interesses bem mesquinhos” [Manuel Antunes, Repensar Portugal, Multinova, 2005 (edição original de 1979), pp. 30-32]

Fátima, segundo Vasco Pulido Valente

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Começo por lembrar que em 2010, centenário da instauração de república em Portugal, o papa Bento XVI (para além de tudo o mais um intelectual muitíssimo respeitável) visitou Portugal e Fátima durante o 13 de Maio. Com óbvio, mas então “esquecido”, significado político. “Esquecido” pois se a infalibilidade dos Papas já não é dogma as questões da dimensão estritamente política da acção deles continua a ser capeada pela retórica metafísica.

Sobre este fenómeno de Fátima deixo excerto de um texto de 1992 da autoria de Vasco Pulido Valente (“A República Velha“), publicado em livro em 1997 pela Gradiva. Um excerto que dedico àqueles que pensam (e o têm dito) que não se deve questionar a “fé” nem cutucar este fenómeno fatiminiano. Quadro de pensamento que não utilizam para tudo o mais, nem mesmo para as outras as actividades e suposições dos crentes em outras fés.

Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (Vasco Pulido Valente, A República Velha, Gradiva, 1997, pp. 115-117)