A propósito dos Oscars

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O velho Plummer (que ficou na história como o anti-nazi Von Trapp, imagine-se) aprestou-se a refazer o papel do Spacey, apagado do filme “Todo o Dinheiro do Mundo” pois este queimado na praça pública por, de facto, não se ter assumido no momento considerado devido como membro do movimento político “gay”. E, toma lá, logo, assim como quem não quer a coisa, levou com a nomeação para o Oscar. E ninguém diz nada a esta sequela do blockbuster “The world according to Stalin”.

A McDormand, excelente nos “3 Cartazes”, como sempre é, recebe o Oscar e manda a raparigada toda levantar-se, que este ano a causa é a feminina (feminista, se se quiser). Tal como antes foi a “afro-americana” (muito fiéis são aqueles tipos à lei da “one-drop”, já agora). A raparigada lá se levantou, aplaudiu, até ululou (as que o sabem fazer). E o mundo vê e acha óptimo, tão “liberals” (não é neoliberal, atenção) são os de Hollywood. E copiam-nos.

Que nojo. Os que copiam. Que os outros são o que são.

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A Casa Torta

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Não há razões para desesperos, pelo menos nesta matéria. Depois da minha irritação com a recente, e vil, “adaptação” do “Crime no Expresso Oriente”, insisti e fomos ver “A Casa Torta” (adaptação do livro em tempos publicado em Portugal sob o menos atractivo título “A Última Razão do Crime”). Não é preciso um grande ensaio interpretativo para esta coisa: quem vai ver um filme sobre um romance policial de Agatha Christie, ainda para mais tendo-o lido (e ela é uma das autoras mais lidas em todo o  mundo, mesmo que possa não o ser tanto como foi no XX), não vai na senda da grande literatura nem está na demanda do cinema na sua expressão artística mais elevada, em projectos de ruptura e/ou auto-referência. Vai-se lá à procura de reviver um ambiente, típico, que é assim datado, nos seus pormenores, na sua elegância de época, nos seus conceitos e preconceitos, nos limites das suas tramas, que patenteia o como é (era) e explicita o que não é, o que é excluído. É uma “elegância”, a ser lida por fruição, e (ou, se apetecer) a ser interpretada como uma belíssima (mesmo que se calhar kitsch) mostra de uma mundividência. Tudo a ser percorrido com um suave “frisson”, o do enigma sobre aquele, de facto irrelevante, assassinato em causa.

O “Casa Torta”, realizado por Gilles Paquet-Brenner, com um plantel de bons actores encabeçado pela grande Gleen Close e abrilhantado por Terence Stamp, cumpre com toda a qualidade requerida essa recriação. O ambiente, sombrio, o mistério, mantido até ao fim (ainda que dissecável pelos “habitués” de Agatha Christie que porventura não tenham lido o livro), a elegância do contexto, a psicologia das personagens – que na obra desta escritora têm sempre um traço grosso, até algo caricatural, mas “é assim:”.

Saímos mais do que satisfeitos. E eu reconfortado. Mesmo aliviado. Recomendo. 

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O assassinato do crime do expresso do oriente

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Há alguns anos fui chamado a Lisboa devido à saúde do meu pai. Parti de urgência, deixando a família (a nuclear, claro) para trás. Dias depois ele morreu. Nessa noite, pois sozinho em casa e para evitar solidões reflexivas e convívios arrastados, meti-me no cinema “Londres” – que também já foi – a ver um filme de “Sherlock Holmes“, personagem também do agrado do meu pai, e cujos casos eu lera na totalidade. O dia não seria o melhor para aguçar a fruição cinéfila mas o que é certo é que saí do cinema indignado. E horrorizado. O filme era péssimo. E era também um atentado à obra, transformando o arquétipo do método científico numa espécie de herói da Marvel actualizado para o lumpen-milenar.

Ontem à tarde fui ver, com a minha filha, o “Crime do Expresso do Oriente”, que um tal de Branagh – nome que me lembro ter sido há décadas anunciado como futura enorme figura do cinema e teatro britânico – decidiu fazer. Claro que ao livro o li há quarenta anos. E que por essa década vi (e revi) o esplêndido filme de Sidney Lumet, exímio a reconstruir o ambiente de “género” de Agatha Christie, a elegância, a típica abordagem psicológica daquele mesmo ambiente, e o “suspense” com verdadeiro “frisson”. Agora? Uma incapacidade de manter o suspense, de mostrar (criar) personagens, e uma  torpe apropriação da mítica personagem, tornado dono de um pateta bigode envolto em cenas de pancada e tiros. Enfim, a mesma abjecta ideia de que “actualizar” é abandalhar.

Regressámos a casa. A filha desiludida. O pai indignado. Googlo o filme, para comprovar que o “Morte no Nilo” está em preparação, como a soez ameaça do final do filme deixa adivinhar. Pois este está a ser um enorme sucesso comercial. Praguejo com a perspectiva. E depois apanho uma crítica ao filme, feita por Eurico de Barros [aqui]. Até me comovo, parece que me leu os pensamentos. Nem vale a pena dizer mais nada. Até porque de nada servirá apelar ao boicote das futuras branaguices. O homem já assassinou “o crime no expresso do oriente”, continuará a matar outros. E o “espírito do tempo” alimenta-o.

Ou será que?, se nos juntássemos todos, e o “terminássemos” colectivamente numa qualquer carruagem? Poirot, estou certo, perdoar-nos-ia … E Dame Agatha Christie também empunharia o punhal.

Olhares do Mediterrâneo, festival em Lisboa

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A 4ª edição do festival de cinema “Olhares do Mediterrâneo” decorre nesta semana em Lisboa, no São Jorge. Serão apresentados 52 filmes, oriundos de 14 países, dirigidos por realizadoras. Começa amanhã, quinta-feira e segue até domingo (saúde-se o governo do dr. António Costa que, esclarecido como é seu timbre, não proibiu a exibição de filmes durante as eleições).

O programa completo encontra-se nesta página. Bons filmes …