A linguagem genderada

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Um texto de hoje no “Público”, o órgão oficioso do BE, mais uma exigência para a depuração de género na língua. Segundo o escrito, se eu recomendar este texto publicado por esta pessoa estou a ser inclusivo. Democrata, até. Se eu partilhar a proposta deste indivíduo (uma opção inabitual mas não incorrecta) estou a ser um falocrata, imundo, reaccionário avesso aos direitos das mulheres. Isto porque o masculino genérico na gramática é uma arma de opressão, vil. Muitos (perdão, muitos e muitas, aliás muit@s) encolhemos os ombros, até enfastiados (e enfastiadas ou enfastiad@s), sobre estas coisas. Mas há três pontos sobre o texto que dão para reflectir: a ciência aplicada; o terrorismo intelectual; o terrorismo político.

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A Última Aula de Alexandre Mate

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Amanhã é a “última aula” de Alexandre Mate, meu amigo, meu “querido líder” – foi-o mesmo, nos 15 anos que foi meu chefe, como responsável do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM.

Há momentos profissionais muito felizes. E para o autor deste cartaz este foi-o. A sua aparente singeleza, nisso até excêntrica, é uma acertada súmula do percurso e da personalidade do agora jubilado Alex Mate. Despojado, avesso a protocolos (tão habituais nas suas cercanias), invaidoso, acima de tudo nosso camarada. O seu esforço, continuado e nunca egocêntrico, sempre foi o do reforço institucional, a defesa da nossa autonomia (universitária, intelectual, e assim também política), através do possibilitar do máximo da formação de todos os colegas – e neles integrando as moles de alunos que acorreram desde finais de XX aos cursos de ciências sociais na então UFICS e, claro, em particular aos que se quiseram antropólogos. E que isso se associasse ao máximo de pesquisa possível, descentralizada – ou seja, não tutorada por si ou qualquer abencerragem, e não dependente de qualquer pólo preferencial de financiamento. Pois nada homem de “capelas” e sim de saber (e defender) que os caminhos dos homens são diversificados. É um modo de pensar muito raro. E foi uma tarefa muito difícil. No contexto. Como teria sido em qualquer outro contexto.

Mate trabalhou em particular questões que (nos) eram centrais nos tempos da nossa formação – as mudanças na produção e, como tal no trabalho, na dieta, e nas formas de organização social promovidas pelo sistema colonial no norte rural do país. E depois complexificadas no regime nacional actual. E, na sua tal aparente singeleza que acima refiro, nunca foi nem é homem de dizer “vão lá ler o que fiz” mas sempre de dizer “vão lá fazer o que eu lerei”. E isso é de uma grandeza, neste nosso ofício …

Espero que amanhã o auditório encha para a “última aula” do meu camarada chefe. Pois ele é uma grande personagem, apesar de nunca o querer parecer. Lamento imenso não estar lá. Apesar de estar.

A apresentação do “Costumes Ancestrais dos Makhuwa-Metto…”

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Aconteceu ontem, a apresentação deste “Costumes Ancestrais do Povo Makhuwa-Metto …“, um pequeno trabalho de recolha etnográfica realizado em 1958 por João Eduardo da Conceição, pai do meu colega Rafael da Conceição, que agora o organizou e fez publicar. É um objecto excêntrico na história intelectual do país, e isso sublinha o seu interesse. Espero que as breves centenas de exemplares que foram emitidas sejam rapidamente adquiridas.

Participei na sessão de “lançamento”, como se diz. Após três anos de ausência do país perdi alguns hábitos, “desnaturalizando” rotinas que adquirira. Assim sendo estranhei, desconfortado, o tom pesadamente protocolar do evento. Para depois, só depois, chegado a casa, me ocorrer que lá de onde venho, onde o protocolo vai mais suave, com toda a certeza que as autoridades políticas não atentariam na publicação póstuma de um opúsculo etnográfico escrito há 60 anos. Talvez que o férreo protocolo não seja assim tão descabido, deitei-me assim a pensar.

O professor Gerhard Liesegang falou. E, sem rebuço, lembrou(-nos) que estando nós ali na Matola deveríamos recordar que desde o tempo colonial (ele explicitou 1971) a construção das infraestruturas públicas e do parque habitacional tem sido acompanhado pela devastação das estações arqueológicas.

Eu também botei, pois coube-me apresentar o livro. Falei tempo demasiado, disseram-me, implacáveis, os amigos e colegas presentes. “Para quê comprar o livro se disseste tudo o que lá está?“, a pior crítica que se pode fazer a um apresentador – e que eu já resmunguei tantas vezes -, coube-me a mim desta vez. Tem alguma explicação, que é pedido de desculpas: lá na minha terra não tenho quem surja com interesse nas minhas elaborações, venho aqui e a simpatia circundante solta-me a verborreia, aprisionada pelo meu silêncio boreal. Enfim, peço desculpa ao Rafael da Conceição e sua família, e aos seus convidados de ontem, pela “seca” que dei. Ainda assim deixei o texto que li na minha conta na rede Academia, é este “Apresentação …” para quem tenha algum interesse no livro.

Livro de Rafael da Conceição

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O livro é uma preciosidade, em vários sentidos: João Eduardo da Conceição, motorista da SAGAL e depois “patrão de si-próprio” no Cabo Delgado, escreveu este texto nos anos 1950s. Entreabrindo não só as formações socioculturais de então mas também, de modo refractado, a mundividência dos estratos de operariado e pequeno-empresariado moçambicano dessas décadas do final do regime colonial.

Agora o seu filho, o decano dos antropólogos moçambicanos, Rafael da Conceição, organizou a publicação do livro. O qual será apresentado na próxima quinta-feira, 16.11., às 17 horas, no Auditório Carlos Tembe, na Matola. O Professor Gerhard Liesegang fará a apresentação do livro e também eu direi algumas palavras, pois o meu camarada Rafael desafiou-me a “representar” a corporação nesse dia – e muito porque se lembrou que eu cheguei a Moçambique exactamente entre Montepuez e Balama …

Penso que este será um bom motivo para nos encontrarmos …

As aspas. E as desaspas.

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Em 1994 trabalhei na África do Sul, aquando das primeiras eleições democráticas. Não chateio os visitantes do blog com as memórias de tão belo momento. Apenas refiro o quanto gostava (e se gostava) de Mandela, naquilo de ele apelar à “nação” “arco-íris”. Que se suplantasse as chagas do segregacionismo racial. Mas também que se obstasse ao “tribalismo”, aos perigos das divisões entre gentes com tantas diferenças como as existentes entre os “capetonians” (termo já de si tão ambivalente) e os do Cabo Oriental, ou de Venda ou Kwa-Zulu Natal ou o então Transvaal, depois Mpumalanga. O quase-infinito carisma de Mandela, a placidez pragmática de Mbeki, os recursos existentes, com toda a certeza, e alguma sorte alquímica, vieram dar continuidade à “nação”. Até hoje.

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Armando Trigo de Abreu

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Aos meus exemplares de três números desta Revista Trimestral de Histórias & Ideias (publicados em 1978 e 1979, na editora Afrontamento) comprei-os em 1984, durante a licenciatura. Dois deles ainda têm a tarja dos preços, 130 escudos o número simples, 150 escudos o número duplo (nº 3/4), e a lápis o preço de venda real, 50$ cada. Demoro-me nestes detalhes para lembrar que já então a revista fora descontinuada, nunca soube se por dificuldades económicas se por outros afazeres dos seus directores, Artur J. Castro Neves e Armando Trigo de Abreu, e se destinava a saldos ou alfarrabistas. É óbvio que eu não tinha então, nem tenho hoje, um verdadeiro conhecimento do panorama intelectual e editorial dos anos da sua publicação, decorrida durante a minha puberdade. Mas logo que as comprei, nos meus 19 anos, fiquei com a ideia que aquilo era muito “à frente” do que seria corrente. A revista era excelente, uma verdadeira mina intelectual, discutindo as temáticas do desenvolvimento num registo alheio às ortodoxias vigorosas de então, tanto a marxista estrita como a matizada social-democrata, pois mesclando as contribuições. E muito actualizada face ao que “lá fora” surgia.

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