Carlos Gil

gil

Em 2003, no início da era blogal, eu vivia em Moçambique e abri o ma-schamba. Nos anos imediatos não houve bloguismo no país e as minhas interacções foram com leitores e blogs portugueses – os bloguistas muito se interligavam (os célebres “links” que eram uma espécie de “likes” avant la lettre, dos quais se recebia aviso através do então célebre sistema technorati) e nisso qualquer coisa se congregava, havendo até quem falasse de algo quase orgânico, uma “blogosfera”.

Nessas minhas interacções surgiu-me bastante gente oriunda de África, principalmente de Moçambique, os sempre chamados (quantas vezes malevolamente) “retornados”. Em diálogos que eram, por vezes, muito agrestes, com leitores abrasivos, invectivando o não me dedicar eu à crítica (até radical) do país e, nisso subjacente, à afirmação da ilegitimidade ontológica daquela independência. Trinta anos haviam passado sobre a descolonização e o apaziguamento interior de alguns sectores da vida portuguesa, amputados no processo descolonizador e descuidados e até desprezados pela sociedade portuguesa, não havia ocorrido. E julgo que não terá acontecido neste tempo que passou.

Mas havia também outro tipo de diálogos. Com gente oriunda de Moçambique, com muito interesse num país que, de facto, desconheciam, muito saudosa da sua juventude e meninice (como tantos de nós o somos), assim saudosa do país mas nisso solidária e, ainda que com olhar atento, preocupado e até crítico, sem denotarem a amargura ressentida de tantos outros. Alguns bloguistas nisso também, em interessante registo muito memorialista ainda que a ele não se limitando: e, entre vários, lembro o Chora que Logo Bebes e o Chuinga (que foi apagado). Este Chuinga era de Isabella Oliveira que havia publicado um muito interessante livro de memórias, Memória & Utopia, Companhia Ilimitada, sobre o qual até escrevi um texto um pouco mais longo.

E havia o Carlos Gil, claro, no seu Xicuembo (que teve várias versões e até outro nome). Que se estabeleceu como companheiro blogal do meu ma-schamba, leitor atento, comentador. E depois também como correspondente, pois ao longo dos anos fomos trocando mensagens, fosse ele estar preocupado com alguma notícia da “terra” a que eu não aludira, fosse querer saber como passara eu por algumas das agruras noticiadas (cheias, manifestações, vagas de crimes). E mesmo do que se passava na minha cabeça, alguns indícios de menor “boa onda” minha que ele teria detectado num ou outro postal. Trocámos assim algumas preocupações pessoais. Um dia, eu mal-disposto com aquilo dos 40 anos cruzados, a perceber que, de facto, “já fora”, decidi fechar o blog e despedi-me dos leitores. O tal technorati foi lesto a informar-me, o Gil fizera-me um poema, lindo – neste cadinho de blogs mudados de endereço não o consigo encontrar, e tenho pena. Fiquei mesmo comovido – aquilo de um tipo escrever e perceber que pelo menos há uma pessoa a quem verdadeiramente interessa o que bota. Tanto que lhe deixei a expressão que me viera à cabeça ao lê-lo: “deixaste-me com uma papaia na garganta“. A qual viria a usar passada um década: na véspera de partir de Moçambique, após 18 anos, escrevi as minhas despedidas no meu mural de Facebook. Um antigo aluno ali logo me perguntou “como é partir depois de tantos anos num país onde se foi tão feliz?” e eu, diante de tamanha candura juvenil, que só essa permitiria uma pergunta pública como aquela,  lembrei-me do Gil e respondi-lhe “é ter uma papaia na garganta“.

Ao longo dos anos, em blog e no Facebook, fomos mantendo o contacto. Lá por 2007, 2008, eu comecei a botar mais sobre Portugal, um pouco desaustinado pelo que ia lendo e ouvindo sobre o país, e ainda mais pelo que amigos, de visita a Maputo ou nas minhas idas à terra, me iam contando dos interstícios do consulado de então. A isso, ao meu perorar político, o Gil nem ligava, deveria achar-me um bocado para o reaccionário … Mas  botando eu sobre Moçambique lá aparecia ele – às vezes deixando sinal (em comentários ou nos laiques-FB) em textos até já algo antigos. E eu a pensar “o Gil passou por cá”. E chegámos a conhecer-nos pessoalmente. Há cerca de uma década eu estava em Portugal aquando da apresentação de um dos livros do João Paulo Borges Coelho, e desafiei-o a aparecer. Pouca gente compareceu, naquele desamparo tão típico dessas sessões em Lisboa, e quase toda oriunda de Moçambique. Depois fomos jantar ao Cais do Sodré, autor e parte dos presentes, na maioria gente de um núcleo bem conhecido que tem uma tertúlia no British Bar, “moçambicanos” da geração do Gil mas que ele (tal como eu) desconhecia. Jantámos juntos, algo excêntricos àquele meio. O Gil adorou o dia, disse-me, eu a perceber o quanto estava ele a ser aspergido pelos ares do Índico.

xicuembo

Antes ele publicara (e com imenso prazer o fizera) um muito bonito livro das suas memórias laurentinas, o Xicuembo (um termo com vários sentidos mas que pode ser traduzido como Espírito). O Gil fora rebelde em jovem, radical existencial por assim dizer, como tantos da geração dele (“born in the 50s”) e da minha. E o seu livro, imensamente sensível – como o seu autor -, dá um quadro único das vivências da Lourenço Marques tardo-colonial, sem qualquer veleidade de ser tratado historiográfico ou sociológico, ajuste de contas com regimes ou processos. É o quis ser, uma memória especial, e muito rica. Um dia, em Maputo, fiz uma pequena nota sobre o livro, e reproduzo parte. Porque resume bem o quanto sempre gostei do olhar do Gil, da camaradagem com o país onde nasceu e cresceu:

“São memórias daqui e não só, uma imensidão de saudades daqui, uma coisa que em blog e no livro sempre parece a entreolhar um qualquer outro talvez: “Para mim, o Aeroporto de Mavalane foi só uma porta de saída, atrás dela ficou uma vida que podia ter sido talvez assim, e hoje é, naturalmente, assado”. (116) Ler o Gil, e para além do encanto de ver como as vezes aparece mesmo nu lá no meio das páginas, é ler essas saudades de um outro tempo moçambicano, saudades pesadas até. Mas nunca saudosistas, um olhar para trás mas sem lá querer estar, sem reclamar por terem os tempos mudado: “Nunca ouvi falar num negro milionário no período colonial. Agora, parece que os há aos pontapés e, por infeliz norma, aceito que a regra é obtida com percursos escuros nesse enriquecimento pessoal, em detrimento dum país que já foi o mais pobre do mundo. Só que, antes, não se conhecia ou ouvia falar de algum. Zero. Classe média? Só se for média lá para o muito baixo, a roçar o nível do desenrascanso diário. E isto na cidade e sua periferia, pois não recordo antes do final de 1974 qualquer negro a viver nas “Polanas” das cidades de Moçambique. (…) Tanta coisa que estava errada e só em 25 de Abril de 1974 se tornou visível para uma certa população que olhava, no seu global, só de soslaio para as injustiças que, sob esses olhos, corriam a céu aberto, Eu, inclusive.” (76-78). “Todos nós, hemisfério norte europeu, branco e rico, devemos algo muito importante a África, negra e pobre. Durante séculos foi o nosso quintal de férias e banco estrangeiro, a Europa possui obrigações que secular incúria gerou, e não pode olvidá-las” (121).

Há algum tempo o Gil anunciou que estava doente. O meu companheiro blogal morreu esta semana. Um tipo sem peneiras algumas. Com evidente prazer nos outros, no “estar junto”, no partilhar ideias e sensações. Um homem bom. Sei que às vezes diante desta afirmação se pensa que se diz isso porque não há mais nada a apontar. Bem pelo contrário, é isso que realmente conta. Um homem morrer e deixar a memória de ter sido bom.

Cumpriste, Gil.

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