As crendices

buda24

(texto longo, a exorcizar a irritação):

Vou-me casar. Depois de amanhã. Apanho o avião, de Maputo para Lisboa, tão perto da cerimónia que até causei algum “frisson” nos meus mais próximos, até no geral dos convidados, naquilo do “se no caminho acontece alguma coisa…”, um qualquer algo que possa prejudicar a cerimónia. A minha noiva, a mulher da minha vida, por quem estou apaixonado, apesar desta idade que já me ocorre, veio à frente, há já quatro dias, para ultimar preparativos.

Entro no avião e constato que o acaso me senta ao lado de um conhecido. Jurista, antigo cooperante na Universidade Eduardo Mondlane, agora visita recorrente em Maputo, e com o qual já organizei sessões comuns, palestras e até sessões de apresentação de uma revista que ele coordena. Um tipo refinado, daqueles que percebi acima da mole que o Estado partidarizado costuma catapultar. Sorri-me, saúda e saudamos a coincidência, que nos faz juntos nesta noite de cruzarmos tamanha distância.

Bagagens arrumadas, preparativos terminados, cintos apertados, livros e revistas nos bolsos dianteiros, o avião parte. Conversamos, pergunta-me sobre a sempre complexa situação política moçambicana, de qual a minha opinião sobre o propalado “potencial económico” do país, acerca das competências e incompetências da política europeia, a célebre “ajuda”. Claro que abordamos a situação da dita “comunidade” portuguesa, tão aumentada nestes últimos anos. Fiel ao meu percurso inflicto para algumas recentes mutações nas artes visuais e até na literatura do país, procurando alertá-lo para vultos diversos dos já sacralizados.

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A Sala José Soares Martins (José Capela) no Camões-Maputo

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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1; 2; 3; 4).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

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O Savana

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Semana algo acidentada, esta minha. Deparei-me com esta absurda situação na Universidade Eduardo Mondlane, onde trabalhei durante anos. Fotografei e partilhei no meu mural do facebook, insurgindo-me. E constatei a energia dessa “plataforma” (como se diz) de comunicação, a rapidez das partilhas que possibilita, a cascata de comentários relativos. Os blogs estão ultrapassados, não têm a capacidade de interacção e integração que FB (e talvez o twitter) têm. Tenho pena e nostalgia – não só pelo suporte em si, mais repousado e amigável, ordenável. Mas também porque o texto, mais cuidado e burilado, é antagonizado por esses “suportes” …

Entretanto esta minha fotografia foi seleccionada como “imagem da semana” no jornal “Savana” (sem identificação, uma pilhagem que é uma longa tradição naquele jornal, tanto em imagens como em textos). De qualquer forma o que interessa é que a recuperação do painel de Malangatana no edifício do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane se tornou numa necessidade pública.

Sobre o “Ponta Gea” …

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Volto ao “Ponta Gea”, o recente livro de João Paulo Borges Coelho. Fartei-me de o recomendar – na minha conta na Academia.edu (o texto está aqui), no blog, na goodreads, no facebook, boca-a-boca, blog, entre-uísques, twitter, na via das 2M, email, acho-o belíssimo. Acontece que tanto em comentário no blog como em mensagens privadas sou informado que o livro está inexistente nas livrarias portuguesas – dito “esgotado”, até nas pesquisas na internet (que só os leitores mais sequiosos fazem), quanto mais nas estantes das livrarias (escaparates já nem digo, que o homem é pouco “exótico” para ser afixado). Ou seja, o “Ponta Gea” – que comprei na Bertrand dos Olivais, pela nada módica quantia de 20 euros – está “desaparecido em acção”. Eu a aborrecer as pessoas com a minha “sugestão” e para nada. Peço desculpa pelo incómodo.

Entretanto, se alguém tiver tempo e paciência, poder-me-á explicar que raio de estratégia de comercialização de livros é esta a da Editorial Caminho? A deixar desaparecer um livro destes, que publicou há tão pouco tempo?

Adenda:

Já referi o que entendo ser o assassinato deste livro por parte da sua editora, a Caminho. O livro foi apresentado num congresso sobre o seu autor em Julho e julgo que colocado à venda em Portugal em Setembro. Como muito dele gostei divulguei-o através de várias redes sociais. Recebi várias questões sobre onde seria possível adquiri-lo, dado que inexistente nas livrarias. E porque nem sequer aparece nas pesquisas na internet (o que só uma escassa minoria dos leitores faz). Em Setembro consegui encontrar um exemplar numa Bertrand (cerca de 20 euros). Agora o meu FB-amigo Luís Serpa avisa que o comprou, em primeira mão, na Voz do Operário, por 3,5 euros. Ou seja, já está transformado em mono.

Esta forma pateta e incompetente da editora tratar o livro terá várias explicações. O editor já me disse que o “João Paulo Borges Coelho não vende” – talvez não venda muito, mas assim não vende mesmo. Eu tenho outra explicação, que talvez seja uma teoria da conspiração. Mas considero que é propositado: à ampla estratégia comercial da Caminho (Leya) nunca conveio (e cada vez convém menos) que o JPBC seja um autor mais lido e reconhecido. Só não vê quem não … lê. Penso-o há mais de uma década. E não vale a pena dizer mais nada.

A apresentação do “Costumes Ancestrais dos Makhuwa-Metto…”

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Aconteceu ontem, a apresentação deste “Costumes Ancestrais do Povo Makhuwa-Metto …“, um pequeno trabalho de recolha etnográfica realizado em 1958 por João Eduardo da Conceição, pai do meu colega Rafael da Conceição, que agora o organizou e fez publicar. É um objecto excêntrico na história intelectual do país, e isso sublinha o seu interesse. Espero que as breves centenas de exemplares que foram emitidas sejam rapidamente adquiridas.

Participei na sessão de “lançamento”, como se diz. Após três anos de ausência do país perdi alguns hábitos, “desnaturalizando” rotinas que adquirira. Assim sendo estranhei, desconfortado, o tom pesadamente protocolar do evento. Para depois, só depois, chegado a casa, me ocorrer que lá de onde venho, onde o protocolo vai mais suave, com toda a certeza que as autoridades políticas não atentariam na publicação póstuma de um opúsculo etnográfico escrito há 60 anos. Talvez que o férreo protocolo não seja assim tão descabido, deitei-me assim a pensar.

O professor Gerhard Liesegang falou. E, sem rebuço, lembrou(-nos) que estando nós ali na Matola deveríamos recordar que desde o tempo colonial (ele explicitou 1971) a construção das infraestruturas públicas e do parque habitacional tem sido acompanhado pela devastação das estações arqueológicas.

Eu também botei, pois coube-me apresentar o livro. Falei tempo demasiado, disseram-me, implacáveis, os amigos e colegas presentes. “Para quê comprar o livro se disseste tudo o que lá está?“, a pior crítica que se pode fazer a um apresentador – e que eu já resmunguei tantas vezes -, coube-me a mim desta vez. Tem alguma explicação, que é pedido de desculpas: lá na minha terra não tenho quem surja com interesse nas minhas elaborações, venho aqui e a simpatia circundante solta-me a verborreia, aprisionada pelo meu silêncio boreal. Enfim, peço desculpa ao Rafael da Conceição e sua família, e aos seus convidados de ontem, pela “seca” que dei. Ainda assim deixei o texto que li na minha conta na rede Academia, é este “Apresentação …” para quem tenha algum interesse no livro.