No Xigubo, de Craveirinha

xigubo

Dizem os entendidos, e nisso deverão ter razão, que o melhor Craverinha foi o de mais tardia publicação, e de mais íntima verve (o livro “Maria”, em seu torno), assim algo desvalorizando, pelo menos comparativamente, as suas primeiras e mais programáticas décadas, aqueles de “Manifesto”, o da proclamação da legitimidade cultural e política local. Será, repito, talvez verdade. Mas regresso ao Xigubo, ao velho Craveirinha, então mais novo, claro. E há nacos de uma sapiência …

“Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos / e na minha boca diluem o abstracto / sabor da carne de hóstias em milionésimas / circunferências hipóteses católicas de pão. / E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo / vendem-me a sua desinfectante benção … / Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço / em rodelas de latão em vez dos meus autênticos / mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens / do ciúme e da colheita de amendoim novo.”

É este um trecho do seu célebre – e ideologizado dirão os “estetas” de hoje – “África“. Escrito lá pelos anos 1950s, presumo. Informo os que não sabem que “mutovana” é um amuleto. E que quase 70 anos depois continua a ser raro – entre boreais e austrais – quem diga, escreva ou pense algo assim. Principalmente lá pelo sul, cada vez com mais crendices cristãs e/ou corânicas. Mas também muito pelo norte.

Anúncios

3 thoughts on “No Xigubo, de Craveirinha

  1. Esse poema é mais do que um programa, é toda uma política. Linda. Lindo.

    Mas o primeiro livro que li de Craveirinha foi o Karingana ua karingana. E foi também o que reli. E reli e reli. Talvez por isso não perceba o que quer dizer, ou melhor, o que querem dizer os entendidos com “o melhor Craveirinha” ao dividirem-lhe a obra no tempo, porque se torna difícil datar um livro que se revisitou sem relógio nem calendário e partindo e chegando sempre e apenas nas imagens que o poeta desenhou.

    Gostar

    1. Li algures, algumas vezes, especialistas que valorizam publicações posteriores – acima de tudo “Maria”, um livro que congrega poemas de décadas -, de maior incidência “pessoal”, menos programáticos do que este xigubo, esse karingana … e do cela 1. Eu, que sou fraco leitor de poesia – confesso, falta-me, quase sempre, a trama – olho para Craveirinha exactamente ao contrário.

      Gostar

Diga de sua justiça, sff

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s