A actualidade de José Craveirinha

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Em 1999 o incansável António Sopa organizou este curioso pequeno livro duplo: “Contacto e Outras Crónicas” e, do outro lado em formato invertido, “A Seca e Outros Textos” de Rui Knopfli – uma glosa do “verso e anverso” que os dois autores seriam, mutuamente -, duas colecções de textos, textos de opinião de Craveirinha, idem e breves contos de Knopfli, publicados nas décadas de 50 e 60.

Releio bocados – francamente, pouco me diz este Knopfli, bem diferente de quando poeta. Mas Craveirinha? Ui, aguçado como lhe eram as unhas (alguém se lembrará das suas enormes e tratadas unhas?).

Deixo três breves citações, com dedicatórias. A primeira (de 1957) para todos. A segunda (também de 1957) para os sacralizadores lusos no “empreendedorismo” turístico – e lembrando-os que o texto é do poeta nacional moçambicano, que entre outras coisas esteve preso 4 anos por ser independentista; a terceira (de 1964) – que será necessário extrapolar – vai para os gauchistes multiculturalistas, mais ou menos pós-modernos pós-coloniais. E lembrando-lhes a mesma coisa. Se, claro, forem capazes de simples acto intelectual da extrapolação – coisa que, neste país carregadinho de académicos racialistas, muito duvido.

– “Oh, missão ingrata esta, a de escrever verdades” (p. 19).

– “Todos nós sabemos que Lourenço Marques é das cidades mais visitadas por turistas sul-africanos … Quando se faz turismo não se pretende encontrar fora da terra natal o que se nos tornou banal na nossa. Se não, qual o atractivo do turismo? … Não se requer subserviência de idioma … Os barbeiros, cabeleireiros, alfaiates, hoteleiros e outros que tais, estão menosprezando a esperteza do forasteiro, dando-lhe facilidades a mais na vida. Vamos puxar pelos seus reflexos, fazê-lo descobrir a bela língua portuguesa; língua bonita, língua com história … Escrevendo os letreiros somente em português continuamos amigos à mesma; a diferença é que passamos a dar ao que é nosso o justo valor: o valor das coisas que nos pertencem e fazem parte cá da Casa. Casa esta que é nossa.” (em “Barber’s shop, boarding house, ice-cream today e outras barbaridades”, pp. 21-22).

– “E é crença de muitos esclarecidos que uma temática estritamente enraízada no folclore de Moçambique só poderá ser interpretada por indivíduos de cor. Não.” (em “Canção da Angónia”, um elogio a Gouvêa Lemos, p. 25) – e, já agora, se me aparecer aqui algum intelectual a apoucar o uso da palavra “folclore” saiba de antemão que deve é ir estudar em vez de se “armar aos cucos”.

 

3 thoughts on “A actualidade de José Craveirinha

    1. 1. Obrigado.
      2. Tem razão no que diz (alude) sobre a gigantesca fragilidade deste texto do Mithá Ribeiro. Imagine que eu esbocei um postal sobre essa polémica – imensamente frágil – sobre os racialistas, onde referia este texto. E onde metia esta frase do Craveirinha. Mas com isto das mudanças o texto acabou por perder oportunidade, eu a paciência, e ficou em “águas de bacalhau”. E acabei por apenas aproveitar esta citação. Que deveria chegar para essa mole de académicos avençados se calarem. Mas não há vergonha que se lhes aproxime.

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    2. Há quem à ignorância chame benção e, no caso, concordarei: antes não soubera de tal texto que não li… e eu que diligentemente lhe andei a coleccionar os artigos mais interessantes que surgiam!
      Enfim, espero que o tenha guardado – temo que o assunto não tenha morrido. Como diz, não há vergonha que se lhes aproxime.

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