O Padeiro dos Olivais regressa à Pátria

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Avenida Dailly, Schaerbeek, Bruxelas, de onde partimos no último sábado, eu em verdadeiro torna-viagem, quiçá o meu último, quem sabe se apenas o deste agora. Decidido o regresso automobilizado logo os patrícios ali vizinhos me aconselharam os cuidados necessários ao trabalhoso caminho: que ultrapassássemos Paris durante a noite, para evitar o seu demoníaco trânsito. Assim o fiz, largando a de facto bela e aprazível Bruxelas ao fim da tarde, de molde a cruzar aquele horroroso remoinho durante a meia-noite dominical, ainda assim atarefadíssima. Mas o conselho mais fundamental foi o dedicado ao combustível: que atestasse à saída do país, cerca de Mons. Que reabastecesse o mínimo possível em França, que tão mais cara por lá servem a gasolina – tanto que até terá provocado aquilo dos “coletes amarelos” que andaram nas bocas nestes últimos tempos, principalmente aquelas mais ditas eurocépticas. Assim o fiz, carregando a meio do franco trecho, e reforçando o pouco necessário já no País Basco gascão. E que atestasse no início do reino nosso irmão e de novo no seu término, ali nas imediações da antes mítica Vilar Formoso. Pois, disseram-me, e não só acreditei como o comprovei, a gasolina é tão mais cara em França do que na Bélgica e em Espanha. E é isso a verdade, como qualquer viajante mais atento o pode comprovar.

Mas o que mais me surpreendeu foi já conduzindo na Pátria Amada, apesar desta tantas vezes dita “Gasta”, e assim o ir parecendo. Pois, autoestrada adiante fui vendo os anúncios dos preços do combustível. E bem fidedignos o são, pois mostram que a gasolina comum é mais cara em Portugal do em Espanha. E do que na Bélgica – onde as pessoas ganham, grosso modo, cerca de três vezes mais. E até do que na França – a tal terra dos furiosos “coletes amarelos”, onde os rendimentos ainda são maiores. Não o acredita o prezado e almejado leitor do blog? Dirá que este bloguista é um “lusotropicalista”? Um “neoliberal”? Um “(filo)fascista”? Um “ressabiado/ressentido/invejoso”? Ou mesmo um “populista”? Ou até, como agora sói dizer-se, um mero “padeiro dos Olivais“? Não acredita mesmo? Então confirme aqui.

Lisboa alcançada. Malas amontoadas em casa. E vou às compras, à grande superfície fronteira, um estabelecimento Pingo Doce. O equivalente, por assim dizer, ao Colruytde Schaerbeek onde abastecia parcelas do rancho até há tão pouco. Venho com os preços bruxelenses, essa Brasília da Europa, bem frescos na memória. E fico estupefacto: não só tantos dos vegetais são mais caros, os espinafres (especializei-me, entretanto, num saboroso esparregado, lembrando-me da saudosa matapa), os espargos, os cogumelos, as berinjelas, as abobrinhas (sempre galicamente ditas courgettes), com preços mais acima. E etc. Mas, e notai bem, até o pão é mais caro. O pão. Vou repetir, sem isso acompanhar com alguma praga, até o pão é mais caro.

Parcas compras feitas e vou até ao Arcadas, desde há décadas o meu café de bairro, saudoso que venho da bela imperial da casa, sem igual, vos garanto, e dos seus apreciáveis salgados. Para além do convívio, este talvez o produto mais refinado da casa. Saudações feitas o patrão logo me mostra, comentando-a, como é uso entre nós, a capa do diário – e ainda não sabia eu ter este sido visitado pela inspecção das finanças e como tal, dada a alguma mácula vasculhada, convocado a adoçar as suas relações com o poder governamental, características da nossa política que os intelectuais e teclistas avençados juraram menosprezar. A capa do diário? Meia dúzia de VIPs socialistas não foram apresentados a tribunal há uns meses, como se esperaria se seguindo as leis. E o tal PS, o partido da dupla funcional Sócrates & Costa, voa nas sondagens para a maioria absoluta.

A gasolina é mais cara do que em França, o pão mais caro do que em Bruxelas. E a malta segue trepidante, “no comboio descendente,” vão todos “à gargalhada, uns por verem rir os outros, e os outros sem ser por nada”, vão “todos à janela, uns calados para os outros, e os outros a dar-lhes trela, mas que grande reinação! Uns dormindo, outros com sono, e os outros nem sim nem não”.

“Populista”, dirão alguns intelectuais comentadeiros. “Masculino tóxico”, dirão teclistas adamados e não só. Serei, isso e até pior e menos. Mas que fique claro neste meu regresso à gasta e amada Pátria: não é só a gasolina, até o pão é mais caro do que “lá fora”. Acreditem, que sobre esse assunto este Padeiro olivalense segue atento.

E a malta gosta disto. Que fazer? Torre-se o pão velho. Ou açorde-se-lo, se para isso houver arte.

E que se lixe, que isto, qu’esta gente, não tem arranjo.

3 thoughts on “O Padeiro dos Olivais regressa à Pátria

  1. Uma pena, se atravessou França sem visitar ou revisitar algumas vilas pelo caminho. Se bem que a Bretanha e o País do Líger lhe não ficassem muito em rota, mas poderá ter descansado a vista pela Aquitânia, apesar do combustível quase na reserva.

    Seja bem regressado. Estes blogues andam demasiado calados.

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  2. Também me pareceu o pensamento incompleto, mas supus que se lhe tivesse faltado o combustível na oratória – ou no teclar, melhor dizendo. Cansaço, supus, ou nova moda de de um postal fazer dois e três.

    Os preços não são infelizmente novidade. Os dos combustíveis (as duas ligações ao Cargopedia funcionam, mas o sítio não…), mas também os do pão (premonitória, a do Padeiro; mas esta semana o padeiro é mesmo padeiro e está no Governo e faz negócios com o Governo. Já os lesados do Dez, no caso do de Junho, ainda se queixam; mas um dos mais lesados terá sido o próprio JMT que, como herdeiro de uma cultura superior e ofuscado pelo brilho do palanque, se estatelou em divagações várias – e se não acredita leia a defesa de Bonifácio).

    A malta não gargalha, jpt, a malta desespera as faltas de alternativas enquanto da maioria se livra, ámen que agora se ficam pelos 35,5%… embora o PAN bandarilhe as contas e ganhe a faena, já dará para o táxi que os do táxi seguem a pé, ou de trotineta, vá…

    E sim, o país está um vácuo de ideias e de políticos.
    Bem-vindo.

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