
(Na morte de João Gilberto republico este postal de 2016 no Courelas, e que chamei “Autobiografia ideológica”)
Dizem-me reaccionário e coisas dessas, “como ficaste assim?” ri-se, amigo, um amigo … Não o sou mas lembro-me de momentos cruciais a formar-me, a sacudir os nichos pérfidos e impensantes do meu meio social, aquela “Lisboa” a fazer-se após 74, moles de gentes a malpensarem-se progressistas. Ideologicamente tive alguns momentos marcantes, alguns que terei esquecido com as décadas, outros que ficaram. Este foi o mais marcante.
Em 1984, aos meus 20 anos, João Gilberto veio a Lisboa, para dois concertos no Coliseu dos Recreios. Acorri. A gente foi temendo o que se passaria, na véspera o gigante tocara apenas 40 minutos, irritara-se dado que lhe tinham mudado a disposição dos micros que aprovara no teste sonoro, resmungou que não se ouvia a ele próprio e abandonou o palco, reportava a imprensa do dia. A fama de perfeccionista irascível precedia-o e nem percebo como tal teria acontecido, esse descuidado abuso. Enfim, lá fui, com amigos, no desejo que tudo corresse bem no dia. Já na sala galgámos ilegalmente da plateia apinhada para o balcão, mesmo sobre o palco. E o homem lá veio, para um espectáculo completo, absolutamente encantatório.
Em certo momento, casa já conquistada (estava-o, logo à partida), avança com o standard, que já dele também já era, Uma Casa Portuguesa (que só muito depois vim a perceber ser peça laurentina). E, espantosamente, da plateia surgiram alguns assobios, nada aclamatórios, que se vieram a repetir durante a canção. Pois para aquelas pobre mentes – a quem ainda não chamávamos “pós-modernos” e muito menos “bloquistas” – aquilo, a Uma Casa Portuguesa, era o símbolo, a Amália, o fado, o fascismo, sei lá mais o quê , e os símbolos a la carte eram-lhes odiosos – só uns anos depois, e já agora também por influência de alguns antropólogos portugueses, é que descobriram que o fado era popular, recomendável.
E lembro-me do nojo que senti, até envergonhado, daqueles parcos assobios, e do meu “estes gajos não prestam para nada”. Nunca me passou esse nojo. Eles, os assobiadores, cresceram em número. Mas também nós, os que aplaudimos, “sob um sol de primavera”. Fazemos é menos barulho, interrompemos menos o artista …
Entendi-o impregnado de ideologia e refrescantemente nada doutrinado desde os primeiros textos que lhe li.
Mais duro e irritado e impiedoso com os que contrariam por actos e omissões as ideologias de que se dizem defensores, renitentemente contrário a doutrinas vigentes, furibundo e muito cioso dos seus valores que me parecem tão nítidos sob uma capa de verrina e permanente insatisfação com esta sociedade que sobreviemos.
Provavelmente estarei errada, mas é tão sólido no que escreve que o erro me é constante – e devo estar, se até os que lhe vêem os actos tanto quanto as palavras lhe chamam aquilo que alguns que o lêem lhe chamam também. Obtusamente errada, para maior correcção.
Assumindo assim o erro, e vá que esteja em maré de grossa asneira, que esteja profundamente deficitária nas capacidades cognitivas e falha de compreensão, acrescento que não percebo como o terá marcado ideologicamente a falta de respeito de alguns perante a universalidade da música. Mesmo que esses alguns doutrinados em qualquer coisa.
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Foram estúpidos os assobios. Nem perceberam que o texto é irónico.
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