O Discurso do 10 de Junho

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As comemorações oficiais do 10 de Junho não são um acontecimento popular – uma “festa popular”. Mas são um ritual – e a palavra não é pejorativa, como muitos a utilizam – de reafirmação identitária. Vivido pela população na placidez do quotidiano. O fundamental da sua coreografia actual – uma cerimónia até simples, no país, acoplada a uma outra, a realizar onde haja uma comunidade de emigrantes portugueses – é o  modo como explicitamente denota a democracia como constitutiva do país, da sua identidade, assim afirmando-a. Pois o seu conteúdo central são os discursos: os presidenciais, que são esperados como relativamente protocolares, “cinzentos”. E os de um convidado, oriundo da sociedade civil e assim algo autónomo, ao qual é entregue a responsabilidade de dizer algo relevante sobre o devir do país. 

É isto o actual 10 de Junho, dia do Portugal democrático. Não é o dia em que o Chefe de Estado fala ao país – e muito menos ao “seu” “povo” – reafirmando a sua visão e o seu programa. É o dia em que o Estado dá o palanque a alguém, assim ao país, para que este critique e desvende o presente e até, porventura, aponte alguns rumos. Que  alumie o que lhe for possível. Na sua relativa autonomia de intelectual.  Ao longo dos anos alguns dos convidados têm sido mais interessantes, outros menos, mas isso é normal – e julgo que muitos não se vêm conseguindo libertar o suficiente do “peso do simbólico” do dia. Mas também isso é normal, humano. Mas o realmente fundamental é este molde cerimonial, assim significando e celebrando a democracia. (E seria bom que alguns “democratas” que menorizam o cerimonial, e a data, por não corresponder a ajuntamentos populares pudessem perceber algo do real antes de perorarem).

Ontem o convidado reclamou-se, explicitamente, filho da democracia. Do que disse algumas coisas não gosto – não se pede aos políticos “deem-nos alguma coisa em que acreditar“. Esse é um assunto que nos compete a nós, cidadãos, disseminar entre os … políticos. Mas, de facto, o convidado fez o que lhe incumbia: proferiu o que considera relevante sobre o país, criticamente. A reacção do poder foi imediata: membros do governo, actuais deputados, antigos membros do governo, jornalistas e opinadores, uniram-se em invectivas, considerando as palavras proferidas como de “extrema-direita”, de arauto do populismo anti-democrático e, até, próprias de quem não gosta do país (ainda não li invectivas de “anti-patriotismo” mas lá chegarão). E colhem imenso apoio nessas proclamações – as quais procuram não só elidir o efeito do discurso como também demarcar o “quem” pode falar na data, estipular um perfil futuro. Entretanto os que não estão no poder celebram as suas palavras, anunciam-nas pertinentes.

Que disse o convidado que tanto abespinha o poder actual (PS)? E que tanto encanta o não-poder actual (à direita do PS)? Disse

Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa (…) Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. (…) não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.

Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas. (…) A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos. (…)  os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”. (…)

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si: – Num sistema político cada vez mais bloqueado; – Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício; – Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial. (…) Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade. ( …) não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego.

Grosso modo, é este o resumo do que João Miguel Tavares disse ontem. Na cerimónia que consagra a crítica democrática como constitutiva da identidade nacional. Ao ler as reacções dos agentes do poder (militantes, simpatizantes e os sempre avençados) não só percebo, mais uma vez, o quão distantes estão da mentalidade democrática que se quer celebrar. Mas, ainda mais, percebo o quão intelectualmente desonestos são, ao refutarem estas palavras. Que tão elogiáveis, e até candidatáveis, seriam. Se proferidas por outrem.

(Adenda: três horas depois de publicar este postal o sistema do blog informa-me que o texto foi visitado, directamente, por 52 pessoas. São muitas visitas para este blog. Mas o sistema informa-me também que apenas três dessas visitas “clicaram” no trecho que cito, que foram ver o texto completo, ao qual deixei ligação para que não se diga que o trunquei, adulterando-lhe o sentido. Convido os leitores a consultarem esse texto, a “clicarem” na citação – só assim perceberão mesmo o quão visceral é a desonestidade dos apparatchiki socialistas que se aprestaram a criticar o locutor de ontem).

 

6 thoughts on “O Discurso do 10 de Junho

  1. Pelo que percebo do seu postal, João Miguel Tavares foi o ilustre filho de Portalegre chamado neste 10 de Junho a, em plana liberdade, dizer o que entendeu dizer sobre o país. E alguns dos representantes do país não gostaram.

    Onde me perdi foi na passagem sobre o significado do 10 de Junho. Ao contrário de outros feriados nacionais cuja maior ou menor importância sempre aquilatei, a deste tomei-a pelo valor que outros lhe atribuíram, nunca me tendo questionado, ou melhor, tendo-me questionado sem nada concluir.
    Acho interessante, essa sua ideia de serem as comemorações do 10 de Junho uma celebração da democracia e da crítica democrática. Gostaria de a perceber melhor, sendo este um feriado exclusivamente republicano que chegou a ser da Raça.

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    1. Eu tentei dizer algo mais sobre o estado das coisas, demonstrado pelas reacções ao discurso de ontem, do que o seu resumo afixa. Talvez eu não tenha conseguido ser explícito. Ou talvez uma segunda e mais cuidada leitura possa ser mais interpretativa.
      Sobre o restante – eu não elaboro sobre o sentido (significado) do dia nacional, que será relativamente pacífico num país que não tem grandes problemas identitários (o que não significa atribuir-lhe uma unicidade). Há até aquilo que se diz da hiper-identidade que Eduardo Lourenço referiu. O que falo é desta configuração celebratória, inaugurada julgo que em 1977 (ou 1978) – época na qual falaram grandes vultos, e da qual ficou célebre um discurso de Jorge de Sena (em Lisboa tenho um volume da Imprensa Nacional que é colectânea dos primeiros discursos do 10 de Junho – talvez 10, não posso afiançar – sob este desenho comemorativo. Para mim esta modelo, que é mais ou menos o mesmo (há uns anos introduziram o segundo momento, de deslocação até ao estrangeiro, para afirmar “as comunidades portuguesas”) desde então, significa isso mesmo: que o regime comemora o país (a identidade, a Nação, a Pátria, como se quiser chamar segundo a ideologia de cada um) afirma a dimensão constitutiva do discurso externo ao participantes no poder, da crítica efectuada pela sociedade. Isto é a democracia – não apenas as manifestações, como querem os que dizem inútil este ritual. De facto, porque são avessos à democracia, mas isso já é outra conversa.
      Mas, acima de tudo, regresse, sff, se tiver paciência, às doutas palavras que resumem o discurso de João Miguel Tavares, dito populista de extrema-direita

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    2. Não foi falha do texto, jpt. Estes dias não me têm sido nem fáceis nem lentos (talvez tenha reparado nalgumas respostas mais vagas do que o meu normal) e, penso que talvez pela terceira vez e ambas nestes dias, não segui as ligações.
      A esta hora a experiência foi já desvendada, o que não invalida que em podendo lá volte (não é questão de paciência, que essa tenho).
      Sobre o discurso de João Miguel Tavares, porque não acompanhei (cf acima), não comentei; do que li como resumo nada me feriu, talvez porque a vários leia e por vezes até eu escreva na mesma direcção e sentido. Já incluir JMT na extrema-direita… não o vejo como discípulo de Mário Machado, nem sequer do (ainda posso usar a diferença entre extremismo e fundamentalismo político?) fundamentalista Nogueira Pinto, mas talvez eu não tenha lido tudo o que dele há para ler?
      Mas percebi-lhe a verve contra os “desonestos” do “se proferidas por outros” – muito embora longe, muito longe, de supor que era aqui a pedra de toque 🙂
      Impunha-se um Q.E.D., jpt!

      Quanto às comemorações do feriado e àquilo a que chama ritual democrático, percebo onde quer chegar e noto que, a sê-lo, é-o parcialmente, porque os membros da sociedade civil (enquanto externos ao poder político) efectivamente tomam a palavra porque a mesma lhes é dada, mas apenas nas comemorações nacionais – tal não se verifica a nível autárquico, pelo menos não nas autarquias que me são familiares (e que partidariamente incluem uma câmara PS presidida pelo ex-presidente CDS de outra câmara; uma câmara PSD resgatada a um presidente PS que havia sido vice-presidente PSD; uma câmara PS de um presidente que era CDU; e mais umas quantas dentro do estilo, o que torna fácil de ver porque é que os radicalismos não vingam).

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  2. Gostei realmente das palavras de João Miguel Tavares. Foi um discurso baseado no que é hoje Portugal. Disse a verdade, sem “maquilhagem” nas palavras. E as reações vêm dos que sentiram o dedo tocar-lhes na ferida. Dos que não encaram Portugal como uma nação para todos. Portugal tornou-se numa fonte de riqueza só para alguns.
    10 de junho não é só mais um feriado, caramba. É o dia em que Camões morreu; um tipo poeta que deixou uma obra riquíssima do que foi um verdadeiro empreendimento português. Portugueses de outra cepa.

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