Capicua

eu

Em dois dias cumprirei a quinta capicua. Época para pensar no antes e em quem o fez. Nisso tenho saudades deste meu grande e querido amigo, aqui fotografado no Cabo Delgado há umas décadas já. Perdi o contacto com ele, conhecimento de antes do email, e depois nestas coisas de passarmos do hotmail ao yahoo e depois ao gmail. E também nisto de terem aparecido os telemóveis e de os perder e assim aos contactos tidos. Procurei-o, imaginando-o lá para Angoche, Unango ou até mesmo Namuno. Mas nada, nenhuma notícia! Agora aqui, até pela piada do reencontro, de esguelha indaguei-o em Anvers, Liège e até o perguntei, como quem não quer a coisa, em Scharbeek. Mas ninguém o conhece. Estranho, pois é, hoje em dia, era das redes sociais, difícil perder o contacto com um patrício que tenha tido caminhos e parceiros comuns. Talvez tenha já partido, sem me ter chegado a notícia. É uma pena, eu gostei dele – não no sentido erótico, que não era a nossa onda, que éramos e somos (se ele ainda cá estiver) daqueles “tóxicos”, como agora gostam de dizer. Com ele, junto a ele, ombreando abraçando-o, por vezes mesmo beijando-o, as coisas, e até os outros, luziam. Agora é só assim.

Fazes-me falta, meu querido.

Expresso por encomenda

logo_hq_wide

Aqui longe, hoje, sábado à tarde, vejo as notícias portuguesas. Ecos de uma entrevista de Bruno de Carvalho ao Expresso. “Outra vez?”, resmungo, “ainda?”, “a que propósito?”, indago. O homem vitimiza-se, como sempre: que foi indexado como terrorista, que foi prejudicado e traído por todos os que o rodearam, que não tem emprego, que muito sofreu com uma doença da filha, algo que tudo explica da sua deriva aquando presidente do Sporting. E ameaça, voltar a candidatar-se e ser eleito, processar o Estado, etc.

“Porquê?” repito, não haverá mais assuntos para o Expresso explorar, em Portugal e no mundo, do que voltar à “vaca-fria”, à enésima entrevista com o ex-presidente do Sporting, que encheu horas de ecrã e rios de papel há um ano?

Sigo na procura das notícias. Passado um pouco vejo no És a Nossa Fé, que o Pedro Correia coordena, que hoje há uma assembleia geral do Sporting, para aprovação do orçamento, para reiterar confiança na actual direcção do clube. E, no mesmo dia, o “institucional” Expresso faz uma entrevista “higiénica”, auto-vitimizadora, ao antigo presidente (e que personagem) do Sporting. Assim como se não fosse nada … Não ao presidente do clube, não aos seus oponentes eleitorais (Benedito, por exemplo, candidato que perdeu por muito pouco), não a membros da direcção – o que poderia ser entendido como inserido no debate interno ao clube. Mas ao antigo presidente, com o historial todo, com um processo inédito de deposição e de expulsão do clube.

Isto é uma encomenda. Paga. É óbvio.

É o Expresso. O que resta? Ou o que sempre foi. Pouco importa. É o Expresso.

Ópera e Troika

mw-860

(Fotografia de Nuno Botelho, publicada no Expresso)

Não será difícil, a não ser por mero clubismo, discordar que a actual ministra da Cultura – a terceira da legislatura, o que demonstra algum desatino governamental no sector – não deixará grande memória. Pois o que veio dizendo não impressiona: desde fazer-se ministra da civilização, a propósito das touradas, a sarcasmar sobre a imprensa portuguesa (aqui), talvez um mero deslize mas a mostrar-se altaneira, até lapsos geográficos pouco casáveis com o cargo que ocupa, a imagem criada é frágil. É certo que essas declarações, descalibradas, não obrigam a que seja desprovida de virtudes executivas. Mas … leio agora que o São Carlos está desafinado. Ou melhor, desorquestrado. Ou seja, desnorteado.

Continue reading “Ópera e Troika”

Uma cataplana de peixe

antónio-costa-1

Aumento da, e aumentos na, função pública, regionalização quiçá, e – por enquanto por último, mas nada menos importante – a folgazita para o pessoal do Estado levar os petizes à escola (uma folga para levar os filhos à escola? uma folga para levar os filhos à escola?).

E ainda vamos em Junho, vai ser um ditoso Verão. Entretanto Sousa, o Jerónimo, estertora, Cristas aparenta-se, Silva Pereira vice-presidenta-se (é inacreditável!), Sousa, o outro, emaranha-se no que julga tecer, e Martins faz o número. Sobram os adversários das beatas e o vazio.

Eleições no Outono, Cataplana no Verão.

Ricardo Rangel

RR

Noto, agora mesmo, que há alguns dias (11.6) se cumpriu uma década que o Ricardo Rangel morreu. Já?! Está cá ainda, claro. Pelas fotografias, frutos da sua “lente pertinente”. E pelas saudades que dele se têm. Eu, e decerto que muitos outros.

O seu trabalho é visitável aqui (a sua galeria digital). Na fotografia, com a sua mulher Beatrice, na varanda da sua casa, face à baía.

A morte do jornalismo desportivo

recordLogoShare

Escolho o “Record” porque é o jornal desportivo que mais frequento. Pois este jornal não monopoliza a deriva – ainda que seja o que mais nela se embrenha, comparativamente ao “O Jogo” ou mesmo ao “A Bola“.

Escrevo às 17.34 de hoje, 15 de Junho. O sítio do “Record” apresenta-se neste estado (tudo notícias com fotos chamativas): 2ª notícia: as vestes do casamento do capitão do Real Madrid, Sérgio Ramos; 4ª notícia: declarações do pai da mulher que acusou Neymar de violação; 5ª notícia: férias do jogador do Benfica Ruben Dias, foto da namorada anunciando que ela “mostra tudo” (um tópico nos títulos do jornal); 6ª notícia: o estado de espírito de uma adepta fervorosa (e com generoso colo, como antes se dizia, bem iconografado) dos Golden State Warriors, clube de basquetebol americano; 7ª notícia: um jogador da Juventus mostrou uma mulher na sua cama; 8ª notícia: as regras para o vestuário e comportamento no casamento do capitão do Real Madrid; 10ª notícia: sobre a divulgação de imagens da mulher que acusa Neymar de violação; 11ª notícia: a reacção da namorada de Ruben Dias a uma partida que ele lhe fez; 16ª notícia: as imagens do casamento de Sérgio Oliveira, jogador do F.C. Porto; 19ª notícia: desenvolvimentos sobre a acusação a Cristiano Ronaldo de ter violado uma prostituta americana; 20ª notícia: a lista de convidados do casamento do capitão do Real Madrid; 21ª notícia: o advogado da mulher que acusa Neymar de a ter violado; 22ª notícia: uma rapariga muito magra mas com par de mamas bem constituído, dita Júlia Palha, num barco de recreio em bikini; 23ª notícia: fotogaleria dos convidados ao casamento do capitão do Real Madrid; 24ª notícia: uma rapariga voluptuosa em lingerie provocatória sob o título “Bastou alguém chamar-lhe Barbie e o nome pegou”; 25ª notícia: bis, fotogaleria em que a namorada do benfiquista Ruben Dias “mostra tudo”; 27ª notícia: namorada do futebolista Cédric, voluptuosa na piscina, mostra como foi a sua despedida de solteiro; 28ª notícia: as imagens do casamento de Simeone, treinador do Atlético de Madrid; 29ª notícia: fotos das férias dos craques, anunciada com um tipo debruçado sobre uma tipa, em trajes menores; …

Valerá a pena a continuar? É necessário armar um texto com laivos de semiólogo? Ou basta este rol para provar que aquilo morreu? E fede? (Ainda que as garotas que costumam aparecer tenham, sempre, fartas mamas – lembro que não é ordinarice, é assim que se diz correctamente – e curvas apreciáveis).

A capela manuelina na Ilha de Moçambique

capela.jpg

Este é o actual estado da Capela da Nossa Senhora do Baluarte na Ilha de Moçambique, devastada pelo ciclone que assolou a região no final de Abril. A capela é mais do que simbólica: está na extremidade da Ilha, é a primeira igreja cristã no Índico austral (construída cerca de 1522), é o único edifício manuelino em toda a região (e presumo que em toda a África austral).

Não creio que o Estado moçambicano possa, na actualidade, repará-la. Muitos (portugueses e até moçambicanos) dirão que por incúria. Não me parece: as urgências e as emergências são gigantescas e os recursos muito escassos. Muitos (portugueses) dirão que é abandono de agora. Falso: a história da Ilha, pelo menos de XVIII para a frente, é a das constantes reclamações do estado arruinado das edificações – crises económicas, abalos na administração, guerras. E, acima de tudo, as intempéries. Pois ali a manutenção dos edifícios é trabalhosa e custosa, tanto devido às razões climáticas como ao particular material utilizado nas construções – de facto, na Ilha a ideia de arquitectura perene tem que ser bem relativizada. Lembro os opinadores apressados que em finais de 1960s se procedia à “reabilitação da Ilha”, dado o estado deficitário em que já se integrava, piorado com a crise económica devido à abertura do porto de Nacala na década anterior. 

Em 1996/1997 esta capela estava em muito mau estado, tal como toda a “cidade de pedra-e-cal”. A Ilha havia sido proclamada Património Mundial pela UNESCO e houve alguma atenção sobre os edifícios. Em Portugal, a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses – então comissariada por António Manuel Hespanha, um grande intelectual e que fez um belíssimo trabalho, na sequência do que havia feito Vasco Graça Moura, ainda que com um perfil algo diferente de intervenção – promoveu a reabilitação desta capela, devido ao seu estatuto histórico e ao seu simbolismo. A intervenção não foi muito cara (o edifício é pequeno e, julgo, não particularmente complexo) e correu muito bem, sob direcção do arquitecto José Forjaz e com utilização suficiente de mão-de-obra local. Eu sei que os tempos são diferentes, que há menos disponibilidades financeiras no Estado português.

800px-Nossa_Senhora_do_Baluarte.jpg

E que nas instituições culturais não abundam homens da densidade de Graça Moura ou António Hespanha (ou, noutro plano, Lucas Pires ou Carrilho), que possam sensibilizar-se, de imediato, para os efeitos efectivamente culturais, e como tal socioeconómicos, de uma intervenção num edifício destes. Mas ainda assim espero que haja nas autoridades portuguesas pessoas com a suficiente atenção para Moçambique e para a questão do património cultural tangível para disponibilizar a ajuda necessária para uma intervenção nesta capela, de importância única. E que o Estado moçambicano possa e queira acolher esse contributo.

Digitalizado a partir do diapositivo original 6x6, cota AGU/DD2074

O Discurso do 10 de Junho (3)

jmt

Discurso de João Miguel Tavares em Cabo Verde.

Para um tipo como eu, português que passou duas décadas numa antiga colónia portuguesa, e que sonha com a hipótese de um dia (algo distante, se possível) lá ir morrer , e que ainda para mais por lá leccionou durante 15 anos, ler um texto destes, proferido num discurso comemorativo do dia nacional português, é momento de júbilo. O que Tavares diz sobre o colonialismo (português) mas não só, o que desmonta da perene ficção da “excepcionalidade portuguesa”, o que se afasta explicitamente da loa “lusotropicalista”, o que diz sobre “responsabilidades históricas” nacionais, o que diz sobre a reprodução das desigualdades no nosso território nacional, a perenidade da estratificação social que se alimenta dos fenómenos migratórios oriundos do anterior contexto colonial, o que diz sobre a necessidade de as combater, entendendo-as como fenómenos de “classe” ainda que sem descurar as suas componentes culturais e linguísticas, e, fundamentalmente (porque intelectual português), o que diz sobre o ensino multilinguístico, e a necessidade de fixar, preservar as línguas africanas e introduzi-las no ensino, em particular considerando a responsabilidade histórica de Portugal de nisso contribuir e de a isso proceder no próprio ensino oficial português, é um inusitado acto de civilização. Totalmente ao invés do pensamento dominante português, seja no espectro dos intelectuais profissionais, seja, e principalmente, no mundo das organizações estatais e para-estatais e seus funcionários.

Será talvez mais fácil perceber que Tavares aqui repudia a reemergência da ideologia racialista, actualmente conduzida pelos movimentos da esquerda neo-marxista, identitarista. Mas o que é importante perceber, que será talvez mais difícil de atingir às pessoas distantes destes contextos laborais, é que Tavares, em plena comemoração do dia de Portugal decorrida numa ex-colónia, clama pelo abandono – quem me dera que fosse definitivamente – da  noção de lusofonia, e todos os seus implícitos efectivos. Uma noção que é a cristalização dos pressupostos coloniais – não digo colonialistas, nem mesmo neo-colonialistas mas coloniais. Uma noção que foi desenvolvida pelos intelectuais socialistas no após-descolonização, e foi-o porque eles eram culturalmente herdeiros do Partido Republicano, o grande partido colonialista português (e convirá lembrar a tardia recusa do colonialismo pela oposição portuguesa: os comunistas, grosso modo, somente a partir de meados de 1950s, a “oposição democrática” de facto apenas desde finais de 1960s por Mário Soares, mas mesmo assim com  pouca adesão de outros, como se vê mesmo durante o início de 1970s). E que de imediato colheu agrado junto de outros núcleos intelectuais, desde os mais ligados ao antigo regime aos então oposicionistas brasileiros, que sonhavam um Brasil potência – algo que veio a encetar-se durante a presidência Lula.

É um grande texto, é uma grande reflexão, é uma grande visão. Vénia, caramba, vénia a João Miguel Tavares. O que está aqui é um verdadeiro discurso de “esquerda”, naquele velho sentido que se lhe deu, “progressista”, “crítico”, “iluminador”. Confesso que não esperava que surgisse em tamanho contexto, ainda para mais vindo de um tipo que conheço de nacos do “Governo Sombra” – programa que não sigo – e de textos de opinião no Público, de que às vezes gosto outras não tanto.

E será também um texto que poderemos confrontar com o que os “lusófonos” do Estado ou com o Estado,  esse núcleo cultural e profissional PS, esses que durante estas últimas décadas têm usado uma lente ignorante e ineficaz nas relações com África (não apenas a das ex-colónias portuguesas), pensam sobre o real. Ou, por outras palavras, para perguntarmos: afinal quem é que é de “direita”?

Em suma, até porque escrevo isto de rajada, repito-me: minha Vénia a João Miguel Tavares.

O Discurso do 10 de Junho (2)

antónio nóvoa 120610-PR-1174

(Sampaio da Nóvoa  discursando das comemorações do 10 de Junho de 2012)

Acordo antes das 3 da manhã. Insone, mas estremunhado. Tanto que não consigo ler – nem o Integral 1 de Gil Jourdan com que me estou a deliciar. Coisas da idade, pois, como todas as manhãs, acordo de olhar embaciado, precisarei de trocar de óculos, está … visto. E por isso, até porque a noite ainda será longa, trago o computador para a cama, coisa rara. E percorro o FB, passatempo que sonho soporífero. Nisso noto que lá longe, na Pátria Amada, imensa gente comenta o discurso de João Miguel Tavares nas cerimónias do 10 de Junho. Muitos encómios, dextros. E muitos apupos, canhotos. Tantos são estes que procuro o que também diz aquela gente que não está nas minhas ligações, os veros sinistros canhotos – os “conhecidos”, administradores não executivos, bloguistas jugulares, deputados filósofos, esse malvado cerne nunca-ex-socratista. Estes pateiam, em uníssono e com vigor, o discurso do colega de Ricardo Araújo Pereira. Como tal vou ouvir o que o homem disse. E reconheço-lhe a argumentação, lembra-me outro discurso de 10 de Junho, um que fez época, e há bem pouco tempo.

Continue reading “O Discurso do 10 de Junho (2)”

O Discurso do 10 de Junho

dia-10-de-junho-1-728

As comemorações oficiais do 10 de Junho não são um acontecimento popular – uma “festa popular”. Mas são um ritual – e a palavra não é pejorativa, como muitos a utilizam – de reafirmação identitária. Vivido pela população na placidez do quotidiano. O fundamental da sua coreografia actual – uma cerimónia até simples, no país, acoplada a uma outra, a realizar onde haja uma comunidade de emigrantes portugueses – é o  modo como explicitamente denota a democracia como constitutiva do país, da sua identidade, assim afirmando-a. Pois o seu conteúdo central são os discursos: os presidenciais, que são esperados como relativamente protocolares, “cinzentos”. E os de um convidado, oriundo da sociedade civil e assim algo autónomo, ao qual é entregue a responsabilidade de dizer algo relevante sobre o devir do país. 

Continue reading “O Discurso do 10 de Junho”