Comemorar o 28 de Maio

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A notícia é de 28 de Maio (“curiosa data”, se glosando Mota Amaral): “Divulgar informação sobre grandes devedores ameaça a estabilidade, avisa o Banco de Portugal”, uma veemente defesa dessa verdadeira “evolução na continuidade” feita pelo organismo dirigido por um indivíduo tendente à amnésia. Nesse mesmo dia se soube que o Banco de Portugal “calcula em 23,8 mil milhões de euros os fundos públicos injetados na banca nos últimos 12 anos. Falta recuperar cerca de 80%.“. E ainda no vigoroso 28 de Maio, a GNR sai para a estrada para penhorar os carros aos micro-devedores fiscais.

Entretanto, durante a referida data, imensos portugueses se afadigam celebrando a “vitória da esquerda” e, acima de tudo, “a derrota da direita”, esta um magma neoliberal ao serviço do capitalismo desumano. Outros, e bastantes, dissertam ainda sobre as causas da “abstenção eleitoral”, especulando, implícita ou explicitamente, sobre o quanto esta influenciou a “derrota da (pérfida) direita” e/ou apoucou a “vitória da (bondosa) esquerda”.

Que dizer de tudo isto, desta gente festiva? Só “Ah, Ah, Ah“, para citar José Berardo, o apaniguado de José Sócrates.
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O socratismo e o Guronsan

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Um administrador das prestigiadas empresas EDP, Jerónimo Martins e Mota e Engil goza os seus consumidores e potenciais contraentes. Mesmo na impunidade do prebendismo socratista é um bocado … intoxicante.

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Venha de lá um Guronsan, que isto assim até dá ressaca.

A escolha

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1. As “europeias”, tal como as autárquicas – estas particularmente nas grandes cidades -, costumam ser utilizadas pelo eleitorado como voto punitivo dos governos, contestação ou aviso. Em 2014 PSD e CDS conduziam o governo que tomou as medidas mais impopulares desde o início dos anos 1980s, devido aos espartilhos impostos pelo resgate financeiro. Nesse âmbito tiveram um resultado eleitoral fraco. Rio, e outras figuras do PSD, aligeiram o que aconteceu ontem, comparando os resultados e afirmando um crescimento eleitoral. É um mero aldrabismo que traduz duas coisas: cegueira política; desonestidade pessoal dos locutores. A primeira conduz a más estratégias políticas, a segunda enfastia os eleitores. Tudo junto? Leva a mais e maiores derrotas. Ou seja, não basta saber falar alemão para se ter sucesso na política nacional.

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A abstenção eleitoral

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Ainda a tarde mal começou e já leio vários lamentos sobre a quantidade de abstencionistas, o alheamento e a ignorância dos eleitores face a estas (e outras) eleições. Quereis combater a abstenção? Depurai-vos de essencialismos, de purismos sobre a política. E que cada votante – após ter cumprido o seu direito cívico (e não dever cívico, como palram os estatistas) – receba um simpático (e parco) vale de compras oferecido pelas empresas das “grandes superfícies”. Vereis como a abstenção cairá, e muito significativamente.

A taça é nossa

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É só futebol mas vivo-o (it’s only rock ‘n’ roll, but I like it). Até demais … E é, como disse, clarividente, o Francisco José Viegas, um antídoto contra a solidão.

Ontem, aqui na tasca vizinha, tamanha me foi a comoção final que a pressenti, à ceifeira, seu hálito e até seu afago: mais uma destas e ainda me dá o treco! E depois?, qual seria o problema? Que interessam os desconseguimentos, as interrupções, o desfeito e o infeito? Que mais será de pedir nisto do que o enfeite do final feliz?

Greta D’Arc

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Nas últimas semanas fui vendo em blogs e no Facebook vários pequenos textos de gente que leio com atenção e até de amigos bem próximos, que surgiram azedos sobre Greta Thunberg, a jovem sueca tornada ícone ambientalista. Alguns até partilhando um texto viperino, gozando com a propalada condição da jovem, dita com o síndrome de Asperger. Trata-se de um meio intelectual definível, ainda que algo heterogéneo ideologicamente: é gente que se revê num “centro”, “direita” ou até “extrema-direita”, que anuncia filiação a um conservadorismo ou a um liberalismo, ou mesclando-os, às vezes de forma um pouco atrapalhada. O argumento é sempre similar: o aquecimento global é um mito, ouvir uma jovem é um populismo e/ou uma infantilização da vida política. Alguns complementam sobre a impossibilidade desta adolescente ter a solução para o problema, ainda que este inexistente, segundo as suas perspectivas, um oxímoro argumentativo que parece escapar a estes locutores.

Foi comentando um desses textos, oriundo de um intelectual português que bem aprecio, que me surgiu a ideia – a qual, de tão óbvia me pareceu, porventura outrem já terá avançado mas se assim aconteceu desconheço-o – que esta adolescente é uma Jeanne D’Arc actual. Pois, lendo a história da donzela de Orleans, tornada símbolo da cristandade e do seu país, de facto do polissémico “morrer pela Pátria“, como não intuir que aquele comportamento obsessivo da adolescente camponesa poderá ter sido originado numa peculiar condição? E com toda a certeza, como aliás comprova o seu final, também ela incomodou os sábios “bloguistas” e “facebuquistas” de então. Apesar de ter sido útil ao reino.

Daí esta minha Greta D’Arc, obsessiva na sua dedicação à causa ambientalista. E que tanto incomoda tantos locutores. Esta dedicação extrema teve impacto. Ela apareceu induzindo um movimento ecologista geracional. Se em Outubro os iniciais pequenos grupos ecologistas deste movimento tinham ainda alguma dificuldade em chegar à fala com o secretário-geral da ONU (ainda que acolhidos pelo seu gabinete), agora Thunberg, a sua inspiradora, é recebida, sinal da crescente consciência de alguns líderes políticos da gravidade da situação. Uma esmagadora maioria dos cientistas está convencida que o problema é enorme e urgente. Uma minoria nega-o. Como se sabe, na história nem sempre a maioria dos cientistas (a “ciência normal”) tem a razão face às minorias. Mas este argumento tem uma fragilidade nesta questão: as minorias que estavam certas normalmente (ainda que nem sempre) fundamentavam-se em hipóteses e métodos inovadores, afrontando as perspectivas vigentes. Neste caso as minorias renitentes não apresentam essas características inovadoras. Mas mesmo assim é possível que os que negam a hipótese do aquecimento global poderão estar certos – e que bom que será se assim for. Mas ainda que assim seja, que não estejamos na alvorada de uma dramática mudança climática causada pela humanidade, algo é inegável: a degradação ecológica é gigantesca.  E universal. E justifica toda a atenção.

Os que negam a hipótese de aquecimento – e a pertinência de atentar nesta jovem ícone e no actual movimento ecologista juvenil – são também um fenómeno intelectual interessante: os que se dizem conservadores alheiam-se de um tradicional item das agendas políticas conservadoras, a protecção ecológica; e os que se dizem liberais, estão totalmente alheados de uma visão capitalista, se se quiser da “destruição criativa” (eu sei que Schumpeter não é o arquétipo do liberal mas não pode ser dito como um radical anti-liberal), das imensas possibilidades lucrativas de novas políticas ecológicas (nas várias áreas da actividade). Ou seja, nestes locutores não é um conservadorismo e muito menos um verdadeiro liberalismo que vigoram. É um mero atavismo. Não de agora. O sufragar das posições americanas sobre o assunto mostram-no bem: há quase duas décadas, no seu primeiro discurso de tomada de posse presidencial, George W. Bush anunciou o seu distanciamento ao protocolo de Quioto por este ser adverso ao “american way of live”. Dizer (resmungar) na altura – e depois – que tal afirmação era vácua, pois o tal “modo de vida” assentou na vigorosa abertura a transformações, devida à capacidade inovadora, organizativa e tecnológica, de uma sociedade cheia de recursos e livre de imensas barreiras institucionais que vigoravam nas suas concorrentes industrializadas de então, surgiria como uma resposta “comunista” ou parecida. Mas é uma coisa tão óbvia …

Este atavismo impensante dos irritados com o impacto de Greta Thunberg, e do movimento que ela simboliza (e induziu), nota-se num aspecto e prova-se noutro. É comum (porventura como o foi nas gerações precedentes) ouvir os actuais adultos menorizarem as práticas da juventude actual: não são dados à leitura, atentam em youtuberes vácuos, não brincaram na rua, seguem sobre-protegidos e assim alheados da natureza, não socializam, encerrados em consolas de jogos e telemóveis, na futilidade da internet imediatista, são consumidores mimados, são totalmente apolitizados, etc. Subitamente, no espaço de um semestre, um movimento internacional de jovens cresceu: na sua heterogeneidade não surgem folclóricos, presos a velhas pantominas hippiescas; não são um culto de falsos heróis que encestam bolas em redes; nem cultuam LSD ou heroinas, que tanto maceraram as gerações precedentes; não destroem as propriedades públicas e privadas, como os seus “tios” vestidos de coletes amarelos; não saíram dos “seminários de insurreição” promovidos em acampamentos de maoístas e trotskistas; não têm como ídolos um qualquer Ernesto Guevara (“fuzilamos e continuaremos a fuzilar“) em frémitos de utopias devastadoras; não seguem perversos pregadores hindús, islâmicos ou evangelistas, advogados de uma “purificação” das almas. Querem, e para isso se manifestam ordeiramente, numa saudável heterogeneidade de estilos, uma mais ampla informação sobre o estado da situação ecológica, e que se desenvolvam políticas de protecção ambiental – questão que há décadas está na agenda internacional mas que não tem conhecido grandes progressos, devido às resistências das elites político-económicas. Querem isso e assim se mostram jovens cidadãos. Interessados e empenhados, bem ao contrário do que deles dizem os mais-velhos, que os proclamam alienados.

Uma questão recente mostra, provando-a, a radical superficialidade destes críticos. Ou a sua estreita visão do futuro: há duas semanas Mike Pompeo – antigo director da CIA e agora ministro dos negócios estrangeiros americano, como tal alguém bem mais importante e escrutinável do que Greta Thunberg – discursou no Conselho Ártico e disse: “Because far from the barren backcountry that many thought it to be in Seward’s time, the Arctic is at the forefront of opportunity and abundance. It houses 13 percent of the world’s undiscovered oil, 30 percent of its undiscovered gas, and an abundance of uranium, rare earth minerals, gold, diamonds, and millions of square miles of untapped resources. Fisheries galore. 

And its centerpiece, the Arctic Ocean, is rapidly taking on new strategic significance. Offshore resources, which are helping the respective coastal states, are the subject of renewed competition. Steady reductions in sea ice are opening new passageways and new opportunities for trade. This could potentially slash the time it takes to travel between Asia and the West by as much as 20 days. Arctic sea lanes could come before – could come the 21s century Suez and Panama Canals.”

Passados dias percebe-se que nem um dos incomodados com a visibilidade de Thunberg, desta Greta D’Arc de hoje, e do juvenil movimento ecológico, comentou estas declarações do governante americante. Omnívoras, demonstrando uma visão do mundo até demencial. Nem um, que tenha atentado, destes locutores portugueses as comentou. Nem um. Nem um … 

Isto em Pompeo, e no mundo “trumpiano”, é um fundamentalismo mercantil (não liberal, entenda-se bem) patético, tal e qual como os fundamentalismos desses radicais de outros cultos. E nestes luso-locutores (até nos meus amigos próximos que assim bacocam) é muito um mero blaseísmo, a patetice do fastio. Pois ficam muito enfastiados com a agitação alheia, destes “jovens”. Isto não é “direita”, nem “extrema-direita”, nem “centro”. É só parvoíce. Perversa. E carregadinha de presunção, a presunção da “distinção”. Que gente … Que se julga, saber-se-á lá porquê, que por intelecto não é, com toda a certeza, acima do vulgo. De nós, comuns … Vão nisso enganados, pois se, como disse Ulianov, “o esquerdismo é a doença infantil do comunismo”, este blaseísmo nada mais é que a doença senil do capitalismo. O tal atavismo …

 

Chico

Conheci Chico Buarque no gira-discos da minha irmã – eu menino, 8 ou 9 anos (mana terei eu dito, confessado, já nestes meus tantos 54s, que tu és “o meu amor”?). Deram-lhe agora o Camões – e o meu querido magnífico Nataniel Ngomane participou nisso, e é assim ainda mais belo. Não sei da justificação do júri, nem verdadeiramente importa, tantas as imensas canções que me (nos) fizeram a vida. Terá sido, creio, até certo disso, ao “escritor de canções”, libertados os jurados das algemas dos “estilos” por via do rumo do nobel.

E é também lindo por ser Chico um alvo dos polícias da mente da agora. E, ainda por cima, rio-me, por ser ele, enquanto ficcionista, tão …. reaccionário. Tão … Buarque de Holanda.

Vénia, poeta-cantor. Bebamos do teu cálice.

E

é uma obra vida vasta Deixo (mais para os mais novos) uma hora e meia excepcional. Entre tantas outras …

Com a Bíblia

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(“Violando a Bíblia”, na Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson)

Ainda que incréu nutro o maior respeito pela fé alheia. Tendo sido alfabetizado ainda mais saúdo aqueles que seguem o(s) Bom(ns) Livro(s). Mas com a idade cada vez mais me custa aturar os fanáticos, os que interpretam o(s) tal(is) livro(s) à letra: aqueles dos islâmicos que em ânsias de cortar as mãos aos ladrões; os liberais vendo a total livre empresa como o bólide que nos conduz ao Eden; os marxistas que tudo querem do Estado, que julgam Santo; os, talvez os piores, do culto de Foucault, que a todos os tipos de poderes dizem ilegítimos e perversos; os cristãos, que nem nos deixam invocar o nome de deus em vão, nem tão pouco cobiçar as mulheres porque “de outros”; os do PS, que afirmam ser silvestre a entidade Berardo; etc. Todos estes se agarram aos textos que dizem sacros e se empertigam, nas suas falsárias falsas verdades. Assim tanto nos incomodando. E prejudicando.

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Dos comendadores

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(A propósito das imensas críticas aos comendadores que vou lendo nesta época, até os dizem “cadastrados”)

Eu sou comendador. Em Maputo, no dia 1 de Julho de 1997, foi-me entregue a medalha. Eu gostei. A república, que é uma democracia, coisa sine qua non para esse meu gosto, assim reconheceu o mérito de um trabalho colectivo e condecorou os que compunham a equipa. E saí com a caixa das insígnias também pensando que alguns dos homens da minha família antes haviam passado pelo mesmo. E também gostei disso, pensai o que quiserdes.

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