António e os Cartoons

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[Cartoon de António, 2019, New York Times]

O filho de Trump protestou com esta caricatura de António, o NYTimes censurou-a, siga o politicamente correcto, e as invectivas de racismo ou fobismo a tudo o que mexe a pasmaceira … à “direita” e à “esquerda” os paroquianos em frémitos constantes.

Mas António não tem espaço político para protestar, e explico-me. Há anos, logo a seguir ao assassinato dos seus colegas da Charlie Hebdo, António e dois dos seus colegas (Bandeira e um outro que não recordo), foram a um debate sobre a liberdade de expressão (e dos cartoonistas, em especial). Moderada pelo socialista Guilherme de Oliveira Martins, ali presente na condição de presidente do Centro Nacional de Cultura. Eu fui à sessão, regressara há pouco a Portugal e ainda estava bastante desambientado, atrapalhado quanto aos usos e costumes. Por outras palavras, tendente a desenfiar-me, a calar-me se em público. A sala estava cheia, e havia algum empenho atendendo à comoção gerada pelo vil atentado.

No início um dos presentes entre o público, um jurista que conheço pessoalmente (não o identifico, pois “faço cerimónia” com ele, e não só porque então, mui viçoso, tardo-septuagenário) – e porventura porque sabia que aquilo iria descarrilar – explicitou, e à mesa em particular, que os limites à liberdade de expressão eram unicamente os estipulados na lei. Anuíram, e o sorridente moderador em especial. Uma hora e meia depois, o mesmo jurista pediu a palavra e, com placidez, concluiu “então estamos todos de acordo, os únicos limites à liberdade de expressão são os colocados na lei”. “Claro que sim” anuiu-se, e em particular o moderador socialista. Pouco depois o ilustre jurista, após a sua simpática demonstração de sageza, saiu, decerto que para jantar, pois longa ia a sessão, deixando a sala a abarrotar continuar a conversa. Às 8.30 o conhecido moderador, homem da política, da cultura e das finanças, considerou que a hora ia tardia e anunciou que iria fazer a última intervenção. Concluindo-a, jesuítico e sorridente, que “estamos então de acordo, não há limites para a liberdade de expressão … a não ser o bom gosto”. Já sem o ilustre, sábio e ponderado jurista na sala, ninguém se opôs ao senhor Presidente do Tribunal de Contas, do Centro Nacional de Cultura, ex-ministro socialista, futuro homem da Gulbenkian, etc. e sei lá mais o quê. Nem António, nem os seus colegas, nem as dezenas de participantes na sessão. Todos sorridentes e coniventes à perfídia – dizer aquilo, e logo depois do assassinato da gente da Charlie Hebdo, é de crápula hediondo – do Magnífico Moderador. Até eu me calei, entã retornado atrapalhado com ânsias de lhe gritar a vilania que ali escarrara, mas sem saber como ali o fazer no meio daquela parcela do “le tout-Lisbonne” (passei depois o jantar, com um grupo alargado de participantes, a perdigotar o meu desespero com a cumplicidade generalizada com aquela aleivosia, tamanho o desespero sentido com a minha cobardia). Como tal, se António se calou ali, para não afrontar o mandarim socialista, que coma e se cale agora. Pois um gajo que nem os seus colegas assassinados defende não merece qualquer solidariedade quando é atrapalhado. Por outras palavras, que se aguente à bronca …

Entretanto, tendo o Trump filho protestado, o coro de coirões trumpianos portugueses, patetas estuporados a sonharem-se tetranetos de baleeiros açorianos enterrados em New Bedford, e como tal veementes empenhados no presidente dos EUA, andam por aí aos guinchos de falsete a convocaram António para gozar os muçulmanos e seus símbolos, saracoteando que ele goza com o papa (os pecadores de sacristia nunca tal lhe perdoaram) e com os judeus, mas nunca com os muçulmanos e seus radicais. Imbecis que nem o google sabem usar.

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[Cartoon de António, 2001 (Expresso?)]

Vejam lá isto, de 2001, mesmo em cima do  mais mortífero e atemorizador dos atentados dos radicais islâmicos. Desiludam-se os luso-trumpistas. Pois o respeitinho timorato que o cartoonista tem pelos manda-chuvas do PS não tem ele pelos radicais islâmicos. Ao menos essa (parca) honra ninguém lhe tira.

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Viva Bielsa

(Postal para o És a Nossa Fé)

No dia deste escandaloso Braga-Benfica, do qual retiro o final ensinamento que não se justifica esperar que isto do futebol português venha alguma vez a melhorar do estado de aldrabismo visceral no qual vive há décadas, é emocionante ver o que Marcelo Bielsa mandou fazer no Leeds United-Aston Villa, ainda por cima numa decisão que impede a sua própria equipa de ascender imediatamente ao ambicionado e riquíssimo campeonato inglês. Bielsa passou assim do consabido “El Loco” a consagrado “El Justo”.

Em Portugal temos esta merda. A mim resta-me, algo quixotesco, uma decisão: tentar nunca consumir qualquer produto que anuncie no futebol português.

Quanto ao resto? Que se foda, não dou mais para este peditório abjecto.

Carlos Gil

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Em 2003, no início da era blogal, eu vivia em Moçambique e abri o ma-schamba. Nos anos imediatos não houve bloguismo no país e as minhas interacções foram com leitores e blogs portugueses – os bloguistas muito se interligavam (os célebres “links” que eram uma espécie de “likes” avant la lettre, dos quais se recebia aviso através do então célebre sistema technorati) e nisso qualquer coisa se congregava, havendo até quem falasse de algo quase orgânico, uma “blogosfera”.

Nessas minhas interacções surgiu-me bastante gente oriunda de África, principalmente de Moçambique, os sempre chamados (quantas vezes malevolamente) “retornados”. Em diálogos que eram, por vezes, muito agrestes, com leitores abrasivos, invectivando o não me dedicar eu à crítica (até radical) do país e, nisso subjacente, à afirmação da ilegitimidade ontológica daquela independência. Trinta anos haviam passado sobre a descolonização e o apaziguamento interior de alguns sectores da vida portuguesa, amputados no processo descolonizador e descuidados e até desprezados pela sociedade portuguesa, não havia ocorrido. E julgo que não terá acontecido neste tempo que passou.

Mas havia também outro tipo de diálogos. Com gente oriunda de Moçambique, com muito interesse num país que, de facto, desconheciam, muito saudosa da sua juventude e meninice (como tantos de nós o somos), assim saudosa do país mas nisso solidária e, ainda que com olhar atento, preocupado e até crítico, sem denotarem a amargura ressentida de tantos outros. Alguns bloguistas nisso também, em interessante registo muito memorialista ainda que a ele não se limitando: e, entre vários, lembro o Chora que Logo Bebes e o Chuinga (que foi apagado). Este Chuinga era de Isabella Oliveira que havia publicado um muito interessante livro de memórias, Memória & Utopia, Companhia Ilimitada, sobre o qual até escrevi um texto um pouco mais longo.

E havia o Carlos Gil, claro, no seu Xicuembo (que teve várias versões e até outro nome). Que se estabeleceu como companheiro blogal do meu ma-schamba, leitor atento, comentador. E depois também como correspondente, pois ao longo dos anos fomos trocando mensagens, fosse ele estar preocupado com alguma notícia da “terra” a que eu não aludira, fosse querer saber como passara eu por algumas das agruras noticiadas (cheias, manifestações, vagas de crimes). E mesmo do que se passava na minha cabeça, alguns indícios de menor “boa onda” minha que ele teria detectado num ou outro postal. Trocámos assim algumas preocupações pessoais. Um dia, eu mal-disposto com aquilo dos 40 anos cruzados, a perceber que, de facto, “já fora”, decidi fechar o blog e despedi-me dos leitores. O tal technorati foi lesto a informar-me, o Gil fizera-me um poema, lindo – neste cadinho de blogs mudados de endereço não o consigo encontrar, e tenho pena. Fiquei mesmo comovido – aquilo de um tipo escrever e perceber que pelo menos há uma pessoa a quem verdadeiramente interessa o que bota. Tanto que lhe deixei a expressão que me viera à cabeça ao lê-lo: “deixaste-me com uma papaia na garganta“. A qual viria a usar passada um década: na véspera de partir de Moçambique, após 18 anos, escrevi as minhas despedidas no meu mural de Facebook. Um antigo aluno ali logo me perguntou “como é partir depois de tantos anos num país onde se foi tão feliz?” e eu, diante de tamanha candura juvenil, que só essa permitiria uma pergunta pública como aquela,  lembrei-me do Gil e respondi-lhe “é ter uma papaia na garganta“.

Ao longo dos anos, em blog e no Facebook, fomos mantendo o contacto. Lá por 2007, 2008, eu comecei a botar mais sobre Portugal, um pouco desaustinado pelo que ia lendo e ouvindo sobre o país, e ainda mais pelo que amigos, de visita a Maputo ou nas minhas idas à terra, me iam contando dos interstícios do consulado de então. A isso, ao meu perorar político, o Gil nem ligava, deveria achar-me um bocado para o reaccionário … Mas  botando eu sobre Moçambique lá aparecia ele – às vezes deixando sinal (em comentários ou nos laiques-FB) em textos até já algo antigos. E eu a pensar “o Gil passou por cá”. E chegámos a conhecer-nos pessoalmente. Há cerca de uma década eu estava em Portugal aquando da apresentação de um dos livros do João Paulo Borges Coelho, e desafiei-o a aparecer. Pouca gente compareceu, naquele desamparo tão típico dessas sessões em Lisboa, e quase toda oriunda de Moçambique. Depois fomos jantar ao Cais do Sodré, autor e parte dos presentes, na maioria gente de um núcleo bem conhecido que tem uma tertúlia no British Bar, “moçambicanos” da geração do Gil mas que ele (tal como eu) desconhecia. Jantámos juntos, algo excêntricos àquele meio. O Gil adorou o dia, disse-me, eu a perceber o quanto estava ele a ser aspergido pelos ares do Índico.

xicuembo

Antes ele publicara (e com imenso prazer o fizera) um muito bonito livro das suas memórias laurentinas, o Xicuembo (um termo com vários sentidos mas que pode ser traduzido como Espírito). O Gil fora rebelde em jovem, radical existencial por assim dizer, como tantos da geração dele (“born in the 50s”) e da minha. E o seu livro, imensamente sensível – como o seu autor -, dá um quadro único das vivências da Lourenço Marques tardo-colonial, sem qualquer veleidade de ser tratado historiográfico ou sociológico, ajuste de contas com regimes ou processos. É o quis ser, uma memória especial, e muito rica. Um dia, em Maputo, fiz uma pequena nota sobre o livro, e reproduzo parte. Porque resume bem o quanto sempre gostei do olhar do Gil, da camaradagem com o país onde nasceu e cresceu:

“São memórias daqui e não só, uma imensidão de saudades daqui, uma coisa que em blog e no livro sempre parece a entreolhar um qualquer outro talvez: “Para mim, o Aeroporto de Mavalane foi só uma porta de saída, atrás dela ficou uma vida que podia ter sido talvez assim, e hoje é, naturalmente, assado”. (116) Ler o Gil, e para além do encanto de ver como as vezes aparece mesmo nu lá no meio das páginas, é ler essas saudades de um outro tempo moçambicano, saudades pesadas até. Mas nunca saudosistas, um olhar para trás mas sem lá querer estar, sem reclamar por terem os tempos mudado: “Nunca ouvi falar num negro milionário no período colonial. Agora, parece que os há aos pontapés e, por infeliz norma, aceito que a regra é obtida com percursos escuros nesse enriquecimento pessoal, em detrimento dum país que já foi o mais pobre do mundo. Só que, antes, não se conhecia ou ouvia falar de algum. Zero. Classe média? Só se for média lá para o muito baixo, a roçar o nível do desenrascanso diário. E isto na cidade e sua periferia, pois não recordo antes do final de 1974 qualquer negro a viver nas “Polanas” das cidades de Moçambique. (…) Tanta coisa que estava errada e só em 25 de Abril de 1974 se tornou visível para uma certa população que olhava, no seu global, só de soslaio para as injustiças que, sob esses olhos, corriam a céu aberto, Eu, inclusive.” (76-78). “Todos nós, hemisfério norte europeu, branco e rico, devemos algo muito importante a África, negra e pobre. Durante séculos foi o nosso quintal de férias e banco estrangeiro, a Europa possui obrigações que secular incúria gerou, e não pode olvidá-las” (121).

Há algum tempo o Gil anunciou que estava doente. O meu companheiro blogal morreu esta semana. Um tipo sem peneiras algumas. Com evidente prazer nos outros, no “estar junto”, no partilhar ideias e sensações. Um homem bom. Sei que às vezes diante desta afirmação se pensa que se diz isso porque não há mais nada a apontar. Bem pelo contrário, é isso que realmente conta. Um homem morrer e deixar a memória de ter sido bom.

Cumpriste, Gil.

Parolismo: os cemitérios de Lisboa

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(Cemitério do Alto de São João, Lisboa. Foto do blog 100 Anos, 100 Árvores)

Sabe-se que o cientista e ministro Augusto Santos Silva considera um extremo “parolismo” aludir ao viçoso feixe de relações familiares dos dirigentes do PS aboletado na administração pública. Mas fica-se “parolo” quando se vai conhecendo o rosário de despautérios dessa elite partidária. O que se passa é nitidamente a consagração do ideário “O Estado somos nós”, corrupta corruptela de bem antigas (e absolutistas) concepções do exercício político.

A descrição do Expresso da  última sessão pública da Câmara de Lisboa mostra o putrefacto a que isto chegou, até pelo lado risível da questão: Fernando Medina, que tão falado foi há anos como mais-que-provável sucessor de Costa na liderança do seu partido, a propor um protocolo (financiador) da CML com uma Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa, esta animada em desenvolver actividades culturais em torno dos cemitérios – no que será, de facto, uma sub-contratação para o desempenho de actividades culturais, contornando os serviços camarários especializados nessa área (nos quais existe, pelo menos, uma empresa municipal, a EGEAC). E a qual já recebeu financiamento (parcos 10 000 euros, que dará para pouca coisa, como é óbvio), ainda sem protocolo que se veja.

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O Sri Lanka e o estado do Ocidente

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Não há muito para dizer sobre os terríveis atentados no Sri Lanka que a imprensa não tenha já relatado (ou venha a relatar, acontecida que foi há pouco outra explosão) – talvez lembrar que nos últimos dias houve um ataque do ISIS no Congo, e que a “insurgência” islamita em Moçambique se vai disseminando para sul. Entre tantos outros países onde formas super-agressivas de islamismo político se vão disseminando, isto para além das habituais formas de ditaduras políticas e intolerância sociocultural – os militantes “activistas” e “identitaristas”, bem como os Estados europeus, são completamente excêntricos ao autoritarismo religioso do Islão, patente nas formas inaceitáveis de tratamento da apostasia e de perseguição dos ateus, bem como da perseguição e discriminação de minorias religiosas. Tanto nos países de maioria muçulmana como nas práticas das populações muçulmanas residentes na União Europeia “dos direitos humanos”. Alguém se interroga sobre como actuam os líderes religiosos muçulmanos em Portugal (e na UE) face aos que querem abandonar a sua religião, como pregam sobre o assunto, que pedagogia da tolerância praticam, que modalidades institucionais instauram? De facto, a liberdade de culto, um dos valores fundamentais conquistados na Europa é posta em causa no interior de núcleos crescentes da população sem que isso seja apontado pela maioria dos intelectuais dos países europeus (algemados aos pós-marxismo identitarista) e sob o silêncio (timorato) dos Estados.

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Brioches e Galpgate

brioches

“Que eles comam brioches” (já que não têm pão) é a célebre frase menosprezadora dos miseráveis esfaimados, sempre atribuída a Maria Antonieta para ilustrar a inconsciência política dos possidentes face aos sentimentos populares – o dito é falso mas è ben trovato.

Vêm-me esses brioches à cabeça ao ler que PS, PCP e PSD se conluiaram para legitimar a oferta de viagens de privados aos políticos no activo, porventura abrindo caminho para arquivar as acusações a uma série de ex-governantes, o célebre Galpgate.

O tal “Galpgate” não será particularmente importante, isto dos políticos terem uma viagem para ir ver um jogo de futebol não será, por si só, suficiente para ulularmos “corruptos”. Mas o impressionante é terem os maiores partidos portugueses legislado esta medida neste momento, quando as representações populares sobre os políticos não são particularmente benévolas – será preciso lembrar o Socratesgate? O alargado rol de políticos cavaquistas com máculas satânicas? As tropelias autárquicas? O longo processo de substituição da PGR, que deu azo a tantas especulações? O DDT, até íntimo do actual PR, a mostrar como o poder económico subjuga o poder político? Não digo que o poder político seja corrupto, digo que há uma enorme suspeição, a qual afecta a relação com o regime: 30 e tal por cento do pessoal nem sequer vota, e muitos dos votantes continuam no clubismo de que “os dos outros partidos é que são corruptos”.

E neste ambiente – que é também internacional, com a crescente vaga de movimentos excêntricos aos partidos tradicionais, exauridos pela desconfiança crescente face às práticas dos seus dirigentes – os grandes partidos portugueses (quo vadis, PCP?), surgem a “limpar o arquivo”, a legislar para que os seus dirigentes possam receber oferendas e inocentar, retroactivamente, alguns deles. E isso a um mês das eleições, encolhendo os ombros a hipotéticos efeitos eleitorais de uma medida destas. O que demonstra uma crença inabalável do atavismo do comportamento eleitoral dos portugueses, a qual se calhar até é fundamentada (assim o dizem as sondagens, mais deputado para um, menos deputado para outro …). Mas mostra, acima de tudo, uma enorme inconsciência quanto às movimentações das sensibilidades populares, à possibilidade do inesperado num futuro breve, uma cegueira típica de espírito de casta (repito, quo vadis, PCP?).

“Eles que comam brioches”, diz Costa, atrevido como sempre, e Rio, absurdo como parece. E Jerónimo, também? A ver o que o futuro trará.

 

Parolismo

marta temido

Talvez alguém que viva em Portugal me possa explicar – até por mensagem privada, se assim o entender – como é que, a ser verdade que a “Administração do Sistema de Saúde “limpou” doentes das listas de espera para consultas, numa altura em que era presidida pela atual ministra, e foram usados indevidamente mecanismos para alterar datas de inscrição de utentes para cirurgia“, conforme o inscrito num relatório de avaliação de um grupo técnico independente nomeado pelo  governo, o qual esteve seis meses sem ser divulgado, a actual ministra ainda está em funções.

Ou será que, segundo o paradigma de cientista Augusto Santos Silva, é parolo perguntar uma coisa destas?

Eleições Europeias

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Leio que “Tiago Moreira de Sá, o homem que Rui Rio escolheu para as Relações Internacionais, sugeriu que a França convidasse “todas as religiões a participarem na reconstrução da Catedral, fazendo dela um exemplo de tolerância e de diálogo inter-religioso”.  Nunca ouvira falar do homem em questão, mas fico pasmado – e nem me vou dar ao trabalho de teclar para explicitar o porquê e o quão. Apesar de esperar tudo da “classe política” indígena ainda duvido que tamanha atoarda tenha sido proferido por quem acampa naquele “camping”, e vou confirmar. Confere, o homem patacoou mesmo isso.

A minha questão nem é sobre as declarações, sintomáticas de vera patologia. É apenas esta: é possível votar num partido que escolhe gente desta para os cargos de liderança? As pessoas minimamente equilibradas conseguem votar nisto?

(Declaração de interesses: eu ainda não decidi o sentido do meu voto, mas não é essa dúvida que conduz este postal. Ainda assim, para não se julgar que há “agenda” escondida neste postal, explicito que oscilo entre a lista da candidata Marisa Matias e a do candidato João Gonçalves. São razões intelectuais e sentimentais minhas, as pessoas são livres de as criticar. Mas não são livres, se sob alguma honestidade intelectual, de comparar esses candidatos a este Moreira de Sá e a quem o alcandora a postos partidários relevantes).

Aventino Teixeira

Tininho-SLO_(3)[1]

Sabia que era por este mês a “efeméride”, e ainda mais que ele rugiria imprecações se lhe falassem em “efemérides” a seu respeito. Confirmo agora, no passado 10 de Abril cumpriu-se já uma década que morreu Aventino Teixeira, amigo inolvidável, verve única, coração enorme. Deixa saudades, daquelas que vão crescendo pela falta que faz. Deixou um baú de textos a merecerem atenção, não sei do seu destino. E uma história de vida por contar, haja quem a narre. E um coro de coirões (como ele dizia), injustamente dele sobreviventes. Faz-me falta, na sua verve ácida, implacável, até azeda. A desnudar(-nos). 

Aventino por Sam (1)

Recordo duas homenagens de seus amigos. A de Sam, ali vizinho pois durante décadas tendo o seu estúdio nas imediações das nossas casas,  coisa tão genuína, apanhando a sua tão típica auto-depreciação sarcástica; e a de Jacinto Lucas Pires, num belíssimo e certeiro texto quando o “coronel” (como sempre o tratei) “Tininho” (como tantos dos nossos lhe chamavam) findou.

““Morreu o coronel Aventino Teixeira.” “Morreu o Aventino.” Lê-se e não se percebe, claro. Frases absurdas, onde sujeito e predicado não batem certo. E, não, não é só por nos parecer sempre injusta a morte de um amigo. É que o Aventino era mesmo diferente. Vejo-o na sua magreza de décadas, com aquele bigode mítico, o copo de uísque, e as palavras saindo, velozes, ferozes (e no entanto estranhamente calmas), de uma boca escondida; ideias, personagens, anedotas, citações, tudo baralhado num caldeirão genial. O Aventino seria o “militar do 25 de Abril e do PREC” de que os jornais falaram no dia da sua morte, mas era também, para lá disso, o caso raro de uma pessoa que morava no presente do indicativo. Alguém que, desconfiando das posteridades, apostava tudo no aqui-e-agora, sempre sem cobrar favores ao tempo que passou, sempre com o humor de quem ama a vida a todo o momento. Por isso, pensá-lo assim em modo pretérito surge, mais do que como uma violência, como um erro, um terrível erro de concordância. “Morreu o Aventino.” Que frase mais sem nexo, caramba.Um homem que não era dos dias de hoje, é certo; exactamente o oposto do formatado-engravatado da nossa indiferença, ele que terá sido um dos fundadores do “politicamente incorrecto” português. E, também, é verdade, alguém a quem não era indiferente a memória, na qualidade dupla de personagem e de narrador. Pelo contrário, trata-se do exemplo refrescante de um pensador sem cátedra nem sistema que “fazia História” pela via pacífica de um “fazer histórias”. Conheci-o como amigo dos meus pais, enquanto visita lá de casa, a visita dos jantares mais tardios e sonoros. Para a criança que eu era, o Aventino era todo um espectáculo. Uma linguagem fascinante, que misturava gíria proibida e culta invenção, uns olhos de brilho malandro, e um tu-cá-tu-lá comigo que eu recebia como uma honra. Desde então me habituei a admirar as tiradas fantásticas daquele espírito inédito e inimitável. Descrevê-lo é, pois, um exercício de literatura dos mais utópicos. A frase conhecida afirma que era o “mais civil dos militares”, mas a verdade é que ele era também o “mais à paisana dos civis”. Uma espécie única de subversivo sentimental, conspirador transparentíssimo, revolucionário sem nostalgia, manso boémio, conversador de horas extraordinárias. Às vezes, para o provocar, eu pegava na personagem de uma canção do Vitorino e chamava-lhe Coronel Sensível. Mas, coisa rara, ele aí levava a sério e dizia que não, não, ele não era esse. E depois ria-se, “Coronel Sensível…” Fará muita falta a sua alegria crítica, a sua alfinetada permanente, a sua graça. Lembrando isso, tentemos sorrir, apesar de tudo. Se houver céu, o nosso coronel já arrastou o São Pedro para um Procópio improvisado numa qualquer nuvem mais escondida, tenho a certeza. E, se não houver nada, o Aventino já tratou de inventar alguma coisa, não haja dúvidas.”

Agora, coronel, vou ali beber um uísque à sua. Ou mais do que um, para lhe fazer justiça.

 

Viva o VAR, mas …

5-3

(Postal para o És a Nossa Fé)

Jogo engraçado, ontem o Manchester United-Tottenham (vi-o pois aqui passou em canal aberto). Mal jogado, surpreendentemente mal jogado entre equipas destas e com tais jogadores. Erros de marcação, imensos passes errados, perdas de bola absurdas, um rol já nada usual em jogos de elite. Resultado? Espectacular. Não um jogo bom, mas um jogo espectacular. Divertidíssimo.

Torci pelo Tottenham, apesar de Bernardo Silva (já agora, porque não é ele tão relevante na selecção como o é no clube?). Torci pelo Tottenham muito pela minha tendência para torcer pelo desfavorito (o “underdog”, ainda que “abaixo de cão” não seja bem aplicável ao duplo vice-campeão inglês nas 3 últimas épocas). Mas, e acima de tudo, pela minha falta de simpatia por estas grandes equipas europeias construídas com oleodutos de dinheiro, proveniente das economias paralelas e das apropriações das riquezas estatais (“oligarcas” russos, nobreza árabe, “tycoons” yankees, testas-de-ferro extremo-asiáticos, etc.), uma gigantesca lavandaria financeira que procura, mais do que tudo, comprar “portos seguros” para essa camada hiper-bilionária e, também, influência política – a nobreza qatariana despejando dinheiro para alegrar os parisienses mostra, acima de tudo, o quão incómoda é a vizinhança saudita, mas a gente fala é do Neymar e do Mbappé … Processo este que conduzirá, mais cedo do que mais tarde, ao tal festival da Eurovisão do futebol, a liga europeia que será letal para os clubes dos países excluídos, a morte do futebol como o conhecemos. Enfim, deambulo, divago, apenas para sublinhar as razões pelas quais torci pelo Tottenham (um clube que não contratou jogadores para esta época, julgo que não estou em erro, mostrando o quão diferente vai o clube, que acabou de inaugurar um novo estádio).

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