O “Ponto de Encontro”

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[Postal para a rubrica Delito à mesa, no Delito de Opinião]

O “Ponto de Encontro” é o meu porto de abrigo aqui em Schaerbeek. Por cá a um estabelecimento como este chamam “petite restauration”, o que pode esconder muito, até apoucando-o. Por isso prefiro, e muito, tratá-lo pelo nosso antigo termo casa de pasto, o qual deixa antever um local de alimento e estada, convívio.

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Ba e os Outros

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Ao invés de muita gente cada vez mais gosto do Dr. Ba (líder da secção do BE chamada SOS Racismo). Digo-o sem ironia (ou sarcasmo): é um tipo atrevido, e isso é de louvar (ainda para mais no país do respeitinho). Imigrante, oriundo de África (não sei se já é português, mas isso para o caso é irrelevante) atreve-se a botar o que pensa, não se coíbe. Muito saúdo isso. Discordo do que o homem pensa? Pelo que vou lendo vou discordando, mas isso nem é importante. O que é relevante são dois corolários que retiro do que dele vou lendo:

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Abertura do ano académico na Lúrio

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A conferência para a abertura do ano académico na Universidade Lúrio, no pólo de Pemba, a ser proferida daqui a uns dias por um renomado professor japonês. É uma coincidência, a conferência fora programada há meses e ocorrerá durante esta tragédia.

Mas é também uma enorme demonstração da diferença entre os literatos, donos da palavra pública, sempre prontos às declarações tonitruantes, para não serem esquecidos, tendencialmente inúteis, e os intelectuais. Estes que procuram, com os constrangimentos de meios que sempre têm, sedimentar espaços de reflexão e canais de influência das opiniões. São duas coisas até inversas. 

Esta programação mostra bem como a Lúrio, universidade recente e ainda com corpos discentes e docentes relativamente pequenos, está num bom caminho. A pensar e a antecipar o que é possível antecipar. E é claro que não sendo uma universidade redutível ao seu reitor, este é um exemplo do trabalho iluminado do seu magnífico Magnífico Reitor (o termo protocolar ainda muito usado no país), Francisco Noa, um grande quadro moçambicano. Magnífico reitor mesmo, excelente intelectual. E uma pessoa decentíssima.

Que seja uma bela conferência. Constitutiva. Parabéns, já!.

O capitão motorista

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Não é preciso ser historiador para perceber o sentido da tendencial “endogamia” – como agora se diz, erradamente – na elite política. O enclausuramento das possibilidades executivas (e também legislativas) num cada vez mais pequeno grupo de gente, entrecruzado por relações de solidariedade afectiva e dependências mútuas, leva à formação de cliques, seja qual for o regime, ao enquistamento conceptual e à articulação com interesses cada vez menos abrangentes na sociedade. E mostra, sempre, um fim de ciclo, uma progressiva incapacidade desse poder para convocar e confiar em núcleos mais alargados das elites político-culturais. Este organograma “familiar” do governo bem o mostra. O governo está construído em torno de um pequeno grupo, sociologicamente demarcado. E as tentativas de cooptação de inéditos têm sido frágeis – eu tenho andado arredio às notícias nacionais, não sei como têm sido as coisas em 2019, mas no final de 18 era óbvio que as novas ministras da saúde e da cultura são muito frágeis opções, decerto que descartáveis no futuro. Não tendo trazido nada de relevante nem em perspectivas para as suas áreas nem em habilidades políticas. Ou seja, o governo remodela-se mas não se regenera.

Trata-se mesmo do final de um ciclo. Não o legislativo, mas de um ciclo geracional catapultado em 2005 mas já ambientado sob Guterres. De facto, trata-se do ocaso da “geração Macau”. E por mais que numa manobra obviamente articulada, num determinado fim-de-semana Galamba (logo depois recompensado pela almejada secretaria de estado), César (o mais impudico dos políticos relevantes actuais) e a jornalista Câncio, tenham tentado cortar o nó górdio que é o âmago do PS, o seu visceral “link” com Sócrates, isso ribomba neste ocaso do I governo costista, patente nesta sua “árvore genealógica”, preenchido com inúmeros antigos membros dos governos com e de Sócrates, sem que isso tivesse provocado verdadeiro sobressalto no país.

O PS vai ganhar as eleições e fará um novo governo. Provavelmente, após ter provado que conseguia governar nestas condições, e contornada a tenaz da crise financeira, conseguirá cooptar para o seu próximo governo outras energias das elites corporativas, outros Centenos, e nisso largar o mais estrito do socratismo, da concepção “macaísta” de exercício do poder executivo. E isto, goste-se ou não do PS, é fundamental para o país. Isto é o que se pode retirar da peculiar composição deste governo. Mas, honestamente, dela não se pode retirar qualquer ilegalidade ou imoralidade. Nem mesmo uma obrigatória disfuncionalidade. Apenas denota um esgotamento.

Outra coisa completamente diferente é o demonstrado pela notícia de que o secretário de estado da defesa do consumidor pretendeu contratar como motorista um seu “amigo” (termo que alude a uma relação de cariz afectiva e sexual) que é capitão do exército, algo que já foi confirmado pela arma. Claro que criticar isto provocará logo (até entre alguns comentadores residentes aqui no blog) a invectiva de uma “fobia” minha. Não. Ainda para mais neste período de grande debate sobre formas de relacionamento, em que a sexualidade assumiu estatuto de putativa toxicidade, bastará utilizar o contrafactual: se um secretário de estado heterossexual quiser contratar uma actriz de novela, com o qual tem uma relação de índole afectiva-sexual, para sua secretária (assistente administrativa) sendo ela desprovida de formação específica, ou uma cirurgiã ou bióloga para arquivista, por exemplo, haverá uma crítica generalizada, por desrespeito dos comportamentos actualmente exigíveis, demonstrada na total irracionalidade da utilização dos recursos humanos e no óbvio favoritismo. Falar-se-á de muita coisa, e obviamente de “favores sexuais”. O facto deste secretário de estado ser homossexual inibe, no contexto actual, a crítica radical ao inadmissível comportamento. E faz demorar a óbvia, urgente e necessária decisão: a sua imediata demissão por execrável nepotismo. E essa demora mostra bem mais o estado cataléptico do governo costista do que o emaranhado de relações familiares que o constitui.

Fica por resolver uma coisa. Presume-se que um capitão do exército possa comandar até contingentes com o máximo de 250 militares. Em actividades de rotina mas também em momentos de urgência, de imediatismo de tomadas de decisão e da sua aceitação e de actuação conforme. Como poderemos presumir que centenas de homens e mulheres militares se articularão, mesmo que apenas sob constrangimentos subconscientes, sob um oficial que sabem preferir ser motorista – tarefa digna mas para a qual está muito mais do que sobre-habilitado – do namorado, a quem presta “favores sexuais”, do que cumprir essas funções de comando para as quais foi formado?

Por outras palavras, que lugar tem este “oficial” nas forças armadas portuguesas? Evidentemente, nenhum. Tem a palavra a “arma”.

Moçambique: a ajuda portuguesa

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Vejo agora um filme da BBC com declarações de Graça Machel de há dois dias. Ex-ministra, e celebrizada por ser viúva de Machel e de Mandela, é uma figura muito relevante na sociedade moçambicana. Há dois dias afirmava, com clarividência, que a “calamidade” (o termo corrente em Moçambique para este tipo de situações) é vasta demais para ser enfrentada por um único país, sublinhava que Zimbabwé e Malawi estão assolados pela mesma situação, que é um problema regional. Disse ainda ter solicitado ao secretário-geral adjunto da ONU o envio de uma força altamente especializada para fazer o diagnóstico da situação, que é totalmente deficitária, desesperante até. Isto é o que quem conhece o que está (e não está) no terreno sabe.

Dado que ontem botei breve postal sobre o assunto junto algumas considerações. No dia seguinte a estas declarações públicas o governo português envia o secretário de estado das Comunidades Portuguesas para fazer um diagnóstico. Isto nota o vazio luso. Mas há mais: só quem nunca assistiu ou ouviu falar de uma delegação deste tipo não percebe que vai atrapalhar mais do que ajudar. É um grupo de amadores, sempre. Um político de terceira linha, com alguns assessores apparatchiki, e normalmente sem experiência deste tipo de terrenos e situações, muito preocupados com algo que lhes é sempre o fundamental: a comunicação social portuguesa. Porventura (sublinho o porventura) irá um ou outro profissional, oficial superior (major, tenente-coronel, coisa assim), sem ser especializado nestas situações. Convocarão uma articulação no terreno – seja das autoridades moçambicanas, alagadas de trabalho que estarão, seja dos funcionários portugueses ali estacionados, que seriam mais úteis se numa articulação directa com os oficiais moçambicanos. Visitas destas, costumeiras, são quase sempre inúteis. Muito mais o são em momentos destes. São até uma falta de respeito por quem está a trabalhar. Portugal tem embaixada, consulados. Se precisa de informações o pessoal diplomático ou associado que as recolha, ou então mande quem as saiba recolher, não uma “delegação” destas. É totalmente descabido.

Acabo de ler que seguiu hoje uma força de intervenção rápida, sob tutela do ministro da Defesa. E o qual anuncia que só irá a Moçambique se necessário. Ainda bem. É outra coisa. Podemos dizer que é algo tardio (um dia de atraso é surpreendente nestas situações). Mas é um eixo de actividade curial, necessário. E pelos vistos gerido com inteligência.

E a tutela é diferente: goste-se ou não do governo, goste-se ou não do ministro, Cravinho é alguém de gabarito intelectual, para além de que conhece o país (doutorou-se sobre o processo moçambicano, foi presidente do Instituto da Cooperação, foi secretário de estado da Cooperação, e foi-o com distinção). E o tipo de articulação que Portugal poderá ter com esta gigantesca operação terá que ser ao nível da Defesa e dos Negócios Estrangeiros – entenda-se, o secretário de estado dos negócios estrangeiros e das comunidades portuguesas é sempre alguém diminuído, politica e culturalmente, é uma tradição portuguesa que é imensamente significante do que o poder pensa da emigração. Como tal não faz parte do núcleo que pode pensar esta situação e a intervenção portuguesa. Será bem-vindo aos futuros jantares da Academia do Bacalhau, se levar algum subsídio para acções de assistência. De resto é (sempre) inútil.

Ou seja, é boa esta inflexão do governo, e já que critiquei antes, saúdo agora. A acção de ajuda de emergência entregue a verdadeiros especialistas, profissionais de gabarito (militares ou para-militares) que têm cadeias de comando, as quais costumam funcionar (tão ao invés da trapalhada civil). A tutela política entregue a um político de peso, que muito provavelmente será o MNE do próximo governo, e que não se apresta a ir visitar o local, em busca de um directo na TV. E que poderá servir – pela sua experiência política, gabarito intelectual, conhecimento de terreno e, muito em particular, pelos especialistas que tutela – para pensar as formas de integrar os recursos portugueses numa necessária acção internacional conjunta.

Estou a exagerar nos elogios, dirão alguns? Não. O meu ponto de partida, que é dogma, é simples: ninguém que tenha feito parte de um governo de Sócrates deverá estar num governo ou numa administração de empresa pública. Mas este não é o momento para se discutir o futuro português. Nem o presente.

A ajuda ao Moçambique submerso

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Razões minhas, e fastio também, levaram a que há mais de três meses tivesse fechado a minha conta FB (fiquei a blogar). Reabro-a hoje, para juntar o meu teclado aos que pedem ajuda para Moçambique (o qual é, se os mais “anti-tuga” de lá me permitirem dizê-lo, também “minha” terra, pois onde está a terra vermelha na qual preferirei morrer, na estação das chuvas se possível).

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As águas de Moçambique

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Não tenho quaisquer informações especiais sobre Moçambique. Recebo imensas mensagens de amigos de Portugal, que bem me sabem na Bélgica, formas solidárias percebo-o, perguntando-me se os “meus” por lá estão bem. Conheço pouca gente na Beira, os tais “meus” estão a sul e a norte. Esses estão a salvo, felizmente. 

Quando há notícias em Portugal sobre Moçambique sempre as relativizo, aprendi isso durante 20 anos, da tendência para o exagero. E da incapacidade para se compreender as enormes distâncias.

Mas esse relativizar não conta quando o assunto são as águas do país. Vivemos as cheias de 2000 em Maputo, quando a cidade foi sitiada pelas águas. Lembro-me do ar abismado da minha mulher, quando regressou do Limpopo alagado, inserida numa missão de ajuda. E de, semanas depois, termos passado Xai-Xai, onde as marcas da água eram visíveis nos prédios, tão distantes e tão elevados face ao longínquo leito do rio. Como fora possível tamanha cheia? Depois, em 2001, vivi as cheias da bacia do Zambeze (deixei no meu blog uma crónica que não quis escatológica ou demasiadamente realista) . E em 2007 trabalhei nos campos de refugiados de outras cheias do Zambeze (do meu relatório fez-se um livrito).

E nunca tive palavras para descrever o abissal daquelas cheias. Tenho, sim, uma certeza. É que se as palavras são insuficientes para transmitir a imensidão das desgraças provocadas, também o são as imagens, fotográficas ou em movimento. As cheias e as desgraças que causam têm ali dimensões indizíveis e “trans-visíveis”, se me faço compreender. 

Do que sei agora é que tudo se associa: um ciclone terrível, a bater a belíssima Beira, essa que um dia foi construída, por óbvio erro, abaixo da linha de água. Enormes chuvas a montante, a tumultuar um feixe de rios. A maré equinocial, cujo cume será hoje, ao que me dizem. E a prevista abertura das barragens nos países vizinhos, que estão nos limites. Não consigo prever pior cenário (a não ser uma ruptura de barragens, longe vá o agoiro).

Nos últimos dias aconteceu um desastre terrível no centro de Moçambique. Mas temo que nos próximos dias ainda venha a piorar. Eu sou ateu, não rezo. Nunca. Apenas vou à varanda e fumo. E espero que o futuro imediato não seja tão mau como ameaça. E comovo-me, num renitente pessimismo. E blogo.

É necessário acudir. E será necessário reconstruir. “Cuidar dos vivos e (talvez, pois tantos deles desaparecidos) enterrar os mortos“. Tudo isso em condições tétricas. E num país que é paupérrimo. Se puderem, por favor, ajudem. Por pouco que seja, uma mera pequena transferência para uma qualquer instituição. Não evitará o inimaginável. Mas sarará um pouco. Os efeitos do verdadeiro horror.

Adendaaqui, no portal da SAPO, encontram-se informações sobre instituições envolvidas na ajuda de emergência, e formas de contribuir.

Marcha pelo clima

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Em imensos países os estudantes saem hoje à rua, exigindo melhores e urgentes políticas de protecção ambiental. Em Novembro aqui deixei nota de uma primeira manifestação estudantil, em Bruxelas. Organizada por um pequeno grupo ecológico da Escola Europeia, e já reflectindo o exemplo da estudante sueca Greta Thunberg (com a qual este núcleo tem até algumas relações pessoais prévias), tornada símbolo de um movimento geracional contra a inconsciência produtivista da corporação etária no poder: pois ninguém das gerações adultas quer prescindir de nesga que seja dos seus “direitos adquiridos” ao consumo para assumir as medidas drásticas necessárias. As grandes empresas veiculam a ideia de que é preciso “reciclar” e aumentar os preços dos combustíveis, qual panaceia. Os (neo)comunistas dizem que não, que o necessário é controlar as grandes empresas. Ou seja, sobre isto apenas reflectem a “luta de classes”. Nenhum tem razão, pois todos têm razão. É preciso prejudicar todos, para a todos beneficiar. É isso que os putos, tão mais esclarecidos e cultos do que as bestas adultas que ocupamos todos os tipos de poder, nos estão a dizer. Desde então, em constantes (semanais) manifestações, num movimento crescente em vários locais do mundo, em mais de 100 países (notícias indicam 123).