gnr

A Few Good Men (Uma Questão de Honra) é um até penoso filme, protagonizado pela então conhecida Demi Moore, o ainda jovem Tom Cruise e Jack Nicholson (num dos mais histriónicos overactings da sua longa carreira no género). Quase todos o terão (entre)visto, num qualquer serão televisivo. Mas lembro o argumento, completamente típico, um padrão de Hollywood: Cruise representa o jovem, algo desinserido, mais arisco do que rebelde, que enfrenta as perversões do “sistema”, provocadas pelo desvio (psicológico) de um malvado Nicholson, comandante de uma unidade de tropas especiais no qual um soldado morrera devido à recruta. No final, contra todas as expectativas (menos a de todos os espectadores, claro), o Young Rebel redime-se da sua apatia e derruba o mau indivíduo, purificando o sistema. O filme é de 1992, podemos dizer que passara o tempo dos anti-heróis. Mas também podemos dizer que exactamente nesse mesmo ano Hollywood produziu uma macro obra-prima, pois Mestre Clint realizou Unforgiven. Que serviria, (muito) mais que não fosse, para mostrar a tralha cinéfila e cultural que este “Uma Questão de Honra” era.

Ao saber do que vai acontecendo na GNR bem que me lembrei do filme. O comandante do centro de formação, um coronel Ramos, já foi apeado. E um antigo dirigente da escola da GNR, Carlos Chaves, com o posto de general, já veio dizer que o problema foi de o instrutor ter perdido a cabeça e o exercício não ser supervisionado. Pronto, está resolvido o assunto. O coronel Ramos segue para outro serviço, o tal instrutor irá dar instrução para outro lado. O sistema purificado, pois arejado. E mantendo-se tudo igual.

Entretanto, e para (hipotética) vergonha do general Chaves, aparecem outras imagens. Outro exercício, outro instrutor, mesma modalidade de instrução: oficiais super protegidos a darem porrada em recrutas desprotegidos, estes nem um capacete protector têm, como é usual nos treinos de boxe. Ou seja, por mais que o general Carlos Chaves, do alto dos seus 3 anos de director da Escola da GNR, nos queira mentir, protegendo a sua corporação reduzindo tudo a uma má-prática individual, o que se passa é que há uma metodologia de treino alargada. Não é um erro de falta de supervisão. Não é um instrutor destrambelhado. É um modus operandi: a instrução passa por oficiais protegidos a espancarem recrutas. São estes instrutores, estes oficiais, que o general Carlos Chaves – pressuroso a mentir-nos, reduzindo o caso a um infeliz incidente – e os colegas (gente desta não é camarada de ninguém, nunca subiram acima de colegas) formou. Brotaram do molde que ele manuseou (ou criou, não sei).

Caladinho, e decerto que muito protegido, com a armadura necessária para dar porrada nos recrutas, e pronto a roçar-se nos políticos, está o tenente-general Luís Francisco Botelho Miguel, comandante da GNR, responsável máximo, e obviamente conhecedor, destes métodos de instrução. Alguns dirão que este oficial tem muitos méritos. Com toda a certeza que terá. Os necessários para passar à reserva. Já. Sem honra. Pois nenhum oficial que deixa espancar os seus homens merece qualquer respeito. Nem estar ao serviço.

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