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Bolsonaro apresentou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, assim mais explicitando o seu enquadramento ideológico. Para o novo ministro as questões ecológicas, e a preocupação com o mais que provável processo de alterações climáticas, são reduzidas a uma ideologia (“climatismo”), fruto de um “marxismo cultural” cujo objectivo é transferir o poder económico do ocidente para a China (ler este seu texto de blog do mês passado). Ou seja, os “inimigos internos” já não são os comunistas, esses que serviam para tudo justificar em décadas passadas, são os “pró-chineses”, avençados dos neo-Ming que por lá mandam. É este o novo poder do Brasil do Amazonas.

Antes das eleições o projecto político-económico fora explicitado pelo candidato Bolsonaro: incrementar a utilização da floresta (entenda-se, o desmatar). Em concordância com interesses terratenentes nacionais e industriais internacionais. O projecto político-ideológico? Explicita este Ernesto Araújo, a luta contra o tal “marxismo cultural”, esse “sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.”. Isto no âmbito de um “ocidentalismo” (às três pancadas), de uma superficialidade pungente ainda que glosando Heidegger (um resumo respeitoso da verve de Araújo está aqui), enquanto se alimenta de Spengler. É este o estado a que aquilo chegou. Com impactos ambientais que serão terríveis, articulados com a política americana nesta matéria, em que Trump canta a mesma boçal melodia (após Obama, que trauteava diferente mas pouco ou nada fez de relevante sobre as questões ecológicas).

Há mesmo um “marxismo cultural”, na pobre definição do agora ministro. Um neomarxismo, comunitarista, que coloca no centro da discussão pública o “género dos anjos”, um identitarismo que se tornou uma verdadeira “maré negra” na discussão política. O processo eleitoral que catapultou Bolsonaro é mostra dessa poluição: as suas ligações agro-industriais mal eram afloradas, os seus propósitos ecológicos ignorados. As (ineficazes) acusações que contavam para a oposição eram o seu machismo (e ele não legislará contra as mulheres) ou o seu racismo (e ele não legislará sobre raças). De facto, o que essas suas diatribes anunciavam era a recusa de políticas estatais de discriminação positiva, e foi isso que se tornou a questão central, devido aos grupos corporativos a elas ligadas, quando se tratam de meros epifenómenos.

Esvaizamento do debate que se mostrou nas acusações de racismo (que com toda a certeza correspondem aos seus preconceitos): vi ene vezes partilhadas declarações do candidato sobre a sua visita a um quilombo (habitado por negros). Disse o homem que lá só encontrou “gordos”, que o mais magro ia tão obeso “que nem para cobridor servia”.  As pessoas ficam agarradas à linguagem provocatória, e perdem o fundamental, caem na esparrela: pois o relevante não é que os “negros” sejam isto ou aquilo (“gordos”, “preguiçosos”). O relevante é a oposição à demarcação de terra (protecção ecológica por via de fundamentações histórico-culturais) e o radical confronto com políticas assistencialistas. Mas, claro, a omnipresente questão do “género (e raça) dos anjos”, imposta pelo neomarxismo, venda os olhares sobre as dimensões relevantes deste rumo, no Brasil e alhures. Neste caso, a ecologia, e a protecção desenfreada à agro-indústria.

Uma questão paroquial (porque o relevante é o impacto ecológico das políticas de Brasília): leio gente integrante deste novo partido (um partido-birra, de facto) de Santana Lopes a defender Bolsonaro. Leio membros e adeptos do CDS a defender Bolsonaro. Não leio ninguém do partido-Ventura porque presumo que não consigam escrever, mas também se deliciarão com estas bolsonarices. Alguns deles gozam com os “moderados”, os não-esquerdistas que não aderem a este bolsonarismo, como se em frémitos anais os gritassem emasculados. Isto levanta uma questão até porque, como aflorei acima, não vivemos na Guerra Fria, onde as piores tropelias eram justificadas pelo omnipresente comunismo. Como se relacionam, como simpatizam, estes quadros (intelectuais, pois vivem da escrita, como funcionários ou da comunicação social) com este trogloditismo intelectual? O que resta da herança filosófica liberal nestes putativos liberais, onde pára o esqueleto da democracia-cristã, diante desta trapalhada bolçada? Onde reside o pensamento ecológico, estruturante do conservadorismo (nacionalista) europeu, romântico ou deste sucessor ? Em lado nenhum, parece, pois os tais frémitos anais destes santanistas, perdão, santanettes e dos assunções, só aceleram mesmo face a este boçalismo.

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