(Postal para o És a Nossa Fé)

Eu sei que para muitos visitantes do blog falar elogiosamente de jogadores e técnicos que não sejam radicalmente sportinguistas é uma verdadeira heresia – para os interessados na História das mentalidades mergulhar no clubismo actual explicará muito das enormes sevícias cometidas nas guerras religiosas que assolaram a Europa durante séculos. Nesses tempos os nossos antepassados traíam-se, denunciavam-se, torturavam-se, queimavam-se, massacravam-se entre si por uns adorarem estátuas ou relíquias ditas ídolos enquanto outros preferiam paredes (semi)nuas nos locais de culto. E os mais perseguidos eram os apóstatas, aqueles que transumavam entre igrejas ou seja, pura e simplesmente, se “transferiam” de um clube para outro, nisso mudando de símbolos adorados, diante dos quais se prostravam e pelos quais se identificavam.

Há quem não goste de política (“malandros, são todos iguais …”) mas eu gosto, da política e das suas instituições. Pois, com todos os seus defeitos, são elas que impedem que os descendentes dessas gentes de antanho, os actuais idólatras, demoníacos adoradores de dragões, galinhas, leões e similares, se trucidem uns aos outros, em nome de um qualquer sagrado que, irreflectidamente, consagram a meras agremiações recreativas. Pode parecer ríspido dizer isto mas os clubes são, assim nasceram e continuaram, organizações para a ocupação de tempos livres – e isto não é desmerecimento, o lazer é algo magnífico e uma conquista histórica, a da redução generalizada do tempo de trabalho, alargando o bíblico “Seis dias trabalharás, mas ao sétimo dia descansarás; tanto na época de arar como na colheita (Êxodo 34: 21)”. Em tempos recuados, em finais de XIX e inícios de XX, serviram também, em alguns locais de alguns países, como espaços de entreajuda para os migrantes, os rurais desenraízados chegados às cidades em crescimento e, nisso, para demarcação de núcleos sociais, seja por origem geográfica seja por estrato social. Dimensão que há muito perderam, principalmente nos clubes de grande dimensão nacional. E nisso se restringindo à sua característica fundacional, a do enquadramento dos tais tempos livres, ordenando-os em práticas desportivas e seu acompanhamento (esse que hoje muito inclui a “majorettização” de parcelas do público, a sua juvenilização através das claques). Não são mais do que isso. E não são menos do que isso.

Por isso desconsiderá-los, dar-lhes menos respeito, ser adverso ao clubismo, é irreflexão, ignorância. Mas também dar-lhes mais do que isso, a clubite e até a actua “clubecrose”, reclamá-los como uma magnífica identidade – como tantas vezes leio, explícita e implicitamente – é pungente, pelo défice existencial que demonstra. As pessoas dedicaram-se anos a fio ao voluntariado associativo, a colaborar com o seu clube, cumprindo tarefas? É respeitável, mesmo magnífico, pela dádiva, pelo trabalho social, pela pedagogia. Agora reclamar mérito, exaltar o ser-se adepto de um clube – “Não falho um jogo do Porto”, “sou sócio do Benfica há 97 anos”, “a minha família é toda Sporting” (neste caso é bonito … porque mostra que nela não há azedumes suficientes para mudanças de clube de filho mais rebelde, mas só isso) – como se isso seja algo transcendente? É algo que não tem pés nem cabeça (uma espécie de Castaignos). “Ser”, gostar, de um clube é uma opção, tomada consciente ou inconscientemente (se em criancinha). É porreiro. Mas não mérito ou grandeza.

Vem-me tudo isto à cabeça porque antevejo meia dúzia de comentários mais ou menos sectários, as exaltações espúrias vindas da tal “clubecrose”, a este meu postal. Fica já dito, cortarei comentários que venham invectivar de “apóstata” o Ricardo Quaresma. Pois estou em fase de défice de paciência para a mediocridade sentimental. Porque é disso que se trata, as pessoas não conseguem dedicar sentimentos transcendentes às instituições circundantes e julgam disso necessitar. E assim entregam-se ao culto de um clube, ao sentimento por uma OTL. Francamente, que falta de tino.

Aqui vai o postal: ontem o Besitkas veio jogar à Bélgica, contra o Genk, actual comandante do campeonato – no qual, já agora, o Standard de Liége, que no ano passado ganhou a taça e correu para o título quase até ao fim, substituiu o Sá Pinto pelo lampião Preud’Homme (que não só é treinador como é membro da direcção, o que causa alguns remoques na imprensa) e está a fazer uma má época. Enfim, o Genk-Besitkas acabou 1-1, a equipa turca está em último no grupo i mas ainda pode ser apurada, pois a classificação está embrulhada.

Mas o relevante é que o Quaresma, sempre pérola da nossa formação, extremo com 35 anos (!, como o tempo passa), ainda está para as curvas e trivelas, e lá foi ele que marcou o belo golo “turco”, em puro contra-ataque. Grande Mustang …, que maravilhoso jogador.

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