Destituição?

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(Postal no Delito de Opinião)

Isto começou com alguns conhecidos jornalistas da esquerda socialista que botam nos “jornais de referência”, foi secundado por “opinadores”. Para meu espanto até por antropólogos (ironizo um pouco quanto a este espanto, no seio da corporação surpreende-me a desfaçatez mas não o pensamento). Defende-se o escrutínio dos votos dos imigrantes brasileiros em Portugal para opinar sobre a pertinência da sua permanência no país. A indução de um ambiente de pressão, moral que seja, sobre essa “comunidade” – que será muito mais um colectivo inorgânico de indivíduos, contendo alguns núcleos de sociabilidade e de entrejuda mas não exclusivos. De facto, a exigência que estes cidadãos legalmente residentes (“documentados”, na gíria politicamente correcta desta falsa “esquerda”) assumam – relativamente ao seu país e, em sentido lato, face ao mundo – os valores político-culturais putativamente dominantes na sociedade que os acolheu. Nos termos dos intelectuais (e dos antropólogos em particular) trata-se da exigência de uma “assimilação”, perspectiva sempre contestada quando relativa a imigrantes oriundos da Ásia ou da África. Uma vontade assimiladora que é sempre dita efeito de racismo, de lusotropicalismo, de imperialismo, de (neo)colonialismo (o prefixo está a ficar em desuso muito por influência do pensamento boaventuriano, que tornou “colonialismo” um all aboardpara definir a história moderna e contemporânea).

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O Brasil, a igreja católica (e os opinadores portugueses)

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Bolsonaro é apoiado por várias igrejas evangélicas – sobre cujas dimensões mariolas e comerciais poucas dúvidas haverá. E é certo que IURD e afins já apoiaram o PT (business as usual …). Mas agora bolsonarizam. Que diz a igreja católica, tradicionalmente menos explícita nos seus apoios? Consulto o insuspeito Vatican News e noto que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil já apelara, em Abril, à participação dos católicos nas eleições, para isso evocando considerações do actual Papa e fundando-se nas perspectivas de Bento XVI. E encontro o texto produzido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta semana (23 e 24 de Outubro): “Nota da CNBB por ocasião do segundo turno das eleições de 2018“.

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Cristas e o Brasil

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J’ai vu des démocraties intervenir contre à peu près tout, sauf contre les fascismes” é daquelas frases de Malraux que vingaram na Readers Digest de hoje, a wikipedia (e aviso já que não aceitarei comentários invectivando Malraux por não ter criticado Chavez e Maduro).

Cristas anuncia qual seria o seu voto no Brasil. Uma inutilidade, poderia ter-se escudado na não ingerência. Mas opinou, igualando as candidaturas, como se se filiando na crescente simpatia pelo bolsonarismo entre locutores da direita portuguesa. Fez mal. É certo que a sua opinião é irrelevante naquelas eleições (que aparentam estar já decididas – ilustra-o o já velho Chico Buarque terminando em lágrimas o seu discurso num recente comício da candidatura de Haddad). Mas falhou a oportunidade para explicitar o conteúdo exigível ao arco do poder.

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Se Deus Quiser

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Tabu de Marcelo: diz que não faz mais campanhas “se Deus quiser”; e recandidatura “está nas mãos de Deus”.

A forma como os locutores da tv estatal se dirigem aos “caros telespectadores” é algo relevante e passível de crítica. Não só pela disseminação do sotaque televisivo (a potenciação do canibalismo fonético da classe média lisboeta) que muito obsta à nossa compreensão pelos outros falantes de português – que é algo relevante quando se discute o AO90, ainda que os especialistas lusocentrados, mesmo quando oponentes daquela tralha, nunca notam. Ouçam com atenção António Costa a falar (o qual, de facto, fala só um bocadinho pior do que eu) para atentar neste “linguacídio” (diz-se glotocício, mas enfim, há quem esqueça o termo) em marcha … 

Mas há outros detalhes. Há anos muito me irritava, por descabido, o piscar de olho com que JRS se despedia no final do telejornal (“quem é este gajo para nos piscar o olho?”). E, mais do que tudo, irritava-me, e cheguei a blogar sobre isso, logo no início da minha blogomania, em Dezembro de 2003, a descabida expressão de José Alberto Carvalho que costumava anunciar, impante, ser o telejornal transmitido para “todo o mundo português”. Saberia o tipo sabia que passava em directo na RTP-África? Não haveria alguém que lhe dissesse (e não havia mesmo) o bafiento tom colonial que isso transmitia?

Mas enfim, leio agora que uma conhecida jornalista critica uma colega por se despedir com o tão usual “se Deus quiser”. Como ateu e defensor da laicidade dos serviços estatais também concordo, “não havia necessidade” como dizia o grande humorista …

E lembro-me de tempos muito recuados, quando vigorava o “compromisso histórico”, como se diz geringonça em italiano, no português arcaico erudito dito “bloco central”, quando as instituições se congregavam para trancar as investigações sobre as aleivosias dos políticos, em suma quando do PR se esperava que ajudasse a correr com a procuradora-geral da República, para Sócrates, sua “entourage“, a elite socialista, e os “clientes” do grande banco privado brindassem, suspirando de alívio. Nesses tão recuados tempos as prestigiadas jornalistas, alimentadoras e apoiantes de blogs anónimos e remunerados (quais Steve Bannions avant la lettre, ainda que artesanais) não se incomodavam com as figuras estatais a invocarem deus. Nem mesmo que fosse o PR.

Mas agora, nesta nova era? Resolvida a tarefa? Calafetado o caminho? Ofendem-se muito com as alusões às divindades … Deus Nosso Senhor nos valha, que vem aí borrasca. Lá dentro do bloco central.

Brasil (e não só)

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Um maravilhoso texto autobiográfico de Eric Cantona, no qual escreve sobre a essência do futebol, o estado do futebol actual, e desvenda o segredo dos triunfos do Manchester United. Mas acima de tudo sobre o mundo actual. Sinto-o imperdível: What is the meaning of life?

Sobre o mundo actual um belo texto de António Guerreiro, Sob o signo do politicamente correcto, no Público de ontem.

A propósito do Brasil, mas também incidindo sobre o mundo actual, dois textos relevantes: O futuro político do Brasil, de Fernando Henrique Cardoso, no El País de hoje; O arauto da revolta popular, de Jaime Nogueira Pinto, no Diário de Notícias de ontem.

Os beijos dos mais-velhos

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1. Esta historieta que corre em Portugal lembra-nos, cá em casa, um episódio. Em Março de 2010 Sócrates visitou Moçambique. Em época tão avançada do seu poder só os Santos Silva, Vieira da Silva, Leitão Marques e quejandos, mais os seus propagandistas a la blog Jugular ou Eixo do Mal, secundados pela mole de aficionados deficientes cívicos, podiam ainda negar o quão corrupto e corruptor do país o energúmeno seguia, e o quão abjectos eram os apparatchiki, essa rede clientelar que hoje de novo tanto se (ka)move no poder.

Nessa ida a Maputo Sócrates, como é da praxe ali, visitou a Escola Portuguesa, onde estudava a minha filha, então com 7 anos. Lá enfileiraram as criancinhas para a recepção a Sua Excelência, como sempre se faz. Por coincidência o escroque avançou para o ror de petizes e pediu à nossa Carolina e à colega que a ladeava “dão-me um beijinho?“. Conta ela ainda hoje “eu lembrei-me do mal que dele dizias e tive medo“. Mas, claro, nos seus 7 anos não teve a autonomia para se esquivar, e creio que até sentiu a excitação do falso brilho do poder, pois “o nem tudo o que reluz é ouro” é algo que se aprende mais tarde.
À noite, em casa, irei-me ao saber da história. Quis ir à escola reclamar, escrever para o ministério, que direito tinha a equipa docente em expor a minha filha a tão pernicioso e indecente contacto.? “Não vale a pena”, foi a derrotada conclusão a que cheguei. Pois parte dos funcionários lambuza(va)m-se com o imundo, a outra tinha medo. Chamando-lhe respeito. Seria envolver, ainda que indirectamente, a minha filha no asco pelo governo e seus apoiantes. Semeando até, quiçá, antipatia entre o corpo docente.

Mas lá está, há que controlar os contactos físicos dos mais-velhos com as crianças, não as obrigar ao indesejado, ao temido, ao naturalmente repugnante.

2. O professor Daniel Cardoso que tantos nas redes sociais agora gozam e insultam não disse nada demais. Os pais medianamente informados e sensíveis educam os filhos a ser polidos – ou seja, pulem os filhos, adequam a sua autonomia a regras sociais. O professor, que tal como tantos outros colegas, bota Foucault a torto e a direito (pelo menos na tv) – não é nada de especial, no meu tempo era o Althusser, daqui a uma década será outro – esquece-se um bocado disso, que a “autonomia” desses monstros egocêntricos que são as crianças é burilada por nós, mais-velhos. Mas ao polirmos os filhos não devemos rasgar-lhes essa liberdade decisória.

E nisso da sua gestão dos beijos e outros contactos físicos com os mais-velhos, e os algo externos ao núcleo da família elementar. Quando fui criança era muito mais usual que gente da parentela ou amigos de pais ou avós nos beijassem, beliscassem as faces, acariciassem a cabeça. Coisas de carinho, sem a malícia que hoje em tudo se coloca, pela actual sobre-erotização da vida.

Tal como refere o professor educámos a nossa filha sem nunca a obrigar a beijar ou abraçar. Cumprimentar e agradecer sim, é uma regra. Contacto físico não, é uma decisão. E quantas vezes se recusou a beijar adultos, até próximos, por desconforto ou timidez (mas não por humores, por “birra”, que isso é coisa diferente e não aceitável). E no ambiente actual, em que a consciência educada é diferente das vigentes nas anteriores gerações, também as pessoas não impõem às crianças esse contacto. “Dás-me depois” ouvi tantas vezes dizer. A mim acontecia-me isso com as minhas sobrinhas-netas, eu chegado a Lisboa uma ou duas vezes por ano, gordo, encanecido, barbudo, fedor a tabaco entranhado. Elas beijavam a minha mulher, abraçavam a prima, não me beijavam. Viam o carinho de mana mais-velha que a sua avó me dava, o relativo apreço das suas mães para comigo, mas nem isso as convencia. E ficou como nosso código, ainda hoje aos quase 10 anos risonhamente jogam essa negação de me beijarem.

O que nós, pais, fazemos é induzir a extroversão, aquilo de que o corpo não é um cofre, combater os medos e a excessiva timidez: cuidado com as festinhas aos gatos que são erráticos, atenção aos cães, os quais se podem acariciar desde que os conheçamos, se se pode ou deve (no sentido de “ficar bem”, ser “gentil”) beijar fulano – e quantas vezes a minha pequenina filha me olhou indagando se devia ou não beijar alguém, esperando um aceno ou um encolher de ombros quase imperceptível, consoante o caso. Tal como, depois, mais crescidos, a questão tão portuguesa do tratamento, na segunda ou terceira pessoa (complicado código), onde a regra de oiro cá de casa foi “não tratas ninguém por tio, a não ser os tios mesmo …”, que não há paciência para estes patetas arrivistas de agora.

Ou seja, o professor não disse nada de errado. Como todos os de bom senso e educação percebem. Daniel Cardoso está a ser canibalizado por uma enxurrada de imbecis, mal-educados ainda por cima. Principalmente por razões sociológicas, pois o homem não é “Lisboa”, notório até nisso de ir à plateia do “Prós e Contras” para botar opinião, coisa mais “Preço Certo” do que “Quadratura do Círculo” na indústria de entretenimento. E os blasés não lhe perdoam o aparente berço, visível no sotaque, no léxico e na en-to-a-ção. Os blasés gostam da desenvoltura televisiva do Marques Lopes ou da Clara Ferreira Alves (“aqui no programa só nos enganámos numa coisa – 4 de nós 5 -, sempre acreditámos que havia uma campanha da direita contra Sócrates”, vi há dias a referida indivíduo, num trecho de youtube partilhado no facebook, sem mostrar qualquer vergonha e com toda a fluidez televisiva e sotaque lisboeta. E toda a gente acha elegante … a ninguém apetece lapidar este “avençadismo”), mas detestam berços diferentes, a não ser que sejam patuscos objectos etnográficos, “emplastros” risíveis.

E depois há as razões moralistas, moralistóides. O professor é um tipo sui generis (conversando entre amigos eu diria “uma ave rara”) e mostra-o. E depois? Não parece um forcado da Chamusca ou o terceira-linha do CDUL. E depois? Mostra que vive com várias mulheres. E depois? É um bocado piroso naquilo do “poliamoroso”? É, mas nem sequer é particularmente novidade (que tal a gente ler sobre os anos 60s? ou ouvir a música e ver os filmes?). E a quantidade de gente que tem vários casos, ou que vai aos “profissionais do sexo” (é a expressão agora correcta, mas eu recuso-me a abandonar o masculino universal, como os patetas actuais fazem)? Faz fotografia erótica? E depois? Não há tantos facebuqueiros que fotografam ocasos e lhes chamam “sunset“, há coisa mais indigente do que isso? Não há tantos luxuriosos que fotografam os camarões que comem, há menoridade estética maior do que essa?

Porquê este meu lençol, irritado? Porque me fartei de ver gente a botar coisas estúpidas sobre o homem, de gente obtusa. E perversa, uma perversão explicitada nas críticas ao facto de Daniel Cardoso ser professor, de ataques à empresa onde ele trabalha. Não conhecem o conteúdo do trabalho dele, as capacidades que tem. Mas põem-lhe, só para botar mais um “post” (como, rastejantes ignorantes iletrados, chamam aos postais), em causa o emprego, até o direito ao trabalho. Eu não conheço o homem mas espero bem que a sua universidade saiba defendê-lo, saiba garantir a sua imagem pública afirmando a pertinência dos seus critérios de recrutamento. Apoiando-o. E menosprezando a torpeza desta mole de morcões ululantes.

Sob João Lourenço

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200 000 congoleses expulsos de Angola, entre os quais refugiados (pelo menos 27 000). A indução de uma desgraça humanitária. Relatos iniciais de saque dos bens dessa população. Violação dos tratados internacionais. Ferocidade e cupidez da tropa angolana, soberanite desbragada do poder angolano.

Onde estão as reacções internacionais? Não falo dos organismos multilaterais, hoje esfacelados nas suas capacidades políticas. Nem mesmo da portuguesa, dissipada qualquer capacidade de influência nos grandes países africanos da CPLP neste XXI, em processo culminado pelo saracoteio banhista do PR que nos cabe e pela pequenez estadista do PM – Marcelo é totamente irrelevante mas quanto a Costa analise-se a frio o conteúdo das suas viagens de 18 a Luanda e Maputo, uma pobreza.

Trata-se mesmo da reacção popular internacional. Não, João Lourenço não ataca as “mulheres” congolesas, os “homossexuais” congoloses, os “afro-africanos” congoleses, não descobre “ciganos” congoloses, não denuncia “muçulmanos” congoleses. Não anuncia um “muro da Lunda”, não agita a “Fortaleza Angola”. Ou seja, não toca as campaínhas que fazem salivar os “indignados” do costume, colhe o silêncio.

Mas João Lourenço expulsa duzentos mil imigrantes, pobres, dezenas de milhares dos quais considerados refugiados da guerra congolesa, outros 180 000 que assim seriam considerados pela imprensa bem-pensante se imigrantes ilegais aportados nas costas italianas, pois gente miserável que fugiu à pobreza da sua terra devastada da guerra. João Lourenço viola os tratados internacionais. Associa o discurso anti-corrupção à violência xenóba estatal e à purificação étnica. Tem todos os constituintes do fascismo. Onde está o  #EleNãoJoãoLourenço?

Mas é só África, para quê a gente chatear-se … Ainda para mais isto confunde essas “categorias” que lhes dão tanto mimo ao pensamento.

“Cinzas” da Beira Alta, de Miguel Valle de Figueiredo, em Lisboa

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Quando foi inaugurada em Tondela referi aqui  – mostrando, em baixa definição, várias das 42 imagens – esta “Cinzas”, a exposição fotográfica que o Miguel Valle de Figueiredo construiu a partir do seu trabalho de três meses nas regiões da Beira Alta devastadas pelos fogos de 2017. Agora a itinerância atinge Lisboa, tendo inaugurando ontem na Atmosfera M, na Rua Castilho.

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O Miguel Valle de Figueiredo é dali oriundo, família ancorada em Tondela. Após a calamidade percorreu a região, que bem conhece. Ele que durante anos percorreu o mundo fotografando voltou agora às raizes familiares, em trabalho de verdadeiro luto, devagar calcorreou mato, lugares, aldeias, vilas, encarou a gente que ali teima, desta ouvindo do horror de então e da violência posterior, advinda da arrogância burocrática de quem vem podendo – e de que nós todos, entretanto, fomos ouvindo parcas notícias. Nisso fotografou as “Cinzas” promovidas pela fúria dos elementos, o desnorte nacional e a incúria estatal, até abjecta. Enquanto uns, urbanos, se menearam vaidosos insanos, lamentando-se “de não ter tirado férias” ou, pelo contrário, “iam de férias” e pediam para “não os fazerem rir” a propósito destes e doutros assassinos fogos, e se gabavam de se preparar para as “cheias de inverno”, inaugurando casas refeitas com dinheiro alheio, apregoando ter revolucionado as florestas como nunca desde a Idade Média, e se faziam entrevistar em quartel de bombeiros, o Miguel foi para aquele lá, verdadeiros “salvados” de um país que insiste em desistir de o querer ser por via do apreço que vota aos tocos que julga gente, e até elegível.

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Dessas suas andanças, vindas do seu fervor de fotógrafo e do seu dever de cidadão, produziu, a expensas próprias, pois não é ele daqueles capturáveis por Estado, municípios e respectivos tentáculos, tão pródigos se mostram esses para os fotógrafos “camaradas, companheiros e amigos”, um manancial iconográfico, uma verdadeiro arquivo para alimentar uma memória social do acontecido, deste sofrido que a história recente do país se mancomunou para gerar. Desse acervo seleccionou esta exposição. Será muito pedagógico ir lá ver o horror e desperdício que o mvf vagorosa e condoidamente captou. Para que não o esqueçamos. Citadinos, julgados cosmopolitas e assim de memória muito chocha

(Já agora, as fotografias estão à venda, diferentes tamanhos a diferentes preços, assim acessíveis a diferentes bolsas, revertendo os proventos para ajuda às populações. Atenção, reverte mesmo, que o Miguel é um tipo muito fora de moda, é dado às coisas da honra)

Ventania

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A ventania que remodelou o governo PS é muito mau sinal. Com o PSD igual ao Sporting pós-Alcochete, Cristas encantada com o pseudo-sucesso lisboeta e o CDS incapaz de por Mesquita Nunes onde já devia estar, o BE roblesado e o PCP no respeitável mas doloroso e inimputável estado mental em que tantos dos nossos queridos mais-velhos vão ficando, o vice de Sócrates reforça-se bem. A senhora da Cultura é competente (também quem lá estava era péssimo, fácil de substituir). E Cravinho é muito bom, cumpriu bem como presidente da cooperação e foi excelente como secretário de estado. Está na óbvia rota para futuro MNE. E o Matos Fernandes, tão resguardado que nunca chamuscado nos terríveis fogos e nas coisas do petróleo, vai-se alargando. “Marquem as minhas palavras”, querem alguém do Porto no poder?, esperem-pouco e olhem para ali.

Contornar estes baixios vai ser muito difícil. Mas, como em tempos se disse, navegar é preciso, viver (a vida videirinha, funcionária/avençada) não é preciso …

P.S. A nomeação daquele João Galamba, inferior personagem associada à contra-informação prostituída do bloguismo socrático e à bestialização do discurso político – “Parece que há imensa gente que não sabe que a Moody’s colocou Portugal no lixo quando o primeiro-ministro era Passos Coelho, não Sócrates.” era o que lhe ocorria dizer na antevéspera da sua contratação para o governo, fiel àquele ladrão de quem foi e é criatura – mostra bem que este governo é uma sequela do socratismo, pejado de gente que participou activamente (no governo e não só) na criminalização do Estado. E que está tão seguro da próxima vitória que nem esconde essa filiação, nisso alçando Galamba.

Dentinho

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Conheci o Paulo Dentinho quando recém-chegados a Maputo, e logo ficámos amigos. Éramos jovens, ele recém-pai eu ainda não, ambos fascinados com o país magnífico, tão interessante e esperançoso, embrenhadíssimos no trabalho, ele correspondente da rtp e eu adido cultural, nisso muito cruzando opiniões e informações sobre o quanto se nos deparava, num constante convívio. Chegámos a viajar juntos no país, quando ele dinamizou a visita de um grupo de artistas encabeçados por Júlio Resende, uma magnífica aventura, e dor de cabeça logística na Ilha de Moçambique de então. Por vezes discordávamos sobre o seu trabalho (ele sempre teve a piedade de não criticar o meu), eu já armado (em) comendador a requerer-lhe uma espécie de “posição de Estado” dada a visibilidade da RTP(África) no país. E ele com uma perspectiva diferente – lembro-me de lhe contestar uma reportagem sobre os habitantes do jardim zoológico da Beira, gente que vivia no local e até nas jaulas, por causa da má recepção que havia tido em Maputo, as pessoas tinham-se sentido aviltadas. O Paulo dizia o contrário, e é evidente que tinha razão, pois tanto a vocação como a deontologia jornalísticas convocavam a reportagem, tão denotativa era aquela situação e não seria a “má impressão” que a RTP poderia colher que o iria fazer suspender o trabalho.

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