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A “nova” “narrativa” já aí está, anuncia-a o Expresso, nada demoraram: Sócrates como vítima de uma cabala da direita jurídica. Ao que se juntará, muito em breve, outra alínea, a de Salgado como grande banqueiro que tentou tornear os malévolos constrangimentos induzidos pela crise financeira internacional.

Todos os regimes, todos os sistemas políticos, são permeáveis à corrupção e ao nepotismo. Só alguns evoluem para o patrimonialismo e menos ainda para a pura criminalização do Estado. Nestes últimos casos muito pelo silêncio, oprimido às vezes, timorato e/ou corporativo outras, dos cidadãos.

Estou-me a lembrar que há anos o reitor de Lisboa criticou o governo de então. Li um coro de elogios (e de partilhas) oriundo da classe profissional ligada à academia (entre a qual alguns amigos e muitos conhecidos meus). Então havia uma carga fiscal enorme, e tantos deles protestavam (até em conversas pessoais quando eu ia a Lisboa). As críticas à privatização da saúde, objectivo do governo, eram constantes e até preocupadas (envelhecemos, todos nós). Nisso muitos saudaram Sócrates no seu regresso de Paris, feito especialista de Rimbaud e teórico da repressão estatal, até prefaciado por Eduardo Lourenço. Haviam-se apressado a recuperar a excelência do PEC4, maldizendo o demissionismo do governo de então. A ideia de que se pavimentava o seu caminho para Belém era evidente.

Voltei em 2014 a Portugal. Esse meio socioprofissional, os detentores de “capital cultural”, estava activíssimo nas “redes sociais”. Pouco depois foi efervescente o caso de uma edição da revista académica “Análise Social”, dada a tentativa de controlo tentada pelo presidente do instituto editor. E por aí fora: vieram as eleições, legislativas e presidenciais, a formulação inédita de uma coligação governamental à esquerda, o final do troikismo. Bem como atentados na Europa, as polémicas com Brexit, Catalunha, refugiados. E Trump ou o movimento metoo. Bem como situações domésticas, para este meio verdadeiras majordências, como as leis “do piropo” ou da mudança de género para menores. Olhar para a sociedade portuguesa e para a sua “classe de trabalhadores intelectuais” (que não é sinónimo da velha definição de “intelectuais”) desta época exigirá um dia (como?) vasculhar o FB (e o twitter), tal como para a década passada exigirá o mesmo para os blogs. Não só, claro, mas também – e lá está a velha questão, como fazer o arquivo das práticas sociais inscritas na internet?

O que vejo agora? O reitor de Lisboa critica o governo. Silêncio neste meio. Correia de Campos, ex-ministro socialista da Saúde critica a deriva do SNS. Silêncio neste meio. A carga fiscal é compatível com os piores anos do troikismo. Silêncio neste meio. A substituição da PGR (a “candidata da direita” como lhe chamou o grão-apparatchik Seixas da Costa) teve os contornos que teve e envia a mensagem que envia, para a corporação jurídica (esta é interpretação minha, claro) e para a sociedade (esta, francamente, é objectiva). Silêncio neste meio – nem sequer um, a la um tardio João Soares, “se a mulher está a fazer um bom trabalho é deixá-la ficar”.

Alguns continuam a apontar os críticos do “estado da arte”, dizendo-os “ressentidos” (ou “invejosos”, “ressabiados”). Um argumento que colou, tanto que é nitidamente um fenómeno social. Eu estou a falar (a olhar, míope que seja) para gente das ciências sociais. Que vêm reproduzindo esta linha de “argumentação”. Mas é evidente, no conteúdo dos textos, que não estão a aludir a um “ressentimento” sociológico (um tema na sociologia, e lembro umas belíssimas páginas de Bourdieu, esse sim um “intelectual” como dantes se dizia). Estão constantemente, porque se tornou um mote comum, a aludir aos putativos estados psicológicos alheios, a dar-lhes estatuto explicativo. Ora a gente passa a vida a criticar o economicismo. E o que vemos é a adesão generalizada de “profissionais intelectuais” a discursos psicologistas, ainda mais deficitários do que aquele, ainda mais incompetentes. E fazem-no sem rebuço, sem auto-crítica. E, dada a sua condição profissional, surgem assim como se desnudados e disso impudentes.

Mas, de facto, o que eu vejo, neste meu canto de tomada de pontos de vista, é uma redução gradual do frenesim da opinião politizada neste meio. É limitada, claro, a minha abrangência, mas é o que vejo. Mas mantém-se, ainda e mesmo que gradualmente minorada, a solidariedade com isto. Pelo conforto identitário (a “esquerda” está no poder, dizem). E por derivas corporativas (o governo cria algumas centenas de empregos na área, em modalidades menos precárias).

Mas é evidente que tem que haver mais. O silêncio conivente corporativo durante a década passada pode ter muitas explicações. A adesão no princípio desta década pode ser remetida para a terrível crise de então. Mas, raisparta, que razões objectivas, e mesmo subjectivas, é que sustentam que núcleos socioprofissionais particularmente informados e expectavelmente com um ethos crítico possam continuar a apoiar este enorme sindicato do crime que é o PS? As tradicionais características similares que o PSD apresenta? Não chega para tamanha adesão, para tanta conivência, para, inclusive, muita cumplicidade.

Enfim, este lençol vem a este propósito. Os próximos tempos aí estarão destinados à sedimentação destas “novas” “narrativas” e à da continuidade deste belíssimo e “inovador/reformista” governo. Para mim é machamba que deu mandioca. A pedir pousio.

Ontem inscrevi-me na rede de bibliotecas comunais, uma colecção de BD que faz (e fez-me) salivar. Continuarei a blogar (aqui no “O Flávio”, às vezes no Delito de Opinião e no sportinguista És a Nossa Fé). Sobre esses livros (tipo bloguista “intelectual” e chato) ou minudências que me possam vir a ocorrer.

Sobre o resto, o Portugal que adoro? Deixo. Até pela consciência, óbvia e de sempre, que o que digo nada afecta, nada importa, a não ser como explanação, vaidosa até à encenação, do meu “eu”. Associada à consciência que a nós, emigrantes de longo prazo, não nos faz bem nenhum estarmos fora a olhar para o país, que aquilo que nos cumpre e nos é saudável é irmos vivendo o que no nosso cá d’agora nos vai acontecendo. Que dele falem os antropólogos do BE, os sociólogos do PS, os historiadores maçónicos, os estudiosos culturais sei lá o quê, alguns psicólogos etc. e tal e todos eles em vice-versas enrodilhados. Os tais psicologistas.

Apenas uma nota final: aquilo que estes todos vos vão vender agora, em troca do apoio a Sócrates & Salgado, Ltd. – como há uma década o fizeram em troca da lei do casamento homossexual -, é a racialização da sociedade, a criação de categoriais raciais para discriminar os cidadãos. Vejam lá se pelo menos isso, essa javardice, conseguem evitar.

Eu vou ali para a BD. E para a vida.

Como sempre, abraços, beijos, cumprimentos, conforme preferirem.

Zézé, Flávio, José Teixeira

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3 pensamentos sobre “Carta para os meus amigos-reais aí em Portugal

    1. Apitarei, claro. Mas já vistes?, até à Portela roubaram o nome, para agraciar o nazi que tinha aspirações a caudillo, até isso captam para eles, para sua vertigem

      Liked by 1 person

Diga de sua justiça, sff

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