(pressionando a frase “La Onu …” acede-se ao filme do discurso de Guterres. 3 minutos e 50 segundos que justificam ser ouvidos)

Um bom discurso de Guterres sobre as alterações climáticas. Duas notas, sobre a produção e a recepção. O mais relevante de tudo é compreender-se (no sentido de se aceitar a plausibilidade) que as informações sobre este processo são muito filtradas, surgem minoradas: por um lado, o secretário-geral da ONU tem que tentar dialogar com uma miríade de interlocutores, se radicalizar (“escatologizar”) o discurso perde a hipotética eficácia junto de muitos eixos da audiência. Mas há muito mais do que isso: os organismos especializados da ONU filtram a informação disponível. E os centros de investigação que os alimentam também o fazem – e muito porque perspectivas muito “pessimistas” têm efeitos perniciosos no mercado de financiamento. Os técnicos e cientistas usam, há anos, a auto-censura, dulcificando projecções para tentarem manter um diálogo frutífero com os poderes políticos (em especial os multilaterais). E no complexo institucional mundial os quadros mais radicalizados sobre esta questão – muitos devido ao simples processo do “tomar conhecimento” – vão sendo afastados dos “centros” dos organogramas. Isto são práticas com décadas. Ou seja, a situação é muito má mas ainda deve ser pior do que se anuncia, dada a confluência destes filtros todos. Para mais, as previsões integram desenvolvimentos tecnológicos que ainda … não estão. Apesar de já haver alarme nas elites institucionais estas ainda vivem num optimismo quase suicidário.

A outra questão é a da recepção. Nós, os cidadãos, não queremos ouvir falar de fenómenos que nos perturbem as perspectivas existenciais. Catástrofes ocasionais, crises epifenomenais, até animam o quotidiano. Questões estruturais já é outra coisa, são por demais complexas, cansativas, porque preocupações perenes. E, neste caso, por demais angustiantes. Sendo assim intrusivas, obstáculos ao rame-rame. Por exemplo, e ainda que português, o secretário-geral da ONU não é particularmente acompanhado pela imprensa nacional. Mas o CR7 sim. No passado sábado em Lisboa cerca de 20 000 pessoas foram votar para um presidente do Sporting. Mas apenas algumas centenas desfilarem na marcha pelo ambiente. Algo de estranho se passa nas mentes das pessoas, no como hierarquizam as suas prioridades. O anterior e o actual governo, em confluência que expressa o acordo social sobre a matéria, afadigam-se em projectos de exploração de petróleo e gás, em nome da riqueza e desenvolvimento do país. Correntes de pensamento ditas liberais negam a plausibilidade destas alterações climáticas advindas da industrialização – lembro do meu estupor, há mais de uma década, quando surgiram os liberais na internet portuguesa, e acima de tudo no blog Blasfémias, o chorrilho incessante de asneiras sobre a matéria, acicatadas pela discussão do protocolo de Quioto e no apoio ao bushismo, de facto assentes no inculto dogma, que julgavam o cerne do liberalismo, “o entrechoque dos interesses individuais é virtuoso” e como tal nada de tão mau disso pode surgir.

Dentro de algumas décadas analisar-se-á esta nossa época, mundial. E decerto que uma das perguntas cruciais será a do “como é que tanta informação, tanta formação, tanta riqueza, promoveram tamanha alienação”? Vai ser muito difícil explicar.

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