Brel

Desde os anos 60s que a electricidade na música e a anglofonia nos perverteu as orelhas e seus interiores. Por isso encontrar um velho da minha idade e, menos ainda, alguém mais novo que se lembre que o belga Brel foi um génio, até bem maior que os beatles /stones magníficos que lhe sucederam, e que foi muito, muitíssimo mais rapper do que estes boçais, apenas pretos, que o vão sendo agora, encontrar alguém um velho que disso se lembre, digo eu, é tão difícil … Por isso vão lá ouvir os Santos e as Varelas. Que nunca chegarão aqui. Nem o querem, por desconhecerem.

Nos amitiés sont en partance
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
La mort potence nos dulcinées
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
Les autres fleurs font ce qu’elles peuvent
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
Les hommes pleurent les femmes pleuvent

J’arrive j’arrive
Mais qu’est-ce que j’aurais bien aimé
Encore une fois traîner mes os
Jusqu’au soleil jusqu’à l’été
Jusqu’à demain jusqu’au printemps
J’arrive, j’arrive
Mais qu’est-ce que j’aurais bien aimé
Encore une fois voir si le fleuve
Est encore fleuve voir si le port
Est encore port m’y voir encore
J’arrive j’arrive
Mais pourquoi moi pourquoi maintenant
Pourquoi déjà et où aller
J’arrive bien sûr, j’arrive
N’ai-je jamais rien fait d’autre qu’arriver

De chrysanthèmes en chrysanthèmes
A chaque fois plus solitaire
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
A chaque fois surnuméraire
J’arrive j’arrive
Mais qu’est-ce que j’aurais bien aimé
Encore une fois prendre un amour
Comme on prend le train pour plus être seul
Pour être ailleurs pour être bien
J’arrive j’arrive
Mais qu’est-ce que j’aurais bien aimé
Encore une fois remplir d’étoiles
Un corps qui tremble et tomber mort
Brûlé d’amour le cœur en cendres
J’arrive j’arrive
C’est même pas toi qui est en avance
C’est déjà moi qui suis en retard
J’arrive, bien sûr j’arrive
N’ai-je jamais rien fait d’autre qu’arriver

 

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O sentido de estado (2)

soares

Quando Soares convocou Cavaco Silva para se demitir da presidência gritaste-lhe que lhe faltava “sentido de estado”? Quando se candidatou, candidato abrasivo que sempre foi, ao Parlamento Europeu ou a uma nova presidência, atiraste-lhe que lhe faltava “sentido de estado”? E agora, quando o tão “cool”, tão nosso, Obama ataca o seu presidente Trump, resmungas que lhe falta “sentido de estado”?

O sentido de estado

mrs

Minha tão querida, durante anos, de amizade próxima e convívio corrente, tantas refeições juntas e amigos comuns, muito me gozaste, eu desesperado com a roubalheira execrável de José Sócrates, seus apaniguados e seus jagunços, tu completamente socratista, vera “fan”, como tantos outros, cidadãos incautos ou ClarasFerreirasAlves avençadas. Gozavas, e ainda ouço a tua gargalhada nos “és do PSD” (sabendo que não o era), “és de direita” (sabendo que não corresponderei, pelo menos por completo, ao que dizes de “direita”), etc. Os anos passaram, cada um no seu canto do mundo, e encontrei-te, eu de carinho armado, e fomos almoçar, assuntos para por em dia, memórias para saborear. E, às tantas, foste tu que levantaste o assunto, “naquilo do Sócrates” – anos a fio desse aquilo, já agora – “tinhas razão”. Sorri, devo ter bebido mais um bom golo, gelado, que contigo isso nada me importa, mas ainda me disseste, até um bocado tensa, “eu não vi”.

Siga, mana, terei pensado e talvez dito, que contigo, com um pequeno punhado de pessoas, isso não me é obstáculo. Os anos passam, sem te ver. De quando em vez uma nota tua no FB. Ontem uma, tu a saudar o PR – um tipo no qual tu não votaste, tal como eu, do qual nunca gostaste, tal como eu – por ter dito ao Cavaco (o do upgrading da Mariani, do Nuno Delerue, o do Dias Loureiro, do Arlindo Carvalho, a gente não esquece) que lhe faltava “sentido de estado” por causa disto da PGR. E tu aplaudes o sentido de estado deste PR. Tal como as FerreirasAlves, os MarquesLopes e o rol avençado.

Pois não viste, não vês e não verás. É apenas decisão tua, uma espécie de conforto. E de tantos que assim vão.

 

O julgamento de Sócrates

Então, quem saiu ao Sócrates, o Pierluigi Collina ou o José Pratas? (Sorteio televisivo para sabermos do órgão de soberania? Grande nível a que chegámos quanto ao “sentido de estado” … mais vale mudar de cuecas em público e andar a roçar-se em tronco nu do que isto).

Ficção?

Um amigo moçambicano partilha no FB, lá de Maputo onde vive, este trecho de telenovela brasileira, já com décadas, e aqui na Europa a gente revê-se. Ficção?

 

Fernando Pessoa bancário

Caixautomatica-Electron_480x380Acabo de receber o meu novo cartão multibanco da CGD. E dou com isto (colho a imagem no sítio do banco): Pessoa – que também fez uns “ganchos” como pregoeiro, a gente sabe -, apropriado como imagem do banco público (ainda que escavacado como se privado fosse pela gente de Sócrates). E ali espetado, rapinado, o seu “tenho em mim todos os sonhos do mundo” – e como tal deixa-me ir ali ao ATM levantar uns cobres, não é? É a mentalidade destes primatas. Clientes.

Depois os “tudólogos” peroram sobre o sim ou não e a quem sim ou não do Panteão Nacional.

Vício blogal

marcelo

O vício blogal é tramado, um tipo lê as notícias de uns dias e, por mais que diga “tenho mais que fazer, que se lixe …”, cai nas teclas: MRS diz que não saudou o PR americano por respeito à posição portuguesa sobre o multilateralismo. Ou seja, explicita que as suas formas de saudação denotam a posição do país, dado que ele PR. Muito bem. E a posição portuguesa, do Estado e da sociedade, sobre a laicidade, essa conquista da democracia? Pode o PR saudar o Papa neste gesto de “islão”, de submissão expressa no beijo ao anel? Não. A “direita” portuguesa, mais ou menos católica, (pelo menos disto) gosta. A “esquerda” portuguesa, entre os descendentes da capela do Rato e a igreja PCP, encolhe os ombros. Está-lhe grata, pela protecção ao governo na cena dos fogos, pela protecção ao regime na cena da PGR – e é estruturalmente avessa à laicidade: eu recordo o meu espanto, então recente torna-viagem, com o sucesso, aplausos e partilhas, de tantos intelectuais compatriotas ao abjecto texto do padre Leonardo Boff a defender limites ao direito à blasfémia logo após o atentado ao Charlie Hebdo. E passeiam-se por aí, a dizerem-se democratas, anti-censura. E os “tudólogos”? Falam do resto …

Aos 13 na escola li “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes (e depois o “Engrenagem”). Antes lera “Os Putos” de Altino de Tojal (livro que vendia imenso). Chamavam-lhes neo-realistas, havia um Alves Redol (que nunca li) ou um Manuel da Fonseca (que li logo depois e gostei – tenho que lá voltar) e acho que um jovem Cardoso Pires, se não estou em erro. Nas casas de muitos burgueses, e para além de bustos de Lenine e obras de Marx e Engels, constavam reproduções dos desenhos de Cunhal. E de Cipriano Dourado, e talvez outros. E juntavam o Gorki ao Caldwell e ao Saroyan, enquanto desdiziam um bocado do Jorge Amado, “apesar de …”, pois “enfim …”. A coisa era apresentar a todos nós, burgueses, a grandeza e a beleza ética e estética dos outros, esconsos e oprimidos, seus modos de vida e legítimas aspirações. O (neo-)realismo foi saindo de moda, tinha havido até umas polémicas, e poucos quererão hoje saber das mentes e desejos das belas e robustas catarinas eufémias e dos valentes proletas da praça da greve. O “must” de agora, nada (neo-)realista, diz-se, é louvar a ética e a estética dos gajos que metem chicotes pelo ânus acima … “Épater le bourgeois”, seja com a virilidade proletária seja com a do lumpen prostituído, mas nada mais do que isso. Bom para os “tudólogos”.

De resto, em 3-4 dias? O ministro da defesa ainda o é (ele que disse que se calhar não tinha havido roubo em Tancos – estamos a brincar?, não é óbvio o que o homem sabia?); a polícia da tropa vê os seus graduados presos; os generais assobiam, quais meros milicianos da administração do rancho. O ministro da saúde manda à merda a democracia e diz que só vai ao parlamento daqui a 6 meses. O PM goza com o ter faltado à “palavra de honra” (mas tudo está bem, há uma entrevista da mãe dele a confirmar que ele é bem educado; e o Ferreira Fernandes, já agora, lembrou que o pai dele era antifascista e anticolonialista, não vá a gente esquecer-se). A ministra do mar põe a sócia a dirigir os portos, é ilegal, mas (também ela) não tem agenda para responder aos jornalistas. Nem para se demitir. O arquitecto Salgado surge em mais uma marosca, e logo tudo desaparece das notícias. Um antigo professor meu publica um texto contra Medina, a propósito da apropriação privada de um miradouro – logo partilhado pelos “companheiros de estrada” naquela “esquerda”. Afirma(m) que Medina tudo faz para preparar a cidade para os turistas. Alto, mas não é isso que se critica ao presidente da câmara, essa sua ideologia do “jardinismo”, desde há anos? Ah, sim, mas a gente é de “direita”, somos só ressabiados. Eles não, agora a crítica é justa (e pós-Robles, já agora: “cá se fazem, cá se pagam”).

As deputadas portuguesas fotografam-se contra Bolsonaro. Este é um traste. Um cafajeste, como se dizia nas velhas novelas dos anos 1970s. Aliás, o homem é um fascista, não é preciso outro adjectivo ou outro insulto. Mas as senhoras deputadas não acham que têm, portas dentro, tralha suficiente (ainda que não tão abjecta) para estarem contra? Não querem fazer, não acham que o deviam, uma “usie” contra esta cloaca? E a semana ainda vai a meio. Sabe-se lá o que antes do fim-de-semana ainda virá, neste estertor de regime …

Mourinho está com problemas no Manchester United. E o tipo que foi do Rio Ave para o Nantes também. Mas o Eder(zito) marcou um grande golo na taça da Rússia. Há esperança.

Um filme sobre “Mais Um Dia de Vida”

kapus

Só agora vejo notícia, velha de meses, da realização um filme de animação, já apresentado em Cannes, sobre o livro que Kapuscinski escreveu com base nas suas reportagens na independência de Angola. O homem é um ícone do jornalismo, do grande repórter, “escreve bem” mas não me anima. Ainda assim este “Mais Um Dia de Vida” é muito interessante para olharmos esse período (e o olhar militante) – e é bem melhor do que o célebre “Ébano” (The Shadow of the Sun), que lembro carregadinho de lugares comuns.

Não sei se a edição portuguesa, tardia (2013), traz o posfácio de cerca de 2000 que o meu exemplar inglês traz. O qual mostra bem que o viés ficou empedernido, o autor vive com um torcicolo estrutural. Mas enfim o livro é interessante e o filme, animação ainda por cima, é para ser visto. O autor? Um dia meti-me a fazer uma recensão in-blog sobre este livro. Acabei-a assim: “Kapucinski é zarolho? É! Mas um belíssimo zarolho …”

(Deixo ligação para esse meu texto sobre esse “Mais Um Dia de Vida”, a reportagem dos dias da independência angolana).

Carta para os meus amigos-reais aí em Portugal

mw-1024

A “nova” “narrativa” já aí está, anuncia-a o Expresso, nada demoraram: Sócrates como vítima de uma cabala da direita jurídica. Ao que se juntará, muito em breve, outra alínea, a de Salgado como grande banqueiro que tentou tornear os malévolos constrangimentos induzidos pela crise financeira internacional.

Todos os regimes, todos os sistemas políticos, são permeáveis à corrupção e ao nepotismo. Só alguns evoluem para o patrimonialismo e menos ainda para a pura criminalização do Estado. Nestes últimos casos muito pelo silêncio, oprimido às vezes, timorato e/ou corporativo outras, dos cidadãos.

Estou-me a lembrar que há anos o reitor de Lisboa criticou o governo de então. Li um coro de elogios (e de partilhas) oriundo da classe profissional ligada à academia (entre a qual alguns amigos e muitos conhecidos meus). Então havia uma carga fiscal enorme, e tantos deles protestavam (até em conversas pessoais quando eu ia a Lisboa). As críticas à privatização da saúde, objectivo do governo, eram constantes e até preocupadas (envelhecemos, todos nós). Nisso muitos saudaram Sócrates no seu regresso de Paris, feito especialista de Rimbaud e teórico da repressão estatal, até prefaciado por Eduardo Lourenço. Haviam-se apressado a recuperar a excelência do PEC4, maldizendo o demissionismo do governo de então. A ideia de que se pavimentava o seu caminho para Belém era evidente.

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A benção

ore

Estar ciente de ser viente é isto, ir saudar os grandes daqui, os donos da terra, a pedir licença para estar, a benção, se se quiser. Hoje fui, de propósito, a este homem que um belga trouxe da América e que Mestre Hergé tornou nosso antepassado no “A Orelha Quebrada”.

Não colhi maldição.