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(Jardim da Memória, memorial dos escravos na Ilha de Moçambique – power point alusivo de Ana Fantasia e Pedro Pereira Leite. )

Tanto a proposta de um novo museu municipal sobre a expansão portuguesa como o debate sobre um monumento/memorial dedicado ao comércio escravista continuam, em particular sediados no “Público”, nisso mostrando o quanto isto se encontra no âmago da intelectualidade bloquista, residente na redacção daquele periódico. Hoje sai mais um artigo, Quem tem um direito a erguer uma estátua?, de João Figueiredo, texto defendendo a construção de um memorial aos escravos (“pessoas escravizadas”, como se intitulam no artigo, é, pura e simplesmente, um ademane apatetado, típico da novilíngua blocal).

Levanta questões interessantes: também já o havia pensado, num país cheio de monumentos às ceifeiras, pescadores, etc – e agora até ao surfista, ainda que este num registo diferente -, figuras típicas e identitárias, assim celebradas na sua condição de historicamente (sobre)exploradas, verdadeiro “sal da terra”, nada opõe a que se “recorde” e “vivencie” o tétrico historial da escravidão. E, acima de tudo, que se contribua para integrar essa história na identidade portuguesa, de forma socialmente significativa. Importa-me mais como se monumentalizará isso, num país onde há “intelectuais” (ou pretensos letrados) que ainda se iram com uma “Casa do Motor” de Cabrita Reis (“não é arte” dizem, doutos), mas nem tugem nem mugem com a estátuazita pirosa e anacrónica de António Vieira (e foi tudo discutir a propósito do paupérrimo texto invectivador de Alexandra Lucas Coelho – uma linha de irreflexão que Figueiredo aqui ressuscita – mas ninguém resmungou com aquela tralha plantada no meio de Lisboa em 2017) e até gozam com o busto de Ronaldo ao Funchal, “porque não é parecido” e “é feio”, como se o gozo não fosse devido à patética ideia de meter um busto num equipamento público como um aeroporto. O formato do monumento aos escravos não é importante? Vai ser. Porque forma é conteúdo. E também o será na medida em que daqui a algum tempo estes racialistas, de facto racistas, virão dizer, com toda a certeza, que a conceptualização do memorial deverá ser feita por um “afrodescendente”, pois só um deles poderá “sentir” e ser capaz de “representar”. Esperem-pouco.

Depois há o resto. Estamos a enfrentar gente que tem concepções políticas diferentes, é uma luta ideológica. Que será prolongada e persistente. Para esta corrente política há a “comunidade branca” e as “comunidades racializadas”, como dicotomiza o autor deste texto. São dois modelos de reflexão sobre a sociedade, são dois modelos de intervenção política, são dois modelos de concepção de indivíduo. Este ideal de “comunidade”, de sociedade feita de comunidades prioritárias, logica e socialmente, não é obrigatoriamente anti-democrático, ou seja, os seus utilizadores não são obrigatoriamente anti-democráticos. Adequa-se, hoje, muito às sequelas do estalinismo-maoismo mas a elas não se reduzem. Mas convirá perceber, no meio desta boa causa do “coitadinhos dos tetranetos dos traficantes de escravos”, perdão, “dos tetranetos dos escravos”, se queremos dividir a sociedade em “comunidades” ou se queremos incrementar o universalismo. Se temos que pensar e actuar como os americanos (os que teciam loas à “rainha africana” Obama) ou como os brasileiros, que àqueles copiaram, ou se temos e podemos continuar na senda de outros princípios analíticos e programáticos, que têm mancamente vigorado, e que na política assumimos desde que deixámos o corporativismo (do qual este comunitarismo de época é mero aggiornamento).

Finalmente sobre este texto. Para além de clamar isto da “comunidade branca” (vs “comunidades racializadas”) convirá lembrar uma coisa, face ao que o autor quer deixar implícito (não o explicita para depois poder negar que o disse, estratégia retórica nítida): não há apartheid em Portugal. E quando surfamos este tipo de implícitos estamos no grau zero. Na mera demagogia. Um dia, mais tarde, haverá, decerto, um monumento ao Demagogo. Aliás, temos as cidades cheias de toponímia dedicada a demagogos. Está na altura do monumento geral. Ou, utopia, esperemos por um memorial. Para as gerações futuras, quando a demagogia for uma mera memória histórica. Falta muito, pelos vistos.

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