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Após três anos e tal de Portugal vou emigrar de novo, ainda este mês. Já estive 18 anos fora, como tal não faço tocar a cançoneta da emigração com que o zarolho Abrunhosa se associou à demagógica campanha socratista contra o anterior governo. Em tempos de skype, facebook, whatsapp, twitter, voos baratos, auto-estradas (já só não há CTT), partir para tão longe como Nampula é de Maputo (e lá os voos são caros) não dá para as velhinhas vestidas de negro chorarem “o meu menino é d’oiro“.

Avante. Já estou a fazer as malas. Ou seja, a juntar os pdfs que levo no “flash drive”. Entretanto partilho aqui o meu rescaldo deste meu período na pátria amada. Pessoalmente foi muito bom – não óptimo porque vivi longe da minha filha, o que será agora remediado. Mergulhei entre um punhado (dois punhados, melhor dizendo) de excepcionais amigos, uma parentela espiritual que até imereço. Não adianto mais, porque o meu registo blogal não é intimista, mas fica a nota (não é vénia, pois a esmagadora maioria não tem paciência para me ler, mas vamos falando, e muito). Profissionalmente foi … paradoxal. Mas propus-me fazer um trabalho, serôdio e anacrónico. Demorou demasiado tempo mas está (quase, quase) feito. Outros o avaliarão, já independe de mim. Como tal, e porque o propósito está (quase, quase) completo foi … bom.

Nestes anos portugueses dois momentos me marcaram, a vida e a visão que tenho do país: quando fui preso, julgado e condenado (relatei aqui). Uma indignidade total, polícias mentirosos, juizes desrespeitadores. Nunca ultrapassei o caso, nem hoje, passados anos. E sei que deveria ter partido de imediato. Deixei-me ir ficando, numa demora demasiado dolorosa. Pois coisas dessas poderão acontecer-me em qualquer outro sítio do mundo. Mas não no “meu” país. Ou, como então percebi, isto pode ser a minha “pátria amada”. Mas não é, mesmo, o “meu” país.

E um último momento, em si próprio dramático, que me des-iludiu: sobre o país, e sobre o meu meio sociocultural e profissional. O ano passado um horroroso incêndio florestal causou mais de 60 mortos. (Passados meses morreriam mais 40 portugueses noutro incêndio similar). Todos lembram o acontecido: a um PM que havia sido ministro daquela tutela, que então tomara decisões reestrurantes na matéria, que levara a sua equipa anterior para o actual governo, que mudara a estrutura de comando das instituições de combate ao fogo, foi-lhe perguntado se haveria alguma responsabilidade governamental no acontecido. Respondeu, impante, após a morte queimada dessas dezenas de compatriotas, “não me faça rir“. Repito, “não me faça rir“. Um ano depois o relatório do acontecido ainda não é totalmente público …

E diante disto, desta ignomínia, há tantas pessoas, compatriotas, que dizem nada. A mim, quando telefonam “Zé Flávio, anda jantar“, “é o aniversário de“, “vamos ao restaurante moçambicano?“, “há um concerto“, penso sempre não só em quem desafia/convida mas também em quem serão os convivas. Gente, minha ex-amiga (já não tenho qualquer amizade disponível para socialistas), minha conhecida, que apoia isto, esta imundície moral. É esta escumalha, alguma dela minha conhecida, que é o “meu” país: e eu não consigo dizer “não me faça rir”.

Isto não é mesmo o “meu” país. É o país deles. É o país de Ferreira Fernandes, como exemplifica este vergonhoso texto, a mostrar que o que interessa é salvaguardar o partido. É o país onde vale tudo para apoiar os nossos. Apesar de seguros pelas reformas, pelo SNS, pelas escolas públicas, pelo amparo societal, pela inexistência de verdadeiros riscos existenciais. Só querem mesmo o aconchego identitário, o “estamos” no poder.

Mais valem mesmo umas míseras “frites” e umas intragáveis “moules“, sozinho na esplanada, do que a proximidade destes Ferreira Fernandes. Em particular os tantos ferreirafernandes conhecidos.

Fiquem então bem por cá. E “não o façam rir”.

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