O último passo na Portela

Portelas

É assim no aeroporto da Portela, uma execrável sala de fumadores, com uma extracção de fumo praticamente inexistente, e sem higiene. A empresa à qual o Estado concessionou o negócio aeroportuário deixa esta imagem do país – e para os imbecis que por aqui passem que confundam a prevenção do tabagismo com o mero javardismo vou antecipando, enquanto murmuro desde já os impropérios merecidos, que vão lá ver o acesso à internet do aeroporto da Portela (agora nomeado segundo o candidato luso a generalíssimo), escrito num imundo portunhol – isto num país onde os maçónicos produzem textos sobre “o potencial económico da língua portuguesa” e os altos quadros ADSE se ofendem com a tradução simultânea dos representantes da Guiné Equatorial … Ainda bem que (me) prometi não escrever “palavrões”. Nem um mero “merda”.

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Camp-PR

MRS

MRS vem inflaccionando a sua postura “queer-inflected camp”: “a essência do Camp é sua predileção pelo inatural: pelo artifício e pelo exagero. Camp é esotérico — uma espécie de código pessoal (…) Enfatizar o estilo é menosprezar o conteúdo, ou introduzir uma atitude neutra em relação ao conteúdo. Não é preciso dizer que a sensibilidade Camp é descomprometida e despolitizada — pelo menos apolítica. (…) Todos os objetos e pessoas Camp contêm um grande componente de artifício. ” (“Notas sobre camp”, de Susan Sontag).

Quando daqui a um mês António Costa transferir a procuradora-geral da república para uma qualquer prateleira douradíssima, salvaguardando “as malhas que o regime tece”, Marcelo Sousa anuirá. E seguirá para mais um volteio histriónico, aquilo dos “afectos”, o tal “camp”. E os que o quiserem poderão então perceber onde estão os seus verdadeiros afectos. E o quão política é toda esta sua falsidade.

As reduções fiscais para os retornados

emgir

A minha filha e a minha irmã têm-me repetidamente exigido que não escreva “palavrões” no blog/FB. Aceito agora. O governo anuncia redução fiscal aos emigrantes que retornem: já leio inúmeros a botarem contra nós, que nos baldámos do país, quais veros traidores; e leio vários opinadores, até autores, sempre prontos (e bem) à verrina contra a corveia que os encargos fiscais por cá são, destinada a alimentar a mesquitamachadose, mas agora a invectivarem esta redução fiscal; e num pais que nunca teve uma poltica demográfica mas teve, e muito, uma apropriação geracional da riqueza, com o escandaloso esbulho que o pós-25 de Abril fez ao futuro, é vê-los a criticar parcas medidas para captar mão-de-obra que pague impostos (e não os imigrados vítimas do “dumping” social que os defensores dos “refugiados” tanto julgam adorar). Saiba essa gente, que me reduz a nacionalidade por ser emigrante, e que se está nas tintas para as curvas do país em nome das suas doutas preferências do dia, que não direi palavrões. Deixo-lhes mesmo, aos agora tão incomodados com as reduções fiscais anunciadas para os miseráveis retornados que andaram lá fora a explorar pretos (afrodescendentes), (pérfidos) brancos e gentes de várias outras etnias, um poema do tão português (e vindo de Durban julgo que nunca mais cruzou a fronteira daquele enclave onde lhe botaram a pitoresca estátua) Pessoa:

 

Alma de Côrno

Alma de côrno – isto é, dura como isso; 
Cara que nem servia para rabo;
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço –

Ó lama feita vida! ó trama em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
– Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!

De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-se em verso. Tu
Fazes dôr de barriga à inspiração.

Quer faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo!

Após o check-in

gill

Já está feito o check-in deste meu novo deixar a “Pátria Amada”, e se aos 30 isso me foi peito aberto festivo, antecipando o quão tão bom foi, agora nos 50etrôpegos já me tremelico, e embaraça-me, amaricando-me, a despedida à Branca, já velhota nos seus 13, a minha mais querida da matilha onde me aboleto, que se calhar não mais verei, e minto, nisso masculinizando-me, um “vou ali e já venho” à minha mãe enquanto me perpassa um “ainda por lá me dá um cardíaco” e a trabalheira que será para quem tiver que lho dizer, que nem lhe será a primeira vez de notícia assim, e ressaco já a série de jantares, regados a quase ambrósias, combinando com manos amigos visitas e passeios que nunca acontecerão, sabemos bem, e nisso tudo brota-se-me agora mesmo a angústia, nisto do “que livros levar” nos 20epoucos ksTAP? o que caberá no meio dos trapos velhos, e amolgados, idos pelo frio de lá? Malditas capas-duras, agora opressivas à balança, e por isso delas só vai uma releitura, o Ilíada, Céline, Coetzee, Conrad, e um Pantagruel que nunca li, e o Virgílio (que não chegarei aos 55 sem ler o Eneida), junto a restos de Nabokov, Sterne, e uma série de capasmoles, a meter nos recantos entre peúgas nitidamente não-passajadas e cuecas esfiadas (tenho que comprar lenços de bolso), e vai um tijolo do O’Neill “completo” para quem não me esqueça eu do “modo funcionário de viver” que grassa (o resto, as “ciências sociais”, com aspas como escrevem as bestas imundas que enchem os jornais e os facebuques desta tribo troglodita, vai de pdf) … Mas o primeiro de todos, exigência da minha filha, minha imediata concordância, o ideal para manter o ânimo, o coração ao alto, é este “Comida para Gastronautas”, um guia inicial para se cozinhar e comer com elegância, sorriso e civilização, que o amigo Filipe Gill publicou já em 2003.

O panteão

JoanaA

A proposta da transferência de José (Zeca) Afonso para o Panteão Nacional tem levantado um coro de protestos, mais sarcásticos do que indignados. Não tendo conhecido o artista julgo que, pelo seu perfil, não seria homem que lhe agradasse a ideia de vir a ser panteado, e não sei se os seus familiares muito gostarão de tal “sacralização” republicana. Mas não é essa a verdadeira questão: se a Senhora Dona Amália e o King Eusébio o foram não vejo porque um artista tão representativo e marcante não o deva ser. “Atirar pedras” a esta proposta por viés político é o mesmo do que eu apupar Eusébio no panteão por preferir (e de que maneira) o semi-deus Vítor Damas. Zeca Afonso foi um marco supra-influente na música popular portuguesa, os direitalhos que se deixem de direitices, tão patetas como as esquerdalhices dos costumeiros esquerdalhos. 

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Na Portela

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Venho do aeroporto da Portela (agora conspurcado com o nome de um hitleriófilo, coisas do PS), que a Princesa está de partida. Cruzo um grupo de 4 indivíduos, 2 com vestes arábicas brancas, outro de negro,completamente coberto, apenas uma nesga do olhar à vista. E penso, ser-me-á permitido passear no aeroporto vestido de capacete integral?

O memorial dedicado ao escravismo

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(Jardim da Memória, memorial dos escravos na Ilha de Moçambique – power point alusivo de Ana Fantasia e Pedro Pereira Leite. )

Tanto a proposta de um novo museu municipal sobre a expansão portuguesa como o debate sobre um monumento/memorial dedicado ao comércio escravista continuam, em particular sediados no “Público”, nisso mostrando o quanto isto se encontra no âmago da intelectualidade bloquista, residente na redacção daquele periódico. Hoje sai mais um artigo, Quem tem um direito a erguer uma estátua?, de João Figueiredo, texto defendendo a construção de um memorial aos escravos (“pessoas escravizadas”, como se intitulam no artigo, é, pura e simplesmente, um ademane apatetado, típico da novilíngua blocal).

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A cimeira da internet

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Este homem esteve em Lisboa em 2017. Agora, por incritérios irracionais, vai uma barulheira por causa de um convite parecido. Puro machismo: se um “facho” homem vem tudo está bem, se uma “facho” mulher vem tudo está mal.

Entretanto, se alguém me conseguir explicar, à luz de uma visão democrática, a pertinência do Estado financiar uma actividade privada e decidir sobre quem nela pode participar eu juro que tentarei perceber, no meio deste veraneio.

Dirão que é “política”. Não, não é. De facto é mais profundo do que isso, é mesmo “sociedade”. É a prevalência do estatismo. E os “democratas”, os “antifascistas” pois “antilepenistas”, concordam, praticam, convocam, este feixe de práticas: o “Estado”, seus funcionários ou avençados, financia e assim decide não só o “quê” mas também o “quem”. A Le Pen fede? Fede. Mas isto, esta maneira de ver a vida, ainda fede mais. E não é lá em Paris de França, é “mesmo aqui ao lado”.

na mesa ao lado

Na mesa ao lado uma família: o pai acaba os 40s, óculos escuros na noite, agarrado à tabuleta, a filha começou os 20s a engordar, uma breve tatuagem acima do pulso esquerdo, mergulha os óculos entristecidos no telemóvel, a mãe, falsa loira ainda bonita no seu suave prognatismo, matizado pelo nariz arrebitado, quase perdida nos seus braços cruzados. Um único toque humano mas que vem suficiente, entre si pai e mãe encostam uma perna.