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Vai para aí uma grande confusão devido ao “menino deles”, o “nosso menino” Robles (como diz o Fernando Rosas), sobre o que é ser “de esquerda” (e apoiada por alguns textos dos antes ditos “jornais de referência” – e destaco, nesse confusionismo, este texto de Ferreira Fernandes). O que implicará isto: Robles é agora queimado na hasta pública, os que não gostam(os) do BE dançam(os), os do BE atirarão as suas cinzas janela fora e sentir-se-ão expurgados do demo que lhes entrou porta dentro, Robles venderá o prédio por menos um milhãozito, empocha uma boa maquia. E segue a marinha … tudo igual como dantes.

Há vários níveis da questão, e não vou fazer um ensaio (dominical) sobre o assunto, apenas deixo apontamentos de memórias. O mais importante é mesmo o da sociologia do poder: a participação dos políticos profissionais neste “boom” de negócios imobiliários inibe uma política estatal (entenda-se, societal) de algum ordenamento, sociologicamente iluminado, das transformações urbanas. O casal Costa está a fazer pequenos lucros em meia dúzia de negócios de modestos apartamentos? É isso imoral? Não me parece. É uma questão da “mulher de César”? Não, porque as mulheres dos Césares são normalmente umas ordinárias, tirânicas e ninfomaníacas. Mas mostra como um nicho de gente oriundo da pequena-burguesia e que vive da política está permeável a este inesperado mecanismo lucrativo, o que constrange, com toda a certeza, a forma (cultural, intelectual) como encaram politicamente a situação que as cidades do país estão a cruzar. Ou seja, esta participação tem efeitos, políticos e sociais. Negativos, até naturalizando estes processos, no culto idólatra do fétiche do mercado.

Há um outro nível, que é o da apropriação dos mecanismos de representação política para enriquecimento próprio (uma verdadeira “acumulação primitiva de capital”, como se disse em linguagem de esquerda), e é esse o ponto crucial no curto prazo da questão, e que os textos dos colunistas conhecidos (como este que ligo, de Ferreira Fernandes, e o de outros textos de publicistas do governo geringoncico) elidem. Processos que estão explícitos no texto de FB deste proprietário vizinho de Robles e que são também referidos por João Miguel Tavares: o facilitismo, tanto em acesso a informação lucrativa como à conivência dos tortuosos serviços municipais, que os políticos têm nestes processos. Isto, num país em que um afamado Mesquita Machado é condenado apenas em 2018 – depois de décadas de fama e proveito de presidência de Braga – é letal para o sistema democrático. E é isso que os teclistas de “esquerda”, bernsteiniana ou estalinista-maoísta-enverhoxista, elidem nos seus textos. Por mera conivência.

E há um nível moral. Para exemplificar aludo à minha biografia: em inícios de XXI era possível adquirir em Moçambique casas do património estatal, nacionalizadas após a independência. O Estado não podia vender a estrangeiros, mas os privados podiam-no fazer. Ao mesmo tempo era possível pedir empréstimos em Portugal a baixo juro e investir em Moçambique (algo que depois mudou, ao que me disseram). A situação, com alguma ginástica, era extremamente favorável ao lucro fácil ou à aquisição do belo conforto. Alguns amigos moçambicanos propuseram-me fazer isso, ao preço de um modesto apartamento em Lisboa poderia comprar uma boa casa no Restelo maputense, ou até mais. Casas que depois se vieram a valorizar de uma forma extraordinária. Diziam-no sempre “tu já és de cá, deixa-te de coisas“. Eu trabalhara na embaixada portuguesa. A minha mulher também, e depois passou para um organismo internacional – entenda-se, vivia ela com um cartão de identidade diplomático. Um estatuto peculiar. Diante disso, e face a essa situação especial, “não ficava bem” participar nesse movimento imobiliário, de cariz algo especulativo. Nunca o fizemos. Lá fizemos o nosso aforro, e uma década depois lá comprámos o burguesote apartamento na “terra” (Lisboa). E dormimos bem. Agora se me perguntarem se, por vezes, em momentos de maior aperto, não resmungo “quem me dera ter uma boa renda vinda lá de Maputo?”, “Ah!, porque não comprei 3 ou 4 casas, entre o Sommershield e o Bairro do Triunfo?“, ai com toda a certeza que sim. E há dias em que até me assomam as lágrimas aos olhos (em particular quando compro o uísque “Queen Margot” no Lidl, meros 6,9 euros). Mas há coisas que não se fazem, devido ao estatuto (profissional, cívico). E isto tanto dá para a “esquerda” como para a “direita”.

Em última análise leio uma série de patacoadas sobre o “ser de esquerda”, e a inadmissibilidade de “ter”, casas, bens, etc., sendo de esquerda. Eu sei algo sobre o “ser de esquerda”, filho que sou de um convicto militante cunhalista. O meu pai, engenheiro de profissão, relativamente bem pago (e com uma bela e invejável reforma), era um homem frugal. Gostava do seu conforto, entendido como ele o entendia, sem este culto do “ter” (que leva um pretenso socialista a vestir nas melhores lojas mundiais, para gaúdio dos jugulares feministas e bloquistas, por exemplo). Mas para ele “ser de esquerda” não tinha qualquer conotação, era até avesso, que as abominava, à “solidariedade” pós-hippie (ele não foi do tempo do new age), à filantropia fabiana ou à caridade cristã. “Ser de esquerda” era pugnar, no dia-a-dia, no trabalho e na sociedade, por um ordenamento político, social e institucional que levasse à igualdade entre os cidadãos. E nisso era implacável contra os “desvios de direita”, a apropriação dos bens (materiais e imateriais, neste último caso sendo as “oportunidades”, por acesso às instituições) por via da política. E essa implacabilidade não era uma posição moralista (contra o lucro, contra o luxo, o bem-viver) – ainda que por vezes o mau-humor o fizesse deslizar para isso (“pai, pareces um franciscano“, atirava-lhe eu, e ele resmungava e recuava). Essa implacabilidade era política.

Ele estava enganado. Nunca se desgrudou do apreço pela “igualdade” ascendendo à bela mescla “equidade”, homem da sua geração que foi. Mas era, na sua contextual forma, um homem de esquerda. Avesso à reprodução das iníquas diferenciações. No meio do seu conforto, dos seus livros, dos seus discos, do seu belo rum, do seu uísque e da sua genebra, que bebia frugalmente. Mas não encerrado nele. E é isso o sermos de “esquerda”, o querermos uma merda melhor do que esta. E sendo implacáveis com estes deslumbrados, com as “boas causas” (fracturantes) e com os “belos bens” (“cool”). Com estes “aventureiros”. E adversários dos adeptos dos sociocídios e etnocídios, os genocídios que fizeram a tal “esquerda” de XX e de que estes “radicais pequeno-burgueses de fachada socialista” nunca se expurgaram. Porque, de facto, os desejam.

Bom domingo, vou ali ao Lidl. Repor o stock de “Queen Margot”.

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Um pensamento sobre “O “nosso menino”

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