XX

Há dias aqui botei o meu desprezo pelo avatar sobrevivente dos Xutos e Pontapés, dada a patética associação com os políticos que por aí pululam. Houve quem comentasse que exagerei. Talvez, o nojo que tenho por esta gente “socialista” é grande, avassalador (venho do facebook, não encontrei nenhum intelectual com ADSE, historiador, dos estudos culturais, antropólogo, sociólogo, das literaturas, etc., que referisse os três anos de prisão a que Mesquita Machado acabou de ser condenado, eles que tão lestos são a denunciar uma qualquer ofensa num algures correcto. Mero exemplo, do dia, da abjecção destes “colaboracionistas” – termo que o Pedro Correia não gosta – com o poder socratico-costista, a descendência da administração socialista de Macau, o  imundo resto do império). E não tenho pinga de respeito pelo tudólogo comentador televisivo íntimo de Ricardo Salgado que anda por aí a beijocar os morcões como se nada disto fosse com ele. Enfim, “siga a marinha”, no tal postal houve algum debate, meti um comentário e o Pedro Correia disse-me que o devia içar a postal. Então iço-o mas contextualizo, para que se perceba melhor o porquê deste meu esgar pelos Xutos e Pontapés. Faço algo que não devia fazer. Estou a escrever (qual Penélope) um texto académico, uma inutilidade evidente, um devaneio senil. Como manda o cânone boto uma  parte sobre “método” (como trabalho, como construo o conhecimento). O texto deveria ficar guardado até à sua conclusão mas, que se lixe, também não me vai servir para nada, e como tal coloco aqui um pequeno excerto – depois tem uma parte em que ultrapasso o tom pessoal e arraso o aparente “exótico”, mas isso já são coisas para outros contextos, não vos maço com tais meneios. Fica então isto, o pequeno trecho, talvez explicite o que para mim foram os Xutos (fraca banda, fracos músicos, uma quase desmúsica, cândidas letras, uma pitada de rock, uma poção mágica …). E depois meto o meu comentário anterior: o que eram os Xutos, o que foram os Xutos, até contrariando um comentador que os disse pouco “anti-sistema”, coisa que nunca me interessou. E porque tanto os desprezo depois deste fellatio ao poder … e ainda por cima, a que poder. Pois não precisavam de gargarejar (sim, estou a ser ordinário, não estou na Gulbenkian, isto é rock. E n’rool).

I

No decorrer de uma investigação junto ao Zambeze foi-me necessário percorrer um conjunto de ilhas fluviais. Para o efeito foi-me emprestado o pequeno barco de motor de fora de borda pertencente à administração distrital, então muito raramente utilizado devido à escassez de fundos disponíveis para o combustível. Ao longo daqueles dias fui conhecendo o seu piloto, um habitante local já de alguma idade, homem pequeno e de boa disposição, machambeiro de actividade profissional e sempre chamado para as esporádicas sortidas do barco. Muito relevante é que ele tinha sido administrador do distrito nos primeiros anos após a independência, cargo verdadeiramente importante a nível local. “Então e depois ..?”, perguntei-lhe, surpreendido por sabê-lo naquele agora apenas muito pequeno agricultor, regressado a mera “população”. Disse-me que desistira, que não gostava “daquilo de mandar”. Sorri e nada mais perguntei, não quis vasculhar-lhe o passado, talvez obrigando-o a aludir às complexas intra-relações nas administrações estatais, mais esconsas ainda naqueles tempos de regime autoritário monopartidário, e com toda a certeza às dificuldades passadas durante a guerra civil, que tanto imperara naquela área. Mais tarde, já em terra e a sós com o meu intérprete, o enfermeiro local, este comentou-me, sem qualquer desprimor, que o problema do nosso piloto havia sido o de que “não tinha ambição”.

Os dias foram correndo. Numa tarde regressávamos à sede, percorríamos uma vez mais as vielas fluviais, quase submersos no frondoso canavial das ilhotas, atalhando caminhos entre margens, e eu impressionado com a pujança e magnitude do Zambeze (o sempre “mighty Zambezi” das velhas crónicas britânicas), com o seu esplendor, a flora ainda liberta de machambas, a pujante “fauna bravia” à vista desarmada, tudo tanto que incendeia imaginações. Nunca se me trata de exotizações, de elaborar pastorais, até porque naquele caso sabendo o quanto aquele Zambeze é também produto da existência de Cahora-Bassa. Mas, apenas e tanto, ecoo aquela imersão fisicamente exausta naquilo que sinto belo por ali estar feliz e por tão diferente do urbano atalhado que me é vida quotidiana, na aparência de liberdade, sabendo-a só isso e nada imputável aos que me circundam, pois embrenhados naquele que é o seu quotidiano, e sabendo também ser essa fugidia felicidade livre às vezes iluminadora e outras obscurantista.

Navegávamos então, percorrendo devagar aquela água dos hipopótamos e crocodilos, aqueles submersos apenas assomando, alguns destes espojados ao sol nos espraiados tão nossos próximos. De súbito, num braço de rio entre o canavial, atascámos num baixio. O piloto foi lesto a entrar na água para empurrar o barco, seguido pelo intérprete. Hesitei, para logo entender que o meu peso muito influía. Saltei também, num ápice pensando no enorme réptil que cruzáramos há tão pouco, e enquanto empurrava perguntei, até incrédulo com tudo aquilo, “E o crocodilo? …” para o piloto responder, com sorriso rápido, até doce, num cume esperançoso, “Não há-de vir!…”.

Logo partimos e pouco depois saímos do entre-ilhotas e reentrámos na vastidão do rio na via para a margem distante. Então, já naquele horizonte tão mais amplo, lembrei-me de uns versos, aqueles “E mais que uma onda, mais que uma maré / tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé / Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade / Vai quem já nada teme, vai o homem do leme (…) / A vida é sempre a perder”. E senti o quanto esse “homem do leme” era o ali homem do leme, no seu percurso relapso à ascensão nas “estruturas”, no partido-estado, à hipotética acumulação, ao prestígio, preferindo o envelhecer naquela disponibilidade, radical, para o que há-de vir, naquele “não há-de…”, que se “a vida é sempre a perder” não “há-de” ser hoje. Cantado assim, há décadas, lá no meu país da minha juventude, assim a mostrar a tamanha semelhança da amplitude de anseios e valores, práticas e caminhos, bem para além dos diferentes sítios onde decorre o devir, bem para além das coisas e ditos a que àqueles damos corpo.

E trauteei, lá durante o rio. Com ele ombreando.

II

Os Xutos nunca foram contra o “sistema”. E ainda bem. O que neles teve piada e em nacos da nossa geração, é que cruzámos um longo período (longa se torna a espera) algo descomprometidos. É uma cena algo individual(ista), um que se foda! … E que passa por fazer campanhas contra a puta da droga, como eles vieram a fazer, a qual é uma merda horrível – xutar heroína no palco, como a geração anterior, não era uma patetice, era horroroso, uma miséria. O “sistema” não é isso, não é clamar um “hé! pá, aguentem-se, não vale a pena …”, ombrear e avisar. Principalmente por quem passou por isso, ou, vá lá, por quem andou com quem tenha andado por isso. O “sistema” não é dizer “não” às seringas ou às chinesas, o speed(cristal) ou da vida, como também não o é abrandar nos “Whisky puro (Vodka-Vodka) / Sangria / Vinho maduro (Vodka-Vodka) / Bagaceira (Vodka-Vodka) / Gin Vómito / Seco Madeira (Vodka-Vodka)“, isso é aguentar, minorar a dor, apesar de em putos parecer que é ao contrário, sobreviver … O encanto dos Xutos não é a música, que honestamente não tem muito que se lhe diga, nem a poesia nem o virtuosismo (o Cabeleira é um bom guitarrista de rock, o resto é menos que sofrível). O encanto dos Xutos são algumas canções, algumas linhas (de letras, não de químicos) como esta até cândida ” É amanhã dia um de Agosto / E tudo em mim, é um fogo posto / Sacola às costas, cantante na mão / Enterro os pés no calor do chão / E há tanto sol pelo caminho /Que sendo um, não me sinto sozinho …”

A repulsa não é terem deixado de ser “anti-sistema” que nunca o foram. Para isso havia o Zeca Afonso (…) e outros assim. Que alguém que foi na vida anti-sistema se integre? é normal (“quem não é socialista aos 20 anos não tem coração, quem o é aos 40 anos não tem cabeça“, qualquer coisa assim dizem que disse Clemenceau). O eixo é o mesmo, apenas posições simétricas. Agora quem vem descomprometido? Quem veio descomprometido? E, de repente, salta para o caldeirão? Não, é muito pouco! E, no caso dos Xutos, passou a ser nada.

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