O “nosso menino”

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Vai para aí uma grande confusão devido ao “menino deles”, o “nosso menino” Robles (como diz o Fernando Rosas), sobre o que é ser “de esquerda” (e apoiada por alguns textos dos antes ditos “jornais de referência” – e destaco, nesse confusionismo, este texto de Ferreira Fernandes). O que implicará isto: Robles é agora queimado na hasta pública, os que não gostam(os) do BE dançam(os), os do BE atirarão as suas cinzas janela fora e sentir-se-ão expurgados do demo que lhes entrou porta dentro, Robles venderá o prédio por menos um milhãozito, empocha uma boa maquia. E segue a marinha … tudo igual como dantes.

Há vários níveis da questão, e não vou fazer um ensaio (dominical) sobre o assunto, apenas deixo apontamentos de memórias. O mais importante é mesmo o da sociologia do poder: a participação dos políticos profissionais neste “boom” de negócios imobiliários inibe uma política estatal (entenda-se, societal) de algum ordenamento, sociologicamente iluminado, das transformações urbanas. O casal Costa está a fazer pequenos lucros em meia dúzia de negócios de modestos apartamentos? É isso imoral? Não me parece. É uma questão da “mulher de César”? Não, porque as mulheres dos Césares são normalmente umas ordinárias, tirânicas e ninfomaníacas. Mas mostra como um nicho de gente oriundo da pequena-burguesia e que vive da política está permeável a este inesperado mecanismo lucrativo, o que constrange, com toda a certeza, a forma (cultural, intelectual) como encaram politicamente a situação que as cidades do país estão a cruzar. Ou seja, esta participação tem efeitos, políticos e sociais. Negativos, até naturalizando estes processos, no culto idólatra do fétiche do mercado.

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Na torre de anúncios

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Já é noite e saio do centro comercial, aqui dito xópingue, sotaque do dialecto local, e rumo a casa,  mesmo defronte. Quando me chego ao atravessar da rua noto que debaixo da torre de anúncios, falha de iluminação e com cromos em falta, espaços vazios que anunciam a pobreza que circunda, desavergonhada, encostado ao canteiro que lhe é base está um tipo deitado, protegido por um velho guarda-sol de praia, branco na noite. Vou até ele a perguntar-lhe “vai dormir aqui?” e ele que sim, “que é o meu lugar”, conclusão que será só dele, que nunca vi vagabundos por aqui aboletados. Está mal preparado, deitado num pequeno cartão, só um saco de plástico com um qualquer não sei o quê. Pergunto-lhe se já comeu, ele agita-se, sobreergue-se no cotovelo, e que sim e abana na mão esquerda um nota de dez euros, dobrada em quatro, como se ma quisesse dar, “não quero o teu dinheiro”, digo-lhe, abismado, “é o meu lugar este”, reafirma-me, até frenético, tartamudeia e nem o percebo, aterrado vendo-o vendo-me dele concorrente, eu ali, hirsuto todo já branco, uma t-shirt desbotada se calhar já não de hoje, calças de ganga sujas que federão a tabaco, que quando a adolescente nem está até esqueço de tudo isso e do resto, pois para quê?,

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Na esplanada do bairro

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Sento-me na esplanada, o cliente (habitual) que está ao balcão sai, cruza-me no passeio, peida-se à minha frente, senta-se no banco de jardim, escarra, espera , desdobra o lenço, assoa-se com denodo, guarda o lençol, já reconfortado. Escarra de novo, levanta- se e segue de volta ao balcão. E esta é a pastelaria mais aburguesada de toda a freguesia …

As eleições do Sporting

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As eleições no Sporting aproximam-se. Várias (proto-)candidaturas e algumas listas já conhecidas. Olha-se para alguns nomes e treme-se: numa lista está Carmona Rodrigues, esse que disse (na TV!) oferecer consultorias da câmara de Lisboa aos membros de um partido, para que este o apoiasse numas eleições. E continua a sair à rua, o energúmeno.

Noutra lista está como candidato a presidente da mesa (o número 1 do clube) o político Vitalino Canas. A este, então secretário de estado, cruzei em Maputo em 1998. Deixo ligação a um velho texto meu, memória desses tempos. Pois Canas foi, com excepção de deficientes oficialmente encartados, o gajo mais burro que eu encontrei na vida. A um breve passo da inimputabilidade. Mal vai o meu Sporting com candidatos destes.

A minha França

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1. Fiz, e ainda faço, a minha França com Goscinny, filho de polacos. E depois com a Senhora Condessa de Ségur, russa, Feval, meio-bretão, Dumas, mulato neto de escrava, Verne, Louis de Funés, espanhol. A seguir, com meu pai, com Tati (também russo, italiano e holandês). Depois, já mais crescidote, com o retornado Camus, o universal Céline (que vos desnudou a todos), e a afinal belga Yourcenar. Depois, adulto, só lembro mesmo Bourdieu, Tardi e Aron, judeu. Podem pensar o que quiserem mas tenho um enorme desprezo pelos imundos racistas, vocês, e principalmente por aqueles que fizeram o liceu e até mais, que andam por aí a referir, brincar ou invectivar a “multiculturalidade” da equipa francesa. Sois uns ignorantes, provavelmente porque filhos de ignorantes. E sois uns vis racistas – seja qual for a vossa cor. Filhos de gente dessa. Pois só a cor da gente, a que chamais agora “cultura”, vos chama a atenção.

2. São também muitos, de várias cores, que invectivam o fruto do colonialismo e da globalização capitalista que é esta selecção francesa. São os mesmos que nos bombardeiam com a obrigatoriedade moral, histórica e política dos países europeus em abrir as fronteiras àqueles a que chamam refugiados (e invectivando quem lhes chama aquilo que são, na sua maioria, imigrantes). É uma gente falsária. Racista e falsária. E são “cool”, coleccionam laiques dos vilãos racistas

10 de Junho de 1990

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foi o dia em que pisei pela primeira vez o relvado do estádio José de Alvalade. Dia de sonhos cumpridos. Lá fui, bem acompanhado, mas para nos encontrarmos com tantos amigos, que era dia de geração. “Então como combinamos?“, muitos me perguntaram, sabendo-me habitual no estádio, mas nas bancadas, para que indicasse eu pontos de referência. Que “entra-se para o relvado” (quem é que vai ver Stones e se senta na bancada, francamente …!) e “vai-se para o sítio onde o Oceano joga“, a todos indiquei. “Onde é?“, perguntavam. “Em todo o relvado, claro“, que a gente logo se encontraria. E encontrámos. Para ver o Kiff, the Riff, ali na minha frente, na então anunciada última digressão dos Stones (há 28 anos!). E o Jagger, que hoje faz … 75 anos! Uff, ambos, estes Glimmer Twins, quais Cristianos Ronaldos do rock n’roll. E viva o Oceano, o todo-o-relvado, sempre!

Uma campanha?

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O Estado promove campanhas, de diverso teor, algumas mais polémicas outras nem tanto. Algumas brilhantes, outras nem tanto – mas nem todos são O’Neill. Vem isto a propósito de uma dúvida que me vem ocorrendo, aqui acampado algo longe do El Corte Inglés. Há quanto tempo não é feita uma campanha avessa ao escarro, a sonora e rejubilante convocatória do muco mais profundo, a sua convicta expulsão – tipo “é um direito adquirido”, “a terra a quem a escarra”. Três anos de Lisboa Oriental mostram-me isto: cada vez há mais gente a escarrar. É … viscoso.

Diário de Notícias

DN

Por mais cúmplice que o DN tenha sido nestes seus últimos anos com o nepotismo do Partido Socialista, a morte do velho jornal, o matutino dos meus avós, é lamentável. Sinal dos tempos, mas custa um pouco. E custa um pouco este estertor, esta coisa tipo semanário a querer protelar o cadáver. O primeiro número desta (terminal) série dedicado ao bacalhau da Noruega (francamente, é para enganar quem?, um óbvio serviço comercial encapotado). E o segundo com este assunto de campo. Lá no café que frequento onde o DN ia saindo na segunda-feira o montito ainda estava assim. Ninguém pega. Tivessem tido a coragem de enfrentar a corrupção e o nepotismo e talvez (talvez) tivessem resistido. Sendo servis ficou isto. Um bocado da história deitada fora.

O Jornal de Notícias

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Vamos deixar-nos de merdas? Se Juncker estava bêbedo no jantar de encerramento da cimeira fez uma triste figura. E todos os facebuqueiros, tão finos, intelectuais, gozam. No JN um filho da puta de um jornalista e um outro filho da puta que é director/editor escrevem que Juncker antes já havia “sido acusado desse delito”. Estar bêbedo para os tipos do JN é um delito. E os bem humorados bem pensantes gozam com a “ciática”. Mas a isto, a esta mentalidade dizem nada! Escarro-vos na alma, seus enjeitados da roda.