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Do novo museu municipal de Lisboa: falta-me a paciência para blogar um texto mais informado, e já há muitos escritos sobre o assunto. Assim fico-me pela rama. Antes resmunguei (no FB) que anda o país há um século a comemorar-se através dos descobrimentos e poderia descansar um bocado disso. E também me ocorre que não é à Câmara Municipal de Lisboa que compete marcar o ritmo auto-celebratório.

Já botei a minha opinião: 1) não se faça o museu (por motivos de higiene identitária). E trate-se melhor dos existentes (por exemplo, o museu da banda desenhada, municipal, há anos que não tem financiamento suficiente para se actualizar); 2) em tendo que o construir (por causa dos “turistas”, diz-se; por causa do Medina a São Bento, percebe-se) que seja um museu da história do conhecimento (“Cosmografia”, digo); se o nome tiver que recair na história pátria que seja a “Casa Fernão Mendes Pinto”, porque “Peregrinação” é o texto da verdadeira expansão, mesmo que não rime como os Lusíadas.

Sobre a questão do nome e da “ofensa” que pode provocar alhures (e nas minorias ideológicas residentes): lembro a “Comissão dos Descobrimentos”, a qual, apesar do nome – já então polémico, como o mostraram os protestos na América às comemorações espanholas, e a recusa indiana às comemorações portuguesas – fez um trabalho assinalável na celebração e reflexão da história. 3 excelentes comissários, com duas linhas algo diversas mas muito compatíveis: Vasco Graça Moura (coadjuvado por Francisco Faria Paulino, que me diziam ser um excepcional quadro executivo) com um pendor um pouco mais celebratório; António Hespanha e Romero de Magalhães, que enfatizaram um pouco abordagens mais reflexivas. Excelentes equipas de técnicos, autonomia administrativa (o que era fundamental) e uma magnífica capacidade de cooptar trabalho externo. Depois, em início de XXI, decidiu-se o erro intelectual, extinguir a CNCDP porque o “ciclo comemorativo” terminara – não terminara nada, porque a reflexão histórica e sua publicitação não termina (como se vê agora), foi uma má decisão burocrática.

Ou seja, o problema não é o “nome” da casa – e se a sociedade portuguesa (neste caso a lisboeta) abre uma casa para se celebrar é normal, ainda que não obrigatório, que utilize os seus termos identitários (é aceitável que alguém chame Vânia à filha recém-nascida, presumindo que vai crescer com bigode e optar por colocar um pénis, mas é mais normal que lhe chame Maria ou Teresa). A questão é o que se faz com a casa. Exemplifico com a abordagem que a Comissão dos Descobrimentos (o tal nome) fez em Moçambique nos finais de XX, seleccionando com alguns casos para mostrar o tom ilustrado que foi perseguido: reeditar o “Etiópia Oriental”, um livro que é um monumento (pouco lido, infelizmente) e o primeiro tratado sobre o que é hoje Moçambique; reeditar “Os Macondes de Moçambique”, de Jorge Dias, o último grande livro português sobre temáticas do que é hoje Moçambique, agregado a um belo estudo contextualizador, de Rui Mateus Pereira. Digamos, o “princípio” e o “fim” da reflexão portuguesa sobre a região antes de ser país independente. Produzir uma exposição pedagógica sobre a história das cidades moçambicanas (de Isabel Castro Henriques) e editar um livro, de facto, sobre a história social de Maputo nas últimas décadas, o magnífico álbum fotográfico “Desenrascar a Vida”, produzido pelo Nelson Saúte. Restaurar a primeira capela católica do território, na Ilha de Moçambique, e a tardia fortaleza de Maputo, hoje espaço cultural universitário. Restaurar a pintura portuguesa deixada no país (oficial, com obras de Columbano, Malhoa, julgo que Malta, etc.) e algumas obras quase-fundacionais das artes plásticas modernas moçambicanas (Malagantana – estou a escrever de memória, não me lembro dos outros pintores cujas obras que foram alvo de restauro). Isto para além de financiamento de investigações e de sua publicitação (por publicação ou apresentação pública). E de outras realizações. A questão do nome? Sim, várias vezes me perguntaram, até com acinte, “vocês andam a comemorar o quê?”. E a resposta, óbvia, “andamos a comemorar desta maneira”, como espaço de debate, de reflexão, de intra- e inter-conhecimento.

Ora na mesma era, que foi a do estabelecimento da CPLP, veio outra via da celebração identitária. Foi a da apologia da “lusofonia”, típica dos socialistas – descendentes ideológicos do colonialismo da I República e impregnados, ainda que disso tão inconscientes, do “terceiromundismo” a la Barradas de Carvalho. Essa lusofonia ignara, e de que o actual ministro da cultura é ainda cultor, e cujo nome não choca os actuais bem-pensantes. Essa mesmo que presume, explícita ou implicitamente consoante o locutor ou o contexto da locução, a “comunhão de sentimentos e de objetivos”, devido à partilha de uma língua, que julga comum. Essa mesmo que faz os quadros da administração pública ou intelectuais acharem que em África se falam, secundariamente, alguns dialectos ou até crioulos. E, nessa era, como depois, as questões conflituais erguiam-se não quando aparecíamos a comemorar os “descobrimentos”, naquela metodologia da reflexão sobre a história, mas sim quando surgíamos (surgiam, os socialistas e outros impensantes) a pregar a “lusofonia” como matriz de futuro.

Pouco disto conta para os intelectuais de agora, mais os artistas e activistas que tanto falam do assunto. Por duas razões: em primeiro lugar porque “lusofonia” ainda aparenta ser fluxo de financiamento, pessoal ou corporativo; em segundo lugar, porque só estão a falar da sua agenda política, a hipertrofia conflitual por hipotrofia intelectual.

Finalmente, parece que a resposta lusófona, a do regime, vai ser a de chamar “Museu da Viagem” à sua celebração. Espero, com ansiedade, pela forma como irão desenvolver a “ala do interrail”, esse espantoso instrumento cultural de construção do europeísmo – e que tanto me disse. Ou então, e é isso que me parece que vai acontecer, vamos ficar com a “viagem das caravelas (e naus)”, mais a adenda para o bloco activista, “a casa dos escravos”.Todos ficarão felizes. Em particular os turistas – pois a cerveja é barata e tem bastante gás; o vinho é relativamente bom e muito barato. Há sol. Que mais é que os gajos podem querer?

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Um pensamento sobre “O museu municipal de Lisboa

  1. Acho que o texto foi editado e aditado… ou talvez não, mas ou por qualquer motivo técnico o texto não surgiu completo ou por motivo de aselhice fui eu que não atinei com o botanito. Explicação para a extemporaneidade do meu comentário. Adiante.

    Algumas questões:

    Nunca pensei em lusofonia como panegírico de “uma extensa comunidade”, apenas como um conjunto de países que partilham a Língua Portuguesa. Daí talvez nunca ter percebido muito bem os objectivo, âmbito e missão da CPLP, que equaciono entre ser um espaço económico, cultural, histórico, …
    Assim, não consigo perceber o postal nesta matéria – falha minha, sei-o; mas se a questão é ideológica, histórica ou social está-me a passar ao lado… help?

    Vejo o Acordo Ortográfico como, também mas não apenas!, uma tentativa de adiar a evolução natural das línguas, e portanto algo que se enquadraria no âmbito da lusofonia e da CPLP como as (não) entendo. Parece ser afinal matéria que nem entra na conversa. Não sei se por irrelevante ou por outro motivo qualquer. Mas sei que um postal não é um tratado, portanto as omissões podem dever-se a vários factores e entre eles o “não apetece” – a mim acontece.

    Finalmente, o raio do nome; não do museu mas da época: “Descobertas”.
    Foi. Os nossos egrégios avós descobriram como lidar com o mar a longo-prazo; e tanto os nossos como os deles descobriram que havia mais gentes e mais costumes. A forma como lidaram com tal descoberta não pode ser analisada à luz das sociedades actuais, pelo que as sociedades actuais terão que discutir, estudar, preservar as descobertas pelo que elas são: factos, não adjectivos.
    Foram descobertas, não foram invenções nem achamentos. Acho eu.
    Se branqueámos a história (e nunca tal palavra foi tão adequada!) não a subvertamos nem reinventemos agora. Antes contemos as histórias que ficaram por contar. Sem achismos.
    Ou seja, também não percebi se a polémica a que alude – e aludem em carta aberta 100 negros portugueses que se recusam pagar impostos para o museu – é só em volta do nome deste ou se traz também a renúncia à denominação da época.

    Às vezes percebo muito pouco, o que se traduz em perguntar muito muito.

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