charles

Nos finais de Julho de 1981 eu estava em férias nas Caldas da Rainha, aboletado em casa do meu amigo Mário João Carvalho, personagem então apaixonante e que não vejo há décadas. E foi aí, na companhia de sua mãe, senhora amabilíssima cujo amor pelo(s) filho(s) impelia à paciência com este traste que lhe aportara portas adentro, que vi o “casamento do século”. De início com o cenho franzido, como convinha ao pretenso adolescente rebelde, mas logo conquistado pelo brilho e encanto daquela cenografia da felicidade e esperança, algo ridículo como o são todas as coisas do amor, disse um poeta. De facto, tudo adequado à sensibilidade deste que havia vibrado, uma década antes, com as aventuras de Lord Fauntleroy e que décadas depois, já rústico empedernido, continua a rever pela enésima vez, claro que sem a ninguém o confessar, o Nothing Hill, fastforwardando para a cena do “I’m also just a girl standing in front of a boy asking him to love her”, consciente do sorriso parvo (diz-se “enternecido”) com que sempre assiste àquilo.

E agora é interessante ver como, britânicos e outros, suspendemos juízos críticos quotidianos, e utilizamos esta família (na qual quase tudo acontece, “como nas medianas famílias”) para simbolizarmos a esperança na perenidade do belo e na continuidade da felicidade. Como através dela, e de todos os seus “pecados e pecadilhos”, sacralizamos e festejamos a beleza destas nossas humanas falhas. Sempre querendo crer na sua inexistência. Ou melhor, assim sempre fazendo-as participar no que é belo, fazendo-as produzi-lo.

Para mais hoje, nisto de um príncipe, de um dos últimos da sua espécie, se casar com uma americana, velha, popular (plebeia, um termo tão poluente que nunca o damos às nossas filhas Patrícias), até oriunda do white trash e ainda por cima poluída pela malfadada “gota afro”, isto tudo no pensar e linguajar daqueles racialistas americanos que tantos querem importar, divorciada e ainda por cima actriz, isto de ser assim, e tão festejado, é um magnífico sinal dos tempos.

Dito isto vou ali para o sofá, preparar-me para o (quase) royal wedding. Lá para a noite recolocarei o barrete frígio.

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