Ferro rodrigues

Há dois meses bloguei este “O governo está a dormir“. A ideia era simples e nada original: a) ambiente em torno do futebol está um caldeirão fervente, acicatado pelos estratégias presidenciais nos grandes clubes nacionais e suas derivas confrontacionais na imprensa, em particular nos inúmeros programas televisivos de comentário futebolístico, já excêntricos ao registo de comunicação social pois mergulhados no mais barrasco da estética “reality show” – recordo que na véspera do assalto à academia do Sporting um comentador televisivo se levantou e ameaçou fisicamente um outro, afecto a outro clube, ante a relativa placidez do moderador e do total silêncio da direcção daquela estação. Sobre este ambiente escreveu ontem, “tão mais melhor”, Ferreira Fernandes este belo artigo, “Alcochete“;

b) num contexto destes era previsível que mais tarde ou mais cedo ocorreria um incidente grave nos campos de futebol ou nas suas cercanias, previsivelmente entre claques, esses tugúrios de auto-marginalizados. E, em fins de Março, perdi a paciência com o presidente do meu clube, que insultou o do Braga nos dias antecedentes ao Braga-Sporting, isto pouco tempo depois dos violentos incidentes aquando da visita do Benfica àquela cidade, assim estuporadamente incendiando (ainda mais) o ambiente e fazendo perigar o bem-estar dos espectadores, em particular dos visitantes, pois em clubística minoria. Mostrando-se totalmente irresponsável.

Diante de tudo isso era (e é) notória a inactividade governamental, o qual tem relativa tutela sobre os clubes e sobre os órgãos de comunicação social. Nem acções efectivas nem por indução, um total “deixa-andar” a denotar as pinças com que o poder trata o mundo do futebol, temendo perdas de popularidade.

Surge o ataque a Alcochete, afinal uma confrontação autofágica. Só agora, e decerto que pelo impacto mediático, o poder abana e intenta reagir. Anuncia-se uma “alta autoridade” ou similar. E o presidente da Assembleia da República vem fazer uma inusitada declaração política no próprio parlamento, sublinhando a sua condição de sportinguista. Vitupera o incentivo ao ódio, o populismo, o autoritarismo no mundo associativo, e em particular Bruno de Carvalho. Esteve bem. E aborda as acusações de corrupção que impedem agora sobre o Sporting (um clube em evidente descalabro) mas também sobre outros clubes, com particular relevo as sobre o Benfica.

Mas atente-se como ele o faz. Convoca as autoridades judiciais a investigar os clubes, pois, e di-lo com evidente acinte, dado que “sempre prontas para investigar, (e bem), os políticos” (e note-se as entoações, supra-explícitas). Deixemo-nos de rodeios, isto é um remoque do Presidente da Assembleia da República às investigações que recaem sobre o poder político, em particular sobre os anos de governação de Sócrates (aquela cujo legado ele reclamou no seu primeiro discurso parlamentar após ter sido eleito presidente do grupo parlamentar do PS quando Costa chegou a secretário-geral). Denota uma reacção crispada, um viés corporativo, um desagrado com o funcionamento das instituições. Em suma, aversão à democracia. É pelo menos pouco curial no presidente do parlamento. De facto, é muito mais do que isso, roça o inadmissível. E é totalmente demagógico que o faça a reboque de uma comoção generalizada, como a provocada pelo vil ataque de Alcochete.

O poder político acordou para a questão do ambiente do futebol. Mas, mostra-o o presidente da AR, levantou-se com os meneios de sempre. Impúdicos.

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