embondeiro

(Embondeiro junto ao lago Niassa, distrito Cobué, 2010)

Principalmente para os que trabalharam com as populações que cruzaram a guerra civil moçambicana – sim, eu não digo “conflito armado”, a terminologia ainda habitual entre os cultores do idioma frelimista, que assim quer expressar a redução do partido Renamo a uma invenção estrangeira, rodesiana e sul-africana, algo que efectivamente foi mas do qual foi evoluindo -, delas ouvindo as suas horríveis memórias da guerra de Terror, praticada durante os 16 anos de ofensiva contra o Estado, pode custar a compreender o quão Afonso Dhlakama foi um dos líderes do seu povo. Não só entre o eixo shona (ndau e sena, para facilitar) que povoa o centro, aquelas Manica e Sofala a sul do Zambeze, zona de onde ele foi originário, pois, ao longo das últimas três décadas e  meia, progressivamente absorvendo o estatuto de porta-voz das aspirações da população entre o (rio) Rovuma e o (rio) Maputo.

 Talvez porque, obnubilados pela nossa própria história, e pela sua moralização em que nos obrigam a crer, nestes tempos de correctismo, sejamos incapazes de compreender a violência, mesmo a mais radical, como constitutiva da sociedade. Não, não falo da violência da “selva” africana, aquilo da simplificação do “Horror” conradiano (ou coppoliano, no franchising “Apocalypse Now”), mas da violência do verdadeiro “Horror” de Conrad, a universal. Será isso que nos pode impedir de compreender como a monumental “des-graça” da guerra entre 1976 e 1992, daquelas milhões de desgraças humanas, dos inúmeros episódios que a “população” nos conta, aquelas coisas que assim nos ficam para assolar, avassalar os sonhos e as vigílias – Dhlakama morreu hoje e só me lembro da primeira rapariga raptada pela tropa Renamo que tive o desplante de entrevistar, em 1994, lá no Cabo Delgado, ela completamente tolhida de tudo -, se pode transmutar numa forma de construção da democracia, da liberdade. Essas que prezamos. Mas que custam, de forma não instrumental, diga-se, pois não absolutamente necessária, mas que ainda assim custam, tudo isso.

Outros, historiadores ou grandes repórteres, poderão fazer o rescaldo do percurso do guerreiro-político Dhlakama, dirigente máximo da Renamo desde 1979, após a morte de André Matsangaíssa (em combate individual com Sebastião Mabote, foi a primeira versão popular que ouvi, magistral explicitação da dimensão de heroicidade, assim semi-divindade, que o povo atribui a estas grandes personagens da história moderna moçambicana). Mas quero frisar o quanto foi ele fundamental para o caminho em busca de uma democracia. Disso de haver vários locutores que reclamam o direito às várias opiniões sobre os caminhos a seguir, os vários modos de redistribuir os (parcos) recursos existentes. E a de, nisso, apelarem ao apoio dos conterrâneos, sem se submeterem a “verdades”, comprovadas por “inteligentes”, “sábios” (orgânicos ou expatriados) ou por uma qualquer “justiça”, histórica ou moral.

Nesse caminho ganhou umas eleições presidenciais, em 1999. Sim estou disso convicto – e não me venham chamar renamista, que já botei as vezes suficientes que, em Moçambique, sou um “chissanista”. E apesar do então acontecido não seguiu a via do regresso à guerra. Talvez por inexistência de contexto, interno e externo, para isso. Mas com toda a certeza que também por decisão própria.

E foi um homem (relativamente) despojado. Em particular nesta sua opção de regressar nestes seus últimos anos, como instrumento político mas não só, à sua zona natal, tão menos luxuosa, burguesa, sumptuária do que os refúgios, activos ou não, de tantos dos líderes políticos por esse mundo fora. A lembrar-me agora, na sua morte, Savimbi. Sendo personagens muito diferentes, em processos nacionais muitos distintos, e com lados escuros próximos (a guerra de terror nisso a muito contar). Aquele acossado até pelos velhos aliados, abatido em combate, e Dhlakama morto, ao que consta, por doença (diabetes, controlável se no remanso urbano). Mas ambos com esse ponto final, significativo, morrendo no mato, despojados do que tantos querem do poder. E do que tantos mais só querem do poder.

Foi um embondeiro moçambicano, como se costuma dizer na retórica das eulogias no país. E será bom para o apaziguamento do país que essa consideração não seja campo para as recriminações mútuas. Que o país o possa celebrar, na sua complexidade. Moldando-se assim, continuadamente, paz.

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