Pacheco Pereira

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Pacheco Pereira, o melhor professor que tive na universidade, insulta no Público a gente nós, que fazemos as redes sociais. Somos trogloditas, diz o ex-bloguista, falsários, eco de boatos – “arma da reacção”, deles (se) disse. Antes, no programa televisivo de formação política em que há anos trabalha, com o jogador de xadrez Jorge Coelho e com o vice de José Sócrates, agora PM, postulou que “a direita convive bem com corrupção, sempre conviveu“. A minha queridíssima irmã, já sexagenária, insiste para que não escreva eu palavrões no FB. A minha amadíssima filha, já adolescente, insiste para que não escreva eu palavrões no FB. Cumpro-lhes as vontades e resumo, troglodita das redes sociais que sou: Pacheco Pereira é de direita.

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#JeSuisBruno!

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Acho que te passaste. Cobarde, atemorizei-me ao assim te ver. Implacáveis, as malvadas bruxas Razoabilidade e Pertinência assombraram-me, estremeceram-me, fizeram-me teclar o abandonar-te, o trair-te. Choro-me agora, ao ver-te tão menos rodeado aí no mato do qual te recusas a fugir – onde até, pérfidos cruéis, te fotografam no desabrigo da dor. E eu aqui no bem-bom da fogueira dos razoáveis, a galinha a crepitar no fogo, no odor dos caldos de legumes, no calor da massa cozida. Este malvado alpendre do conforto, ao qual já chegam, noite fora, vindos de outras aldeias, todos estes nobres, os notáveis, os doutores, sorriso armado, agora a cumprimentarem-nos, quais connosco solidários, como se não nos quisessem esquecer logo que o puderem. Acho que te passaste. Cobarde, atemorizei-me ao assim te ver. Temi essa tua húbris que, mero homem velho, já não tenho, nem nunca tive, e é essa a triste verdade, quando jovem. Esqueci o quão glorioso é este toque da loucura pública, arrebatador de futuros. Refugiei-me nisso de que tu amas o só Sporting enquanto eu me dedico à idolatria da mais Pátria. E nisso emouqueci às verdades que tonitruas. Que para ambos servem. Revejo em volta, todas estas fogueiras já cheias destes tais nobres aportados, melífluos, os notáveis, esses do clã “patrocinadores”, os da nação “investidores”, e mesmo os “responsáveis” das linhagens, e até mesmo, pois já chegados, esbaforidos, acudindo aos previstos concílios, os estrangeiros “empresários”. Deixo para outrem o prato da massa, levanto-me, roubo um frasco de hidromel e bebo-o, só eu. Renasço-me. Finjo isso. E ganho a coragem para te pedir que me deixes regressar. Deixa-me estar contigo, permite-o. Um braço velho, um escudo fraco, um mero teclado a fingir-se machado. Somos menos à tua volta do que os que já fomos, dos que éramos há dias, talvez muitos menos. Pois tantos terão partido, alguns errando sós, à espera de um Algo, até de um alguém. Outros já acantonados, agora com menos paixão, é certo, na miragem de outras esperanças de troféus prometidos, saques de glória e contentamento. Sei, porque estou agora nessas outras fogueiras, que já abundam esses grupos, seus capazes e sequazes. Mas deixa-me, ainda que assim, estar contigo, voltar a ulular #JeSuisBruno!. Desconfio que vamos perder isto, quase o sei de certeza garantida. Mas esta nossa derrota é a única coisa que me resta. E se eu me acobardar outra vez, velho com sonhos de respeitabilidade que vou, manda passar-me o(s restos do) jarro de hidromel. E a nossa vitória será gloriosa. Ou, mais ainda, sê-lo-á a estrondosa derrota.

Ao balcão da roulotte

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Bruno já caiu, apenas ele não o terá percebido, porventura nisso acompanhado de alguns poucos dos seus indefectíveis. Já aqui se disse, e muito bem, que fez “tilt” (Marta Soares, mais institucional, diz que ele não está bem). É a minha convicção, sincera, e sem ponta de ironia e muito menos de sarcasmo. Desejo, com toda a sinceridade, o restabelecimento emocional do grande sportinguista Bruno de Carvalho.

Também aqui no blog se alude ao “que fazer?”. Muito bem. Sem sebastianismos está na hora de procurar alternativas (inexistentes nas últimas eleições). Convirá nisso não fazer “tábua rasa” deste brunismo, há coisas com as quais ele cortou às quais o clube não pode regressar.

Neste triste final, com laivos de Suetónio e de Shakespeare, mas em versão de teatro amador, Bruno dispara em todas as direcções, agora em particular contra a massa sportinguista, a nossa “demos”, agora afinal meros energúmenos que nos divertimos nas roulottes, servis aos nossos apetites. É o destrambelho final. A seguir quererá gritar “que artista morre em mim”, imaginando-se jogador, decerto. Não o deixemos chegar a isso. Recordemos e sublinhemos, entre os nossos coiratos e múltiplas minis, aqui mesmo debaixo da Segunda Circular, o quanto ele fez pelo clube e, acima de tudo, as esperanças que nos proporcionou. E desejemos-lhe as maiores felicidades. Estando prontos para o acolher entre nós, nas bancadas, como figura grada. O devido a um ex-presidente que se deu ao clube.

O nosso colinho

 

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(Postal para o És a Nossa Fé, em plena crise presidencial sportinguista).

Não vou repetir argumentações, próprias e generalizadas. O associado Bruno de Carvalho tem sido um bom presidente do clube. Nos últimos meses tem acumulado erros. Uma verve descontrolada, uma incompreensão dos efeitos da sua abordagem comunicacional. Um egocentrismo desmesurado, imune à auto-crítica, inimigo da lealdade daqueles, seus apoiantes, que lhe apontam os erros – este dístico, afixado em Alvalade há alguns meses, é disso exemplo. Mais do que tudo, o seu desnortear aparenta ser o efeito de traços de personalidade, sobredimensionados pelo seu sucesso no universo leonino, pelo seu sufragar nas últimas eleições.

Agora o total disparate, como tal percebido pelos sportinguistas. Tanto pela grande maioria, sua apoiante, como pela minoria, sua desapoiante. Entretanto, Bruno recuou. Talvez por reflexão própria, porventura por influência dos que lhes estão próximos. Que eu tenha percebido é a primeira vez que Bruno de Carvalho recua numa posição/decisão (publicamente) relevante, neste quinquénio que leva de presidência. Pode ter sido estratégico, um “deixar correr o  marfim” até considerar ter chegado o momento de uma estocada final que lhe permita cumprir o desígnio inicial. Quero duvidar disso, até porque adverso ao temperamento vulcânico que o associado presidente sempre tem demonstrado. Assim, quero crer que é este o primeiro momento em que Bruno realmente recuou. Ou seja, um momento inicial – no qual ele percebe, com “sangue, suor e lágrimas”, que, por mais razões que tenha vindo a ter, não é um iluminado perfeito, até divino. E, nisso, que possa aprender, como todos nós, com os erros cometidos. E que tenha a força psicológica para não quebrar ao perceber-se apenas humano. Que se perceba “errador” mas não errático, que não se afunde errante.

Cumpre-nos, aos sócios e aos adeptos, continuar assim. Apoiando o clube – neste caso, muito em particular, aos jogadores de futebol sénior, capitaneados pelo verdadeiro símbolo sportinguista que é Rui Patrício, “rotativo” como todos os mortais homens o são, “perene” no panteão clubístico. E criticando aquele que foi eleito presidente. Para que ele aprenda com as críticas. Aprenda o fundamental isto: “escolhe as guerras, conquista a glória”. E, foda-se, “larga o facebook”.

Hoje, todos a Alvalade. Para apoiar o clube. Pois o nosso colinho somos nós.

Cristiano Ronaldo

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[Cristiano Ronaldo agradecendo os aplausos dos adeptos da Juventus após o (2º) golo marcado em Turim]

À saída de Nelspruit não paro nos semáforos desligados, que quando assim funcionam como sinal de “stop”, pois nenhum carro se avistava no cruzamento. E logo dois policias saltam à estrada, mandando-me parar. “Estou tramado!”, resmungo, antevendo os rands da multa e o atraso na viagem. Desculpo-me, explico-me, eles impávidos. Claro que viram a matrícula moçambicana, e tão habituados estão ao tráfego inter-fronteira, mas perguntam-me para onde vamos (“Maputo“, respondo), de onde somos (“portugueses“, digo-lhes), se viemos às compras. Que não, esmiúço, em busca de hipotética solidariedade, que ali vim para trazer a miúda ao (orto)dentista, a Carolina a comprová-lo no banco traseiro, com o aparelho dentário tão brilhante, acabado de calibrar na visita mensal. Um deles (suazi? tsonga? sotho?, não lhes consigo destrinçar a origem), inclina-se sobre a minha janela, quase enfiando a cabeça no carro e pergunta “how are you, sissi (maninha)?” e assim percebo que não pagarei multa. Depois diz-me “se você é português vou-lhe fazer uma pergunta” e eu logo que sim, dando-lhe um sorriso prestável, antevendo uma qualquer dúvida sobre ares ou gentes de Moçambique. Mas afinal “Qual é o melhor, Ronaldo ou Messi?“. Eu rio-me, num “Ah, meu amigo, são ambos excepcionais, diferentes mas excepcionais“, enfatizo, mas ele insiste, “mas qual é o melhor?“. “Ok“, e enceno-me, olhando à volta, “só vocês é que me ouvem, assim posso falar, sou português mas o maior é Messi“, e estou a idolatrar o jongleur, o driblador dono da bola, alegria do povo, nós-todos miúdos de rua. “Não, você está errado” riposta ele (ndebele? zulu? khosa?, não lhe consigo destrinçar a origem), “Ronaldo é o melhor. Messi nasceu assim, Ronaldo é trabalho, muito trabalho!“. Ri-se, riem-se, rimo-nos, e conclui num “podem ir“. Avanço pela N4 e sorrio a este afinal meu espelho, apatetado europeu (armado em) intelectual com prosápias desenvolvimentistas, a levar uma lição de ética de trabalho de uma pequena autoridade (formal) africana.

 
(Fica a historieta para os que acham mal resmungar com os patrícios que, sistematicamente, apoucam o labor do maior atleta em actividade. Talvez nisso ombreando com Federer, mas muito mais célebre).

Sem ter esperado à porta do Lux

Varinas no Bairro Alto

(Rua da Atalaia, 105. Fotografia de Garcia Nunes, 1969 (AML). Encontrada no blog Lisboa de Antigamente)

A morte de Manuel Reis (ou “do Manel Reis”), acima de tudo pelas reacções que provocou, causou um eixo de resmungos interessantes pela sua origem intelectual. Um artigo no Público de João Miguel Tavares (“Nós, que esperámos à porta do Lux“), simpático com a pessoa mas adverso às reacções, é o mais sonante. Um postal no FB de Alberto Gonçalves e uma série de comentários até ácidos também no FB vindos de gente que escreve, e bem, em blogs, jornais e redes sociais, juntam-se-lhe. Grosso modo, o tom oscila entre o desdenhoso “nunca ouvira falar em tal homem” e a “análise sociológica” invectivando os “elitistas endinheirados” que agora louvam o falecido, ele próprio “elitista”. Não tenho eu o saber para arengar sobre as mutações culturais em Lisboa, e no país, nos últimos vinte anos de XX, nas quais o Manel Reis (ou “Manuel Reis”) foi “pivot” – mais “pivot” do que “protagonista”, tanto por personalidade como pelas características da sua intervenção. Mas interessam-me os implícitos dessas críticas/resmungos, dado o ambiente intelectual do qual provêm.

Desde logo são oriundos de gente que não é lisboeta. E que se depara(ou) com os tiques da capital. A “cagança”, como eu dizia em puto, e que vinte anos de emigração me levaram a chamar “blaseísmo”, um “ismo” que procura reconhecer uma (espécie de) ideologia de nacos da classe média lisboeta, em particular nos nichos das “indústrias culturais e educacionais” e em “quadros do funcionalismo público” com aquelas interligados. Pois viver fora deu-me para ainda mais lhes reconhecer os tiques, que os próprios lisboetas impercebem (e negam, se lhos digo): o aparente flanar, que nada flana, que de facto é gente arado, sulcando a “terra” que querem património; este ligeiro arrastar da voz e o encenado esvoaçar do olhar, ambos desfixando interlocutores; o másculo cumprimento “um abraço”, prenunciando vigorosas palmadas nas costas, mas que de facto nada mais é do que o adamado “não me toques”; a patética despedida “temos que ir almoçar” que, na realidade, soa “espero bem não te ver mais …”. E um sem-número de pequenos (e não tão pequenos) detalhes que mostram uma “sociedade” (uma cultura comportamental) de pequenos grupos solidários, tendencialmente enquistados, entre-demarcando-se em feroz compita por escassos recursos estatutários (e assim económicos). Coisa que os emigrantes tanto reconhecem quando (por) cá. Tal como, pelos vistos, também o reconhecem os não-lisboetas, tantas vezes ditos “provincianos”. De facto, trata-se de uma adversidade ao ideal de uma “sociedade aberta”, aquela que alguns (poucos?) sonham e pela qual alguns (ainda menos?) pugnam. Daí um mal-estar face ao “estado da arte” na “pequena Lisboa”, que sumarizo citando a grande antropóloga Mary Douglas: “This world we are in still longs for sincerity, and for simple and direct dealings between equals. It still rejects the outward forms of social distinction, and still finds that differences of power and wealth are as effective as barriers to direct communication as ever” (Natural Symbols, 1996, xii – o livro está mesmo aqui ao meu lado, apeteceu-me citá-lo).

Ok, será muito esse mal-estar que leva alguns  a resmungarem com as sentidas loas tecidas por estes lisboetas agora de  meia-idade ao homem que tanto mudou a paisagem cultural, e a maneira de estar e de aparentar estar na Lisboa pós-1980. Mas o engraçado são os implícitos ideológicos que mostram. Os locutores a que me refiro são todos abarcáveis pelas etiquetas “centro” ou “direita” ou “liberais”. E nesse sentido é relevante, e até surpreendente, perceber os implícitos que manuseiam. Por um lado, é óbvio um estatismo subliminar. O meu raciocínio é contra-factual, e assim é fácil de negar, mas é tão cristalino que a desvalorização de Manuel Reis (“do Manel Reis”) advém do facto ter sido um “empreendedor” (como agora se diz), dinamizador privado de locais e de actividades com efeitos estruturantes, e com dimensões mecenáticas. Se nesse âmbito tivesse, por absurdo que fosse para quem o conheceu, assumido funções estatais (por exemplo secretário de estado ou vereador da cultura), a sua menorização agora recorrente não surgiria. Mas o homem foi “apenas” um privado.

No mesmo âmbito, há um institucionalismo subliminar: tivesse ele fundado uma fundação, ou entrado numa outra existente, ou sido presidente de uma qualquer associação comercial (uma espécie de CIP ou CAP)? Tivesse sido vulto oficial da Europália ou da Lisboa Capital da Cultura, soturno administrador da Expo-98? Com toda a certeza que não o menorizariam tanto. Ou seja, se a então célebre “movida” madrilena (o “Madrid me mata”) patrocinada pelo município (o carismático Tierno Gálvan) tinha a “patine” estatal e institucional, assim “nacional”, a bem mais modesta lisboeta girou em torno de alguns “pivots”, nos quais sobressaiu o agora falecido Manel Reis. E isso, a estes críticos, e apesar deles-próprios, retira-lhe brilho.

Em segundo lugar, há um pungente e surpreendente (pobre)marxismo, uma vulgata classista resumida no “ricos” vs “pobres”. As imprecações contra os “endinheirados” “lisboetas”, “elitistas” (aqueles que não esperavam à porta do Frágil ou do Lux) que agora lamentam a morte do seu “guru” ou “xamã” não colhe com a realidade de então. Que um jovem caloiro recém-chegado a Lisboa em 1985 ou 1990 desabafasse isso, impedido de entrar num pequeno bar-discoteca, porque desconhecido da casa, tinha todo o cabimento. Que um intelectual o repita em 2018 é uma patetice. Pois é uma profunda ignorância, e não só do que aconteceu na altura. Pois é também uma recusa da análise sociológica, do que era o Portugal de então. Uma sociedade pobre, causticada pelas obrigações impostas pelo FMI (simbolizado por Ernâni Lopes, então demonizado pela esquerda como o foi agora Vítor Gaspar, e que tantos elogios colheu aquando da sua recente morte, o que nos deveria fazer pensar um bocado sobre o governo de PPC). Uma sociedade muito piramidal – o Frágil abriu apenas 8 anos depois do 25 de Abril e quatro anos antes da enxurrada de fundos com a entrada na CEE. E muito estratificada. Era, sim, uma sociedade de privilégios (e de imensos desprivilégios). Quem frequentou aquele Bairro Alto renovado, e uns anos depois desceu para perto do rio (o “Plateau”, o “Metalúrgica”, o “Bar do Rio”, etc.) não era uma elite económica e cultural, os “endinheirados” “elitistas”. Eram os filhos da “pequena-burguesia” (a classe média “média”, como agora se dirá). Gente dos subúrbios, como nós dos Olivais, ou os de Benfica, ou os filhos do funcionalismo público das Avenidas Novas, etc. E, logo a seguir, ainda nos 80s, a malta que vinha, para nosso espanto, da “outra banda”. Era uma sociedade piramidal, ainda não tinha havido a massificação escolar, quem andava por lá pertenceria à franja dos universitários ou, pelo menos, dos que acabavam o liceu, gente das artes e da imprensa ou que a isso aspirava – ou seja, estudantes e gente dos ofícios. Mas esse universo não era o dos “endinheirados”, os “ricos”, os “privilegiados”. E, muito menos, a “elite”. Ainda que muitos a quisessem integrar, sonho em todas as gerações, e que alguns muito tenham feito por isso. Seria sim, quanto muito, e grosso modo, o dos “remediados”. A tal “classe média”, contra a qual não se usam agora similares impropérios, e tão melhor vive ela agora do que no dealbar dos 1980s.

Em terceiro lugar, estes resmungos mostram um desprezo pela história social, e das práticas culturais. A foto acima mostra a célebre Rua da Atalaia em 1969. O Bairro Alto que eu conheci em 1982 foi o da Tasca Azul (o nome oficial era “Arroz Doce”), defronte ao Frágil e propriedade da “Tia” Alice, irmã do Alfredo, o célebre guardião do Frágil (e depois do Lux), um camionista insone que fazia os turnos da noite defronte à porta e guiava de dia. A Tasca Azul que conheci era ainda aquela em que nos sentávamos a beber bebidas escabrosas, vínhamos cá fumar cigarros também escabrosos, e onde, naquela bruma, víamos as mulheres dali, velhas (para nós), gastas, de anca larga, deixar as malas na arca “frigorifica” quando os homens dali as vinham buscar. Para depois voltarem. Abrir ali um bar novo, diferente, exigia mudar o ambiente, escolher o universo da clientela. O que encetou a “gentrificação” (como se diz agora) da actividade comercial do bairro – então hiper-decadente (a qual, uma década depois, se repopularizou, em outros moldes, de anárquica venda de álcool diante da complacência inerte do município). Promovendo uma enorme mudança naquele bairro, na forma como os lisboetas (e vizinhos) olhavam e viviam o(s) bairro(s) histórico(s). Uma década antes da Europália, ainda mais antes da “Capital Europeia da Cultura”. E, também, nos tais apenas 8 anos depois do 25 de Abril, do fim do “Deus, Pátria, Autoridade”, nas formas como os lisboetas se comportavam, na festa, no namoro, nas cumplicidades, na convivência. Até na “conspiração”, então já a dos famigerados “projectos”, na elaboração dos “conceitos” (quem é que não tinha, no final dos anos 1980s, um “conceito” próprio para desenvolver?um irritante jargão a esconder o cinzento vácuo e a embrulhar a saudável ambição). No ser e, fundamentalmente, no aparentar ser, essa coisa tão importante. E isso foi uma “revolução” – porque, por mais que os intelectuais portugueses deste XXI queiram, as “revoluções” não são apenas as tomadas do “Palácio de Inverno” ou as decapitações das “Marias Antonietas”.

Ok, um tipo quando fala do que viveu com prazer, mesmo que eu fosse apenas um puto anónimo (e muito desajeitado), que teve a sorte de ter uns belos amigos lá nos Olivais, que abriam portas dado o seu brilho público de então (alguns mantiveram-no, outros têm-no entre nós), tem a tendência para dulcificar o ido. Até para o saudosismo. Mas não virá grande mal ao mundo.

Agora grande mal a este mundo vem quando os intelectuais. felizmente libertos da cartilha (pós)marxista dominante, surgem, até inconscientemente, brandindo os nada liberais ressentimentos regionalistas, o estatismo e o institucionalismo, a refutação da análise sociológica, os contributos da história social e cultural, esta que tantos mitos desmonta. E nisso se deixam pensar sob os (transviados) laivos do velho humanismo, isso de um mundo de “ricos” vs. “pobres”. Esses condimentos metidos no mesmo caldeirão dão para um manjar que teve um nome no pantagruel político: fascismo.

Conviria que, lá porque não se entrou no Frágil (ou no Lux, no caso dos mais-novos), não se pensasse tão mal.

Algumas das canções da minha vida

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(Postal no Delito de Opinião)

O Pedro Correia elencou algumas canções da sua vida, na sequência da bela série que vem colocando no Delito de Opinião. E desafia-nos a colocar (algumas d)as nossas. No seu sumário ele meteu 12. Eu, acorrendo a responder, selecciono de rajada as que me são mais óbvias. Obrigo-me a ficar por estas 18. Não é a lista das “melhores canções”, é um rol de canções que me fizeram. E à minha vida. E espero que a minha filha Carolina se saiba reconhecer aqui. Tal como à sua mãe. E que algumas outras pessoas, se por cá passarem, também possam reconhecer-nos.

 

Sobre o olhar destinado a Moçambique

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(Postal no Delito de Opinião, 29.3.2018)

Há alguns dias deixei aqui um postal aludindo à incoerência, sinal de incompetência e submissão ao casuístico, do parlamento português, o qual votou, de modo unânime, um pesar pelo assassinato de uma vereadora do Rio de Janeiro e que havia, recentemente, ignorado o assassinato do presidente de Nampula. Aquele que me pareceu ser um texto liso (“flat“) foi comentado de forma que me surpreendeu (concedo que cada vez mais tenho dificuldades em dialogar em comentários nos blogs, pois o tom parece-me bem menos profundo, num apenas provocatório, do que o que acontece no FB, mesmo que ali sendo abrasivos, o que se prende, decerto, com o efectivo anonimato de grande parte dos comentários bloguísticos). Assim ser contraposto naquele meu texto por considerações que julgam normal (“natural”) que o parlamento siga a agenda mediática é difícil de contra-argumentar. Pior ainda deparar-me com comentários reduzindo, de forma altaneira, o que havia escrito a um “disparate” ou a “misoginia”. Não é um lamento o que agora escrevo, é mesmo um cansaço. Explico-o, agora, através de dois pontos:

1. Não reclamei o interesse para um qualquer contexto longínquo. A Assembleia da República não é o governo. Como tal é normal, até desejável, que funcione um pouco segundo as comoções e pressões do eleitorado, da opinião pública. E que os interesses e focos de atenção das forças sociais que apoiam os partidos sejam mais ecoados através dos deputados. Assim sendo, é normal que o que tem mais peso mediático (o Rio é mais sonante do que Nampula, claro) induza mais reacções. Não é um defeito, é uma característica do parlamento. Ou seja, se a AR está vinculada à “razão de estado” vive esse vínculo de forma menos radical, em termos de imagem e discursos públicos, do que o governo, particularmente em questões de política externa. Sendo mais sensível a ecoar as correntes de pensamento internas, muitas vezes potenciadas pelas emoções colectivas e pela agenda mediática, esta salutar em democracia.

Dizer isso não implica que a AR não tenha também uma dimensão “estadista”. Nela está gente que se dedica à política externa e, mais em particular, à ajuda pública ao desenvolvimento, vulgo “cooperação” (terá comissões, grupos de trabalho; terá profissionais disso eleitos; terá políticos que já ocuparam postos na área; representa interesses económicos envolvidos; tem deputados da emigração; etc.). Assim, em questões estrangeiras não está, nem pode estar, limitada às solidariedades dos partidos representados, às comunhões ideológicas. Nem às parangonas das televisões e jornais. Poder-se-á discutir a pertinência formal de um parlamento votar um pesar sobre o assassinato de um vereador municipal (talvez que a reacção das instâncias políticas nacionais devesse incorrer sob o âmbito da Assembleia dos Municípios Portugueses, e das assembleias municipais – em particular a das grandes cidades portuguesas geminadas com o Rio; isso daria uma homologia). Mas pode-se ter querido incrementar o peso simbólico da reacção (duvido que tenha havido sequer essa consideração, mas enfim … dou de barato). Mas isso implica uma questão – deve a AR debruçar-se sobre qualquer assassinato de agentes políticos estrangeiros? Deverá ter uma atenção abrangente? E se sim sobre que universo se dedicará, e segundo que critérios? Só os do Rio? Só os Brasil? Só os da CPLP? Também os da UE? Ou por aí adiante até englobar os da ONU? Ou vota-se apenas segundo as proximidades ideológicas com alguns partidos da nossa AR, mais diligentes nas propostas?

Talvez que a AR não deva apenas depender da mera agenda  mediática e das solidariedades internacionais dos seus partidos.  Moçambique é o 2º país mais populoso da CPLP. Esta é um vector fundamental da política externa portuguesa (pelo menos ao nível discursivo). Portugal tem interesses no país (variados, desde os “morais” aos “económicos”, etc.). Tem tido papel na mediação de conflitos (inclusivamente nas negociações do recente conflito militar entre o Estado e o partido Renamo). Nampula é a segunda cidade do país. É a capital administrativa e económica da zona linguística macua – e há mais falantes de macua como primeira língua do que portugueses em Portugal, o que também dará para reflectir quando o discurso estatal e social aqui se centra na noção da “lusofonia” (ainda recentemente recuperada pelo nosso ministro da cultura, com reacção inexistente e debate nulo por parte das outras forças políticas nacionais). O presidente da câmara de Nampula (não um mero vereador) pertencia ao terceiro partido moçambicano, instaurado como o mais importante partido autárquico do país. E estava, dizia-se, de saída para fundar um quarto partido. Era um católico num contexto regional de esmagadora maioria muçulmana. Moçambique tem vivido conflitos militares nos últimos anos (houve uma pacificação nos últimos meses), e tem havido assassinatos de membros importantes do partido Renamo.

Nada disto explica o seu assassinato, sobre o qual não há informações. Mas tudo isto dá um contexto, óbvio, em que seria normal que a AR portuguesa, se entende expressar “pesar” pelo assassinato de autarcas estrangeiros, entendesse ter uma opinião política, de valor simbólico. Mas não teve, esqueceu-se: muito provavelmente apenas porque não há no seu seio um partido que se considere “companheiro de estrada” do falecido presidente. Ou, se calhar, porque nem sequer se lembraram do assunto. A mim parece-me simples, é um reflexo sobre as (in)competências da nossa AR em termos de reflexão sobre a política externa. Não é reclamar atenção para Nampula ou menosprezar a indignidade do lamentável assassinato da autarca carioca.  Mas é dizer que a AR não é apenas o fruto das primeiras páginas dos jornais (ainda que neles deva atentar) nem o rescaldo dos guias turísticos – que obviamente valorizam a “cidade maravilhosa” em detrimento da “cidade da chuva”.

Mas se aludir a tudo isto é sinal de misoginia e a continuidade de um costumeiro disparatar então não haja dúvida: sou eu, apesar de mim-mesmo, um disparatado misógino;

2. Ericino de Salema, jurista e jornalista moçambicano, comentador político na televisão, foi anteontem raptado e violentamente agredido, tendo, felizmente, o seu sequestro sido interrompido pela chegada de um grupo de crianças ao local para onde tinha sido levado e onde o espancavam com barras de ferro tentando partir-lhe os membros. Na sequência do acontecido o jornal Verdade elenca os 12 crimes políticos dos últimos 3 anos, incluindo vários assassinatos, desde o do constitucionalista Gilles Cistac, bem como o sequestro de Jaime Macuane, também comentador televisivo, levado de casa e baleado com cinco tiros nas pernas, ambos apartidários e meus colegas na Universidade Eduardo Mondlane. Este é um traço do processo político no, como acima refiro, 2º país mais populoso da CPLP, essa que é uma dimensão importante da política externa portuguesa, num país que a retórica estatal (e parlamentar) nacional afirma como bastante próximo – recordo, como símbolo, que Rebelo de Sousa convidou apenas três países para a sua tomada de posse: Espanha, Brasil, …. Moçambique. Referir que será expectável uma particular atenção, e concomitantes actos simbólicos, sobre este processo e seus epifenómenos, por parte do parlamento (e de outras instâncias políticas) será, no entender daqueles que entendem a política como um feixe de solidariedades sobre as causas identitárias (o género, a raça, a etnia, a … religião) que dominam o pós-marxismo actual, uma misoginia, falocrata, e um disparate, reaccionário.

Eu penso que não. E continuarei a pensar. Apesar dos comentários.

Sopesar os pesares

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(Postal no Delito de Opinião, 20.3.2018)

Um voto de pesar da Assembleia da República convoca-me a pesquisar se um análogo terá sido feito há alguns meses. No “dia da Paz” em Moçambique, data da assinatura do tratado de Roma em 1992, que estipulou o final da guerra civil, foi no ano transacto assassinado o presidente do conselho municipal (o equivalente à câmara municipal) de Nampula. Eu cheguei à cidade uns dias depois, percebendo o trauma generalizado que vigorava. Para mais, foi-me descrito o assassinato por um amigo meu que o acompanhava naquele preciso momento. Nestes últimos dias aconteceram as eleições autárquicas, com vista a substitui-lo.

Procuro agora no Google se a Assembleia da República se pronunciou sobre aquele atentado. Nada encontro, após várias buscas. Presumo pois que o facto tenha passado ao lado das preocupações e das agendas parlamentares portuguesas. Dos pesares dos senhores deputados e respectivas direcções partidárias. Se assim é (se o Google não estiver a esconder alguma referência ao assunto …) isto demonstra bem a mundividência de centenas de parlamentares e de alguns milhares de influentes luso-opinantes.

Ou seja, uma vereadora do município do Rio de Janeiro, segunda cidade do Brasil, país da CPLP, é assassinada (“brutalmente assassinada” é uma redundância, e isso poderia ser ensinado aos deputados), e a AR vota o seu pesar. O presidente do município de Nampula, segunda cidade de Moçambique, país da CPLP, foi assassinado e a AR ignora o facto, não expressa o “pesar”. Se não o votou porque será? Porque é em África, lá onde os gajos se matam uns aos outros, a necessitarem de umas “campanhas de pacificação”? Ou porque não pertencia ao partido feminista? Ou porque era homem? Ou porque, raisparta, o homem era negro, não uma mestiça (mulata/parda), bom material para os estes racistas subscritores do ideário “one-drop” a afirmarem “negra” (“preta”, no português brasileiro)?

O recente assassinato é lamentável e indicia um ambiente político tétrico no Brasil. Mas a minha questão, antipática, é a dualidade de critérios analíticos da totalidade da elite política portuguesa, expressa na reacção a estes dois casos. No afã demagógico de seguir o agit-prop de agora, a abjecta filiação ao “correctismo”, mostra-se bem a hierarquia de significados, importâncias e solidariedades. E transpira, de facto, bem lá no âmago, o fedorento racismo colonialista. Por mais tralhas intelectuais, a coberto da patetice dita “lusofonia”, que regurgitem.

Agora vão lá agitar as caudas no Can-Can gauchiste.

A quem (aqui) se possa interessar

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(Postal para o És a Nossa Fé, 28.3.2018)

Tenho aqui escrito alguns postais onde expresso o meu apoio (crítico, é certo, mas declarado) ao presidente Bruno de Carvalho. Os quais são sequência de outros postais que fui colocando noutros blogs pessoais onde fui escrevendo. Em particular desde a visita de Bruno, então candidato, a Maputo, onde eu residia. Durante a qual assisti a uma “sessão de campanha” que me cativou. Desde então tenho considerado que as críticas que lhe são feitas originam-se no facto de ter afrontado interesses instalados, no clube e fora dele. E também na inconsciente filiação de muitos a um entendimento vetusto do que é o discurso do poder e do que devem ser as formas de relacionamento da presidência com os associados e a massa adepta.

Dito isto, estou aqui para dizer que com estas declarações dirigidas ao presidente do Braga – ainda para mais em vésperas de uma deslocação àquela cidade, para um jogo importantíssimo, e com toda a certeza acicatando o ambiente e sobre-pressionando a equipa – me enfastiei com o nosso presidente. De uma vez por todas. Ou ele está desnorteado, e precisará de apoio e solidariedade, de quem lhe possa servir de bússola (ou GPS). Ou ele está-se nas tintas para o norte, e precisa de quem o ature nessa condição, vagueando qual vagabundo. Em nenhum dos casos me parece cumprir as condições óptimas para presidir ao clube. É uma pena. Isso dos traços (ou rumos) da personalidade lhe estarem a vetar o belo destino a que parecia votado.