
Vejo e vou ler, com interesse. Um pequeno artigo, simpática divulgação sobre um roteiro turístico dedicado à memória da Lisboa escravocrata. Trata-se de um passeio pedestre de 5 horas em Lisboa, apetecível, até porque conduzido por um estrangeiro, assim muito provavelmente menos atreito a ecoar os nossos lugares-comuns, a fazer-nos turistas da nossa própria história, assim a desconhecer-nos. Deve ser interessante, de preferência quando parar de chover.
Do que leio retiro a ideia da afirmação, implícita que seja, de uma continuidade entre o comércio de escravaturas e a actual população lisboeta de origem africana. É muito problemático afirmar isso mas, caramba, a gente também pode fruir, passear, ver e não estar sistematicamente a resmungar. Ou seja, também se pode ser turista da própria história …
Mas do texto retiro também esta citação, da jornalista, não do presumívelmente simpático guia turístico: “While official statistics of African inhabitants aren’t known, because the Portuguese Census doesn’t ask questions about ethnicity, the cultural makeup of the city conveys an atmosphere of richness and diversity.” Lá está, a agenda yankee a marcar o “dever ser” alheio. Apetece-me perguntar a esta Jennifer Neal (e a todos os Jennifers Neals) “what the fuck is ethnicity?”. Mas não vale a pena. Porque sei que não vão conseguir responder-me com a pertinência suficiente para que possa elevar a noção a conceito administrativo.
De facto tudo isto é, em última análise, uma patacoada colonialista. Mas estes gajos, ocupados nas boas causas, não tiveram tempo para ler.
Enfiim, que não seja essa parvoíce a afastar-nos de um passeio excêntrico ao típico “Lisboa Cidade Branca” (olhem que não quer dizer aquilo que parece …).