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Um texto de hoje no “Público”, o órgão oficioso do BE, mais uma exigência para a depuração de género na língua. Segundo o escrito, se eu recomendar este texto publicado por esta pessoa estou a ser inclusivo. Democrata, até. Se eu partilhar a proposta deste indivíduo (uma opção inabitual mas não incorrecta) estou a ser um falocrata, imundo, reaccionário avesso aos direitos das mulheres. Isto porque o masculino genérico na gramática é uma arma de opressão, vil. Muitos (perdão, muitos e muitas, aliás muit@s) encolhemos os ombros, até enfastiados (e enfastiadas ou enfastiad@s), sobre estas coisas. Mas há três pontos sobre o texto que dão para reflectir: a ciência aplicada; o terrorismo intelectual; o terrorismo político.

1. A autora, Ana Cristina Santos, identifica-se como cientista.E usa referências bibliográficas, um saudável tique profissional. Assim deixa entender que isto não se trata de mera opinião de cidadania mas de fruto de reflexão profissional e até da sua pesquisa. Estamos pois no âmbito da “ciência aplicada”, louvável esforço científico destinado a uma intervenção directa na sociedade, desta transformadora. E titula o texto segundo o “Ceci n’est pas une pipe“, aquele “A Traição das Imagens” com que Magritte espicaçou a crença geral em que as convenções linguísticas se adequam realmente ao que procuram identificar (que a imagem “cachimbo” ou a palavra “cachimbo” são mesmo o “cachimbo”). Ou seja, a constatação de que há uma inadequação (ontológica, irredutível) entre representação e real. E depois passa, a autora, todo o texto (e, presumo, o longo período que o antecedeu) a defender uma radical adequação entre representação linguística (vs. o malvado género das palavras) e a realidade (homens, mulheres e “pessoas não-binárias” [sic]). Isto é desesperante. É um texto de uma cientista, bolas. E vem nestes moldes. Um tipo vê isto, resmunga a desintelectualidade gritante do texto? É falocrata …

2. Há um terrorismo intelectual nisto. Diz que seguimos uma “agenda patriarcal” se formos contra “a linguagem inclusiva, a legislação contra piropos ou a denúncia da violência sexual“. É o mesmo mecanismo que esta linha política usa para a discussão da sua recente proposta de racialização administrativa da sociedade: nesse caso ou somos a favor de censos racializados, de consagração de “comunidades etnorraciais” ou somos “fascistas”, “racistas”, “lusotropicalistas”. Neste caso ou somos a favor de todas as causas ditas “feministas” ou somos “agentes do patriarcado” (católico ou não), violentadores das mulheres. Ou é o pacote todo ou nada nos vale. Avaliar a pertinência, o conteúdo, os pressupostos de cada questão? Nada. Repete-se, ou o pacote todo ou a ignomínia. É um terrorismo intelectual. Perseguido por muito do feminismo, mesmo que aparentemente não radical.

3. E há o terrorismo político. Cito “havendo pessoas que se sentem excluídas pelo uso do universal masculino, emerge o dever de escutar e agir. A partir daí, considerandos estéticos ou de outra ordem deixam de ter cabimento.“. Entenda-se, havendo pessoas que se sentem excluídas por algo deixa de haver lugar para qualquer tipo de outros considerandos. Este é um projecto político, de facto o projecto político, e sua concepção de acção e de amplitude de debate, que está presente em forças políticas fortes e no arco do poder, este BE. E aqui verbalizado por uma cientista, profissional das palavras. Como tal, sem espaço para ambivalências. O problema não é o que est@ pesso@ escreve sobre o género das palavras. É como defender a democracia face às perspectivas dest@ gente.

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Um pensamento sobre “A linguagem genderada

  1. No blogue papo de homem têm alguns textos sobre a matéria “minorias” e a importância da Língua para a ou as causas (Alex Castro é profícuo).
    É uma leitura leve e interessante – pelo menos para quem gosta de perceber a defesa de tais alterações, adaptações, revisões e supressões.
    As reflexões e inflexões conduziram-me aonde estava antes – mas agora conhecidas as reinvindicações, o que sempre me permite embandeirar em arco e refutar eventuais acusações de restelismo.

    Porque há quem reivindique mais assertivamente (samba no pé?), fica a sugestão.
    Não aceito devoluções; reclamações ainda vá…

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